O Políptico da Capela do Esporão é um políptico de pinturas a óleo sobre madeira de carvalho pintadas cerca de 1530-1537 por Mestre flamengo desconhecido que se julga ser do círculo de Gerard David (1460-1523) e que se destinou a decorar inicialmente a Capela do Esporão da Sé de Évora, imediatamente após a edificação desta capela. Os seis painéis sobreviventes, Última Ceia, Prisão de Cristo, Cristo ante Pilatos, Descimento da Cruz, Ressurreição de Cristo e Ascensão de Cristo, encontram-se actualmente no Museu de Évora.

A mais antiga referência escrita conhecida deste Políptico data de 1537, quando o Cardeal-Infante D. Afonso escreveu um relatório de uma visita à Sé de Évora a que deu o título precisamente de Visitação. Esta Visitação, redescoberta por Túlio Espanca em 1944, refere a existência de um Políptico com as cenas da Paixão de Cristo, que estaria colocado na capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade, edificada em 1530 por iniciativa e financiamento de João Mendes de Vasconcelos, fidalgo de posição elevada na corte de então, senhor da herdade e Torre do Esporão, capela que por isso passou a ser conhecida como a do Esporão. Esta capela foi reformulada cerca de 1620, tendo as pinturas originais sido retiradas do seu lugar inicial e passado depois por um período de esquecimento. No início de século XIX, o arcebispo de Évora, Manuel do Cenáculo, ao encontrar estes painéis, bem como os do antigo Políptico da Sé de Évora, abandonados e em muito mau estado de conservação no palácio arcebispal, encarregou o pintor Matias José de Castro, que então pintava os tectos da biblioteca de Évora, de restaurar estas pinturas antigas que ficaram na sua colecção, as quais mais tarde seriam colocadas na Biblioteca Pública de Évora e, finalmente em 1915, seriam transferidas para o Museu de Évora onde se encontram.

Markl e Pereira, na sequência de Túlio Espanca, consideram que para além das seis pinturas conhecidas haveria uma outra que trataria o Calvário para uma sequência completa da Paixão de Cristo. Já Luís Reis Santos não aceitava esta tese e integrava os seis painéis como predela do Políptico da Sé de Évora, que assim seria composto por 19 pinturas. Quanto ao autor das seis pinturas, Reis Santos, lembrando que Raczynski encontrou analogias com obras de Hans Memling, supunha que fosse o mesmo do Político da Capela-mor, notando-lhes as mesmas influências dos pintores de Bruges e de Gand, talvez com predominância de Gerard David. Para além das semelhanças da cor e do processo técnico, para Reis Santos parecem incontestáveis as afinidades entre os modelos da Última Ceia e as das obras da Colecção Robert Lehman do MET de Nova Iorque atribuidas por Friedländer a Gerard David.Markl, Dagoberto e Pereira, Fernando A. Batista, (1986), História da Arte em Portugal, vol. 6 - "O Renascimento", Publicações Alfa, Lisboa, pag. 92-94.

Markl e Pereira concluem que se o grande Políptico da Sé de Évora abre caminho para uma ideologia imagética que terá os seus reflexos no Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu e no Políptico do Convento de São Francisco de Évora, já o Políptico da Capela do Esporão transmite, tardiamente, uma lição arcaica e sem grandes repercussões no evoluir da pintura portuguesa de Quinhentos.

Descrição Segundo Túlio Espanca, três únicas hipóteses se nos apresentam para a disposição do pequeno Políptico na sua feição inicial. Em fieiras horizontais de duas tábuas, eliminando a probabilidade de existência de um sétimo quadro “Calvário”; em fieiras verticais de duas; ou de qualquer uma das maneiras centrado por um “Calvário” de escultura em relevo. Faz-se a seguir a descrição de cada um dos seis pinturas seguindo uma ordem narrativa.

Última Ceia

Última Ceia é uma pintura a óleo sobre madeira pintada cerca de 1530-1537 por Mestre flamengo de que se desconhece a identidade e que se julga pertencer ao círculo de Gerard David (1460-1523), mede 75,7 cms de altura e 88 cms de largura, fez parte do Retábulo da Capela do Esporão e encontra-se actualmente no Museu de Évora.

