Francis Hubert McNamara (Rushworth, 4 de abril de 1894 – Buckinghamshire, 2 de novembro de 1961) foi um militar australiano condecorado com a Cruz Vitória, a mais alta condecoração por valor diante do inimigo que pode ser concedida a um membro das forças britânicas e da Commonwealth. Servindo no Australian Flying Corps (AFC), foi homenageado pelas suas acções a 20 de Março de 1917, quando resgatou um colega piloto atrás das linhas inimigas. McNamara foi o primeiro aviador australiano — e o único na Primeira Guerra Mundial — a receber a Cruz Vitória. Mais tarde, tornou-se comandante sénior na Real Força Aérea Australiana (RAAF).
Nascido e educado em Vitória, McNamara era professor quando se juntou à milícia antes da Primeira Guerra Mundial. Em 1915, foi selecionado para instrução de pilotagem na Escola de Voo Central, Point Cook, e transferido para o Australian Flying Corps no ano seguinte. Foi colocado no Teatro do Médio Oriente com Esquadrão N.º 1, altura na qual ganhou a Cruz Vitória. Em 1921, McNamara alistou-se como oficial de voo na recém-formada RAAF, subindo para o posto de vice-marechal do ar em 1942. Ocupou cargos importantes na Inglaterra e em Aden durante a Segunda Guerra Mundial, tendo-se aposentado da força aérea em 1946. McNamara continuou a viver na Grã-Bretanha até à sua morte por insuficiência cardíaca em 1961.
Juventude Nascido em Rushworth, Vitória, McNamara foi o primeiro de oito filhos de William Francis McNamara, um oficial do Departamento de Terras do Estado, e da sua esposa Rosanna.Chisholm, Who's Who in Australia 1947, pp. 567–568Macklin, Bravest, pp. 84–93 Começou os seus estudos em Rushworth e concluiu o ensino médio na , na qual ingressou através de uma bolsa de estudos.Stephens and Isaacs, High Fliers, pp. 20–22 A família mudou-se para Melbourne em 1910.
McNamara juntou-se aos cadetes da escola em 1911 e, em Julho de 1913, foi comissionado como segundo-tenente no 49.º Batalhão da milícia.Dennis et al., The Oxford Companion to Australian Military History, p. 339 Tornou-se professor após se formar no Melbourne Teachers Training College em 1914 e leccionou em várias escolas em Vitória.Garrison, Australian Dictionary of Biography, pp. 348–349 Também matriculou-se na Universidade de Melbourne, mas os seus estudos foram interrompidos pela eclosão da Primeira Guerra Mundial.Helson, Ten Years at the Top, p. 19
Primeira Guerra Mundial Da milícia para o Australian Flying Corps esquerda|miniaturadaimagem| Tenente McNamara em Point Cook, Vitória, em 1916 Como oficial da milícia, McNamara foi mobilizado para servir na Austrália quando a guerra foi declarada em Agosto de 1914. Depois de servir brevemente nas bases em e Point Nepean, ambas em Vitória, McNamara passou, em Dezembro, pela Escola de Treino de Oficiais em Broadmeadows. Em Fevereiro de 1915, começou a instruir no Depósito de Treino da Primeira Força Imperial Australiana. Promovido a tenente em Julho, ofereceu-se imediatamente para um curso de aeronáutica militar na Escola de Voo Central, em Point Cook.
Selecionado para instrução de voo em Point Cook em Agosto de 1915, McNamara fez o seu primeiro voo solo num Bristol Boxkite a 18 de Setembro e formou-se como piloto em Outubro. A 6 de Janeiro de 1916, foi designado assistente no Esquadrão N.º 1 do AFC (também conhecido até 1918 como Esquadrão N.º 67 do Real Corpo Aéreo (RFC)).Stephens, The Royal Australian Air Force, p. 9 Em Março, McNamara partiu de Melbourne para o Egipto a bordo do HMAT Orsova, chegando a Suez no mês seguinte. Ele foi destacado para o Esquadrão N.º 42 do RFC em Maio para frequentar a Escola de Voo Central em Upavon, na Inglaterra; o seu destacamento para o RFC foi publicado no dia 5 de Julho de 1916.
