O Políptico do Convento de São Francisco de Évora era um políptico de dezasseis pinturas a óleo sobre madeira de carvalho criado de 1508 a 1511, tratando-se provavelmente de obra colectiva com participação proeminente do artista flamengo Francisco Henriques. Do Políptico, que decorou o altar-mor da Igreja do Convento de São Francisco, em Évora, restam actualmente onze painéis no Museu Nacional de Arte Antiga, de Lisboa, quatro painéis na Casa dos Patudos, em Alpiarça, e um painel encontra-se desaparecido.Markl, Dagoberto; Pereira, Fernando A. Baptista - "A pintura num período de transição", in História da Arte em Portugal, Vol. VI "O Renascimento". Lisboa: Alfa, 1986., pag. 101-102

O conjunto dos dezasseis painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora estaria organizado em quatro sequências horizontais que possibilitariam uma leitura horizontal, mas também vertical. Na fileira superior estariam as quatro pinturas do ciclo da Paixão de Cristo, em torno de um Calvário em relevo com a imagem de São Francisco. Imediatamente abaixo, ladeando a escultura da Virgem Maria, situava-se a fiada dedicada à Natividade de Jesus. Por baixo desta, situava-se o ciclo dos santos da Ordem dos Frades Menores (a que falta um dos quadros) e que teria como referência central uma escultura do fundador da Ordem e, por fim, a predela constituída por pinturas alusivas a temas eucarísticos e com o Sacrário ao centro.

O Políptico do Convento de São Francisco de Évora suportava-se numa estrutura de talha da autoria de Olivier de Gand datada de 1508-9 cujo desenho foi aprovado pelo próprio rei D. Manuel I. A estrutura de talha foi avaliada em 1509 pelos mestres carpinteiros reais Garcia Leal e José Leal, estando praticamente concluída e pronta a receber as pinturas. Quando esta avaliação foi elaborada, foi indicado o conjunto de esculturas que seriam colocadas em frente das pinturas. Assim, de baixo para cima, estariam primeiro o Sacrário, e depois a representação da Estigmatização de São Francisco de Assis, da Virgem Maria e, por último, o Calvário.

Não obstante a escassez de documentos sobre a configuração do Retábulo, não restam dúvidas que esta grandiosa obra, simultaneamente de marcenaria, escultura e pintura, bem enquadrada na abside da capela-mor da Igreja de S. Francisco e muito beneficiada pela iluminação das janelas laterais, conseguiu alcançar um impacto visual impressionante (imagem ao lado). E a presença de Francisco Henriques durante quase dois anos em Évora não deve ter passado despercebida aos melhores pintores ali residentes, sendo de admitir que a qualidade do autor(res), associada a uma das mais importantes encomendas régias da época, congregasse a atenção de artistas que então faziam carreira na cidade como Afonso Álvares, Pedro Vaz, Sebastião Lopes, Afonso Lopes e Diogo Fernandes. thumb|right|Simulação da posição do Políptico na Capela-mor da Igreja de S. Francisco de Évora.

Descrição Os dezasseis painéis que compunham o Políptico do Convento de São Francisco de Évora estavam divididos em quatro fiadas de quatro painéis cada, sendo a fiada superior sobre a Paixão de Cristo com Cristo no Horto, Cristo a Caminho do Calvário, Descida da Cruz e Deposição de Cristo no Túmulo, a fiada seguinte de quatro painéis sobre a Natividade de Jesus que se encontram na Casa dos Patudos, em Alpiarça, sendo a Anunciação, a Natividade, a Adoração dos Reis Magos e a Apresentação de Jesus no Templo, a fileira seguinte de quatro painéis sobre a Ordem dos Franciscanos sendo a Degolação dos Cinco Mártires de Marrocos, São Bernardino de Siena e Santo António, São Boaventura e São Luís de Tolosa e (conjecturalmente por não se conhecer o seu paradeiro) a Aprovação da Regra da Ordem dos Franciscanos, e a fileira inferior de quatro painéis sobre a Eucaristia, sendo o Encontro de Abraão e Melquisedeque, a Apanha do Maná no Deserto, a Última Ceia e a Missa de São Gregório.