Cristo e os doze apóstolos estão sentados a uma mesa rectangular coberta com um pano branco para a sua última refeição em conjunto. Cristo com a mão esquerda erguida e segurando na mão direita um pedaço de pão encontra-se ao centro estando os seus mais directos seguidores distribuidos de ambos os lados. Dois deles estão sentados de frente para Cristo e de costas para o espectador, havendo um espaço entre eles para se poder ver a parte central da mesa. Oito dos discípulos encontram-se de frente, estando João sentado num nível inferior com a cabeça apoiada no abdómen de Cristo. Um dos que estão de costas para o espectador, o do lado esquerdo, facilmente se identifica como Judas pois, para além da usual capa amarela, segura o saco com os trinta dinheiros.

Em fundo, através da abertura suportada por duas colunas, vê-se a parte superior do casario com contornos flamengos da representação da cidade de Jerusalém. A pintura deve ter sido cortada do lado direito, dado que a figura de Cristo se encontra descentrada e porque do apóstolo que se encontra nessa extremidade apenas se vêm as mãos e parte do manto.Nota informativa sobre a Última Ceia na Matriznet .

Prisão de Cristo

A Prisão de Cristo é uma pintura a óleo sobre madeira pintada até 1530-1537 por Mestre flamengo de que se desconhece a identidade e que se julga pertencer ao círculo de Gerard David (1460-1523), mede 75,7 cms de altura e 88 cms de largura, fez parte do Retábulo da Capela do Esporão e encontra-se actualmente no Museu de Évora.

Cristo dirige o braço direito para Malco tendo na mão direita a orelha cortada deste para a colar curando-o, e com a outra mão, num gesto de apaziguamento, tenta acalmar o grupo de soldados irados que do lado direito avançam sobre Pedro. No lado esquerdo, Malco está caido no chão com um dos braços no ar como que a defender-se de Pedro. Este, de pé, está voltado para Cristo com uma expressão de incredulidade pela ordem para embainhar a faca com que feriu Malco. Atrás, na mão de um dos soldados, aparece no ar a lanterna que Malco usara e em fundo, ao centro, vêem-se algumas casas no cimo de um monte.Nota sobre a Prisão de Cristo na Matriznet

A pintura representa a Prisão de Jesus e um dos episódios que lhe estão associados que é o milagre da cura da orelha de Malco, relatado nos quatro Evangelhos () ainda que o nome de Malco e o de Pedro apenas sejam referidos no Evangelho segundo João, mas neste caso não citando o milagre relatado nos outros. Quando da prisão de Jesus, um dos seus discípulos, Pedro, deixando-se dominar pela cólera, atacou Malco, servo do Sumo-sacerdote, que tinha guiado os soldados até Jesus iluminando o caminho com uma lanterna. Pedro derrubou-o e cortou-lhe uma orelha com a sua faca. Jesus pediu ao discípulo que se acalmasse e, dirigindo-se a Malco, colou a orelha no seu lugar curando-o. Trata-se de um episódio usado para realçar a brandura de Jesus por oposição à reacção colérica de um dos seus discípulos.

Cristo ante Pilatos

Cristo ante Pilatos é uma pintura a óleo sobre madeira pintada até cerca de 1530-1537 por Mestre flamengo de que se desconhece a identidade e que se julga pertencer ao círculo de Gerard David (1460-1523), mede 77 cms de altura e 105 cms de largura, fez parte do Retábulo da Capela do Esporão e encontra-se actualmente no Museu de Évora.

Tendo atrás de si soldados e gente agitada, Jesus Cristo está em pé, de olhos cerrados e cabeça baixa, vestindo uma túnica azul cujas mangas compridas lhe tapam as mãos. À sua frente, Pilatos está sentado num trono com as mãos pousadas sobre as pernas, numa posição como que alheada, tendo do lado direito um servo semi-ajoelhado que despeja água de um jarro para uma tina, onde Pilatos irá lavar as mãos.

