O Ornitólogo () é um filme luso-franco-brasileiro do género drama de 2016, realizado por João Pedro Rodrigues e escrito por Rodrigues com João Rui Guerra da Mata. A longa-metragem acompanha Fernando (interpretado por Paul Hamy), um ornitólogo que procura cegonhas pretas em Portugal quando se envolve numa série de incidentes paralelos à vida de Santo António de Pádua. O realizador descreveu o seu filme como uma "reapropriação propositadamente transgressora e blasfema da vida do santo".

A obra estreou internacionalmente no Festival Internacional de Cinema de Locarno, a 8 de agosto de 2016, onde Rodrigues foi premiado com o Prémio Leopardo para melhor realização. O Ornitólogo estreou-se comercialmente em Portugal a 20 de outubro de 2016, em França a 30 de novembro do mesmo ano, e no Brasil a 30 de março de 2017.

Enredo Fernando, um ornitólogo português de 35 anos, está num parque natural acampando sozinho na beira de um rio. Numa expedição por tempo indeterminado, o homem tem todo o equipamento necessário, incluindo uma caixa de medicamentos essenciais à sua sobrevivência. Procura cegonhas pretas selvagens no norte de Portugal, perto da fronteira espanhola. Entra no seu caiaque amarelo para observar todo o tipo de lindos pássaros. Regista as suas observações num gravador. Está tão atento ao olhar através dos seus binóculos que não se apercebe da proximidade de rápidos. Quando o seu caiaque é arrastado pelas correntes e se vira, Fernando quase se afoga.

Duas peregrinas chinesas, Fei e Lin, aparentemente amigáveis, ​que se desviaram do caminho de Santiago de Compostela, encontram o corpo de Fernando. Uma das mulheres insiste ser seu dever tentar ajudá-lo. Elas ressuscitam Fernando. Ele fala português e elas chinês, mas o inglês permite que comuniquem. Fernando explica-lhes que as peregrinas estão distante da rota para Santiago. As mulheres revelam ter medo dos espíritos da floresta e ornitólogo demonstra não ser crente. Fazem-no beber um chá soporífero. Quando Fernando acorda, encontra-se seminu e amarrado a uma árvore. Querendo puni-lo pela sua falta de fé, as peregrinas prepararam-se para castrar Fernando. De certa forma, o ornitólogo também se sente sexualmente estimulado por estar amarrado.

Durante a noite, Fernando consegue libertar-se. Sobe ao alto de um penhasco procurando segurança. O seu telefone não funciona. Mantém-se em fuga, entrando na floresta misteriosa e escura, em vez de encontrar um caminho de volta. A sua jornada torna-se cada vez mais estranha. A floresta revela-se progressivamente mais densa e as rochas mais altas. Na noite de lua cheia, encontra caretos bêbedos, que falam mirandês enquanto dançam ao redor de uma fogueira, num ritual de matança de um javali. No dia seguinte, conhece um pastor de cabras surdo e mudo chamado Jesus. Os dois não confiam um no outro, mas quando Jesus vai nadar nu para a margem do rio, Fernando sente-se seduzido e junta-se a ele. Jesus compartilha a sua comida. Enquanto tomam banho de sol, Fernando mostra a Jesus como funcionam os seus binóculos. Eles fazem amor. Jesus usa um apito e o seu cão para juntar as suas cabras. Fernando irrita-se ao ver que Jesus tem a sua camisola. Jesus arma-se com uma faca e os dois iniciam uma luta. Fernando esfaqueia Jesus, matando-o.

Fernando continua a sua jornada procurando alimentar-se a partir de uma macieira e de ovos de pássaro. Encontra uma antiga abadia abandonada com estátuas de santos e anjos. Fernando fala com alguns peixes Koi num lago e pergunta-lhes quem os alimenta. O ornitólogo ouve o som de uma buzina após os qual surgem três mulheres em topless, montadas a cavalo, que caçam com os seus cães. Existem alces e veados na floresta. Uma das caçadoras dispara contra um alce que desaparece e Fernando reage como se tivesse sido ele atingido pela bala. Elas oferecem-lhe comida e ajuda. As amazonas dirigem-se ao ornitólogo em latim, chamando-o de Antonius. Depois de garantir que está bem, elas partem.

