A Revolta Ibérica de 197- foi uma rebelião dos povos celtiberos nas novas províncias da Hispânia criadas pelos romanos para regularizar o governo da região contra a dominação romana no começo do

A partir de , a República Romana dividiu suas conquistas no sul e leste da Península Ibérica em duas províncias, a Hispânia Citerior e a Hispânia Ulterior, cada uma delas governada por um pretor. Apesar de várias causas terem sido propostas para o conflito, a mais aceita é que as mudanças administrativas e fiscais produzidas pela mudança teriam provocado a insatisfação das populações locais.

Depois do início da revolta na Hispânia Ulterior, Roma enviou os pretores Caio Semprônio Tuditano para a província Citerior e Marco Hélvio Blasião para a Ulterior. Pouco antes da revolta se propagar para sua nova província, Tuditano foi morto em combate. Blasião, por outro lado, conseguiu uma importante vitória na Batalha de Iliturgi. Com a situação se deteriorando, Roma enviou os pretores Quinto Minúcio Termo e Quinto Fábio Buteão com a missão de solucionarem o conflito. Apesar disto e a despeito de algumas vitórias, como na Batalha de Turda, na qual Quinto Minúcio capturou o general celtibero Besadino, os dois também não conseguiram resolver completamente a situação.

Foi então que roma decidiu enviar, em , o cônsul Marco Pórcio Catão à frente de um exército consular para sufocar definitivamente a revolta. Quando Catão chegou à Hispânia, encontrou a província Citerior em revolta, com as forças romanas controlando apenas umas poucas cidades fortificadas. Catão rapidamente estabeleceu uma aliança com Bilistages, o rei dos ilergetas, e teve o apoio de Públio Mânlio, o recém-nomeado pretor da Hispânia Citerior que chegou com a missão de ajudar o cônsul. Catão marchou pela Península Ibérica, desembarcou em Rode e sufocou a revolta da população que ocupava o local. Em seguida, o exército marchou para Empório, onde ocorreu a maior batalha da guerra, contra um exército local numericamente muito superior. Depois de uma longa e difícil batalha, Catão finalmente conseguiu uma vitória total, provocando mais de baixas nas fileiras inimigas. Depois desta grande vitória, a Hispânia Citerior caiu novamente sob o controle de Roma.

A Hispânia Ulterior, por outro lado, seguia em revolta e o cônsul teve que marchar até a Turdetânia para ajudar os pretores Públio Mânlio e Ápio Cláudio Nero. Catão tentou estabelecer uma aliança com os celtiberos, que estavam atuando como mercenários dos turdetanos e de cujo serviço necessitava, mas não conseguiu convencê-los a mudar de lado. Depois de uma demonstração de força — Catão marchou suas legiões através do território dos celtiberos —, finalmente Catão conseguiu que os celtiberos voltassem para suas terras. Porém, a submissão das tribos locais era apenas aparente e quando correu a notícia de que Catão havia voltado para Roma, a revolta reiniciou. O próprio cônsul tratou de sufocar a nova revolta, atuando com decisão e efetivamente, vencendo os revoltosos definitivamente na Batalha de Bérgio. Ao final, Catão vendeu os prisioneiros capturados como escravos e toda a população da província foi desarmada.

Contexto

thumb|upright=1|Mapa da conquista romana da Península Ibérica No final do , a Segunda Guerra Púnica já estava na reta final. Os generais cartagineses Magão Barca e Asdrúbal Giscão haviam se retirado para Gades, o que permitiu que Públio Cornélio Cipião (futuro "Africano") consolidasse sua posição no sul da Península Ibérica e cruzasse para a África para se encontrar com o rei númida Sífax, com quem ele já havia se encontrado antes, para forjar uma aliança contra Cartago.

