A Escola Militar do Realengo foi a instituição formadora de oficiais do Exército Brasileiro, de 1913 até sua transferência a Resende, em 1944, originando a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Ali iniciava a formação da elite militar, parte importante da consolidação do Estado republicano em sua época. Seus alunos, denominados cadetes após 1931, formavam-se como aspirantes-a-oficial, aptos a chefiar pelotões, e eram designados para os corpos de tropa. Mais acima na hierarquia militar, os oficiais prosseguiriam a instrução na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e outras instituições. Cadetes da Aviação tinham apenas o início da formação no Realengo, concluindo-a na Escola de Aviação Militar, situada no Campo dos Afonsos.

Sua antecessora, a Escola Militar da Praia Vermelha (EMPV), tinha um currículo de teor civil e científico, formando “bacharéis fardados”, politicamente engajados. Nem eles e nem os “tarimbeiros”, os oficiais mais práticos formados na tropa, tinham uma formação militar moderna. As reformas do Exército no início do século XX procuraram tornar o ensino prático, de teor técnico-profissional, e formar oficiais disciplinados e fiéis à hierarquia. Nesse sentido, a formação foi transferida para o Realengo, bairro suburbano do Rio de Janeiro, mais distante da agitação política da capital federal e com espaço para o treinamento militar em campo. Os alunos continuavam vindo em grande parte da classe média urbana. Os cursos das Armas da Artilharia e Engenharia já funcionavam no Realengo desde 1905, quando a EMPV foi extinta; os dois outros cursos, Infantaria e Cavalaria, foram centralizados naquelas instalações em 1913.

O novo currículo não incluía ensino teórico, apenas prático ou teórico-prático. Contudo, nos primeiros anos de funcionamento, faltavam recursos, uma situação que começou a mudar em 1918 com a contratação, por concurso, da “Missão Indígena” - um grupo de instrutores influenciados pelo reformismo militar dos jovens turcos. Os alunos foram organizados em subunidades militares dentro de um Corpo de Alunos, e o tempo de curso das quatro Armas foi igualado para três anos. Em 1919–1920, o prédio foi expandido para o tamanho atual, embora as instalações fossem simples. Os exercícios físicos eram rigorosos, e a disciplina, severa. O Realengo tornou-se fundamental para a profissionalização do Exército, proporcionando aos novos oficiais um nível sem precedentes de preparação técnica. No entanto, ao contrário do que as autoridades militares pretendiam, o ambiente era politizado, e o ensino, ao fortalecer uma identidade militar sólida, aumentava o sentimento de superioridade em relação aos políticos civis. Em 1922, ocorreu uma revolta dos alunos e instrutores, marcando o primeiro episódio do tenentismo, com a turma do final de 1919 se tornando o núcleo das revoltas tenentistas.

Após 1922, a Missão Indígena chegou ao fim e a Missão Militar Francesa tomou seu espaço. O ensino prático foi equilibrado com o teórico no currículo. O comando foi assumido em 1931–1934 pelo coronel José Pessoa, que ambicionava tornar os cadetes uma aristocracia moral. Ele aumentou o número de candidatos civis e a vida dos cadetes, que já era em internato integral desde 1930, foi regulada ao nível de uma instituição total, ao mesmo tempo que a disciplina foi abrandada, reformas físicas tornaram a Escola mais confortável, surgiram símbolos e rituais (uniformes históricos, brasão, espadim e estandarte) existentes até hoje, sendo idealizada a transferência da Escola a Resende. Após 1938, o Estado Novo aplicou uma política discriminatória na seleção dos candidatos, procurando formar uma elite institucional homogênea. Ao início dos anos 1940, os cadetes do Realengo atingiram um prestígio na sociedade inexistente na AMAN décadas depois. Os oficiais formados em 1913–1944, a “geração do Realengo”, tinham um sentimento de identidade com suas turmas, e muitos teriam longas carreiras de envolvimento político e ocupação de cargos públicos. Os generais responsáveis pelo golpe de Estado de 1964 formaram-se ali no final dos anos 10 e nos anos 20, e os presidentes da ditadura militar brasileira (1964–1985) eram ex-alunos.

