thumb|250px|Jurema-preta (Mimosa tenuiflora). Jurema é um conjunto de beberagens sagradas feitas com partes de árvores de mesmo nome, utilizada tradicionalmente por povos indígenas do Nordeste brasileiro em rituais religiosos e de cura. A jurema apresenta representações que variam em cada um dos espaços sociais, entretanto sempre se referenciando a uma força espiritual única, mesmo em sistemas onde não há bebida.GRUNEWALD, R. Sujeitos da jurema e o Resgate da Ciência do Índio. In: LABATE, B. & GOULART, S.(orgs). O uso Ritual das plantas de poder. São Paulo. Mercado das Letras, 2005. Era a bebida sagrada que os pajés indígenas faziam, servida em reuniões especiais. Após a colonização e até o século XIX, beber jurema era sinônimo de feitiçaria ou prática de magia, sendo que muitos índios e caboclos foram presos acusados de praticarem o "adjunto da jurema". Em anos recentes, a tradição da Jurema Sagrada tem recebido reconhecimento oficial como patrimônio cultural imaterial em estados como Paraíba e Rio Grande do Norte.
Clarice Mota postula a existência de um complexo da jurema como um grupo de representações que não apenas incluem plantas de nome Jurema, mas as concepções existentes em torno delas, sendo uma demonstração das misturas culturais que ocorrem no país, de forma que a Jurema possui muitas faces.MOTA, Clarice Novaes da. "Jurema e identidades: um ensaio sobre a diáspora de uma planta." In.: LABATE, Beatriz Caiuby; GOULART, Sandra Lúcia (orgs). O uso ritual das plantas de poder. São Paulo: Mercado das Letras (2005): 219-239.MOTA, Clarice Novaes da; ALBUQUERQUE, Ulysses P.. "As muitas faces da Jurema: de espécie botânica à divindade afro-indígena." Recife: Bagaço (2002).
Composição bioquímica e efeito psicoativo O pernambucano Gonçalves de Lima, em 1943, foi o primeiro a determinar a presença de um alcaloide que designou como "nigerina" (atualmente conhecido como Dimetiltriptamina - DMT) no Ajucá, ou Vinho de Jurema, preparado pelos índios pancararús com a planta Jurema-preta.LIMA Oswaldo Gonçalves de. Nigerina, novo alcaloide isolado da "Jurema preta" (Mimosa hostilis). Anais da Sociedade de Biologia de Pernambuco. 1944;5(1):24. Em pesquisa aos índios Xucuru de Ororuba identificou a preparação do veuêka, hidromel fortificado com cascas da Jurema-preta. O hidromel anteriormente empregado pelos indígenas na preparação da bebida foi substituído pela aguardente de cana e também pelo mel industrializado.CAMARGO, Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo. As plantas medicinais e o sagrado: A etnobotânica em uma revisão historiográfica da medicina popular no Brasil. 1ª ed. São Paulo: Ícone, 2014.
Para entender o efeito da jurema não basta apenas analisar a composição molecular e compará-la com as denominadas drogas alucinógenas, é necessário situar-se no contexto de expectativas e formas de uso da substância, ou seja, os mitos ou crenças a seu respeito. Não há dúvidas, porém, por semelhança dos relatos de seu efeito, da identificação deste com as descrições de possessão divina e êxtase religioso e o efeito psicodélico de manifestação de divindade, como sugere o nome enteógeno em sua classificação mais recente. A Jurema-preta possui em sua composição um dos mais potentes psicodélicos, a Dimetiltriptamina, substância também produzida pelo corpo humano em situações de nascimento, morte, quase-morte, contatos místicos espontâneos, profecias e sonhos, necessária ao funcionamento normal do corpo humano.BARKER, Steven A.; MCILHENNY, Ethan H.; STRASSMAN, Rick. A critical review of reports of endogenous psychedelic N, N‐dimethyltryptamines in humans: 1955–2010. Drug testing and analysis, v. 4, n. 7-8, p. 617-635, 2012.STRASSMAN, Rick. DMT and the Soul of Prophecy: A New Science of Spiritual Revelation in the Hebrew Bible. Inner Traditions/Bear & Co, 2014.
