Pietro Antonio Maria Umberto Nosadini (Bassano del Grappa, 15 de agosto de 1862 — Pádua, 25 de março de 1921) foi um padre católico e jornalista italiano.
Desenvolveu atividade notável em várias paróquias da Itália como combativo defensor do ultramontanismo, fundando uma série de sociedades. Passou uma temporada no Brasil, nos primeiros tempos da imigração italiana no Rio Grande do Sul, sendo lembrado pela sua breve e tumultuada mas marcante passagem por Caxias do Sul, onde exerceu forte liderança na comunidade católica num dos períodos mais conturbados da história da cidade, e pelo seu pioneirismo no campo da imprensa regional. Também tem sido assinalado seu papel no processo de emancipação sociopolítica do colono italiano, contribuindo, através do elo comum da religião, para a união de grupos dispersos e culturalmente conflitantes, e para a criação de uma identidade coletiva onde o colono era retratado como um trabalhador incansável, ordeiro, moral e promotor do progresso e da civilização.
Vida Primeiros anos
Pietro Nosadini pertencia a uma antiga família de Bassano del Grappa, agregada ao patriciado de Bassano em 1691Lettera Discorsiva di Anonimo Trivigiano con Appendice di Documenti per Servire di II Parte al Saggio di Memorie degli Uomini Illustri do Asolo. Pianta, 1782, pp. 30-31 e ao de Veneza em 1694.Di Gualdana, Cavagna Sangiuliani. Dizionario Storico-Portatile di Tutte le Venete Patrizie Famiglie. Bettinelli, 1780, p. 115 Foi o primeiro dos quatro filhos de Giuseppe Giovanni Battista Nosadini e Catterina Capellari. Desde antes de sua ordenação revelou-se um católico fervoroso. Engajou-se nas atividades da Juventude Católica Italiana, sendo secretário do Círculo de Bassano-Vêneto em 1884."La Gioventù Cattolica Italiana ai Piedi del Santo Padre Leone XIII". In: La Civiltà Cattolica, XXXVI (IX) serie 12, 1885, p. 262 Segundo Costamilan, foi também secretário de sua paróquia entre 1884 e 1889, e "apesar de sua pouca idade, afloravam os seus dotes de invulgar inteligência e de seu gênio empreendedor, segundo se constata nos livros históricos abordando a evolução da ação católica na Itália". Seu trabalho foi notado pela Academia Olímpica de Vicenza, que o cita muitas vezes em seus documentos, e por ocasião do Conclave Regional de Vicenza, que teve lugar em 20 de agosto de 1889, fez um discurso sobre o tema do Óbolo de São Pedro.
Pouco depois ingressou no seminário de Ceneda, onde estudou até 1894, depois dirigindo-se a Roma, onde obteve um diploma em Jornalismo. Em Roma foi um dos fundadores da Pia União de São João Berchmans, voltada a jovens de famílias abastadas, objetivando formar-lhes o espírito dentro da moldura de uma pura vida cristã. A sociedade foi aprovada pelo cardeal-vigário de Leão XIII em 12 de março de 1895, que nomeou Nosadini como seu primeiro diretor. A sociedade parece ter logo começado a colher bons frutos, visto que um relatório de atividades que Nosadini enviou ao papa em julho de 1895 foi respondido com elogios e incentivo ao seu trabalho. Não demoraria muito tempo em Roma, pois ainda não fizera seus votos perpétuos, proferidos em Ceneda em 25 de março de 1896, sendo ordenado padre e iniciando preparativos para um apostolado no Brasil, em conformidade com um plano de vida que definira em Roma.
