O Crédito é uma comédia em cinco atos de José de Alencar, escrita e encenada em 1857, logo após O Demônio Familiar. É a terceira peça do autor e, ao contrário das duas anteriores, não obteve sucesso de público, tendo sido retirada de cartaz após poucas apresentações.REIS, Douglas Ricardo Hermínio. José de Alencar e o teatro: um romântico realista. Acta Scientiarum. Language and Culture, Maringá, v. 35, n. 1, p. 63-73, jan./jun. 2013. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciLangCult/article/view/10475. Acesso em: 25 jul. 2026.

A peça estreou em 19 de dezembro de 1857, no Teatro do Ginásio Dramático do Rio de Janeiro, e foi encenada apenas mais duas vezes na semana seguinte, sendo então retirada de cartaz diante do fracasso de público, desfecho oposto ao de O Demônio Familiar, estreado poucos dias antes, em 5 de dezembro do mesmo ano. Esse fracasso repentino, sucedendo o sucesso de O Demônio Familiar, teria abalado a confiança de Alencar como dramaturgo: já em 1858, o autor submeteu ao Conservatório Dramático os originais de uma nova peça, acompanhada de uma justificativa em que anunciava, então, o fim de sua carreira teatral.

A peça é ambientada no Rio de Janeiro do século XIX; lugares como a Rua do Ouvidor são citados nos diálogos para compor o retrato de costumes da época. O primeiro, o segundo, o terceiro e o quinto atos passam-se na casa de Pacheco; apenas o quarto ato se passa na casa de Borges.SANTOS, Vivaldo Andrade dos. As encenações do capital no romantismo brasileiro. Teresa: Revista de Literatura Brasileira, São Paulo, n. 12-13, p. 192-204, 2013. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/teresa/article/view/99358. Acesso em: 25 jul. 2026.

Enredo esquerda|alt=Rua do Ouvidor - século XIX|miniatura|Rua do Ouvidor - século XIX O tema central da peça são as relações comerciais e afetivas em torno da fortuna do capitalista Pacheco, cujos filhos herdariam duzentos contos de réis cada um, herança que desperta o interesse de pretendentes e especuladores.DRUMMOND, Renato. Masculinidades em cena: gênero e representação em O Crédito, de José de Alencar (1857). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 33., 2025. Anais [...]. [S.l.]: ANPUH, 2025. p. 57. Disponível em: https://www.snh2025.anpuh.org/resources/anais/11/snh2025/1755652206_ARQUIVO_3e7108f01d84e1a84b5995774d18141c.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026.

Rodrigo, jovem engenheiro apaixonado por Julieta, filha de Pacheco, disputa a atenção da família com o agiota Macedo, que se aproveita de dívidas contraídas pelo capitalista para tentar controlar seus negócios; ao final, é o próprio Rodrigo, defensor de uma visão do crédito como instrumento de progresso e trabalho, quem desmascara as manobras do especulador.

Paralelamente, desenrola-se o affair entre a filha de Borges e o jovem médico Hipólito; o casamento de Julieta com o negociante Oliveira também está em jogo ao longo da trama, movida por interesses financeiros tanto quanto afetivos. Como em outras comédias de Alencar, é o casamento por interesse (e sua eventual superação) que estrutura o desfecho da peça.

Personagens alt=José de Alencar|miniaturadaimagem|José de Alencar Personagem Função/Papel Idade Rodrigo Engenheiro 27 anos Macedo Agiota 45 anos Pacheco Capitalista 59 anos Hipólito Estudante de medicina 23 anos Oliveira Negociante 26 anos Borges Empregado público 38 anos Guimarães Moço desempregado 30 anos Julieta Filha de Pacheco 18 anos Cristina Filha de Borges 16 anos D. Olímpia Mulher de Borges 32 anos D. Antônia Mulher de Pacheco 40 anos

Além destes, a peça conta com quatro personagens coadjuvantes: um escravo adulto de Pacheco, um escravo jovem de Borges, uma mulher e uma menina cega, ambas com participação no primeiro ato.

Análise Vivaldo Andrade dos Santos analisa a peça a partir da nova crítica econômica no campo literário, contrapondo duas visões do capital dramatizadas por personagens antagônicas: a do agiota Macedo, para quem "só há na sociedade dois poderes reais: a lei e o dinheiro", numa postura que o autor aproxima do conceito de homo economicus (o indivíduo calculista, alheio a qualquer princípio ético); e a do protagonista Rodrigo, para quem a "missão do crédito" seria "nivelar os homens pelo trabalho", substituindo a antiga soberania do ouro acumulado por uma lógica de circulação do capital fundada na confiança e na produtividade.

Segundo essa leitura, apoiada também na análise de Flávio Aguiar, O Crédito dialoga diretamente com La question d'argent, de Alexandre Dumas Filho, mas "nacionaliza" o tema do dinheiro ao situá-lo no contexto específico da burguesia comercial carioca em ascensão em meados do século XIX. Aguiar nota, contudo, que o discurso de Rodrigo sobre o crédito reflete um ponto de vista burguês, o do administrador do capital alheio, deixando de lado o trabalho propriamente produtivo em favor de uma retórica que naturaliza a posição do "financiador" na cadeia econômica.

Do ponto de vista da história do teatro, um estudo de Douglas Ricardo Hermínio Reis situa o fracasso de O Crédito dentro da trajetória oscilante de Alencar como dramaturgo, marcada por sucessos retumbantes (Verso e Reverso, O Demônio Familiar) seguidos de fracassos igualmente marcantes. O abalo causado por essa recepção negativa é apontado como um dos fatores que levaram o autor a anunciar, ainda que provisoriamente, o fim de sua carreira como autor teatral logo em seguida.

Já um artigo de Izaura Vieira Mariano de Sousa enquadra O Crédito dentro da influência mais ampla do teatro realista francês sobre a dramaturgia de Alencar, associando a busca do autor por naturalidade cênica e de diálogo, em oposição aos exageros do teatro romântico então vigente, ao modelo de Dumas Filho, cuja obra Alencar buscava adaptar ao contexto e aos costumes da sociedade brasileira.SOUSA, Izaura Vieira Mariano de. A influência do teatro de José de Alencar na dramaturgia brasileira. Revista e-scrita: Revista do Curso de Letras da UNIABEU, v. 4, n. 3, p. 17-32, 2013. Disponível em: https://web.archive.org/web/20161002065946/http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/view/809. Acesso em: 25 jul. 2026.

Bibliografia ALENCAR, José de. "Obras Completas de José de Alencar V: Teatro Completo". Editora Funarte, 1977.

Referências

Categoria:Obras de José de Alencar