thumb|right|Thesmophoria por Francis Davis Millet, 1894-1897, óleo na lona, museu de arte da universidade de Brigham Young

As Tesmoforiantes ou As mulheres que celebram as Tesmofórias (em grego: Θεσμοφοριάζουσαι), foi uma comédia escrita por Aristófanes e encenada em 411 a.C., nas Grandes Dionisíacas, festival em honra ao deus Dioniso.MATA, 2009, P. 11. Nessas festas, além dos rituais em homenagem a Dioniso, existiam dias reservados para as competições de tragédia e comédia. As peças teatrais eram apresentadas e o público votava na sua preferida.MURRAY, 1968, apud FARIA, 2010, P. 03.

A peça As Tesmoforiantes apresenta diversas mulheres atenienses reunidas no templo de Deméter e Perséfone para celebrar o festival das Tesmofórias, ocasião em que a presença masculina é proibida. Nesse espaço sagrado elas planejam se vingar de Eurípides pela forma como são retratadas nas suas tragédias. Eurípides pede que o poeta Agaton, caracterizado diversas vezes por Aristófanes como tendo trejeitos efeminados, defenda sua causa na assembleia das mulheres. Diante da recusa de Agaton, um parente de Eurípides, provavelmente seu sogro, se disfarça de mulher e participa da assembleia no intuito de salvar Eurípides da condenação. Porém, ele acaba sendo descoberto e preso. Eurípides não tem outra alternativa a não ser ir até o Tesmofórion, mas a sua tentativa de fazer um acordo com as mulheres é frustrada e acaba tendo que ajudar o parente a fugir da prisão.

As comédias de Aristófanes são constantemente apontadas como peças com forte viés de crítica política, dada a maneira como o comediógrafo abordava em suas obras as questões do cotidiano grego aliadas às questões políticas da época. Muitas de suas peças apresentam, em diversos pontos de vista, uma espécie de debate tendo como tema a desordem da pólis advinda dos conflitos entre os velhos valores, sejam eles morais ou políticos, e os novos. Essa característica imprime um caráter de afirmação das velhas tradições, em contraposição às mudanças, em suas peças teatrais.MATA, 2009, P. 121.

É grande a comparação entre a abordagem política d’As Tesmoforiantes e a apresentada em Lisístrata, outra peça de Aristófanes encenada no mesmo ano, porém no festival dionisíaco das Leneias.MATA, 2009, P. 11 As Tesmoforiantes foi uma peça não tão explorada pelos estudiosos do teatro grego por parecer não se aprofundar nas críticas sociais pelas quais o Aristófanes era conhecido. Por outro lado, Lisístrata evidenciaria os ares de crise e traição atenienses da época.MURRAY, 1968, apud FARIA, 2010, P. 1-2. O enredo principal de Lisístrata  gira em torno de um grupo de mulheres que, com o objetivo de acabar com a Guerra do Peloponeso, se trancam em um templo e decidem por votação fazer uma greve de sexo até que os homens acabem com os combates.ARISTÓFANES, tradução por VIEIRA, 2011 A peça apresenta Lisístrata, uma personagem feminina forte, ao contrário de As Tesmoforiantes, que apesar de ter muitas mulheres na trama, não possui uma personagem marcante ou uma ideia inovadora.FARIA, 2010, P. 06.

Personagens Personagens Principais Eurípides (Εὐριπίδης) - dramaturgo, que viveu de 484 a 406 a.C. Na peça, ele é julgado pelas mulheres no festival das Tesmofórias, por caluniar a reputação feminina em suas peças. Parente de Eurípides - se infiltra na assembleia feminina, a mando de Eurípides, para defendê-lo do julgamento das mulheres. Agatão ('Aάθων) - dramaturgo que viveu de 448 a 400 a.C. Eurípides o procura pedindo sua ajuda para se livrar do julgamento no Tesmofórion. Mica - Mulher que faz parte da assembleia durante o festival das Tesmofórias. Ela reconhece o parente de Eurípides mesmo estando travestido no meio das mulheres, e tem sua filha ameaçada pelo mesmo no final da peça. Coro - Voz que narra os acontecimentos durante a peça. Corifeu - O chefe do coro que enuncia partes isoladas do texto e dialoga com os atores.