Atuação em Caxias do Sul Chegou ao Brasil pouco depois de sua ordenação, dirigindo-se a Caxias do Sul, núcleo de uma próspera colônia italiana. Seu primeiro registro na vila é de 22 de maio de 1896, já como coadjutor do vigário da Igreja Matriz, Giovanni Battista Argenta. Pouco tempo depois, em 15 de julho de 1896, Nosadini sucedeu Argenta no governo da paróquia, época em que José Cândido de Campos Júnior era o intendente.Costamilan, Angelo Ricardo. Homens e Mitos na História de Caxias. Pozanato Arte & Cultura, 1989, pp. 187-396 Ligado à corrente ultramontana do catolicismo, Nosadini defendia a primazia da Igreja em todos os assuntos, quer seculares, quer religiosos, e combatia ferozmente o liberalismo, o cientificismo, o positivismo, a maçonaria e outras filosofias progressistas. Essas disputas ferviam no final do século XIX tanto na Itália quanto no Brasil.Barros, Roque Spencer de. "Vida Religiosa". In: Holanda, Sérgio Buarque de. (org). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II, vol. 4. Difel, 1974, pp. 317-337Giron, Loraine Slomp. "Maçonaria x Igreja: luta pela hegemonia (2)". História Daqui, 21/03/2012
Nosadini iniciou seu trabalho pastoral fundando uma série de comitatos (comitês) na sede urbana e em toda a zona rural, as Ligas Católicas, reunidas numa Federação, com o objetivo de fortalecer a influência da Igreja na região e dissolver as correntes progressistas, além de sustentar a luta pela devolução ao papa dos antigos Estados Pontifícios. Segundo Gustavo Valduga, Nosadini considerava hereges todos os que não se filiassem aos comitês e lhes recusava os sacramentos, e lançou uma campanha de desobediência civil contra as determinações do Poder Público que afrontassem os preceitos católicos ortodoxos. Ao mesmo tempo, fazia duras críticas ao governo de Campos e culpava a maçonaria pelo estado de tensão e desordem em que se encontrava a colônia italiana. A população local era maciçamente católica, ao passo que o Campos era grão-mestre da loja maçônica local Força e Fraternidade, a maioria das principais autoridades civis da vila estavam ligadas à maçonaria, e a ideologia do Partido Republicano Rio-Grandense, que estava no governo do estado e também da vila, era alinhada ao positivismo.Machado, Maria Abel. "Empresários na busca do poder político: acordos e conflitos. Caxias do Sul, 1894-1935". In: Primeiras Jornadas de História Regional Comparada. Porto Alegre, 23-25/08/2000Corrêa, Marcelo Armellini. "Antes católicos, depois austríacos e enfim italianos: a identidade católica dos imigrantes trentinos". In: XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, 27-31/07/2015
É de notar que o padre na época refutava as acusações citadas por Valduga, alegando ser um obediente cumpridor da lei que orientava seu rebanho a fazer o mesmo, além de dizer que jamais havia recusado os sacramentos a qualquer católico. De qualquer maneira, o fato é que não tardou para que suas posições desencadeassem uma forte oposição da Intendência, que via no padre um incitador de revoltas e um embaraço para seus propósitos. Assim, os confrontos e acusações entre ambos se multiplicaram, mas Nosadini em pouco tempo soube ganhar a estima da população. Segundo Maria Abel Machado, o padre sempre foi um defensor do povo e falava sua linguagem, recebendo muitas manifestações públicas de apreço. Ele também conquistou o apoio de importantes lideranças locais, como Caetano Costamilan, Salvador Sartori, João Michele, Antônio Moro, Luiz Michielin, Luiz Baldessarini e Ambrósio Bonalume. De acordo com Loraine Giron, o padre foi uma força poderosa no sentido de organizar e unificar a comunidade católica, e sob sua liderança "o movimento católico ganhava força e passou a ser temido". Eliana Alves e Márcia Sanocki consideram que, além do âmbito especificamente religioso, o padre foi um agente importante nas primeiras etapas do processo de emancipação política do colono e de formação de uma elite imigrante, que passou a disputar o poder com as autoridades de origem luso-brasileira, aproveitando, como observou Alves, a brecha criada pela falta de sintonia no seio da própria administração pública, uma vez que a Intendência representava uma facção de interesses, e o Conselho