A União Cívica Radical (em castelhano Unión Cívica Radical; UCR) é um partido político argentino, fundado em 26 de junho de 1891 por Leandro N. Alem. O partido é membro da Internacional Socialista. A UCR é o partido político de classe média mais antigo das Américas. Seu líder máximo e maior referência histórica foi Hipólito Yrigoyen, que governou a Argentina em duas oportunidades: entre 1916 e 1922 e entre 1928 e 1930.
Além de Yrigoyen (o primeiro presidente eleito por voto secreto da história da Argentina), a UCR também elegeu os presidentes Marcelo T. de Alvear (1922-1928), Arturo Frondizi (1958-1962), Arturo Illia (1963-1966), Raúl Alfonsín (1983-1989) e Fernando de la Rúa (1999-2001).
Durante décadas, a UCR foi o principal partido rival do Partido Justicialista (Peronista).
Os primórdios: a União Cívica e a Revolução de 1890 thumb|150px|direita|Revolução de 1890 Ao longo da década de 1880, o mundo assistiu ao desenvolvimento de uma profunda crise econômica, que finalmente estourou em 1890. Tal crise atingiu em cheio a Argentina, cuja economia baseava-se na exportação de produtos primários (notadamente carne, lã e grãos), principalmente para a Europa Ocidental. A crise econômica argentina atiçou a oposição política ao regime oligárquico lá iniciado em 1880.
A primeira manifestação de oposição ao presidente Miguel Juárez Celman (1886-1890) foi organizada pelo Comité de la Unión Cívica de la Juventud: um ato público realizado no Jardim Florida, em Buenos Aires, no dia 1º de setembro de 1889. Tal ato recebeu o apoio de personalidades de prestígio na vida política argentina, como o ex-presidente Bartolomé Mitre, Bernardo de Irigoyen, Vicente Fidel López e Leandro N. Alem. Pouco tempo depois, o Comitê da Juventude se transformou em Unión Cívica e buscou novas adesões abrindo comitês em toda cidade de Buenos Aires.
A União Cívica era um movimento heterogêneo no qual se reuniram todos os que se sentiam (ou eram de fato) excluídos do regime oligárquico: católicos, nacionalistas, defensores da autonomia da província de Buenos Aires, entre outros, militares ou civis.
A meta da União Cívica era galvanizar a opinião pública argentina contra o presidente Juárez Celman e derrubá-lo mediante uma revolução. Os contatos com o exército eram feitos através do general Manuel J. Campos, que foi escolhido como chefe militar da revolução, enquanto Leandro N. Alem era o chefe do componente civil do movimento. Eles exigiam liberdade de sufrágio, respeito às autoridades provinciais por parte do poder federal e o restabelecimento da moral e da probidade administrativas e o fim da corrupção.
Entretanto, o general Campos foi presto juntamente com um grande número de efetivos militares comprometidos com a conspiração. Apesar da perda de seu chefe militar, a Revolução estourou em 26 de julho de 1890. O movimento se estendeu para as províncias de Corrientes, Salta e Entre Ríos, além da Capital Federal: Buenos Aires. A cidade de Buenos Aires foi o centro principal da revolução e suas ruas foram palco de conflitos armados durante quatro dias, ao cabo dos quais o governo logrou derrotar os revolucionários.
A despeito disto, Juárez Celman foi obrigado a renunciar e o governo ficou nas mãos do vice-presidente Carlos Pellegrini. Este, um sagaz político, visando semear a desunião dentro da União Cívica, incorporou ao governo alguns de seus membros, o que levou à acentuação das disputas internas dentro da UC.