Personagens Secundários Clístenes Criado Autoridade Arqueiro

Enredo da Peça As Tesmoforiantes gira em torno das mulheres que celebram o festival das Tesmofórias. Elas formam uma espécie de assembleia feminina, onde apresentam o “crime” de difamação cometido por Eurípides em suas tragédias e votam para julgá-lo.ARISTÓFANES, tradução por VIEIRA, 2011, verso 80-85.

Ciente que seria julgado pelos mulheres em uma assembleia, Eurípides vai então à casa de Agatão (448 – 400 a.C.) com o intuito de pedi-lo para entrar travestido de mulher no Tesmofórion, templo em honra às deusas Deméter e Pérsefone, para defendê-lo diante das mulheres. Agatão, que assim como Eurípides era um poeta trágico, é apresentado por Aristófanes como efeminado, por causa de seus trejeitos e vestes.POMPEU, 2008. P 92. Contudo, Agatão se recusa a ajudar Eurípides alegando que elas ficariam com inveja de sua beleza e poderiam querer se vingar por causa da concorrência que ele significava para elas.POMPEU, 2008, verso 205.

Não restando outra opção, Eurípides recorre ao seu parente que, por fidelidade, aceita se transvestir de “mulher” e entrar no Tesmofórion com o intuito de defendê-lo diante das mulheres. Normalmente o parente de Eurípides é reconhecido como Mnesíloco, seu sogro, mas na peça aparece apenas como parente, possível indicativo de uma alusão mais ampla e abrangente.POMPEU, 2008, P. 92.

Após o parente se infiltrar no julgamento, a primeira a acusar Eurípides é a personagem Mica, mulher que culpa o tragediógrafo pelo ciúme excessivo dos maridos atenienses. Como Eurípides sempre as retrata em suas tragédias como “traidoras, beberronas de miolo mole e pragas dos maridos”, todos acreditavam que elas eram de fato assim.ARISTÓFANES, Tradução por VIEIRA, 2011, versos 385, 390 e 395. Ouvindo o argumento de Mica, o parente sai em defesa de Eurípides e, tem início, então, um longo embate de argumentos entre ele e as mulheres que o acusam.ARISTÓFANES, Tradução por VIEIRA, 2011, verso 470.

Por causa da insistência do parente em argumentar em defesa de Eurípides, as mulheres acabam descobrindo que ele está travestido de mulher e infiltrado no julgamento. O parente então rapta um bebê e ameaça matá-lo se não o deixarem ir sem ser punido pela difamação que ele havia cometido. Logo após isso um comissário e um arqueiro são chamados e o prendem.ARISTÓFANES, Tradução por VIEIRA, 2011, versos 690, 930 e 1000.

As mulheres dão continuação ao festival e o poeta tenta livrar seu parente da prisão, sem sucesso. Até que Eurípides faz um acordo: seu parente é solto e ele nunca mais ofenderia ou diminuiria uma mulher em suas obras. As mulheres não aceitam o acordo, então o parente e Eurípides fogem, após enganarem o arqueiro que os guardava.ARISTÓFANES, Tradução por VIEIRA, 2011, verso 1210.

O teatro grego thumbnail|350px|O Teatro de Dionísio em reconstituição do século XIX.

A palavra teatro deriva do verbo grego theasthai, olhar, contemplar.MATA, 2009, P. 118-126. O teatro ateniense surge em forma de rituais coletivos, dedicados aos deuses, ou seja, um evento religioso. Entretanto, a grandiosidade dessa prática não se limitava à religiosidade, invadindo também a democracia ateniense e a estrutura física e social da polis. Exemplos disso são dados pelos cortejos feitos para exaltar a grandeza de Atenas durante alguns dos festivais teatrais. O teatro servia como uma forma de expressão muito importante para representar aquilo que estava acontecendo em Atenas.

