TamanduaréNAVARRO, 2013, p. 460. ou AréCASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988. xxiv, 812 p. (Coleção Reconquista do Brasil, 2. série, v. 151). p. 74. é um importante herói civilizador e figura central do mito do dilúvio na mitologia tupi. Segundo a tradição, numa briga com seu irmão gêmeo Aricuté ele abriu, com um pontapé, uma fonte que inundou o mundo. Para sobreviver, ele e sua esposa (ou sua família) refugiaram-se no topo de uma palmeira, e, após as águas baixarem, tornaram-se os antepassados do povo tupinambá.WILKINSON, P. O livro ilustrado da mitologia: lendas e história fabulosas sobre grandes heróis e deuses do mundo inteiro. Tradução de Beth Vieira. 2ª edição. São Paulo. Publifolha. 2002.104.
Essa história foi primeiro registrada por escrito pelo frade franciscano, explorador, cosmógrafo e escritor francês André Thevet em sua Cosmografia Universal de 1575.THEVET, André. La cosmographie universelle. Paris, França: Pierre l’Huillier, 1575. p. 914v-915.
Etimologia O nome de Tamanduaré provém do tupi Tamandûaré ("tamanduá" + é), que significa "tamanduá diferente", "o que se assemelha ao tamanduá".MÉTRAUX, 1950, p. 91 (nota de Estevão Pinto). Embora sejam mais associados ao solo, os tamanduás são escaladores muito hábeis, usando suas garras longas e curvas para subir nos troncos em busca de alimento ou para escapar de predadores e ameaças, assim como o Tamanduaré do mito, como se verá.PERNAMBUCO IMORTAL. Tamandaré. Pernambuco Imortal, atual. 7 mar. 2025. Disponível em: https://www.pernambucoimortal.com/c/pernambuco/tamandare. Acesso em: 15 jun. 2026.
A forma "Tamendonare", dada por André Thevet, vem de um erro de impressão: seu editor confundia constantemente o "n" e o "u" nas palavras estrangeiras que ele desconhecia, talvez não compreendendo bem a caligrafia de Thevet; assim, ter-se-ia escrito "Tamendouare", onde o "en" (antes de consoante ou no final de palavra) e o "ou" na fonética francesa equivalem, na fonética portuguesa, a "an" e "u", respectivamente — donde "Tamendonare", corrigidos esses erros, seria "Tamanduaré". O mesmo se aplica ao nome de seu irmão, que Thevet grafou "Ariconte", querendo dizer "Aricoute” na fonética francesa e daí, na fonética portuguesa, "Aricuté"MÉTRAUX, 1950, p. 65 (nota de rodapé de Estevão Pinto). (do tupi Arikuté, de 'ari, "em cima de, sobre" + kutuk, "cutucar, furar"; "o que cutuca ou fura por cima", "o que fere""'ARI". NAVARRO, 2013, p. 153."KUTUK". NAVARRO, 2013, p. 246.).
A forma moderna "Tamandaré" parece ser uma simplificação fonética posterior, como aconteceu com o nome do município de Tamandaré em Pernambuco, que é derivado de "Tamanduaré". O uso mais antigo da forma "Tamandaré" como nome do herói tupi talvez seja o encontrado no romance O Guarani (1857) de José de Alencar.
Mitologia Segundo a mitologia dos tupis que habitavam a costa brasileira, o grande pajé Tamanduaré e seu irmão gêmeo Aricuté eram filhos do demiurgo Sumé da linhagem dos Maíras e representam os irmãos ancestrais responsáveis pela criação de importantes grupos indígenas brasileiros.MÉTRAUX, 1950, pp. 44-45.
A origem do fogo Existem diversos mitos tupis-guaranis referentes à origem e descoberta do fogo. Entre os tupinambás, conta-se que o deus criador Monã guardou o fogo (tatá), que outrora usara para incendiar a terra e aniquilar a primeira humanidade antes do primeiro dilúvio, no dorso de uma preguiça, de onde o tiraram os dois irmãos, Tamanduaré e Aricuté, para o fim de entregá-lo aos homens.MÉTRAUX, 1950, p. 97. Mais tarde os homens usariam o fogo para matar o avô dos gêmeos, Mair-Monã, que, na morte, se transfiguraria em Tupã.MÉTRAUX, 1950, p. 44.