Porém, se a sequência das duas séries superiores (as da Paixão de Cristo e da Natividade de Jesus) não coloca dúvidas, na medida em que a leitura do seu encadeamento é clara, o mesmo não se poderá afirmar sobre as duas restantes (Ordem dos Frades Menores e Eucarística), uma vez que as pinturas não seguem uma lógica narrativa. Na opinião dos historiadores de arte Fernando A. Baptista Pereira e de José António Falcão, a reconstituição levada a cabo por Reinaldo dos Santos da série dos Santos Franciscanos é perfeitamente plausível se atendermos à orientação da luz nos painéis, mas o quadro que falta deveria representar a Aprovação da Regra da Ordem pelo Papa Inocêncio III, e não as Três Santas Clarissas ou um Milagre de Santo António, como se julgou antes.Uma visão de conjunto dos painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora existentes no MNAA pode ser encontrada na pag. 214 da Tese de Doutoramento de Ilídio Salteiro (2005), Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em

Apresenta-se a seguir a descrição dos quinze painéis conhecidos do Políptico do Convento de São Francisco de Évora, seguindo a disposição proposta por Reynaldo dos Santos. A visão do que terá sido o conjunto dos dezasseis painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora e o seu enquadramento no local original encontra-se nas duas primeiras imagens.

Cristo no Horto Trata-se de um dos dezasseis painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora tendo de altura 167 cm e 88 cm de largura e representa o episódio bíblico da Agonia no Getsêmani.

Neste painel distinguem-se claramente três planos, ainda que obviamente interligados. A cena principal, o encontro entre Cristo e o anjo, tem lugar no centro da pintura, ainda que em segundo plano. Em primeiro plano, mas no terço inferior do quadro, estão os três apóstolos adormecidos, São João com túnica vermelha, São Tiago no meio e São Pedro coberto por um manto branco, cujas vestes são um foco de luminosidade. Ao fundo, à esquerda, surge a figura de Judas a atravessar a ponte no Vale do Cédron, guiando os guardas que vão prender Jesus.

O terço superior da pintura é preenchido pelo céu azul com algumas nuvens escuras, notando-se o despontar do alvorecer no lado direito do horizonte. Quer na estruturação dos planos, quer na posição de algumas das figuras (nomeadamente, Cristo e São Pedro), o autor seguiu de perto uma gravura sobre o mesmo tema de Martin Schongauer.Nota sobre Cristo no Horto na Matriznet em

Cristo a Caminho do Calvário

Trata-se de um dos dezasseis painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora tendo de altura 167 cm e 88 cm de largura e representa o episódio bíblico do Caminho do Calvário por Cristo.

Cristo ocupa o centro do quadro com dois verdugos que o ladeiam, carregando ajoelhado a cruz, tendo atrás um batalhão de soldados equipados de lanças e alabardas, cujas diagonais dão um carácter dinâmico e violento a toda a cena. Contrastando com este tom belicoso, a face de Jesus transmite uma imagem de serenidade. O leque de cores sublinha estes sentimentos, tendo o autor distribuído de forma sabedora os vermelhos e os amarelos em pontos-chave da pintura.

A composição foi baseada em gravuras de Albrecht Dürer e de Martin Schongauer, apresentando em primeiro plano um solo pedregoso do caminho do calvário com um tronco cortado, podendo neste caso ser uma alusão à madeira com que foi feita a cruz que Cristo arrasta. Em fundo ergue-se a cidade de Jerusalém como se fora uma cidade medieval amuralhada, com porta levadiça de arco abatido, torreões e uma igreja altaneira encostada às muralhas.Nota sobre a Cristo a Caminho do Calvário na Matriznet em

Descida da Cruz

Trata-se de um dos dezasseis painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora tendo de altura 167 cm e 88 cm de largura e representa o episódio bíblico da Descida da Cruz.

