Aulo Vitélio Germânico (em latim Aulus Vitellius Germanicus; 24 de setembro de — 22 de dezembro de ) foi imperador romano. Foi aclamado pelas legiões que comandava, estacionadas na Germânia, e venceu as tropas de Otão na Primeira Batalha de Bedriaco. Reinou apenas oito meses, de 16 de abril até 22 de dezembro de 69, durante o ano dos quatro imperadores, mas ficou famoso por seu apetite e sua crueldade. Derrotado pelos exércitos de Vespasiano na Segunda Batalha de Bedriaco, foi capturado, despido, chicotado e lançado ao rio Tibre. Foi o primeiro imperador a acrescentar o cognome honorífico de Germânico ao seu nome, em vez do de césar.
Família e juventude Era filho de Lúcio Vitélio e da sua esposa Sextília, bem como irmão de Lúcio Vitélio. Suetônio redigiu dois relatos sobre as origens dos Vitelii, num afirma que descendiam dos antigos dirigentes do Lácio, enquanto no outro sustém que as suas origens eram muito mais humildes.
Suetônio escreveu que o horóscopo do dia do seu nascimento deixou os seus pais tão horrorizados que tentaram impedir que fosse cônsul.
Passou a sua infância em Capri, entre os favoritos do imperador Tibério.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio III. Gozou do favor do imperador Calígula, cujos carros conduzia, e do de Cláudio e Nero com os que jogava aos dados.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio IV.
Serviço público Carreira política e militar Graças ao afeto que despertou nos três imperadores foi designado áugure. Nomeado cônsul em , obteve o governo proconsular da província da África (60 - ) na qual deu provas de um enorme desinteresse. Após isso serviu como legado às ordens do seu irmão, quem lhe sucedeu no posto. Depois de expirar o seu tempo no cargo, foi designado para desempenhar diversos cargos administrativos, ganhando uma boa reputação em Roma.<ref>Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, V.</ref>
Contraiu matrimônio com uma mulher chamada Petrônia, com a que teve um filho torto chamado Petroniano; Vitélio emanciparia ao jovem, ao que a sua mãe tinha feito herdeiro, para depois assassiná-lo acusando-o de parricídio. Após isso, casou com Galéria Fundana, com a qual teve dois filhos.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, VI.</ref>
Terrivelmente acossado pelas dívidas, o imperador Galba cedeu-lhe o comando da província da Germânia Inferior (), talvez como consequência da influência de um dos seus companheiros, o senador Tito Vínio. Lá ganhou o afeto dos seus soldados graças à sua flexível disciplina e ao seu caráter próximo.<ref>Suetônio, As vidas dos doze césares, Vida de VitélioVII.
Ascensão ao poder Por iniciativa dos comandantes das legiões do Reno, Cecina e Valente, os soldados tiraram-no do seu acampamento de Colônia Agripinense (atual Colônia) a noite de 1 de janeiro de , cederam-lhe a espada de Júlio César e levaram-no para o centro do acampamento, onde o aclamaram como imperador.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, VIII. Vitélio pronunciou então:
Pouco depois acrescentou ao seu nome o título de Germânico; embora recusasse tomar o de augusto ou o de césar. A esta rebelião uniram-se os exércitos da Gália, da Britânia e da Récia.
Quando soube da morte de Galba, ordenou a província centro-europeia e dividiu o seu exército em duas divisões, uma das quais marchou contra Otão à frente dos seus comandantes, e a outra cujo comando assumiu ele próprio. Suetônio afirma que quando Vitélio empreendeu a sua marcha, esta viu-se rodeada de consideráveis vaticínios adversos.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, IX.
Após saber da morte do seu rival em Bedríaco (atual Calvatone) realizou as suas primeiras ações como imperador de facto: ordenou o assassinato das 120 pessoas que, com afã de obter o favor de Otão, se declararam culpáveis do assassinato de Galba e dissolveu as coorte pretórias, que foram então completadas com homens da sua confiança. De caminho para a capital, ganhou o ódio do povo como consequência dos excessos que permitia à sua corte. Quando alcançou o lugar onde se tinha travado a batalha na que falecera o seu inimigo, exclamou ante os soldados que se afastavam do fedor dos cadáveres:Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, X.
Após pronunciar esta espantosa máxima, dirigiu-se para o túmulo de Otão; ali burlou-se dele em presença das suas forças.
Quando chegou a Roma, demonstrou uma opulência que lhe fez ganhar o desafeto do povo. Assim, entrou na capital ataviado com luxuosas vestes. À frente de homens vestidos com as suas melhores roupas, assumiu o cargo de pontífice máximo (pontifex maximus), estabeleceu as magistraturas por um período de dez anos e declarou-se cônsul vitalício.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, XI. A 19 de abril desse mesmo ano foi proclamado imperador pelo senado.
Imperador Administração Assim como lhe tinha ocorrido a Galba, Vitélio era totalmente dominado pela sua corte e em especial pelo seu asiático liberto ao que chegou a manumitir para lhe conceder o governo de uma província.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, XII. As fontes clássicas afirmam que se entregava aos mais suntuosos prazeres culinários; na capital eram conhecidos os seus banquetes.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, XIII.