A divisão da União Cívica e a fundação da União Cívica Radical (1891) A União Cívica procurou se reorganizar após o fracasso da Revolução de 1890: celebrou, em 17 de janeiro de 1891, uma convenção em Rosario e elegeu a chapa Bartolomé Mitre-Bernardo de Irigoyen para as eleições presidenciais de 1892. Entretanto, Mitre preferiu celebrar um acordo com o general Julio Argentino Roca, o fundador e líder máximo do regime oligárquico de 1880: o partido de Roca, o PAN (Partido Autonomista Nacional) e a União Cívica se coligariam nas eleições de 1892. Roca não queria se confrontar com as forças da UC, pois a mesma não havia sido completamente desbaratada após o fracasso da Revolução de 1890 e Mitre não acreditava nas possibilidades de êxito eleitoral da UC, pois sua organização ainda era fraca e o regime poderia ainda fraudar as eleições.
thumb|150px|esquerda|O fundador da União Cívica Radical: Leandro Nicéforo AlemAssim, a União Cívica se dividiu em 1891: os que apoiavam o acordo Roca-Mitre formaram a Unión Cívica Nacional e os que eram contrários a esse acordo fundaram a Unión Cívica Radical (daí o adjetivo radical da UCR: eram radicais na tese de evitar qualquer acordo com o regime oligárquico). Os radicais eram liderados por Alem e por Bernardo de Irigoyen e organizaram sua própria convenção partidária e escolheram Irigoyen para candidato presidencial para 1892.
No entanto, em 6 de abril de 1892, os radicais denunciam fraude e se retiram da campanha eleitoral. Quatro dias mais tarde, o candidato do regime, o ancião Luis Sáenz Peña, foi eleito presidente, já que tornara-se candidato único após a abstenção da UCR. Em 17 de novembro a convenção nacional da União Cívica Radical aprovou a Carta Orgânica do partido.
A Revolução Radical de 1893 thumb|150px|esquerda|Revolucionários radicais na cidade de Rosario Em 29 de junho de 1893 explode uma revolução liderada pela UCR na província de San Luis. No mesmo dia, dirigida por Hipólito Yrigoyen, explode outra revolução na província de Buenos Aires, que se espalha por 88 localidades bonaerenses. O movimento obrigou o governador daquela província, Julio A. Costa, a renunciar. A UCR então elegeu Juan Carlos Belgrano como governador provisório.
Em 1º de agosto, Lisandro de la Torre sublevou a UCR de Rosario com o apoio de oficiais do exército ligados aos radicais e a cidade caiu em mãos dos rebeldes. Leandro N. Alem viajou então a Rosario escondido num barco. Um contingente revolucionário de 300 homens, comandado por Mario Candioti, foi enviado por Lisandro de la Torre de Rosario à cidade de Santa Fe e foi recebido com júbilo pela população local e assumiu então o governo da província de Santa Fe. O levante teve o apoio de colonos armados em várias localidades da província de Santa Fe. Em setembro, Alem chega a Rosario à frente de 5 mil revolucionários. No dia 7 deste mês, em Tucumán, os radicais tentaram se sublevar, mas a revolta foi abortada antes mesmo de eclodir. Os rebeldes em Rosario proclamam Alem como presidente de la República.
A revolução foi então sufocada pelo exército (liderado pelo próprio ex-presidente general Roca): os líderes revolucionários foram presos e a paz foi restabelecida. A falta de coordenação entre os revolucionários e a presença firme de Roca à frente das forças governamentais explicam o fracasso final do movimiento radical.
A morte de Leandro N. Alem e a divisão da UCR (1896-1898) Em 1º de julho de 1896, decepcionado pelo fracasso da Revolução de 1893 e talvez por motivos pessoais, Leandro N. Alem se suicidou com um tiro dentro de uma carruagem numa rua de Buenos Aires. Numa carta deixada aos seus correligionários, que logo se transformou no seu testamento político e num dos maiores símbolos da UCR, Alem manifestou a necessidade de se continuar na atitude intransigente frente ao regime oligárquico. A política antiacordo passou então a ser liderada pelo sobrinho de Alem, Hipólito Yrigoyen.
A derrota do movimento revolucionário de 1893 gerou um processo de divisão interna dentro da UCR. Um setor mais conservador, liderado por Bernardo de Irigoyen e Lisandro de la Torre, propôs a união da UCR com a União Cívica Nacional, liderada pelo ex-presidente Mitre. Esta sugestão foi aprovada pela convenção nacional da UCR, apesar da férrea oposição do líder da UCR na província de Buenos Aires: Hipólito Yrigoyen. Este então rompeu com Bernardo de Irigoyen e declarou que o comité radical da província de Buenos Aires não acataria a decisão aprovada na convenção nacional. Por moção de Hipólito Yrigoyen se decidiu a autodissolução da UCR na província de Buenos Aires, inciando-se assim a política da intransigência. Perante esta divisão da UCR Lisandro de la Torre decidiu romper com o partido, em oposição ao personalismo de Yrigoyen.