Concluindo o seu curso em Upavon, McNamara foi enviado de volta ao Egipto em Agosto, mas foi hospitalizado a 8 de Setembro com orquite (uma inflamação dos testículos). Dispensado a 6 de Outubro, serviu brevemente como instrutor de voo com Esquadrão N.º 22 do RFC antes de regressar ao Esquadrão N.º 1. McNamara voou com a Esquadrilha C, comandada pelo capitão (mais tarde marechal ao ar e Sir) Richard Williams.Cutlack, The Australian Flying Corps, p. 32 Na sua primeira missão, de reconhecimento sobre o Sinai, McNamara não sabia que o seu avião havia sido atingido por fogo antiaéreo; ele voltou à base com o depósito de óleo do motor quase esgotado. Pilotando aviões BE2 e Martinsyde, realizou mais missões de reconhecimento e bombardeamento nos meses seguintes.
Cruz Vitória No dia 20 de Março de 1917, McNamara, pilotando um Martinsyde, foi um dos quatro pilotos do Esquadrão N.º 1 a participar num ataque contra um entroncamento ferroviário turco perto de Gaza. Devido à falta de bombas, cada aeronave estava armada com seis projéteis de obus de 4,5 polegadas especialmente modificados.Wilson, The Brotherhood of Airmen, pp. 11–13 McNamara havia lançado com sucesso três dos seus projéteis quando o quarto explodiu prematuramente, ferindo-o gravemente na perna com estilhaços, um efeito que ele comparou a ser "atingido por uma marreta". Tendo voltado para a base, ele avistou um companheiro de esquadrão da mesma missão, o capitão Douglas Rutherford, no solo ao lado do seu BE2.Stephens, The Royal Australian Air Force, pp. 14–15 Aviadores aliados foram mortos por tropas inimigas em situações semelhantes, e McNamara viu que uma companhia de cavalaria turca estava a aproximar-se rapidamente da posição de Rutherford. Apesar do terreno acidentado e dos cortes na perna, McNamara aterrou perto de Rutherford para tentar resgatá-lo.
Como o Martinsyde era monolugar, ou seja, só tinha lugar para uma pessoa, o piloto resgatado saltou para a asa de McNamara e segurou as escoras. McNamara caiu ao tentar descolar devido aos efeitos do ferimento na perna e ao peso de Rutherford desequilibrando a aeronave. Os dois homens, que escaparam de mais ferimentos no acidente, atearam fogo ao Martinsyde e correram de volta para o BE2 de Rutherford. Rutherford consertou o motor enquanto McNamara usava o seu revólver contra a cavalaria de ataque, que abriu fogo contra eles. Dois outros pilotos do Esquadrão N.º 1 que se encontravam a sobrevoar a área, o tenente (mais tarde marechal do ar e Sir) Roy "Peter" Drummond e o tenente Alfred Ellis, também começaram a metralhar as tropas inimigas. McNamara conseguiu ligar o motor do BE2 e descolar, com Rutherford na cabine do observador. Com fortes dores e quase desmaiando devido à perda de sangue, McNamara voou a aeronave danificada ao longo de 110 quilómetros de volta à base em El Arish.
Tendo efetuado o que foi descrito na história oficial australiana da guerra como "uma fuga brilhante na hora exacta e sob fogo intenso", McNamara "só podia emitir palavrões exaustos" antes de perder a consciência logo após a aterragem. Evacuado para o hospital, quase morreu após uma reacção alérgica a uma injeção antitetânica de rotina. McNamara teve que receber respiração artificial e estimulantes para mantê-lo vivo, mas recuperou-se rapidamente. Uma reportagem da época declarou que ele "logo estava sentado, comendo frango e bebendo champanhe". A 26 de Março, McNamara foi recomendado para a Cruz Vitória (VC) pelo brigadeiro general Geoffrey Salmond, oficial general comandante da Brigada do Médio Oriente do RFC. Drummond, Ellis, e Rutherford escreveram declarações de 3 a 4 de Abril atestando as acções dos seus camaradas, Rutherford declarando que "o risco do tenente MacNamara sendo morto ou capturado foi tão grande que mesmo se ele não tivesse sido ferido, ele teria justificativa para não tentar o meu resgate - o facto de ele já estar ferido torna a sua acção uma bravura notável - a sua determinação e recursos e total desconsideração do perigo durante toda a operação mereceu os maiores elogios". A primeira e única VC concedida a um aviador australiano na Primeira Guerra Mundial, a condecoração de McNamara foi promulgada no London Gazette a 8 de junho de 1917: direita|miniaturadaimagem| McNamara, cerca de 1917
Promovido a capitão a 10 de Abril de 1917, McNamara tornou-se comandante de voo no Esquadrão N.º 4 do AFC (também conhecido até 1918 como Esquadrão N.º 71 do RFC), mas não conseguiu continuar a pilotar devido ao ferimento na perna sofrido a 20 de Março. Ele foi enviado de volta para a Austrália em Agosto a bordo do HT Boorara, e recebeu as boas-vindas de um herói na chegada a Melbourne.Macklin, Bravest, pp. 94–99 Considerado clinicamente inapto para o serviço activo, McNamara foi dispensado do Australian Flying Corps a 31 de Janeiro de 1918. O pânico causado pela intrusão nas águas australianas do corsário alemão SMS Wolf resultou na sua chamada de volta ao AFC e colocado no comando de uma unidade de reconhecimento aéreo baseada em South Gippsland, em Vitória, pilotando um Royal Aircraft Factory FE2 B e mais tarde um Maurice Farman Shorthorn.Coulthard-Clark, A Hero's Dilemma, pp. 54–55 Em Setembro de 1918, foi colocado como instrutor de voo em Point Cook, onde assistiu ao restante da guerra.
