A Ocupação da Renânia colocou a região da Alemanha a oeste do rio Reno e quatro cabeças de ponte a leste sob o controle militar das potências vitoriosas dos Aliados de 1 de dezembro de 1918 a 30 de junho de 1930. A ocupação foi determinada e regulada por cláusulas do Armistício de 11 de novembro de 1918, do Tratado de Versalhes e do acordo complementar sobre a ocupação da Renânia assinado na mesma data que o tratado de paz. A Renânia foi desmilitarizada, assim como uma faixa de cinquenta quilômetros a leste do rio Reno, e colocada sob a autoridade da Alta Comissão Interaliada da Renânia, presidida por um alto comissário francês e composta por representantes da Bélgica, do Reino Unido e dos Estados Unidos (este último apenas como observador). O objetivo da ocupação era conferir segurança à França e à Bélgica contra futuras agressões militares alemãs e atuar como garantia da execução das obrigações de reparações da Alemanha. Após atrasos nos pagamentos alemães em 1922, a ocupação foi ampliada para a região industrial da Bacia do Ruhr entre 1923 e 1925.

Nos primeiros anos da presença militar, diversos movimentos separatistas — alguns apoiados diretamente por autoridades francesas — tentaram instituir uma república renana independente aliada à França, mas nenhum deles obteve respaldo popular expressivo. O convívio entre as forças de ocupação e a população alemã local revelou-se tenso, com maiores atritos nas zonas sob administração francesa e belga do que nos setores norte-americano e britânico. Tanto os governos aliados quanto as autoridades alemãs promoveram intensas campanhas de propaganda: os franceses para atrair a simpatia dos renanos e os alemães para mobilizar sentimentos de rejeição nacional e internacional contra a ocupação. A contrapropaganda alemã incluiu ataques de cunho abertamente racista contra os contingentes coloniais africanos do exército francês.

Após a celebração dos Tratados de Locarno, que estabeleceram as fronteiras ocidentais da Alemanha no final de 1925, a zona norte de ocupação ao redor de Colônia foi desocupada em janeiro de 1926. O setor de Coblença, que os norte-americanos haviam transferido para o controle francês em 1923, foi desocupado em novembro de 1929. Com a aprovação final dos termos de liquidação das reparações pelo Plano Young em 1929, a ocupação da Renânia foi encerrada em 30 de junho de 1930 — cinco anos antes do prazo inicialmente fixado pelo Tratado de Versalhes.

Cronologia thumb|497x497px|Ocupação da Renânia e da região do Sarre: hachura vertical: França, incluindo a antiga zona norte-americana ao redor de Coblença; hachura horizontal: Bélgica; hachura diagonal: Grã-Bretanha; escuro: Ruhr, ocupação conjunta por França e Bélgica; pontilhado escuro: Sarre, sob administração da Liga das Nações e controle econômico francês.

11 de novembro de 1918: Assinatura do Armistício que encerrou os combates da Primeira Guerra Mundial. 28 de junho de 1919: Assinatura do Tratado de Versalhes e do Acordo da Renânia. 10 de janeiro de 1920: Entrada em vigor do Tratado de Versalhes e do Acordo da Renânia; instituição da Alta Comissão Interaliada da Renânia. 11 de janeiro de 1923: Início da Ocupação do Ruhr, que se estendeu até 25 de agosto de 1925. Janeiro de 1926: Evacuação e desocupação da zona norte em torno de Colônia. Novembro de 1929: Evacuação e desocupação da zona central em torno de Coblença. 30 de junho de 1930: Evacuação da zona sul em torno de Mogúncia, determinando o fim da ocupação aliada. 7 de março de 1936: Remilitarização da Renânia pela Alemanha sob o comando de Adolf Hitler.

Contexto

Negociações de Versalhes Nas negociações de paz iniciadas em Versalhes em janeiro de 1919, o primeiro-ministro francês Georges Clemenceau procurou fixar a fronteira da França com a Alemanha no rio Reno. A proposta visava desmembrar da Alemanha todos os territórios situados na margem ocidental do rio para constituir um ou mais Estados soberanos alinhados à Terceira República Francesa. Clemenceau considerava essa ideia — originalmente formulada pelo marechal Ferdinand Foch — a única garantia eficaz de segurança contra o poderio alemão, ressaltando que a França havia sido invadida por forças germânicas quatro vezes em um século (1814, 1815, 1870 e 1914).

Clemenceau não conseguiu convencer os aliados a aceitarem a proposta. O presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, defendeu o princípio da autodeterminação dos povos, sustentando que este não deveria ser negado à população alemã. O primeiro-ministro britânico David Lloyd George argumentou que o acordo de paz não deveria "deixar um legado de injustiça que gerasse ressentimento permanente como ocorrera com a Alsácia-Lorena".

Como solução de compromisso, os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido concordaram em firmar um tratado de garantia prevendo a intervenção armada ao lado da França no caso de uma agressão alemã não provocada. Clemenceau aceitou então fixar um prazo máximo de quinze anos para a ocupação militar. Como contrapartida para a desocupação progressiva, exigiu-se que a Alemanha cumprisse integralmente as cláusulas do tratado de paz e honrasse os pagamentos das obrigações de reparações. Com isso, o propósito da ocupação foi reconfigurado: deixou de ser um instrumento permanente de desmembramento territorial para se converter em garantia de execução das reparações de guerra alemãs.