O dilúvio Tamanduaré e Aricuté eram dois irmãos rivais, divididos por seus diferentes temperamentos. Aricuté, um guerreiro (guarinĩ em tupi) intrépido e belicoso, desprezava seu irmão, um bondoso agricultor, a quem reputava fraco e covarde. Um dia, Aricuté, voltando da batalha, trouxe o braço de um feroz inimigo para seu irmão, dizendo-lhe com grande orgulho e arrogância: "Vá, covarde que você é, eu ficarei com sua esposa e filhos, pois você não é forte o suficiente para se defender." O bom Tamanduaré, ouvindo seu irmão falar assim, ficou muito triste com seu orgulho, e então lhe disse: "Se você fosse tão valente quanto diz, teria trazido seu inimigo inteiro." Aricuté, irritado, lançou o despojo contra a oca de Tamanduaré, provocando, por esse ato, a ascenção ao céu, imediata, de toda a aldeia, ficando apenas os irmãos e suas famílias na terra. Logo, Tamanduaré, irado, bateu o pé no chão, fazendo jorrar água, desencadeando uma grande inundação que não tardou a recobrir o mundo. Advertido por Tupã, o deus das águas, da iminência do dilúvio a partir da fonte aberta por Tamanduaré, ele escalou a montanha mais alta da região e se refugiou no topo de uma palmeira (pindó ou pindoba, de onde vem o nome Pindorama, “Região das Palmeiras”, grande parte do que seria muito mais tarde o BrasilMAGALHÃES, Couto de. O selvagem. 3. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935 (1876) p. 312.) e Aricuté sobre um jenipapeiro (e é por isso que os tupis se pintam com jenipapo quando vão à guerra, em referência ao guerreiro Aricuté). Os frutos dessas árvores os alimentaram até o momento em que puderam descer à terra. Quando Aricuté desejava saber se as águas haviam baixado, lançava, de tempos em tempos, frutos do jenipapeiro ao pé da árvore. Após findar a inundação, Tamanduaré se tornou o ancestral e patriarca do povo tupinambá, enquanto Aricuté é o ancestral do povo temiminó, dois importantes ramos do povo tupi entre os quais havia uma tradicional rivalidade.MÉTRAUX, 1950, p. 76.
Esse foi o segundo dilúvio dos mitos tupis, tendo sido o primeiro causado por Monã para apagar o incêndio que ele enviou para aniquilar a primeira humanidade tomada pelo mal, resultado de uma grande chuva enviada a pedido do único sobrevivente, Irãmajé, avô dos gêmeos também conhecido como Mair-Monã, que depois repovoou o mundo. Este primeiro dilúvio deu origem aos oceanos, mares e rios.MÉTRAUX, 1950, p. 92.
Santidade de Jaguaripe No Brasil quinhentista houve estreita conexão entre a pregação dos caraíbas e as rebeliões tupinambás contra engenhos e missões do litoral. Às pregações xamanísticas no Brasil os jesuítas deram o nome de "santidades", aludindo ao "espírito de santidade" que os pregadores nativos diziam encarnar quando, em transe, exortavam os indígenas para que atacassem os portugueses e abandonassem o trabalho.VAINFAS, Ronaldo. Idolatrias e milenarismos: a resistência indígena nas Américas. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 9, p. 29-43, 1992. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/article/view/2329. Acesso em: 17 jun. 2026.
A mais famosa e documentada das santidades indígenas no Brasil foi, sem dúvida, a Santidade de Jaguaripe, ocorrida na Bahia, entre 1585 e 1586 (outros dizem entre 1580 e 1585), e liderada por um indígena de nome Antônio, que fugira da missão jesuítica de Tinharé. Antônio, que dizia encarnar Tamanduaré, o ancestral dos tupinambás, chegou a reunir centenas de indígenas sob seu comando, anunciando para breve o fim da dominação portuguesa e da religião dos jesuítas — o que estimulou, de fato, diversas rebeliões indígenas naquela região. Paradoxalmente, cedeu ao convite de um importante senhor do Recôncavo Baiano, Fernão Cabral de Taíde, aceitando que parte da seita migrasse para o engenho do nobre português mediante a promessa de que ali os indígenas teriam apoio e liberdade de culto.
