Os afídios, afídeos, pulgões ou piolhos-das-plantas são insetos diminutos que se alimentam da seiva de plantas, da superfamília dos afidoídeos, ou Aphidoidea (algumas fontes registam ApidoideaCASTELO-BRANCO, Fernando; Afídio, in "Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira da Cultura, Edição Século XXI", Volume I, Editorial Verbo, Braga, Janeiro de 1998) na divisão Homoptera da ordem dos Hemiptera. Cerca de 250 espécies constituem sérias pragas para a agricultura, floresta e jardinagem ao sugarem a seiva das plantas e servindo como vetor de transmissão de vírus.
A joaninha é um dos seus principais predadores. Existem por todo o mundo, embora a maioria prefira as regiões temperadas.
São mais frequentes em regiões temperadas, onde também existem maior diversidade de espécies, ao contrário do que acontece com outros grupos taxonómicos de seres, que costumam apresentar maior biodiversidade em zonas tropicais. Podem migrar por grandes distâncias, principalmente através de dispersão passiva, levados pelo vento. Por exemplo, acredita-se que o piolho-da-alface (Nasonovia ribisnigri) ter-se-á dispersado a partir da Nova Zelândia para a Tasmânia desta forma. A sua dispersão a nível global deve-se também ao transporte, por parte de humanos, de materiais vegetais infectados.
Taxonomia Os afídeos pertencem à superfamília Aphidoidea na divisão homóptera da ordem Hemiptera. Classificações recentes dos Hemiptera reduziu o antigo grupo taxonómico "Homoptera" em duas subordens: Sternorrhyncha (e.g., afídeos, moscas-brancas, cochonilhas (superfamília Coccoidea), psilídeos, etc.) e Auchenorrhyncha (e.g., cigarras, cicadelídeos, membracídeos, fulgoromorfos, etc.). Reclassificações mais recentes rearranjaram substancialmente as família pertencentes aos Aphidoidea: algumas antigas famílias foram reduzidas a subfamílias (por exemplo, Eriosomatidae transformou-se na subfamília Eriosomatinae), e muitas outras antigas subfamílias foram elevadas à categoria de família.
Relação com filoxerídeos e adelgídeos São, por vezes, também consideradas como afídios as espécies das famílias Phylloxeridae, Adelgidae e da família extinta Elektraphididae, todos da superfamília Phylloxeroidea,WÊGIEREK, Piotr, Apterous Phylloxeroidea (Hemiptera, Sternorrhyncha) from Baltic amber in "Acta zoologica cracoviensia", 46(suppl.– Fossil Insects): 277-283, Kraków, 15 de outubro de 2003, acesso a 10 de março de 2009 ainda que tenham características distintas. Por exemplo, os adelgídeos não apresentam cornículas, características dos "verdadeiros afídeos". Conhecem-se cerca de 4 000 espécies de afídios,DIXON, A. F. G., Aphid reproductive tactics in "Population structure, genetics and taxonomy of aphids and Thysanoptera, The Hague, 1987, SPB Academic Publishing pp. 3-18 classificadas em 10 famílias (não incluindo as três atrás referidas).RAMEL, Gordon, Gordon's Aphid Page - acesso a 14 de março de 2009 thumb|right|225 px|Forma sexúpara de filoxera (Daktulosphaira vitifoliae, por vezes considerada também como sendo um afídeo.) Segundo alguns taxonomistas, esta superfamília é apenas dividida em três famílias muito proximamente relacionadas em termos filogenéticos: Aphididae, Adelgidae e Phylloxeridae.STOETZEL, Manya B., Antennal and Other Characters Useful in Identification of the Aphidoidea (Homoptera) , Proceedings of the Entomological Society of Washington, 1998 Neste caso, a família Aphididae aparece dividida nas subfamílias Mindarinae, Anoeciinae, Phloeomyzinae, Hormaphidinae, Calaphidinae (que inclui Drepanosiphinae e Thelaxinae), Lachninae, Chaitophorinae, Eriosomatinae (antes, Pemphiginae), Greenideinae e Aphidinae.RESH, Vincent H., CARDÉ, Ring T. "Encyclopedia of Insects", pp. 1085 , Academic Press, 2003 - acesso a 15 de março de 2009 Outros autores, ainda, consideram a existência de duas superfamílias: Phylloxeroidea e Aphidoidea, dentro da ordem Homoptera, caracterizadas por serem compostas por espécies de insetos sugadores de seiva vegetal.Aphid Ecology - An optimization approach, Second Edition, A.F.G. Dixon, Springer; 2nd ed. edition (1997),
Tal como os afídeos, a filoxera (inseto que causou uma grande praga que devastou a viticultura europeia no século XIX) alimenta-se da seiva que corre nas raízes, folhas e galhos (de videira), mas não produz, ao contrário dos afídeos, nem melada nem secreções das cornículas.Biology and Management of Grape Phylloxera, Jeffrey Granett, M. Andrew Walker,Laszlo Kocsis, and Amir D. Omer, Annual Review of Entomology, Vol. 46: 387-412, Janeiro de 2001, doi 10.1146/annurev.ento.46.1.387
Os adelgídeos também se alimentam de seiva do floema de plantas. Descritos por vezes como afídeos, distinguem-se destes pelo facto de não apresentarem cauda nem cornículas.