Entre guerras esquerda|miniaturadaimagem| Capitão McNamara a pilotar um Avro 504 K sobre a Catedral de São Patrício, Melbourne, cerca de 1919–20. Mais tarde, casou-se nesta catedral Após a dissolução do AFC, McNamara foi transferido para o Australian Air Corps (AAC) em Abril de 1920.Macklin, Bravest, pp. 94–99 Inicialmente, não lhe foi oferecido um cargo no AAC, e só conseguiu um depois de o capitão Roy King protestar contra a situação, cedendo o seu próprio lugar no novo serviço a favor de McNamara, a quem descreveu como "este oficial muito bom e galante".Coulthard-Clark, The Third Brother, p. 20 McNamara foi investido com a sua Cruz Vitória pelo Príncipe de Gales na Casa do Governo, Melbourne, a 26 de Maio. Em 1921, alistou-se na recém-criada Real Força Aérea Australiana (RAAF). Com o posto de oficial de voo (tenente de voo honorário), foi um dos vinte e um oficiais originais da Força Aérea na sua formação naquele mês de Março.Gillison, Royal Australian Air Force, p. 16 Colocado na sede da RAAF em Melbourne como oficial de operações e inteligência, McNamara recebeu o comando da Escola de Treino de Voo N.º 1 (N.º 1 FTS), em Point Cook, em Julho de 1922. Foi promovido a líder de esquadrão em Março de 1924 e no mês seguinte casou-se com Hélène Bluntschli, uma cidadã belga que conheceu no Cairo durante a guerra, na Catedral de São Patrício; o seu padrinho foi o colega oficial Frank Lukis.Coulthard-Clark, A Hero's Dilemma, p. 68
McNamara viajou para a Inglaterra em 1925 para um intercâmbio de dois anos com a Real Força Aérea, servindo na Escola de Treino de Voo N.º 5 na base aérea de Sealand, e no Diretório de Treino do Ministério da Aeronáutica, em Londres.Gillison, Royal Australian Air Force, p. 712 Regressando à Austrália em Novembro de 1927, foi nomeado vice-comandante da N.º 1 FTS. Em 1928, McNamara retomou os seus estudos na Universidade de Melbourne, tendo anteriormente falhado em passar nos exames necessários para entrar na RAF Staff College, em Andover. Estudante em part-time na universidade, formou-se como Bacharel em Relações Internacionais (com honras de segunda classe) em 1933. Em Outubro de 1930, McNamara tornou-se comandante da N.º 1 FTS, e foi promovido a comandante de asa um ano depois. Então, foi colocado no comando da estação de Laverton, em Vitória, incluindo o Depósito de Aeronaves N.º 1, em Fevereiro de 1933. McNamara foi promovido a capitão de grupo em 1936, e frequentou o Colégio de Defesa Imperial, em Londres, no ano seguinte. Nas Honras de Ano Novo de 1938, foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE).
Segunda Guerra Mundial direita|miniaturadaimagem| O vice-marechal do ar McNamara (à direita) cumprimenta os aviadores australianos na sua chegada à Grã-Bretanha, 1941