O Castelo de Aljezur, originalmente grafado como Algezur ou Algesur, é um monumento militar na vila de Aljezur, no Distrito de Faro, em Portugal. De acordo com os vestígios encontrados, o sítio foi ocupado pelo menos desde as idades do Bronze e Ferro, tendo sido depois utilizado durante os períodos romano e islâmico e após a Reconquista. A sua principal função era controlar a Ribeira de Aljezur, pelo que terá sido abandonado na transição entre os séculos XV e XVI, devido ao assoreamento daquele eixo fluvial. Segundo a tradição, é um dos castelos do Algarve representados na Bandeira de Portugal. O Castelo de Aljezur foi muito danificado pelo Sismo de 1755, só tendo sido parcialmente reconstruído entre 1940 e 1941, no âmbito das comemorações nacionais. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1977.Portugal. Decreto n.º 129/77, de 29 de Setembro de 1977. Presidência do Conselho de Ministros e Ministério da Educação e Investigação Científica. Publicado no Diário do Governo n.º 226, Série I, de 29 de Setembro de 1977
thumb|300px|left|Torre Norte do castelo, de forma circular Descrição Localização e acessos O Castelo situa-se no cume de uma colina isolada com cerca de 88 m de altitude, dominando a parte mais antiga de Aljezur, que se situa a Este. No entanto, este não é o ponto mais elevado em Aljezur, existindo a Sul um outro cerro, com 93 m de altura. O castelo foi construído num local que permitia um bom controlo visual sobre a Ribeira de Aljezur e a sua planície, e parte da faixa costeira. A Ribeira de Aljezur passa pelo vale de D. Sancho e depois desagua no oceano, junto à Praia da Amoreira, tendo sido um importante eixo de comunicações entre o litoral do Alentejo e o Barlavento Algarvio. Apresentou boas condições de navegabilidade até ao século XVI, tendo sido encontrados vestígios de um porto fluvial na ribeira, na vila de Aljezur. O castelo está situado num ponto extremo do Algarve, embora ainda tenha apresentado uma grande importância do ponto de vistal regional.
O acesso ao edifício é feito através das ruas do Cerro do Castelo e D. Pires Paio Correia.
thumb|Torre Sul, de planta quadrangular Composição e espólio A fortaleza possui uma planta poligonal de formato irregular, aproximadamente octogonal, que foi escolhida de forma a melhor se adaptar à topografia do local onde se encontra. As muralhas, de forma rectilínea, têm cerca de 1,5 m de espessura e 3 a 5 m de altura, e são pontoadas por duas torres maciças, situadas em pontos extremos opostos do castelo, a Norte e Sul. Originalmente, tanto as muralhas como as torres poderiam ter possuído ameias, sendo o acesso ao topo das torres feito através de escadas em madeira. Também foram encontrados vestígios de uma barbacã na vertente Noroeste, que teria menos de um metro de altura, e de afloramentos de muralha no lado Oeste. A torre Norte, com cerca de 5 m de diâmetro e 9 m de altura a partir do exterior, tinha uma planta circular, e servia para guardar a única entrada no castelo, no lado Nordeste. A outra torre apresentava uma forma quadrangular, com 4,98 por 4,40 m, e uma altura e uma cota de implantação semelhantes à da torre circular. No lado Noroeste do castelo está a única abertura nas muralhas, funcionando como entrada. Nesta zona foi instalada uma placa de pedra relativa às Comemorações dos Centenários, e da intervenção que foi feita no castelo nessa altura.
A praça de armas inclui uma cisterna (algibe) no canto Noroeste, de formato aproximadamente cúbico com uma abóbada, e com acesso por uma porta em arco, estando o seu interior totalmente atulhado. Também existiam vários compartimentos de planta trapezoidal e rectangular encostados às muralhas, que poderiam ter tido uma função do ponto de vista militar, como quartéis. Também foram encontrados dois silos, escavados na rocha, que indicam que o castelo seria igualmente utilizado como armazém, talvez a nível colectivo. O interior ainda conserva alguma da sua natureza rochosa, tendo nalgumas partes uma cota superior à das muralhas. O castelo teria sido construído para alojar apenas uma guarnição.