Por detrás desta figura, do lado direito, dois degraus dão acesso a uma outra sala onde vemos retratada, numa cena secundária, a Flagelação de Cristo. Nesta cena, Cristo encontra-se de pé, preso pelas mãos a uma coluna, tendo apenas a cobri-lo um pano branco preso em volta da cintura. Do seu lado direito, um homem ergue o chicote com que o vai açoitar, enquanto três outros figuras presenciam a cena.Nota sobre Cristo ante Pilatos na MatrizNet

A pintura representa o momento em que Jesus é apresentado perante o governador (praefectus) da província romana da Judeia, Pôncio Pilatos, após ter sido condenado pelas autoridades religiosas judias. E se num primeiro momento pretendia não castigar Jesus, Pilatos acaba por ceder à pressão da multidão que pede a sua condenação à morte com o gesto simbólico de lavar as mãos relativamente à decisão condenatória.

Descimento da Cruz

Descimento da Cruz é uma pintura a óleo sobre madeira pintada cerca de 1530-1537 por Mestre flamengo de que se desconhece a identidade e que se julga pertencer ao círculo de Gerard David (1460-1523), mede 77 cms de altura e 105 cms de largura, fez parte do Retábulo da Capela do Esporão e encontra-se actualmente no Museu de Évora.

Ao centro, o corpo de Cristo é retirado da cruz por um homem que o segura com um dos braços amparando-se com a outra mão à escada que está a descer. Ao lado da escada, no chão, um outro homem ajuda o primeiro segurando as pernas de Cristo. Do lado esquerdo, a Virgem Maria, ajoelhada no chão, segura o braço do seu filho, tendo trás de si São João e uma outra mulher. Do lado direito, Maria Madalena, com um traje que contrasta com a simplicidade das túnicas das outras mulheres, está ajoelhada perante Cristo a chorar, estando ao lado outra mulher que vira o rosto para o lado limpando as lágrimas. Ao fundo, vendo-se do lado direito as muralhas de Jerusalém, a linha do horizonte acentua a horizontalidade da composição.

Segundo Joaquim O. Caetano, a pintura manifesta, no estilo e na iconografia, traços de alguma arcaicidade apresentando algumas afinidades com a Deposição da Cruz de Rogier van der Weyden, no Museu do Prado, ou com a tábua central do Triptíco da Paixão, de Dirck Bouts, na Capela Real de Granada.Nota sobre Descimento da Cruz na MatrizNet

Ressurreição

A Ressurreição é uma pintura a óleo sobre madeira pintada cerca de 1530-1537 por Mestre flamengo de que se desconhece a identidade e que se julga pertencer ao círculo de Gerard David (1460-1523), mede 76 cms de altura e 87 cms de largura, fez parte do Retábulo da Capela do Esporão e encontra-se actualmente no Museu de Évora.

Cristo está ao centro, de pé, coberto com um manto vermelho entreaberto ao meio, em frente da entrada do túmulo incrustado numa pequena pequena elevação de terreno que divide a composição em duas partes. Segura, na mão esquerda, uma férula onde está preso um estandarte branco com a cruz vermelha, símbolo da sua vitória sobre a morte. Em volta da entrada do túmulo encontram-se três soldados sentados no chão. Um deles ainda dorme com a cabeça encostada aos braços assentes sobre os joelhos segurando prendendo uma maça com uma bola de pontas presa por uma corrente. O segundo está de costas para o espectador e parece reclinar-se para trás com a surpresa. E o terceiro, mostrando também surpresa voltando a face para Cristo, ergue uma das mãos e com a outra pega na alabarda.

Em plano recuado, do lado direito, vemos representada, numa cena secundária, o encontro de Jesus ressuscitado com um grupo de homens e mulheres nus que poderá ser o encontro com os Santos no Paraíso? Ao fundo, do lado esquerdo, a paisagem desenvolve-se em grande profundidade vendo-se o que parece ser uma muralha e uma torre junto a um rio, que poderá ser mais uma vez a representação de Jerusalém.Nota sobre Ressurreição na MatrizNet

Ascensão de Cristo

A Ascensão de Cristo é uma pintura a óleo sobre madeira pintada até cerca de 1530-1537 por Mestre flamengo de que se desconhece a identidade e que se julga pertencer ao círculo de Gerard David (1460-1523), mede 77 cms de altura e 89,5 cms de largura, fez parte do Retábulo da Capela do Esporão e encontra-se actualmente no Museu de Évora.