Antecedentes Ensino militar brasileiro antes de 1913

Desde 1898, a única fonte de oficiais para o Exército Brasileiro era a Escola Militar do Brasil, conhecida na historiografia como a Escola Militar da Praia Vermelha (EMPV); as duas outras escolas presentes no final do Império, em Fortaleza e Porto Alegre, foram fechadas. Havia escolas preparatórias para a Praia Vermelha no Realengo e em Rio Pardo. A EMPV foi fechada após entrar em rebelião durante a Revolta da Vacina de 1904. Para afastar os novos alunos da agitação política situada no centro do Rio de Janeiro, o ensino foi disperso para a Escola de Guerra, em Porto Alegre, Escola de Aplicação de Cavalaria e Infantaria, em Rio Pardo, e Escola de Artilharia e Engenharia e Escola de Aplicação de Artilharia e Engenharia, no Realengo. A existência de várias escolas muito distantes exigiu gastos excessivos, sobrecarregado a capacidade administrativa do Ministério da Guerra e impedido um acompanhamento mais atento. Assim, em 1911–1913 as outras escolas foram fechadas e toda a formação de oficiais foi concentrada no Realengo.

O currículo na Praia Vermelha tinha teor civil, privilegiando as ciências matemáticas, físicas, naturais e filosóficas sobre a prática e a técnica militar. O objetivo ia além do preparo militar; os oficiais deveriam dar suporte ao regime republicano e conhecer o mundo da produção e das profissões civis de engenharia. Não havia espaço para exercícios de combate em campo. Só viviam o dia-a-dia dos corpos de tropa os oficiais com menor ou nenhuma educação, os “tarimbeiros”. A formação completa na Praia Vermelha produzia oficiais “científicos”, “bacharéis fardados”, competidores dos bacharéis civis pelo reconhecimento na sociedade. Eram escritores, burocratas e políticos, mas não chefes de campanha competentes. Os jovens oficiais viviam sob grande influência do cientificismo, positivismo e republicanismo e eram engajados na política. Em 1903 o ministro da Guerra Francisco de Paula Argolo descreveu esse tipo de oficial como “inteiramente estranho à verdadeira profissão militar, sem o hábito da disciplina e subordinação, com pronunciada tendência a discutir e criticar as ordens que recebe, e que por todos os meios procura esquivar-se a uma vida cujos misteres considera pouco compatíveis com seu preparo teórico e o seu título científico”. Nenhum dos dois tipos, tarimbeiros ou “científicos”, tinha formação militar técnica e moderna.

Desde a gestão do marechal Mallet no ministério da Guerra (1898–1902) houve um esforço de modernização no ensino militar, mas as condições orçamentárias adequadas só passaram a existir na década de 1910. As mudanças no ensino tinham como contexto outras reformas no Exército, como a criação de uma estrutura orgânica moderna, a instituição do serviço militar obrigatório (a Lei do Sorteio) e a regularidade da instrução e adestramento de tropas. O Exército havia exibido mau desempenho em campanhas como Canudos (1896–1897), e havia desconfiança para com a política externa da Argentina. Os jovens turcos, oficiais subalternos que estagiaram no Império Alemão a partir de 1906, fundaram a revista A Defesa Nacional ao retornar ao Brasil, propondo amplas modernizações que deveriam começar na instrução militar.