Anatomia left|thumb|Afídio excretando cera defensiva pelas cornículas.
Variam em tamanho, de 1 a 10 mm de comprimento.SARTORIO, Christina, BRADY, Zachary, Aphid Population: Soldier Types and their Association with Non-Soldiers - acesso a 14 de março de 2009 São, geralmente, de cor uniforme, baça ou brilhante, existindo espécimes castanhos, cinzentos, amarelos, verdes, vermelhos ou pretos.
Os órgãos que melhor caracterizam estes insectos são as peças bucais designadas como estiletes,SILVA, Marcelo Lopes, Análise da Diversidade Genética dos Afídeos Schizaphis graminum (Rondani) e Metopolophium dirhodum (Walker) (Hemíptera: Aphididae), Curitiba, 2005, pp. 42 que formam uma probóscide que se projecta na zona intermédia-posterior das articulações anteriores, que usam para furar a superfície dos vegetais e sugar a sua seiva.
Os afídeos têm dois olhos compostos e dois tubérculos oculares (triomatídios),R. A. Cannings and G. G. E. Scudder. The Insect Families of British Columbia. In: Klinkenberg, Brian (Editor). 2008. E-Fauna BC: Electronic Atlas of the Fauna of British Columbia. Lab for Advanced Spatial Analysis, Department of Geography, University of British Columbia, Vancouver. [ Insect Glossary] constituídos por três lentes, ou omatídios, localizados acima e por trás dos olhos compostos. Têm dois segmentos társicos (tarsos biarticulados). O quinto segmento abdominal suporta um par de tubos na superfície dorsal posterior designados como sifúnculos ou cornículas dispostas de forma ascendente, dirigindo-se para a parte posterior do corpo. Os sifúnculos produzem uma cera defensiva rica em triacilgliceróis. Geralmente, têm também uma projecção, em forma de cauda, na parte inferior, entre as cornículas, no último segmento abdominal.
Têm um corpo mole, longo, com articulações finas. Existem formas com ou sem asas nos dois sexos. As asas, quando existem, formam dois pares enlaçados, transparentes, apresentando apenas uma nervura quitinosa longitudinal proeminente. Em repouso, as asas estão sempre em posição erecta ou horizontal. As antenas dos afídeos são compostas por dois segmentos basais e um flagelo com quatro segmentos. Os últimos três destes segmentos dividem-se numa parte proximal e uma parte distal, mais fina, designada como processus terminalis.
Alimentação left|thumb|Formiga recolhendo a melada de um afídeo. Muitos dos afídios são monófagos (alimentam-se apenas de uma espécie de planta - como o piolho-do-morangueiro, ou Aphis forbesi), mas a maioria é polífaga (como o piolho-da-fava, ou Aphis rumicis, que coloniza cerca de 200 espécies).
Tal como acontece com outras superfamílias da ordem Hemiptera (Cicadoidea e Coccoidea), os afídios alimentam-se passivamente de seiva dos vasos condutores do floema das plantas que parasitam. Como esta seiva está sujeita a pressão, entra directamente para o interior do canal alimentar do pulgão quando este perfura o vaso condutor. Os afídeos podem ainda alimentar-se activamente (por sucção) da seiva presente no xilema, quando estão com sede.