Em termos de espólio, foram encontrados poucos vestígios das ocupações mais remotas na colina do castelo, tendo por exemplo os vestígios da Idade do Bronze sido descobertos numa camada descontínua e de reduzida espessura, logo acima do substrato rochoso. Por outro lado, as camadas relativas à Idade do Ferro e à época romana foram muito danificadas, principalmente durante o período de abandono antes da ocupação islâmica. As peças da Idade do Bronze período incluem recipientes cerâmicos, como taças carenadas e contentores, semelhantes às recolhidas no sítio arqueológico da Cerradinha, em Santiago do Cacém. Quanto à Idade do Ferro e ao período romano, foram descobertas partes de ânforas e cerâmicas finas, de englobe negro e campanienses. Várias destas peças foram produzidas a nível local ou regional, enquanto que outras, como as cerâmicas finas campanienses e as ânforas vinárias dos séculos II a I a.C., terão sido feitas na Peninsula Itálica ou noutras partes do Mediterrâneo, indicando desta forma que a antiga povoação de Aljezur mantinha ligações com o exterior. Foram igualmente encontrados vestígios do período medieval islâmico, incluindo duas moedas, peças metálicas, e fragmentos de recipientes em cerâmica, como jarros, púcaros, alguidares, taças esmaltadas e vidradas, panelas, cântaros e talhas. Também foram recolhidos vestígios de alimentação durante o domínio muçulmano, como peixe, mamíferos domesticados ou selvagens como veado, e muitas conchas de moluscos, tanto de estuário como marítimos. Desta forma, constata-se que a alimentação durante aquele período era muito variada, e que as as principais actividades económicas seriam a pesca e a agropecuária, seguidas pela caça e recolha de marisco. Foram igualmente descobertas escórias de fundição no castelo, que indicam a presença de uma metalurgia do ferro.
Importância e conservação O Castelo de Aljezur é considerado um dos mais impressionantes e importantes no Algarve. Foi classificado em 1977 como Imóvel de Interesse Público, enquanto que a Zona Especial de Protecção foi definida pela Portaria n.º 220/2010, publicada no Diário da República n.º 55, II série, de 19 de Março de 2010.
thumb|left|Portão de entrada, em 2013
História Antecedentes As escavações arqueológicas no local, dirigidas por Carlos Tavares da Silva, ermitiram identificar várias cronologias de ocupação, tendo sido encontrados vestígios da Idade do Bronze, com cerca de três mil anos, e da segunda Idade do Ferro até ao período republicano de Roma, entre os séculos IV e I a.C.. No local da Várzea da Misericórdia, situado numa das vertentes da colina em que se ergue o castelo, foram encontrados vestígios de um possível povoado da Idade do Bronze, com destaque para um capacete em bronze, que foi preservado no Museu Municipal de Lagos.
Durante o período romano, o local onde posteriormente foi construído o castelo poderá ter sido ocupado por um castro dos povos Lusitanos, enquanto que os próprios romanos terão instalado ali um posto de vigia. Esta função como posto de vigia terá sido retomada durante o período visigótico, entre os séculos VII e VIII.
thumb|Ruínas de compartimentos no interior do castelo, em 2013
Período medieval
Porém, a fundação do castelo em si só terá ocorrido no século X, durante o período medieval islâmico, durante o qual também foi criada a povoação de Aljezur. Com efeito, as estruturas fortificadas do castelo foram identificadas como pertencendo a este perído, tal como algumas construções no seu interior. Os vestígios de cronologia muçulmana podem ser separados em duas fases distintas, sendo a primeira correspondente a várias estruturas, provavelmente de uso residencial, e das quais restaram as paredes, encimadas por taipa, e os pisos, alguns deles com lajeado. As muralhas pertencem a uma segunda fase, tendo sido provavelmente erigidas durante os princípios do segundo período do Califado Almóada, entre os séculos XII e XIII, período em que também terão sido escavados os silos no interior do castelo. Esta fortaleza faria parte do complexo defensivo da região sob o domínio de Silves, que nessa altura compreendia a região desde Aljezur e o Sul da costa alentejana até aos modernos concelhos de Lagoa e Albufeira. A povoação de Aljezur em si poderá ter origem islâmica, atribuindo-se a sua fundação aos inícios do século X.
