A Síndrome de burnout, também conhecida como Síndrome do esgotamento profissional, é um fenômeno relacionado ao trabalho, caracterizado por esgotamento físico e mental, sentimentos de ineficácia e cinismo em relação às atividades profissionais. O termo "burnout" deriva do inglês to burn out, que significa "queimar por completo", e foi introduzido pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger na década de 1970, após ele mesmo vivenciar os sintomas associados ao esgotamento profissional.
A síndrome é amplamente reconhecida como um problema de saúde ocupacional, especialmente em profissões que exigem alto envolvimento emocional, como as áreas de saúde, educação, segurança pública e atendimento ao público. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ocupacional, mas não como uma condição médica ou psiquiátrica. Segundo a OMS, o burnout resulta de estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso e é caracterizado por três dimensões principais: exaustão emocional, distanciamento mental do trabalho (ou cinismo) e redução da eficácia profissional.
Embora o burnout seja frequentemente associado ao ambiente de trabalho, ele também pode impactar outras áreas da vida, como relacionamentos pessoais e saúde física. Estudos indicam que o burnout pode estar relacionado a condições como depressão, ansiedade, insônia e aumento do risco de doenças cardiovasculares.
História miniaturadaimagem|Louis Albert-Lefeuvre, Depois do Trabalho, 1885.|esquerda As origens do conceito de esgotamento ocupacional remontam à Antiguidade. No Livro do Êxodo (18:17–18), Moisés é advertido por seu sogro Jetro sobre o risco de esgotamento ao tentar julgar sozinho todas as demandas do povo, sendo aconselhado a delegar tarefas para evitar desgaste extremo. Pesquisadores contemporâneos interpretam essa passagem como uma das primeiras descrições do esgotamento ocupacional.
Avançando para a Idade Média, o conceito de acédia (ou acedia) emergiu nos mosteiros cristãos, sendo descrito como um estado de apatia, desânimo e exaustão espiritual que acometia monges e religiosos. Considerada um dos "oito pensamentos maus" por Evágrio Pôntico e, posteriormente, um dos sete pecados capitais, a acédia envolvia sintomas como fadiga, tristeza, falta de motivação e perda de sentido diante das tarefas cotidianas. O psiquiatra Gordon Parker argumenta que a acédia pode ser vista como um precursor histórico do burnout, dada a semelhança dos sintomas e do contexto de sobrecarga. Com a chegada do século XIX e o avanço da Revolução Industrial, a preocupação com os efeitos adversos do trabalho sobre a saúde tornou-se mais evidente. Em 1834, o termo alemão Berufskrankheiten (doenças ocupacionais) foi formalizado para designar enfermidades diretamente relacionadas ao exercício profissional, refletindo a preocupação crescente com os impactos do trabalho industrial sobre a saúde física e mental dos trabalhadores.
Ainda no século XIX, em 1869, o neurologista George Miller Beard introduziu o termo "neurastenia" para descrever uma condição de exaustão nervosa, caracterizada por fadiga crônica, irritabilidade e insônia, atribuída ao ritmo acelerado da vida moderna. A neurastenia foi amplamente diagnosticada até o início do século XX, sendo considerada um elo importante na genealogia dos transtornos relacionados ao estresse ocupacional.
No final do século XIX, o neurologista inglês William Gowers, em 1888, cunhou o termo "occupational neurosis" para descrever distúrbios neuromusculares em profissionais submetidos a movimentos repetitivos, ampliando o reconhecimento científico das patologias decorrentes do trabalho.