Pouco tempo depois, Cipião ficou gravemente doente e, aproveitando a oportunidade, legionários descontentes se amotinaram em Sucro. Este motim foi aproveitado pelos ilergetas e outros povos iberos para se revoltarem, incitados pelos líderes Indíbil, dos ilergetas, e Mandônio, dos ausetanos, contra os procônsules Lúcio Cornélio Lêntulo e Lúcio Mânlio Acidino. Depois de sufocar a revolta, Acidino retornou a Roma em , mas não recebeu a ovação que lhe foi concedida pelo Senado por oposição do tribuno da plebe Públio Pórcio Leca. Cipião se recuperou de sua enfermidade, acabou com o motim das tropas romanas e sufocou a revolta dos iberos. Indíbil foi morto em combate e Mandônio foi preso e executado.

Magão Barca e Asdrúbal Giscão deixaram Gades com seus barcos e tropas com destino península Itálica para ajudar Aníbal (veja raide no vale do Pó), o que significou a retirada completa das forças cartaginesas da região. Roma passou então a dominar toda a faixa de terra ao sul e sudeste da Península, que ia dos Pirenéus até ao Algarve pela costa mediterrânea. A vitória final dos romanos na Batalha de Zama () marcou a conquista definitiva da Hispânia pelos romanos.

Durante as campanhas de Cipião na Hispânia, os chefes ibéricos que o haviam apoiado — e que desfrutavam de alguma estrutura política e certo poderio militar — consideravam que apenas uma relação pessoal com o "rex" Cipião os unia, sem nenhum dever adicional para com a República Romana. A reorganização da região nas duas novas províncias os levou às armas para defenderem sua autonomia. Outras causas já foram propostas para a revolta, como a morte de Indíbil e Mandônio ou, a mais aceita, os altos tributos cobrados das populações locais.

Primeiros combates

thumb|Primeira divisão territorial da Hispânia depois da Segunda Guerra Púnica Em , a República Romana dividiu suas novas terras no sul e leste da Península Ibérica em duas províncias, a Hispânia Citerior (costa leste, dos Pirenéus até Nova Cartago), posteriormente chamada de Tarraconense por causa de sua capital, Tarraco, e a Hispânia Ulterior (corresponde aproximadamente à moderna Andaluzia), com capital em Córduba, cada uma delas governada por um pretor. A transformação dos territórios em províncias provocou importantes mudanças na estrutura administrativa e tributária e a imposição do stipendium não foi aceita pelas tribos locais. O resultado foi que, mal havia acabado a Segunda Guerra Macedônica, irrompeu na região uma grande revolta.

As novas províncias precisavam de seus governadores e Roma rapidamente enviou Caio Semprônio Tuditano para a Hispânia Citerior e Marco Hélvio Blasião para a Hispânia Ulterior comandando um total de soldados e 800 cavaleiros com ordens de renderem os veteranos e delimitarem as fronteiras provinciais. Quando Marco Hélvio chegou à sua nova província, deparou-se com uma grande revolta e imediatamente informou o Senado. Vários chefes locais haviam se revoltado, entre eles o rei Culcas, que comandava as forças de dezessete cidades, e o rei Luxínio, à frente das forças das cidades de Carmo e Bardo. Também haviam se unido à revolta as cidades de Malaca, Sexi e toda a Betúria.

Pouco tempo depois, a revolta se propagou para a Hispânia Citerior, onde Tuditano e muitos de seus soldados acabaram mortos em combate no final do ano de , deixando a província sem pretor no ano seguinte. É provável que o próprio Marco Hélvio tenha assumido também o controle na região até a chegada do novo pretor.

Quinto Minúcio Termo e Quinto Fábio Buteão foram os pretores eleitos para o ano de para a Hispânia Citerior e Ulterior respetivamente. Eles receberam reforços na forma de duas legiões — soldados e 300 cavaleiros cada — e tinham ordens de seguir rapidamente para as províncias para continuarem a guerra. Quinto Minúcio derrotou os revoltosos Budar e Besadino em um lugar desconhecido conhecido apenas como "Turda", infligindo baixas entre as forças hispânicas e capturando Besadino. Esta vitória lhe valeu um triunfo em sua volta a Roma em .