Disposições do tratado O Artigo 42 do Tratado de Versalhes estipulou que a margem ocidental do Reno e a "margem direita a oeste de uma linha traçada a 50 quilômetros a leste do Reno" deveriam ser permanentemente desmilitarizadas. As cláusulas relativas à ocupação militar da Renânia foram estabelecidas nos artigos 428 a 432. O artigo central (428) determinava:

Como garantia para a execução do presente Tratado por parte da Alemanha, o território alemão situado a oeste do Reno, juntamente com as cabeças de ponte [em Colônia, Coblença, Mogúncia e Kehl, conforme o Artigo 429], será ocupado por tropas aliadas e associadas por um período de quinze anos a contar da entrada em vigor do presente Tratado.

O Artigo 429 complementava que, se a Alemanha cumprisse com fidelidade as obrigações estipuladas no tratado, a zona de Colônia (sob ocupação britânica) seria evacuada após cinco anos, a zona de Coblença (sob administração norte-americana) após dez anos e o restante do território ocupado ao final de quinze anos.

Em 28 de junho de 1919, no mesmo dia em que o Tratado de Versalhes foi firmado, França, Bélgica, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha assinaram uma convenção em separado "relativa à ocupação militar dos territórios do Reno", conforme previsto no Artigo 432 do tratado principal.

Os treze artigos do Acordo da Renânia estabeleciam as seguintes diretrizes: A ocupação da margem esquerda do Reno nos termos definidos pelo Armistício de 1918 deveria ter continuidade. A presença de forças armadas alemãs na área permaneceu proibida, confirmando a desmilitarização da zona. A Alta Comissão Interaliada da Renânia (HCITR) foi instituída como autoridade representativa máxima das potências aliadas na Renânia ocupada. Era integrada por um representante de cada um dos quatro países: Bélgica, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, com competência para expedir portarias e regulamentos administrativos com força de lei. A Alemanha manteve a jurisdição civil e criminal ordinária sobre a população local, com exceção de delitos e infrações cometidos contra as tropas de ocupação, que ficaram sujeitos à jurisdição militar aliada. A administração pública civil permaneceu sob a responsabilidade dos órgãos públicos alemães, salvo determinação em contrário da HCITR por necessidades da ocupação. Os custos financeiros decorrentes da manutenção das forças de ocupação foram atribuídos integralmente ao governo alemão. As tropas aliadas deveriam ser alojadas nas instalações militares alemãs preexistentes. Em caso de insuficiência, as autoridades de ocupação estavam autorizadas a requisitar imóveis públicos e privados, bem como a alojar oficiais civis e militares com suas famílias em residências de civis alemães. A HCITR detinha a prerrogativa de decretar estado de sítio em qualquer ponto do território ocupado sempre que julgasse necessário, cabendo às autoridades militares o emprego dos meios exigidos para a restauração da ordem pública em caso de ameaça.

Ocupação A Renânia ocupada correspondia a 6,5% da área total da Alemanha e contava com uma população de cerca de sete milhões de habitantes. Durante as negociações do Tratado de Versalhes, a região permaneceu sob estado de sítio e o contingente militar de ocupação atingiu aproximadamente 240.000 soldados (220.000 franceses e 20.000 belgas). Em fevereiro de 1920, um ano após a entrada em vigor do tratado, o efetivo havia sido reduzido para 94.000 soldados franceses e 16.000 belgas.

Entre março e abril de 1920, uma violenta insurreição operária no distrito do Ruhr foi reprimida pelo Reichswehr alemão com o auxílio de unidades paramilitares dos Freikorps. Em reação à entrada de tropas alemãs na zona desmilitarizada a leste do Reno, tropas francesas ocuparam temporariamente Frankfurt am Main, Darmstadt e outras cidades menores a partir de 6 de abril de 1920. Uma ocupação do Ruhr de proporções muito maiores ocorreria entre 1923 e 1925 em resposta à inadimplência alemã no pagamento das reparações de guerra.

Alta Comissão Interaliada da Renânia thumb|236x236px|Paul Tirard, o presidente francês da Alta Comissão Interaliada da Renânia. thumb|228x228px|Henry T. Allen, comandante-em-chefe das forças de ocupação norte-americanas na Renânia.

A Alta Comissão Interaliada da Renânia (HCITR), sediada em Coblença, foi presidida pelo alto comissário francês Paul Tirard. O órgão foi concebido como uma autoridade civil independente dos governos que a integravam. Como o Senado dos Estados Unidos não ratificou o Tratado de Versalhes, o representante norte-americano, general Henry Tureman Allen, atuou na comissão apenas como observador não oficial, embora ele ou um representante comparecessem a todas as reuniões plenárias com direito a voz. A pedido do Estado Livre da Prússia, ao qual pertencia a maior parte do território ocupado, os interesses alemães foram representados pelo recém-criado Comissariado do Reich para os Territórios Renanos Ocupados. O primeiro comissário estadual prussiano foi Karl von Starck, sucedido em 1921 por . A Baviera também nomeou um comissário estadual próprio, visto que uma fração de seu território estava sob ocupação militar.

As prerrogativas legislativas da comissão, concedidas para garantir a segurança das forças de ocupação, não foram estritamente delimitadas em estatuto. O órgão tinha autoridade para aprovar e alterar leis nacionais com vigência na Renânia e decretos emitidos por autoridades locais alemãs, constituindo-se de facto na autoridade pública máxima no território ocupado. A comissão fiscalizava a administração civil alemã por intermédio de delegados distritais subordinados, alocados junto aos respectivos administradores locais alemães.

Em março de 1921, o governo alemão criou um departamento especial no Ministério do Interior para assuntos relacionados aos territórios ocupados. Em agosto de 1923, esse setor foi elevado ao estatuto de ministério com a criação do Ministério do Reich para os Territórios Ocupados, encarregado de resguardar os interesses alemães perante as potências ocupantes e a HCITR, bem como representar a região junto ao gabinete em Berlim.

Separatismo