No início do século XX, as bases fisiológicas do estresse começaram a ser sistematizadas. O médico Hans Selye é considerado o precursor do conceito moderno de estresse, tendo descrito em 1936 a Síndrome Geral de Adaptação (SAG), composta por três fases: alarme, resistência e exaustão. A fase de exaustão, segundo Selye, corresponde ao esgotamento físico e mental observado em contextos de trabalho cronicamente estressantes. Poucos anos depois, o fisiologista Walter Bradford Cannon aprofundou a compreensão dos mecanismos biológicos do estresse ao introduzir o conceito de homeostase e descrever a resposta de "luta ou fuga" em 1942, consolidando a ideia de que o estresse resulta da ruptura do equilíbrio interno do organismo.
Na transição para a segunda metade do século XX, a pesquisa sobre esgotamento laboral ganhou novos contornos clínicos. O psiquiatra suíço Paul Kielholz, em 1957, introduziu o termo "Erschöpfungsdepression" (depressão por exaustão), antecipando discussões modernas sobre burnout. Em 1959, o pesquisador francês Claude Veil publicou estudos sobre "estados de esgotamento" em profissionais, reconhecendo cientificamente o adoecimento relacionado ao trabalho, embora sem definir o burnout como síndrome.miniaturadaimagem|O ato de queimar uma vela ilustra a metáfora de Herbert Freudenberger. Emergência científica formal do burnout O termo "burnout" foi introduzido pelo psiquiatra e psicoterapeuta Herbert J. Freudenberger em 1974, a partir de suas observações em uma clínica gratuita no bairro de Lower East Side, em Nova Iorque. Freudenberger atuava como diretor da clínica, que atendia principalmente dependentes químicos e era mantida por jovens voluntários altamente engajados. Ele notou que, após cerca de um ano de trabalho, muitos desses voluntários apresentavam sintomas de esgotamento físico e emocional, perda de motivação, fadiga persistente, insônia, dores de cabeça, irritabilidade, distanciamento social e outros sintomas psicossomáticos. Ele utilizou a metáfora da vela ("burnout" significa "queimar até o fim") para ilustrar o processo de desgaste.
Em 1980, Freudenberger e Richelson definiram o burnout como "um estado de fadiga crônica, depressão e frustração decorrente da dedicação a uma causa, estilo de vida ou relação que não produz as recompensas esperadas, levando à diminuição do envolvimento e da realização no trabalho". Também nesta década, Jerry Edelwich e Archie Brodsky publicaram o livro “Burn-out: Stages of Disillusionment in the Helping Profession”, propondo um modelo de estágios do burnout e ampliando a compreensão do fenômeno.
A partir de 1976, a psicóloga Christina Maslach começou a estudar o burnout como uma resposta prolongada a estressores emocionais e interpessoais crônicos no trabalho. Ela propôs três dimensões principais: exaustão emocional, despersonalização (ou cinismo) e redução da realização pessoal. Em 1981, Maslach e Susan E. Jackson desenvolveram o Maslach Burnout Inventory (MBI), o primeiro instrumento padronizado para mensurar burnout, validado inicialmente para profissionais de serviços humanos e posteriormente adaptado para outros setores.
Na década de 1990, Christina Maslach e Michael P. Leiter desenvolveram o modelo das Áreas de Vida Profissional (Areas of Worklife), identificando seis domínios organizacionais críticos para o desenvolvimento do burnout: carga de trabalho, controle, recompensa, comunidade, justiça e valores. Em 1994, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o burnout no CID-10 sob o código Z73.0, como “problema relacionado ao modo de vida”.
Em 2019, o burnout foi incluído na CID-11 como um “fenômeno ocupacional” (código QD85), caracterizado por exaustão, distanciamento mental e redução da eficácia profissional. A OMS destacou que o burnout não é uma condição médica, mas um fator que influencia o estado de saúde. A Pandemia de COVID-19 (2020–2022) agravou o burnout, especialmente entre profissionais de saúde e serviços essenciais, levando a um debate global sobre a necessidade de políticas de proteção à saúde mental no trabalho.