Nesse sentido, Strassman ao comparar as profecias da Bíblia Hebraica com as características subjetivas da DMT encontrou semelhanças e diferenças fundamentais, elencando pontos de encontro à DMT produzida pelo corpo humano e as profecias. Apesar de a DMT não ser eliciadora da glória divina, mas facilitar a prontidão, é através de um processo educacional de desenvolvimento da racionalidade (que ocorre durante a experiências do cotidiano), juntamente com o desenvolvimento da imaginação e estética (que ocorre pelo êxtase) que se pode localizar revelações genuínas. A partir disso ele propôs um modelo Teoneurológico (em contraposição ao modelo neuroteológico), sendo o cérebro um receptor do efluxo divino e não criador deste.
Camargo explica que ao tratar-se das bebidas rituais, não se pode descartar o forte vínculo existente entre plantas psicoativas e os transes místicos ou de possessão, na vida religiosa do homem desde tempos pretéritos, tal como existiu entre povos primitivos em diferentes partes do mundo. As bebidas rituais indígenas, no Brasil, têm registros que remontam a vários séculos e que tais bebidas variavam segundo as diferentes culturas e regiões onde ocorria o consumo das mesmas, sempre em cerimônias de caráter mágico-religioso.
Nascimento escrevendo sobre os cariris refere-se aos "Encantados" e esboça uma classificação de seus rituais como: "Ouricuri", "Praiás" e "Torés".NASCIMENTO, Marco Tromboni de S. O tronco da Jurema, ritual e etnicidade entre os povos indígenas do nordeste – o caso kiriri. Salvador, Bahia, UFBA Dissertação de Mestrado em Sociologia, 1994
Uso indígena Rituais que incluem a ingestão da bebida preparada com a jurema são praticados por remanescentes indígenas no Nordeste do Brasil, apesar do processo de integração à sociedade nacional e do histórico combate pela colonização católica, através da inquisição e da perseguição policial como referido. A tradição da Jurema Sagrada é especialmente forte no município de Alhandra, na Paraíba, considerado o berço dessa prática ancestral. Podem ser identificadas como etnias indígenas que utilizam a Jurema em seus rituais: Cariris, tuxás, pancararés no Nordeste; tupinambás de Olivença - Sul da Bahia; aticuns, fulniôs, Capinauás e xucurus-cariris em Pernambuco, cariris-xocós de Alagoas e os xocós de Sergipe.Martins, Silvia A.C. Shamanism as focus of knowledge and cure among the Kariri-Shoco. in: Almeida, Luiz Sávio de; Galindo, Marcos; Elias, Juliana Lopes. Índios do nordeste (temas e problemas 2). AL UFAL.
Preparo tradicional Segundo Carlos Estêvão que visitou os pancararús de Brejo dos Padres em Tacaratú, Pernambuco, em 1936:ESTÊVÃO, Carlos. Bebendo jurema ou a festa do ajucá in: CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed. SP, Livraria Martins, 1954, v.2, p.512-514
O preparo da Jurema ocorre da seguinte forma: raspada a raiz, para eliminação da terra que, porventura, nela esteja agregada, em seguida é colocada sobre outra pedra e macerada. Quando a maceração está completa, bota-se toda a massa dentro de uma vasilha com água, onde a espreme com as mãos. Pouco a pouco, a água vai-se transformando numa infusão (golda) vermelha e espumosa, até ficar em ponto de ser bebida. Pronta para este fim, dela se elimina toda a espuma, ficando, assim, inteiramente limpa. Ao ficar nesse estado, o mestre de cerimônia acende um cachimbo tubular, feito de raiz de jurema, e, colocando-o em sentido inverso, isto é, botando na boca a parte em que se põe o fumo, assopra sobre o líquido da vasilha fazendo com a fumaça uma figura em forma de cruz e um ponto em cada um dos ângulos formados pelos braços da figura.