Suetônio afirma na sua "As Vidas dos Doze Césares" que o imperador era um ser cruel, que gostava de ordenar assassinatos e contemplá-los. Assassinou todos aqueles que lhe exigiram o dinheiro das suas dívidas, os seus dois filhos, e os que se expressaram publicamente contra a facção do circo dos azuis. Chegou-se a afirmar até mesmo que deixara falecer a sua mãe.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio, XIV.
Apesar disso, os historiadores Tácito e Dião Cássio recusam certas asseverações de Suetônio em relação à administração de Vitélio, que consideram aceitável. O primeiro deles descreve as que considera as suas duas contribuições mais importantes ao governo do Império:Tácito, Histórias. Finalizou com a prática dos centuriões de vender isenções fiscais e militares aos seus homens, mudança que o historiador descreve como uma política adotada por "todos os bons imperadores". Ampliou os cargos da administração para além dos libertos, convidando assim os equestres a ocuparem cargos no governo imperial.
A 1 de outubro de elaborou uma lei pela qual eram expulsos de Roma e da Itália todos os astrólogos.
Queda thumb|esquerda|180px|Efígie de Vitélio numa moeda.
A 1 de julho, as legiões romanas da província do Egito proclamaram Vespasiano imperador. Ao conhecer a notícia, as legiões da Mésia, da Panônia, e da Dalmácia amotinaram-se e declararam fidelidade a Vespasiano.Tácito, Histórias, livro II, cap. 79-85. Suetônio, Vidas dos doze Césares, Vitélio, cap. 15. Este acabava de sufocar a revolta dos Judeus e representava uma melhor estabilidade aos olhos dos romanos.Tácito, Histórias, livro II, cap. 78 Em Roma, Vitélio provocara um descontentamento quase geral e os distúrbios estouraram. Vitélio abdicou, embora depois pareceu repensar a sua decisão. Tito Flávio Sabino, prefeito do pretório e irmão de Vespasiano, decidiu tomar o poder. Os seus partidários chocaram com os de Vitélio e Sabino refugiou-se com eles no Capitólio. Os de Vitélio assediaram-nos, ardendo o Capitólio, sem que fosse sabido se foi por causa dos assediadores ou dos assediados. Sabino, de fato, foi assassinado, apesar de uma pequena oposição de Vitélio, que já não tinha muito que dizer.Tácito, Histórias, livro II, cap. 68-74 O relato de Suetônio é um pouco diferente.Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vitélio, cap. 15. Antônio Primo, no comando das legiões do Danúbio, invadiu o norte da península Itálica e venceu o exército de Vitélio em Cremona no final de outubro de . Tomou depois direção a Roma. Pouco a pouco, os aliados de Vitélio desertaram para o lado de Vespasiano. Vitélio tentou negociar uma paz, sem sucesso. Ao começar a entrar em Roma o exército de Primo, ele tentou fugir, e escondeu-se na casa do porteiro do seu palácio. Capturado pelos homens de Primo, foi lapidado pela multidão romana, e o seu corpo lançado ao rio Tibre.
Domiciano e Tito, os filhos de Vespasiano, foram nomeados césares. O imperador chegaria a Roma em finais de
Ver também
Ano dos quatro imperadores
Notas
Denominação oficial imperial: AVLVS VITELLIVS GERMANICVS IMPERATOR AVGVSTVS''. A primeira destas histórias afirma: "Há uma obra dedicada por Q. Elógio a Q. Vitélio, questor do divino Augusto, na qual se afirma que os Vitélios procedem de Fauno, rei dos aborigíneos, e de Vitélia, que em muitos lugares foi adorada como divindade; que reinaram em todo o Lácio; que a sua posteridade passou do país dos Sabinos para Roma, na que foi agregada aos patrícios; que por muito tempo subsistiram rastos da sua existência, tais como a via Vitélia, do Janículo até o mar, e uma colônia do mesmo nome, cuja defesa empreendeu em outro tempo esta família contra os Equículos; que enfim, à época da guerra com os Samnitas, muitos dos Vitélios, que foram mandados em guarnição para a Apúlia, estabeleceram-se em Nucéria, e que os seus descendentes, regressando para Roma muito depois, recobraram o seu posto na ordem dos senadores."Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio I. Enquanto a segunda: "Por outro lado, indicam alguns autores a um liberto como tronco desta raça. Cássio Severo e outros muitos dizem que este liberto foi sapateiro, cujo filho, após ter reunido uma grossa fortuna nos seus negócios e nas suas funções de procurador, casou com uma mulher de má vida, filha de um padeiro chamado Antíoco, com a que teve um filho que chegou a ser cavaleiro romano."Suetônio, As Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio II.
Segundo Suetônio: "O horóscopo que do seu nascimento obtiveram os astrólogos espantou de tal modo a sua família, que o seu pai fez durante a sua vida incríveis esforços para impedir que lhe fosse confiada nenhuma província; e a sua mãe, ao ver à frente de um exército e ao saber que fora saudado imperador, começou a chorar, como se já fosse perdido." Suetônio, As vidas dos doze césares, Vida de Vitélio III. Um varão e uma fêmea. Suetônio afirma que o primeiro tinha um defeito na fala.
Bibliografia Fontes primárias
Fontes secundárias
Categoria:Imperadores romanos Categoria:Cônsules do Império Romano Categoria:Imperadores romanos executados Categoria:Pessoas deificadas Categoria:Pessoas executadas pelo Império Romano Categoria:Procônsules da África Categoria:Vitellii Categoria:Ano dos quatro imperadores Categoria:Governadores romanos da Germânia Inferior