Nos milenarismos tupis da época colonial, vê-se a presença do mito de um paraíso onde vivem os ancestrais míticos, doravante reorientados no sentido anticolonialista. Os caraíbas ou pajé-açu ("pajé-grande") — pajés especiais que tinham o dom de encarnar os espíritos e de com eles se comunicar através do maracá — diziam ser a encarnação dos ancestrais, incumbidos de guiar seu povo para uma nova era, tempo de abundância e paz, que se confundia, no caso, com um espaço específico: a "Terra sem Mal". O caso exemplar é, sem dúvida, o caraíba da Santidade de Jaguaripe, cujo nome de batismo era Antônio, mas que denominava a si mesmo de Tamanduaré, dizendo que escapara do dilúvio metido no olho de uma palmeira. Caraíba-mor da santidade, exortava os indígenas para que o seguissem, anunciando para breve um tempo em que os frutos cresceriam por si na terra e as flechas caçariam sozinhas no mato. Antônio (ou Tamanduaré revivido) pregava a renovação do mundo e o retorno a uma era primordial: tempo que excluiria os portugueses, a catequese e a escravidão.
Por outro lado, Antônio, encarnando Tamanduaré, também legitimava o seu poder com o prestígio da hierarquia cristã: dizia ser o verdadeiro Papa, e nomeava bispos e sacristãos. Era igualmente comum, nos rebatismos da seita, darem nomes de santos católicos aos neófitos, além do que a mulher indígena mais prestigiada do movimento, que alguns documentos sugerem como sendo a mulher de Antônio, ostentava o pomposo título de "Santa Maria, Mãe de Deus". No interior da igreja que os sectários erigiram no engenho de Jaguaripe, com o assentimento de Fernão Cabral, os indígenas oravam per contas e faziam confissões à moda cristă. E não obstante cultuassem um ídolo de pedra, "com olhos e nariz enfeitado com paninhos velhos", puseram uma cruz de pau à porta do templo.
Em poucos meses, a santidade acabaria destruída por ordem do governador-geral Manuel Teles Barreto, pressionado pelos senhores da região que não mais aguentavam a fuga de seus indígenas escravizados e o assalto às suas plantações. Anos depois, em 1591, o Tribunal da Inquisição de Lisboa enviaria sua primeira visitação ao Nordeste brasileiro, recolhendo, entre outras, denúncias relativas à santidade, especialmente contra a pessoa de Fernão Cabral — ardiloso senhor que parece ter atraído a seita para os seus domínios com o fito de aumentar o seu contingente de mão-de-obra nativa, embora alegasse tê-lo feito para destruir a santidade de vez. Foi, aliás, por ter sido devassada a posteriori pela Inquisição que a Santidade de Jaguaripe dispõe hoje de numerosas fontes para o seu estudo, documentação inexistente para as demais "santidades" do Brasil quinhentista.
Influência cultural De seu nome provém o nome próprio de pessoa e de lugar “Tamandaré”.
Em 1857, o cearense José de Alencar escreveu o romance O Guarani que reconta o dilúvio de Tamanduaré. Em 1905, foi criado o Distrito de Tamandaré em Pernambuco, posteriormente elevado à munícipio.LEITE, Sylvia. "Tamandaré, Pernambuco: a terra do dilúvio nordestino." Lugares de Memória, 13 fev. 2020. Disponível em: https://lugaresdememoria.com.br/tamandare-a-terra-do-diluvio-nordestino/. Acesso em: 15 jun. 2026.
Em 2024, a escola de samba "Mocidade Independente" homenageou Tamandaré no samba-enredo "Pede Caju Que Dou... Pede Caju Que Dá" para o Carnaval do Rio de Janeiro. A faixa conta a importância do fruto do caju na cultura brasileira, citando o herói ao falar dessa importância na cosmovisão indígena.RIO CARNAVAL. "MOCIDADE Carnaval 2024 - Sambas de Enredo - Clipe Oficial." YouTube, 2 dez. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Dl2nbeKipYk. Acesso em: 15 jun. 2026.