Todas estas experiências surreais transformam Fernando numa nova pessoa. Começa a ser acompanhado por um pombo branco que não cessa de o seguir depois de o ornitólogo ter cuidado da sua asa partida. No final, o homem encontra o seu caminho fora da floresta e caminha na beira da estrada, em direção a uma placa da cidade de Pádua. Jesus e Fernando entram na cidade e, do outro lado da rua, as duas peregrinas chinesas acenam e gritam saudações amigáveis.

Elenco

Paul Hamy, como Fernando / António; João Pedro Rodrigues (Voz de Fernando / António). Xelo Cagiao Teijo, como Jesus / Tomé (irmão gémeo de Jesus). Han Wen, como Fei. Chan Suan, como Lin. Juliane Elting, como Caçadora loura. Flora Bulcão, como Caçadora 1. Isabelle Puntel, como Caçadora 2. Caretos: Alexandre Alverca; André Freitas; Ricardo Jorge; Miguel Ângelo Marujo; Gil Mendes da Silva; Nuno Santos; David Silva Pereira.

Equipa técnica

Realização: João Pedro Rodrigues Argumento: João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata Produção: João Figueiras com Diogo Varela Silva, Vincent Wang, Antoine Barraud, Gustavo Ángel, Alex García e Maria Fernanda Scardino Música original: Séverine Ballon Direção de fotografia: Rui Poças Som: Nuno Carvalho Direção de arte: João Rui Guerra da Mata Assistente de realização: Paulo Guilherme Montagem: Raphaël Lefèvre

Produção O Ornitólogo resulta de uma produção internacional entre os estúdios Blackmaria (Portugal), House on Fire (França) e Ítaca Filmes (Brasil). O Instituto do Cinema e Audiovisual atribuiu ao filme um apoio financeiro de setecentos mil euros (), e apoios adicionais da RTP, Centre National du Cinéma et de l’Image Animée, do Ministère des Affaires Étrangères et du Développement International, Institut Français e Agência Nacional do Cinema.

Desenvolvimento O desenvolvimento da narrativa do filme foi motivado por um interesse João Pedro Rodrigues em pesquisar acerca de características e eventos da vida de Santo António que viriam a encontrar paralelismo com o protagonista do argumento. Entre esses eventos, o acolhimento do Santo por franciscanos após um naufrágio no sul de Itália serviu de ponto de partida para o enredo. Excertos do sermão datado de 1222, de Santo António de Pádua na sua ordenação sacerdotal em Forlì, foram incluídos no argumento do filme que Rodrigues escreveu em parceria com João Rui Guerra da Mata. Assumindo que "queria descobrir de que forma Santo António vivia dentro de mim", Rodrigues pontuou a narrativa com aspetos biográficos, como o facto de ter estudado ornitologia sozinho.http://www.salzgeber.de/presse/pressehefte/todielikeaman_ph.pdf

Casting Um dos coprodutores franceses sugeriu Paul Hamy para interpretar o protagonista homónimo, como o ornitólogo Fernando, também chamado de Antonius. Segundo Rodrigues, para o papel era necessário "encontrar alguém que atuasse mais com o corpo do que com palavras, também porque não há muitos diálogos no filme." Ao conhecer Hamy, chamou-lhe a atenção as potencialidades da fisicalidade no estilo de interpretação do ator, o que determinou a sua contratação. No filme, o próprio realizador empresta a sua voz ao ornitólogo Fernando e encarna o próprio Santo António.

Rodagem As gravações iniciaram-se em agosto de 2015 e foram finalizadas em novembro do mesmo ano. João Pedro Rodrigues e o cinematógrafo Rui Poças rodaram o filme nas paisagens rochosas e de floresta do rio Douro, no norte de Portugal, mas também na cidade italiana de Pádua, onde fica o local de peregrinação Basílica de Sant'Antonio com o túmulo do Santo. Para o filme, decidiu-se gravar em CinemaScope, uma opção atípica do cinematógrafo Poças. A rodagem de O Ornitólogo foi fisicamente muito exigente para Paul Hamy que não só partiu os dois tornozelos, como quase perdeu o uso dos dedos dos pés durante a cena do afogamento.Thierry Chèze, «TKITOI?», Studio Ciné Live n°84,‎ novembre 2016, p. 24

Música A banda sonora original foi composta por Séverine Ballon, que Rodrigues conheceu no ano letivo 2014/2015 em que lecionou no Radcliffe-Harvard Film Study Center. Canção do engate, do álbum Dar & Receber de António Variações, foi escolhida pelo realizador para encerrar o filme porque "transmite a ideia de que os finais felizes nem sempre são assim".