O Realengo antes de 1913 miniaturadaimagem|Região da Escola e Vila Militar em 1922|esquerda O Realengo tem sua história muito ligada aos militares. As Forças Armadas tinham presença desde 1857, ano da fundação da Escola Geral de Tiro do Campo Grande. O Exército e, posteriormente, outras corporações militares adquiriram propriedades por negociações com a Câmara Municipal, desapropriações e compras de antigos foreiros. Com o passar das décadas, formou-se um corredor de áreas militares na Vila Militar, Deodoro, Realengo e Campo dos Afonsos. A região era atravessada pela Estrada de Ferro Central do Brasil. Havia terras desocupadas de sobra; a urbanização só acelerou nos anos 1930.

A tendência era a expansão dos quartéis para longe do centro, acompanhando a malha ferroviária, devido à valorização imobiliária, a necessidade de espaços abertos para treinar novos armamentos e manobras e a proteção dos depósitos de material bélico. Esses foram os motivos para a instalação da Escola no Realengo, juntamente com a pré-existência de áreas militares e o afastamento dos alunos do contágio político do centro da cidade. Na década de 1930, o coronel José Pessoa avaliou negativamente o local, considerando-o de clima desagradável, paisagem monótona, vulnerável aos surtos de malária dos pântanos circundantes e, ainda assim, perto demais do centro da cidade. Essas considerações motivaram a futura transferência da Escola a Resende em 1944.

A Escola Geral de Tiro foi transformada na Escola Prática do Exército na Capital Federal, em 1891, Escola Preparatória e de Tática do Realengo, em 1898, e Escola de Artilharia e Engenharia, em 1905. Essa última escola já era semelhante à Escola Militar, que surgiu pela transferência dos dois outros cursos (Infantaria e Cavalaria). Uma Escola de Sargentos funcionou com alguns alojamentos da Escola Prática em 1893–1896, mas não teve sucesso. Em 1897 a região teve expansão industrial com a abertura da Fábrica de Cartuchos. Na década de 1910, as áreas periféricas permaneciam ocupadas por pastagens, que davam lugar à citricultura. A área urbana era pouco relevante, e a canalização de água só foi realizada no início da década seguinte. A Escola Militar, Fábrica de Cartuchos, estação ferroviária e capela de Nossa Senhora de Conceição eram as principais referências.

Influências e objetivos miniaturadaimagem|José Pessoa, ao centro, ao assumir o comando em 1931 A escola preparatória de oficiais é a principal instituição educacional de um exército. Na primeira metade do século XX, a formação dos oficiais foi importante na consolidação do Estado republicano brasileiro, na qual o Exército foi ator importante. Para o general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, a Escola Militar era a “galinha dos ovos de ouro”, berço da elite militar. As autoridades militares usaram-na como “laboratório” para experimentar formas diferentes de educar os oficiais. O Realengo tornou-se o berço da profissionalização do Exército, processo pelo qual ele consolidou seu espírito de corpo e habilidade para administrar a força do Estado, aprofundando sua diferença das demais instituições.

Desde a reforma educacional de 1905, o principal objetivo das autoridades era substituir o ensino teórico-cientificista pela formação prática de oficiais comandantes de tropa. À época, a educação no Brasil em geral movia para um modelo mais prático devido à industrialização e urbanização. Para o Exército, os “bacharéis fardados” não saberiam empregar os novos armamentos e meios de transporte e representavam o risco de revoltas como em 1904. Entretanto, o impacto das reformas foi mitigado pela escassez de recursos humanos e materiais da Escola Militar até 1918, refletindo a falta de equipamentos no Exército como um todo.

A influência dos jovens turcos, já presente na elaboração do primeiro regulamento da Escola, em 1913, aumentou no regulamento de 1918. Vários integrantes do grupo foram admitidos ao Estado-Maior do Exército (EME) em 1910–1914, sob a chefia de José Caetano de Faria, que em seguida foi ministro da Guerra em 1914–1918. A Primeira Guerra Mundial foi o fator externo que permitiu as reformas, alterando a forma como a guerra era conduzida e aumentando a importância do Exército. O modelo era germânico. Os alunos aprenderiam a agir e pensar como soldados para então comandar com conhecimentos técnicos e profissionais avançados.