Segundo a tradição, a vila foi reconquistada pelas forças cristãs em 1242 ou 1246, no dia 16 de Junho, por um destacamento da Ordem de Santiago, sob o comando de Paio Peres Correia. Com efeito, a povoação de Alvor foi tomada em 1240, e Tavira em 1242, embora a reconquista só tenha terminado em 1249, com a libertação de Silves, Faro, Albufeira e Porches.CAPELO et al, 1994:36-37 Em recompensa pelo seu papel na reconquista do Algarve, o rei D. Afonso III ofereceu Aljezur e outras localidades à Ordem de Santiago. Após a reconquista, aquele monarca terá ordenado a realização de obras no castelo, que poderão ter incuído a construção dos compartimentos junto às muralhas. Nesta altura, o castelo poderá ter tido funções principalmente do ponto de vista militar.
Em 16 de Fevereiro de 1267, foi assinado o Tratado de Badajoz, onde o rei de Leão e Castela, D. Afonso X, se comprometeu a entregar ao rei D. Afonso III de Portugal os castelos na região do Algarve, incluindo o de Aljezur. Em 12 de Novembro de 1280, o rei D. Dinis emitiu o foral de Aljezur, na vila de Estremoz. Em 1 de Dezembro de 1297, aquele monarca trocou a vila de Almada e a quinta de Alfeite, pelos castelos de Monchique e Aljezur e as vilas de Almodôvar e Ourique, que passaram a pertencer à Ordem de Santiago. Esta decisão fez parte do processo de libertação da Ordem de Santiago dos mestres de Castela, iniciado por D. Dinis.
thumb|Mapa da Villa de Aljezur, publicado na obra O Archeologo Português em 1903. O centro de Aljezur está situado numa península formada pelas ribeiras de Aljezur (originalmente conhecida como da Serra ou do Pomarinho), das Alfambras e do Areeiro, enquanto que o castelo está a Sudoeste do centro
Idade moderna O castelo terá sido abandonado no período entre os finais do século XV e os princípios do século XVI, uma vez que perdeu importância como posto defensivo, devido ao assoreamento da Ribeira de Aljezur, que diminuiu a sua navegabilidade. Outro motivo que contribuiu para o abandono do castelo foi uma redução da importância estratégica da vila de Aljezur, e uma necessidade de defender pontos mais importantes na região do Algarve. Com efeito, os fragmentos de cerâmica que foram descobertos na parte superior do enchimento das estruturas, utilizado como lixeira, são típicas do período de transição do século XV para o XVI.
No século XV, o castelo já se encontrava em avançado estado de abandono, como foi relatado por uma visitação da Ordem de Santiago à vila de Aljezur, em 1448 ou 1482. Segundo este documento, a muralha ocidental estava em ruínas, enquanto que as portas estavam danificadas e não tinham fechaduras. Foi proibida a remoção de pedra ou de cantaria para ser utilizada noutros edifícios, e foram deixadas normas para que fosse feita a reedificação das partes das muralhas já arruinadas e limpeza da cisterna, que estava a ser utilizada como local de depósito para entulho. No entanto, as obras de recuperação do castelo não chegaram a avançar, apesar de terem sido reforçadas pelo rei D. Manuel, no âmbito do seu programa de ordenamento do território. Aquele monarca emitiu um novo foral para Aljezur em 20 de Agosto de 1504, tendo a vila ganho o estatuto de honrada. Apesar disto, desde então que o castelo foi deixado ao abandono, entrando num profundo processo de degradação, que foi testemunhado pelos autores entre os séculos XVI e XIX. Apesar do estado de abandono da fortaleza, ainda assim continuou a ter alcaides-mores, função que foi desempenhada pelos Condes de Vila Verde, e posteriormente pelos Marqueses de Angeja.