Municipal, outra. O próprio Conselho se encontrava dividido entre católicos e maçons, embora estes últimos prevalecessem. Com efeito, num contexto em que os imigrantes vinham de diferentes regiões italianas, e por isso eram herdeiros de antigas rivalidades culturais, sociais e políticas, e mesmo falavam dialetos às vezes quase incompreensíveis entre si, a religião foi um fulcro decisivo para a união de todos em torno de objetivos comuns.Seyferth, Giralda. "As identidades dos imigrantes e o melting pot nacional". In: Horizontes Antropológicos, 2000; 16 (14):143-176Corrêa, Marcelo Armellini. Dos Alpes do Tirol à Serra Gaúcha: a questão da identidade dos imigrantes trentinos no Rio Grande do Sul (1875-1918). Dissertação de Mestrado. UNISINOS, 2014, p. 12 Valduga, p. 10 Nas palavras de Alves:
"Nosadini atuou como um intelectual de tipo rural, identificado por Gramsci como aquele membro ligado à massa social camponesa e pequeno-burguesa das cidades, o qual põe em contato a massa camponesa com a administração estatal ou local, o que lhe confere uma grande função político-social. [...] Padre Nosadini interpretou exatamente o papel atribuído ao intelectual de tipo rural, pois a organização dos colonos italianos, para solicitar resoluções de seus problemas, iniciou a partir de sua atuação. [...] Durante sua permanência em Caxias, o padre mobilizou os colonos de tal forma, em torno dos comitatos que, ao menor sinal de descontentamento, os católicos promoviam manifestações de desagrado, criticando sempre a administração".Alves, Eliana Rela. Fides Nostra, Victorian Nostra: Os italianos católicos e o processo de aquisição do poder político na Intendência de Caxias (1890-1924). Dissertação de Mestrado. PUCRS, 1995, pp. 63-70
Apesar do grande apoio que tinha, a tensão chegou a um ponto crítico e culminou em violência. Nosadini foi avisado por João de Barros Cassal, antigo chefe de polícia e membro da Junta governativa gaúcha de 1891, que sua vida corria perigo, e de fato ele veio a sofrer um atentado em 8 de fevereiro de 1897, quando a casa paroquial, sob a vista da população, foi cercada por um bando armado, liderado por Guido Livi, Angelo Chitolina e João Lourenço Vigo, que metralhou a residência e, invadindo-a, esfaqueou, espancou e raptou o padre, levando-o debaixo de um cabresto para uma região erma da zona rural, onde foi votado à morte. No entanto, na hora fatal seus algozes mudaram de ideia e o deixaram viver, sob a condição de que abandonasse Caxias imediatamente. Liberado, o padre dirigiu-se à casa de seu amigo Caetano Costamilan no distrito de Loreto para tratar de seus ferimentos, e depois refugiou-se em Nova Pádua.
O conflito que se instalara em Caxias a esta altura transbordara para as autoridades estaduais, que começaram a intervir. O bispo do Rio Grande do Sul, dom Cláudio Ponce de Leão, contrariando o desejo do Campos, confirmou-o no governo da paróquia de Caxias, e levou sua decisão ao presidente do estado Júlio de Castilhos, que ordenou ao intendente de Caxias garantir sua plena reintegração em suas funções. Isso não ocorreria senão passados alguns meses. Em 14 de junho de 1897 uma grande caravana de simpatizantes foi buscá-lo em Nova Pádua e o reconduziu a Caxias, sendo recebido em meio a homenagens, foguetório e festejos organizados pelos católicos.Valduga, Gustavo. Paz, Itália, Jesus: uma identidade para imigrantes italianos e seus descendentes : o papel do jornal Correio Riograndense (1930-1945). EDIPUCRS, 2008, pp. 106-118
Depois disso o Campos e Nosadini tentaram estabelecer um diálogo amistoso e uma cooperação, mas a paz pouco durou. Em 15 de outubro de 1897 começou a circular o primeiro jornal de Caxias, O Caxiense, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense e vinculado diretamente à Intendência, e já na primeira edição o padre foi acusado de prejudicar as festividades cívicas comemorando a Unificação Italiana e a proclamação da República Riograndense. Poucos dias depois, a Banda Santa Cecília, financiada pela Municipalidade, passou a executar em via pública e sem justificativa apropriada o Hino Papal, despertando a indignação de Nosadini. Outros ataques ao padre e às Ligas Católicas se seguiram nas edições sucessivas d'O Caxiense.