A rivalidade entre Yrigoyen e De la Torre chega então às vias de fato: os dois se batem num severo duelo de floretes. De la Torre é um especialista; já Yrigoyen só aprende o ABC da esgrima poucas horas antes. Os dois duelam durante 35 minutos até que Yrigoyen consegue atingir De la Torre: este fica com feridas na cabeça, bochechas, nariz e no antebraço. Nasce daí a famosa barba de Lisandro de la Torre, escudo natural para ocultar a derrota que nunca mais sairia de sua face.
Em 30 de setembro de 1897 a convenção da UCR opta pela abstenção nas eleições de 1898.
A Revolução Radical de 1905 Líder máximo da União Cívica Radical desde 1897, Hipólito Yrigoyen começou a organizar outra revolução. Contava com o apoio de grupos civis e alguns setores militares. Na madrugada de 4 de fevereiro de 1905 explodiu a última das revoluções da UCR. Ocorreram levantes na cidade de Buenos Aires e nas províncias de Córdoba, Santa Fe e Mendoza. Desde o final do segundo mandato do presidente Julio Argentino Roca (1898-1904) que já se sabia dos preparativos revolucionários da UCR. O levante em Buenos Aires foi rapidamente sufocado no mesmo dia, mas no interior chegou a parecer que a revolução teria êxito. Em Mendoza as forças sublevadas chegaram a derrubar, por algumas horas, as autoridades locais. Em Rosario lutou-se acirradamente entre as forças radicais e governamentais. Em Córdoba os revolucionários depuseram as autoridades provinciais e chegaram a tomar como refém o próprio vice-presidente da Argentina, José Figueroa Alcorta e o filho do ex-presidente Roca. No entanto, a revolução foi derrotada ao cabo de 3 dias e os rebeldes radicais depuseram suas armas. Vários dirigentes radicais foram mortos na severa repressão que o governo do presidente Manuel Quintana (1904-1906) desencadeou contra a revolução.
Hipólito Yrigoyen, espontaneamente, apresentou-se à justiça, declarando-se o responsável da sedição. Mesmo fracassando, a revolução radical de 1905 foi um sinal de alerta para o regime oligárquico e levou alguns de seus dirigentes, como o ex-presidente da república Carlos Pellegrini (1890-1892), a refletir sobre a necessidade de uma reforma no sistema político argentino.
A Lei Sáenz Peña e a Conquista do Poder (1912-1916) Em 1910, foi eleito presidente da Argentina Roque Sáenz Peña, filho do ex-presidente Luis Sáenz Peña (1892-1895). Ainda que tenha se tornado presidente graças ao viciado sistema electoral fraudulento, Sáenz Peña era o líder de um grupo da elite oligárquica argentina que estava disposto a realizar reformas políticas.
En 1912, o congresso argentino aprovou a Lei Geral de Eleições, lei nº 8871, conhecida popularmente como Lei Sáenz Peña, que introduziu o voto obrigatório e secreto. Com isto, Sáenz Peña esperava mudar as práticas eleitorais viciadas e tornar realidade a universalidade e a transparência do sufrágio, coisa que no Brasil só seria definitivamente alcançada em 1933. A Argentina deu assim um passo decisivo e pioneiro rumo a uma maior democratização.
Em 31 de março de 1912, foram celebradas eleições na província de Santa Fe, as primeiras eleições realizadas sob a nova lei eleitoral. A UCR conseguiu eleger Manuel Menchaca governador daquela província, tornando-se assim o primeiro governador eleito pela UCR na história da Argentina. thumb|150px|esquerda|O governador da província de Santa Fe Manuel Menchaca e sua família. Eleito nas eleições de 1912, as primeiras sob a Lei Saenz Peña, tornando-se assim o primeiro governador eleito pela UCR na história da Argentina