Temas e estética miniaturadaimagem|A iconografia do Martírio de S. Sebastião, aqui da autoria de Antonello da Messina, é referenciada no filme. Com o argumento de O Ornitólogo, Rodrigues e Guerra da Mata adaptam a mitologia de Santo António, um franciscano do século XIII padroeiro dos viajantes. Tal mito está profundamente enraizado na cultura e sociedade portuguesas. O enredo assume características de alegoria, pelo modo como contextualiza na contemporaneidade algumas lendas da vida de António. Nas palavras de João Pedro Rodrigues: "O filme é uma alusão ousada que beira a blasfémia sobre a vida do santo. Algumas passagens do seu sermão de 1222, bem como alguns episódios, entram no filme, mas no decorrer do filme o ficcional toma a dianteira." Assim, ao protagonista de O Ornitólogo é atribuído o nome Fernando, o nome que a família nobre do Santo lhe deu à nascença. Fernando prega aos peixes tal como António fez, mas também refletindo um discurso semelhante a outro contemporâneo do Santo: Francisco de Assis.

De facto, além de Santo António, o filme apresenta outros motivos e iconografia religiosos. Entre estas referências, está a imagética histórico-artística de Sebastião de Narbona, soldado que viveu no século III, cujo martírio é recriado pelas peregrinas ao amarrar o protagonista a uma árvore. Também a arte do poster original de O Ornitólogo mostra Fernando numa pose semelhante à dos Santos em outras representações iconográficas.

O Ornitólogo foi também comparado a La Voie Lactée, de Luis Buñuel, um outro filme que representa uma viagem pela mitologia cristã, com um pé no presente histórico e outro num imaginário atemporal. Rodrigues usa igualmente características do cinema western para recriar uma atmosfera fantasista e mítica. A partir de eventos misteriosos, o realizador aborda um tema de preservação cultural e natural. A acidentada paisagem setentrional do filme está associada ao cinema de António Reis, o antigo mentor de Rodrigues, em particular ao clássico Trás-os-Montes, que explora os mitos e rituais da região. Em O Ornitólogo, o folclore do Alto Douro é representado pelos caretos que falam em mirandês.

Neste filme, o realizador recorre a drones para filmar planos aéreos com o propósito de representar o ponto de vista das aves. Assim, Fernando é o primeiro protagonista do autor que não só é voyeurista, mas é também alvo do voyeurismo.

Continuidade artística Vários críticos, como Luís Miguel Oliveira, denotaram que uma das singularidades de O Ornitólogo é assumir-se como um sumário da obra de João Pedro Rodrigues. O filme acumula inúmeros elementos presentes nas suas curtas e longa-metragens anteriores, como a primazia conferida ao corpo e o equilíbrio entre a liberdade da imaginação e o rigor da forma. A referência mais óbvia é a curta-metragem Manhã de Santo António, na qual Rodrigues não só fez uma releitura do sagrado, como abordou a cultura lisboeta associada ao seu padroeiro. Outras referências estão nas personagens chinesas dos filmes de Macau ou a fronteira luso-espanhola de Corpo de Afonso.

Uma componente de O Ornitólogo característica da obra de Rodrigues está num homoerotismo difuso, neste filme expressado através da iconografia cristã. O desejo latente encontrado em locais pouco óbvios surge desde a mota de Sérgio em O Fantasma. O tema da metamorfose aparece também neste filme, reforçando-se como eixo central da filmografia de João Pedro Rodrigues. O guião transforma gradualmente o ornitólogo Fernando, na sua exploração identitária, num santo católico. O próprio realizador participa ativamente neste processo transformativo, dando o seu corpo ao Fernando tornado António.

Distribuição Lançamento