A composição é dominada pela grande cruz de madeira da qual Cristo está a ser retirado, tendo à sua volta várias figuras que ocupam a quase totalidade do quadro, exceptuando um apontamento paisagístico do lado direito. O corpo de Cristo está a ser seguro por Nicodemos (que tem na cabeça um chapéu de abas), São João, vestido com túnica e capa tons vermelhos, segura-lhe as pernas e José de Arimateia ainda no cima da escada segura um braço.

Em primeiro plano, ajoelhadas, encontram-se a Virgem Maria que segura um braço e se apresta a receber o corpo de Cristo e Maria Madalena. De todos os que rodeiam Jesus, vestidos com ricos brocados, apenas as três Santas Mulheres (Maria Salomé, Maria Madalena e Maria de Cleófas) não tocam no seu corpo que funciona como o elo de ligação de toda a cena.Nota sobre a Descida da Cruz na Matriznet em

Deposição de Cristo no Túmulo

Trata-se de um dos dezasseis painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora tendo de altura 167 cm e 88 cm de largura e representa o episódio bíblico do Sepultamento de Jesus.

A cena tem lugar na entrada de uma gruta, à frente da qual se encontra o túmulo de Cristo rodeado pelos acompanhantes da cerimónia, exactamente as mesmas que surgem representadas no painel alusivo à "Descida da Cruz". Cristo envolto numa mortalha branca é baixado à sepultura por José de Arimateia, à cabeça, e por Nicodemos, aos pés, estando do lado esquerdo do túmulo apenas uma Santa Mulher, provavelmente Maria Madalena, que segura o vaso dos unguentos. Maria está do outro lado a rezar sendo ladeada por São João, com túnica vermelha e a limpar as lágrimas com a mão, Maria de Cleófas e Maria Salomé que, numa atitude de dor, levanta os braços em direcção ao céu.

As personagens parecem organizadas em dois grupos distintos, os que realizam o enterro e os que assistem à cerimónia, sendo o quadro simultaneamente uma Deposição e uma Lamentação, cabendo às Santas Mulheres um papel análogo ao de um coro fúnebre. Em termos técnicos, é de realçar ainda a forma como o autor ultrapassou a dificuldade colocada pelo tema face ao formato vertical do painel, tendo, para colocar a cena em perspectiva, optado por representar o túmulo em escorço, imprimindo à pintura uma ilusão de profundidade.Nota sobre a Deposição de Cristo no Túmulo na Matriznet em

Anunciação Trata-se de um dos dezasseis painéis do Políptico do Convento de São Francisco de Évora representando o episódio bíblico da Anunciação, estando actualmente na Casa dos Patudos em Alpiarça.

Maria está ajoelhada diante de um livro aberto, as Sagradas Escrituras, abrindo as mãos face ao que o Arcanjo lhe transmite, a Boa Nova de que vai ser mãe do Filho de Deus. O genuflexório está ornado com uma representação de Moisés segurando as Tábuas da Lei.Baptista Pereira, Fernando A. e José António Falcão - "Anunciação", in Francisco Henriques Um Pintor em Évora no Tempo de D. Manuel (catálogo da exposição). Lisboa: CNCDP/Câmara Municipal Évora, 1997, pág. 122-125.

O Arcanjo surge do lado da luz paramentado com uma monumental capa de asperges sobre túnica branca e sustenta uma filactera em que estão inscritas as palavras da saudação e que está enrolada num ceptro de cristal de rocha. Junto a uma das extremidades da filactera aparecem envolta numa auréola, a pomba do Espírito Santo. O carácter litúrgico do Arcanjo reforça a sua condição de enviado de Deus.

Em primeiro plano, em posição de relevo, surge um vaso com um lírio, símbolo mariano por excelência, e que evoca a tradição de que a Anunciação ocorreu na Primavera, tempo de plena floração, tendo os restantes adereços sido eliminados, aparecendo o enquadramento numa pureza arquitectónica. Através de um arco clássico vislumbra-se um fragmento de paisagem urbana, com construções de grande monumentalidade, sublinhando a magnificência do interior da cena.