Resistência histórica A prática ritual da Jurema sofreu intensa perseguição durante o período colonial e pós-colonial. Documentos históricos registram prisões de indígenas e caboclos acusados de feitiçaria por participarem de cerimônias com a bebida. A criminalização dessas práticas estava inserida no contexto mais amplo de repressão às culturas indígenas e tentativas de imposição forçada do catolicismo. Apesar da perseguição, as comunidades indígenas mantiveram viva a tradição através de práticas discretas e da transmissão oral de conhecimentos entre gerações, demonstrando notável capacidade de resistência cultural.
A influência africana Tanto o hábito de fumar como de ingerir a bebida foram incorporados a rituais de origem e influência africana, a exemplo do candomblé, umbanda, catimbó e jurema, sendo que os dois últimos apresentam marcantes influências indígenas. Segundo AssunçãoASSUNÇÃO, Luiz Carvalho de. O reino dos mestres, a tradição da jurema na umbanda nordestina. RJ, Pallas, 2006 que estudou a Jurema na umbanda nordestina, as entidades espirituais identificadas como pertencentes ao universo da "jurema" são caboclos, índios e mestres. Uma caracterização de entidades (como Mestre Carlos e outros mestres, caboclos e índios como Pena Branca, Arranca Toco, Sultão das matas e da própria Cabocla Jurema) é essencial para compreender o direcionamento desse efeito.
Uma avaliação destas características bem como dos contextos sociais da umbanda e catimbós ou candomblés de caboclo e seus sistemas de crença precisa ser considerada conjuntamente com seu efeito a partir da ação de alcaloides encontrados nos vegetais utilizados na composição das bebidas, tais como o DMT - Dimetiltriptamina ativado ou desativado por distintas combinações farmacológicas. Assim, quando se trata de enteógenos, não se deve maximizar excessivamente as propriedades farmacológicas das plantas, mas perceber que estas são veículos do contato com um mundo transcendental perceptível somente através da experiência mística. Há que se considerar suscetibilidades individuais, culturais, psicológicas, bioquímicas etc para o êxtase.GRÜNEWALD, Rodrigo de Azeredo. "Jurema e novas religiosidades metropolitanas." Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP) (2009).
Assunção pondera que, se um processo de simbolização progressiva que ocorre com a planta jurema e com as demais plantas medicinais substituindo o uso real ao ponto de não mais saber sequer reconhecer, no caso, a jurema verdadeira, como em alguns centros de umbanda, desta forma, o que justifica a permanência do símbolo Jurema? Segundo ele, nesse processo a umbanda procurou absorver o conteúdo simbólico e sagrado existente na "jurema" e nos catimbós, o saber sobre o mundo vegetal, suas propriedades e o poder tradicional de cura.
Ao analisar o Vinho de Jurema empregado em rituais afro-brasileiros, Camargo verificou que ele vem sofrendo substanciais transformações, quando comparado ao Ajucá dos antigos índios do sertão pernambucano. Com respeito aos ingredientes empregados na preparação do Vinho sabe-se que este, a partir do momento que se expandiu do ambiente indígena para novos ambientes onde a bebida impõe seu valor sacral, outros ingredientes foram acrescentados. Foram encontradas aproximadamente 23 espécies que podem entrar na preparação desta bebida, nas religiosidades afro-brasileiras, que leva além de cachaça, vinho tinto e mel. Dentre as plantas citam-se pela frequência nas receitas a canela, o cravo-da-índia e o gengibre. Dentre outros aditivos citam-se espécies psicoativas como o paricá, manacá, cola, noz-moscada e destaque para o dandá ou junçá permitindo potencialização da bebida.
Transformações contemporâneas Mota explica que na última década do século XX, devido às mudanças sociais decorrentes da urbanização, a Jurema se transformou e ganhou novos propósitos além dos que já possuía em território nacional, apresentando uma nova "face". A Jurema foi adicionada à beberagem conhecida como daime, em rituais específicos,ALBUQUERQUE, Marcos Alexandre dos Santos. "Destreza e sensibilidade: os vários sujeitos da Jurema (as práticas rituais e os diversos usos de um enteógeno nordestino)." Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais–Antropologia)–Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande (2002). bem como também foi reinventada e preparada com Peganum harmala, como uma substância transmutada em similaridades à ayahuasca, mas com características muito fortes típicas dos encantos da Jurema.