Já se acreditou que fossem as cornículas a segregar a substância designada em inglês como "honeydew", ou seja, "orvalho-de-mel" - designada em português, apenas, como "melada" - que os afídeos também segregam.Defence by Smear: Supercooling in the Cornicle Wax of Aphids, John S. Edwards, Letters to Nature, Nature, 211, 73 - 74, 02 Julho 1966; doi:10.1038/211073a0 Hoje em dia sabe-se que este é produzido no próprio canal alimentar, análogo aos nossos intestinos, resultando do excesso de seiva que não chega a ser consumida pelo inseto. Como a proporção de açúcares na seiva é muito maior que a de compostos azotados, e acima das necessidades dos afídeos, estes vão necessitar de ingerir grandes quantidades de seiva, de modo a obter a quantidade necessária de compostos azotados. O que não é digerido, vai constituir a melada, rica em açúcares e que é particularmente procurada pelas formigas.McGAVIN, George C., "Bugs of the World", Facts on File, Nova Iorque, 1993, thumb|right|Forma alada de piolho-da-cerejeira-brava que migra, no Outono, dos cereais para o seu hospedeiro primário (azereiro-dos-danados).
Mutualismo thumb|right|Formiga do género Myrmica recolhendo a melada de um afídio. Algumas espécies de formigas criam afídeos, protegendo-os dos seus predadores naturais, de modo a recolher deles a melada que produzem, o que constitui uma forma de mutualismo. É por essa razão que são, por vezes, designados como "vaca-das-formigas"CASE, Charles C., "Curiosities", Review and Herald Pub Assoc, 2007, De modo a obter a melada, as formigas acariciam os afídeos com as suas antenas,Ant, Linda M. Hooper-Bui, World Book Encyclopedia, 2008, comportamento que algumas também estabelecem, visando o mesmo fim, com cochonilhas-farinhentas.
Algumas destas espécies de formigas pastoras reúnem e armazenam ovos de afídios nos seus formigueiros durante o inverno. Na primavera, fazem retornar os afídios recém eclodidos para as plantas onde se alimentarão. Outras espécies de formigas, como a formiga-amarela-do-prado europeia, Lasius flavusInsects of the World, Anthony Wootton, Blandford, Cassell Plc, 1984, reprinted 1999, geram grandes enxames de afídios que se alimentam a partir das raízes de plantas na própria colónia de formigas. As formigas rainhas, ao saírem para fundar uma nova colónia, levam consigo um ovo de afídio para aí criar um novo enxame.
Outra variação neste género de relação entre formigas e afídeos envolve borboletas da família dos licaenídeos e formigas do género Myrmica. Por exemplo, borboletas da espécie Niphanda fusca fazem a postura de ovos em plantas onde as formigas criam uma população de afídeos. Dos ovos nascem lagartas que se alimentam dos afídeos. Nesse caso, as formigas não defendem os afídeos, mas levam as lagartas para o seu formigueiro, onde serão alimentadas e onde serão elas a produzir melada utilizada pelas formigas. Quando as lagartas atingem o seu tamanho máximo, arrastam-se para a entrada da colónia onde se transformam em pupas, dentro de casulos. Duas semanas depois, as borboletas emergem dos casulos e levantam voo.pp. 78 e 79, Insects and Spiders, Time-Life Books,
Algumas abelhas em florestas de coníferas também recolhem melada de afídios para produzir "mel de melada".
Quase todos os afídeos hospedam bactérias endossimbiontes em células especializadas (os bacteriócitos) que, crê-se, sintetizam aminoácidos, esteróis e vitaminas essenciais que não estão presentes na seiva, proveniente do floema, consumida pelo insecto. A bactéria Buchnera aphidicola é a mais comum nestes afídeos e parece estar relacionada com a função reprodutiva e com o desenvolvimento dos afídeos, já que não aparece nos machos e vai diminuindo a sua população à medida que o afídeo envelhece. A bactéria é transmitida às descendentes ainda no estádio de ovo. Outras espécies de afídeos, em particular do grupo Cerataphidini têm células hospedeiras de leveduras no hemocelo.
Reprodução e migração