Em 2020, Renzo Bianchi e colaboradores publicaram o Occupational Depression Inventory (ODI), instrumento desenvolvido para diferenciar sintomas de depressão ocupacional dos sintomas clássicos de burnout, contribuindo para o refinamento diagnóstico. Políticas públicas e perspectivas miniaturadaimagem|Monumento ao Trabalho em Bruxelas.Em diversos países europeus, como França, Holanda, Dinamarca e Portugal, o burnout pode ser reconhecido legalmente como doença ocupacional para fins de compensação trabalhista, embora isso não implique reconhecimento como entidade clínica independente nos sistemas classificatórios.
No Brasil, o burnout foi incluído na Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT) pela Portaria GM/MS nº 1.999/2023, garantindo direitos previdenciários e trabalhistas aos trabalhadores afetados. A Lei 14.831/2024 instituiu o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, incentivando políticas de prevenção e promoção da saúde mental nas organizações.
A perspectiva clínica contemporânea, como discutida por Arno Van Dam (2021), sugere que o diagnóstico de burnout deve ser reservado a casos graves, com sintomas persistentes e prejuízo funcional significativo, baseando-se em critérios de exaustão prolongada, distanciamento mental do trabalho e redução da eficácia profissional. Nos sistemas internacionais de terminologia médica, como o SNOMED CT e o MeSH da National Institutes of Health, burnout é reconhecido como "estado de exaustão física e emocional" ou "burnout psicológico", relacionado ao estresse ambiental e caracterizado por exaustão, frustração e sensação de fracasso, mas sem status de transtorno psiquiátrico independente.
Sinais e sintomas miniaturadaimagem|531x531px|Sintomas que os pacientes, ex-pacientes e profissionais de saúde associam ao transtorno de exaustão. A Síndrome é frequentemente descrita por um conjunto de sintomas agrupados em três dimensões principais: exaustão (física, emocional e cognitiva), cinismo/negatividade ou despersonalização, e sensação de ineficácia ou baixa realização pessoal. Embora amplamente reconhecida no contexto ocupacional, o “job burnout” não é formalmente definido como diagnóstico médico em alguns referenciais, sendo descrito como um estado associado ao trabalho e seus estressores crônicos.
Exaustão: sensação persistente de perda de energia, fadiga e cansaço após o trabalho, com possível cronificação da fadiga física e mental.
Cinismo/negatividade e despersonalização: distanciamento das responsabilidades e das pessoas, olhar negativo sobre o trabalho, relações mais frias e sensação de alienação em relação a colegas, clientes ou pacientes.
Ineficácia/baixa realização: queda do senso de competência e de realização, autocrítica e dúvida sobre o próprio valor, percepção de que o trabalho é pouco recompensador, “fazer no automático”.
Categorias Sintomas físicos:
Fadiga persistente, exaustão após a jornada e sensação de esgotamento habitual.
Distúrbios do sono, como dificuldade para dormir ou Insônia.
Alterações de apetite e de peso, incluindo ganho de peso em alguns casos.
Sintomas emocionais:
Negatividade ou cinismo em relação ao trabalho e às rotinas profissionais. Tristeza e mudanças de humor; em estágios mais graves, pode haver sobreposição com Depressão e surgimento de pensamentos suicidas. Sentimentos de ineficácia, baixa autoestima no contexto laboral e autocrítica acentuada. Alterações da personalidade e da autoestima ao longo do tempo, com maior vulnerabilidade emocional.
Sintomas cognitivos:
Exaustão cognitiva, com dificuldade de manter o foco e a atenção sob alta demanda ou monotonia prolongada. Sensação de estar “no piloto automático” (going through the motions).
Sinais comportamentais e interpessoais:
Distanciamento das atividades e das pessoas no ambiente de Trabalho, relações mais frias e sensação de alienação.
Redução de Empatia, maior irritabilidade e dificuldade para lidar com outras pessoas no contexto ocupacional.
Queda percebida de desempenho e de motivação, com vivência do trabalho como pouco recompensador.
Evolução e gravidade