Vitória em Iliturgi

Por conta do relativo fracasso do pretor de na Hispânia Citerior, o Senado declarou a região como uma "província consular", uma vez que seria necessária a intervenção de um exército consular para controlar a situação. Eleito cônsul em juntamente com seu amigo Lúcio Valério Flaco, Marco Pórcio Catão recebeu, por sorteio a Hispânia Citerior. Além disto, foram eleitos os dois pretores das províncias Citerior e Ulterior, Ápio Cláudio Nero e Públio Mânlio respectivamente, cada um no comando das forças provinciais acrescidas, dada a gravidade da situação, de soldados e 200 cavaleiros a mais. O cônsul, que não havia conseguido evitar a anulação da Lex Oppia, embarcou com suas tropas para a Hispânia Citerior com Públio Mânlio enquanto Ápio Cláudio seguiu para a Ulterior.

Marco Hélvio Blasião, apesar de já haver entregue o governo da província a seu sucessor, teve que permanecer na Hispânia devido a uma grave enfermidade. Já recuperado, com uma guarda de soldados cedida pelo pretor Ápio Cláudio, foi atacado por celtiberos perto de Iliturgi. Marco Hélvio conseguiu repelir os atacantes e os derrotou, infligindo cerca de baixas ao inimigo. Iliturgi foi ocupada pelos romanos e a vitória valeu uma ovação a Marco Hélvio, concedida pelo Senado em (ele não pôde celebrar um triunfo por ter lutado em uma província que correspondia a outro pretor). Ao chegar em Roma, dois anos depois do previsto, Marco Hélvio entregou ao Erário libras de prata sem cunhagem, de prata cunhada e de prata da cidade de Osca. Tais quantidades de riquezas retiradas da Hispânia dão uma ideia do mal-estar provocado aos povos locais por conta das novas tributações.

Chegada de Catão, o Velho

esquerda|thumb|upright=.8|Busto de Catão, o Velho, o vitorioso general romano da Revolta Ibérica

Marco Pórcio Catão (conhecido como "Catão, o Velho") recebeu do Senado Romano um exército consular, composto por duas legiões, cerca de soldados, auxiliares e 800 cavaleiros, além de 20 quinquerremes para o transporte das tropas. A estas forças se somavam ainda, como reforços, os soldados e 200 cavaleiros de cada um dos pretores, perfazendo um total de homens nos três exércitos. Catão embarcou seu exército nos 25 navios (5 deles com tropas auxiliares) a partir de Porto Lunas (), na Ligúria, e seguiu por mar pelo golfo de Leão até chegar à Hispânia, no norte da província Citerior. O exército romano desembarcou em Rode (), no golfo de Rosas, em junho de , derrotando no desembarque o exército nativo. Desde a chegada, Catão já encontrou uma situação bastante complicada, uma vez que só levava consigo cerca de homens — o restante estava dividido entre os pretores.

Cerco à cidadela Os povoados ibéricos costumavam ser construídos no alto de morros () estratégicos a partir dos quais controlavam as rotas e estradas da região, o que lhes conferia uma grande vantagem contra seus inimigos; eram também circundados por muralhas, nas quais geralmente haviam torres e estava a porta da cidade.

A cidade caiu definitivamente em julho de . Catão saqueou a cidade e deu combate aos locais, sufocando a resistência da guarnição ibérica situada em Puig Rom — a "acrópole de Rode", identificada como sendo a cidadela de Rosas.

Chegada do exército romano a Empório

O exército romano desembarcou em seguida em Empório e Catão mandou de volta os navios a Massília com todos os suprimentos para forçar o seu exército a lutar:

Em português, "A guerra se alimenta a si mesma", frase pronunciada por Catão durante a guerra quando se negou a comprar suprimentos adicionais para seu exército. Lívio descreveu o que encontrou o exército romano ao chegar:

Catão iniciaria ali a difícil guerra contra um enorme exército hispânico. Ao chegar perto da cidade, os romanos receberam uma calorosa recepção por parte dos gregos.

Encontro com os aliados ilergetas thumb|Mapa etnográfico da Península Ibérica em mostrando os principais povos que habitavam a região antes da conquista romana