Com isso, surge um novo complexo que alcança a literatura e até o comportamento humano, consistindo em dois grandes gêneros: a comédia e a tragédia. Aristófanes, sendo um dos destaques da comédia antiga, expressa em suas peças ideias e debates sobre sistemas de valores que são de suma importância para a nossa compreensão do que foi a Atenas antiga. A rica variedade da vida na Ática foi acolhida nas produções teatrais, por exemplo as oscilações políticas, os avanços marítimos e suas frotas, a mudança no mundo da arte, a peculiaridade das personalidades, a inserção de novas ideias; cada qual com sua representatividade dos acontecimentos clássicos.

A história da comédia está dividida em três etapas, desde a época dos filósofos alexandrinos: comédia antiga de Aristófanes; a comédia média; e a nova, que incluem os trabalhos do teatrólogo Menandro.MATA, 2009, P. 67-68. No primeiro período da comédia, as peças e o estilo de vida da cidade na época se entrelaçaram de maneira tão grande que chegaram a chamar de comédia-política, uma vez que teatrólogos como Aristófanes representavam em suas obras situações para fazer o público gargalhar e repensar nas situações do cotidiano passado. Naquela época, a pólis passava por um conflito de inserção de novos valores, novas condutas e novas ideias filosóficas. Desta maneira, a comédia interpretava o restabelecimento de uma ordem antiga em contraste com a possibilidade de um mundo moderno. Menandro e outros nomes da comédia nova como Filémon e Difilo, se destacaram por explorar outros temas, preferindo enredos que girassem em torno de identidades falsas, intrigas familiares e amorosas. Representaram uma profunda mudança nas características do gênero em que a fixação de tipos e de costumes substituíram a sátira.LESKY, 1971: 235 apud MATA, Giselle Moreira da. “Entre risos e lágrimas”: uma análise das personagens femininas atenienses na obra de Aristófanes (séculos VI a IV a.C.).Dissertação (Mestrado) - Curso de História, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2009. Disponível em: <https://pos.historia.ufg.br/up/113/o/DISSERTA__O_PDF.PDF>.

Os registros que temos sobre as comédias e tragédias podem nos abrir os olhos para muito mais além da rica herança literária da Grécia, elas nos ajudam a entender o comportamento e pensamento do homem de Hélade, principalmente o ateniense. Com o real e o fantástico, conseguimos perceber como elas formaram a representação inimitável de Atenas. O teatro nada mais nos introduz na ótica de como a cidade se vê, ou de como ela gostaria de ser vista.

Festividades cívicas na Grécia As festividades tinham suma importância na organização da época. Os gregos denominavam a palavra festa usando duas expressões: Heorté e Thalía. Heorté significava deleite, alegria e celebração enquanto Thalía era associada ao verbo thallo, que denota germinar.FARIA, 2010, P. 109.

O significado dessas palavras é necessário para entendermos o conceito de festas nessa sociedade. As festividades no mundo grego eram demonstrações de identidade e hierarquias sociais, sendo rituais cheios de simbologias. Eram também rituais onde o mortal entrava em contato com o imortal.MATA, 2009, P. 62.

Acreditava-se que os deuses haviam se unificado aos ciclos da natureza e estavam inteiramente ligados aos processos agrícolas e a fertilidade. Para essas sociedades, as estações do ano estavam conectadas com as manifestações divinas, fazendo delas responsáveis pelas estações do ano, as fases da lua e também em relação a fertilidade da terra, tanto na agricultura como na pecuária.

Podemos perceber tal comportamento analisando por exemplo, as festividades dedicadas a Dioniso, Deméter e Perséfone, que são deuses ligados à agricultura, revelando o meio que o povo grego encontrou de manter relações com o sagrado.MATA, 2009, P. 63-64. As festividades na Grécia, tinham como objetivo enaltecer e agradar os deuses, com rituais como orgias e sacrifícios. Demonstrando assim, o quão a sociedade antiga se apoiava aos mitos e à religiosidade.MATA, 2009, P. 64.

Com esse apego a mitologia, usavam o teatro como rituais coletivos para enaltecer e adorarem seus deuses. Fazendo com o que teatro se tornasse um evento comemorativo e religioso.MATA, 2009, P. 68.

O festival das Tesmofórias