Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marquês de Condorcet (Ribemont, Aisne, 17 de setembro de 1743 – Bourg-la-Reine, 28 de março de 1794), normalmente referido como Nicolas de Condorcet, foi um filósofo e matemático francês.

Biografia Seu pai morreu pouco após seu nascimento. Sua mãe, mulher muito religiosa, o colocou em um colégio jesuíta em Reims, onde teve sua formação básica.

Na versão em português de sua obra "Método para Aprender a Contar com Segurança e Facilidade", narra o tradutor:"De nobre procedencia veio à luz, em 17 de Setembro de 1743 em Ribemonte, o marquez de Condorcet. Durante os primeiros annos de sua infancia dispensaram lhe os seus maiores educação que, por efeminada, prejudicou o seu desenvolvimento physico sem, seguramente, concorrer para avigorar-lhe as faculdades intellectuaes, Já na idade de onze annos deixou elle as vestes femininas, que até então trouxera, e foi entregue aos cuidados dos jesuitas de Reims, que lhe ministraram os primeiros elementos de instrução, até aos quinze annos, quando seguio para Pariz a completar os estudos no collegio de Navarra".Já aos dezesseis anos de idade, devido a suas habilidades analíticas, começou a chamar a atenção de Jean le Rond d'Alembert e Alexis Clairault. O primeiro decidiu acolhê-lo como pupilo.

Em 1765, Caritat publicou sua primeira obra, Essai sur le calcul integral (Ensaio sobre o cálculo integral), que foi muito bem recebido, lançando sua carreira como matemático. Ingressou na Academia das Ciências de Paris em 1769. Tornou-se também membro de outras academias pelo mundo: Alemanha, Rússia e Estados Unidos.

Por volta de 1772, Caritat conhece Jaques Turgot, que se tornou seu grande amigo. Dois anos depois, foi apontado, por Turgot, para o cargo de inspetor geral do Monnaie de Paris. Daí em diante, o filósofo muda o foco de suas reflexões, passando das questões matemáticas às questões filosóficas e políticas. Nos anos seguintes, ele lutou pelos direitos humanos, focando especialmente as mulheres e os negros — entrou para a Sociedade dos Amigos dos Negros na década de 1780. Caritat apoiou a Revolução Americana e acreditava que algumas das mudanças políticas que essa acarretou no Novo Mundo poderiam ser adotadas na França. Após a demissão de Turgot do cargo de controlador geral, em 1776, Caritat tenta demitir-se de seu cargo também, mas foi recusado e ele acabou servindo no Monnaie até 1791. Em 1786, Caritat escreveu Vie de M. Turgot, uma biografia que defendia as ideias de seu amigo e mentor.

Caritat publicou também Vie de Voltaire, onde defende as principais ideias do filósofo francês, principalmente em sua oposição à Igreja. Por meio de outras obras como Ensaio na aplicação de análises para a probabilidade das decisões da maioria, Caritat inaugurava um método próprio de usar teorias matemáticas para resolver questões das ciências sociais.

Em 1789, aderiu com entusiasmo à Revolução Francesa. Envolvendo-se profundamente na atividade política, fazendo parte do Clube dos Trinta assim como criou, juntamente com Thomas Paine, um projeto para a nova Constituição do governo dos rebeldes, com quem ele lutava, principalmente, pelo sufrágio feminino. Seu projeto foi rejeitado a favor de um mais radical, de Maximilien de Robespierre. Por suas diversas críticas às posições mais radicais tomadas pelos revoltosos, como a sentença de morte dada a Luís XVI de França, Caritat começou a ser visto com desconfiança pelos jacobinos. Após uma série de mal entendidos, o pensador foi considerado traidor da revolução e um mandato de prisão foi expedido em seu nome.

Perseguido pela revolução que tanto apoiara, foi forçado a se esconder na casa de uma amiga em 1793. Foi nesse refúgio que escreveu a obra Ensaio de um quadro histórico do progresso do espírito humano, publicado postumamente em 1795. Após oito meses se escondendo, Caritat desconfia de sua segurança e, ao tentar fugir, ele é capturado e mandado à prisão para dois dias, após o que apareceu misteriosamente morto em sua cela. A teoria mais aceita é a de que seu colega de cela, Pierre Jean George Cabanis, deu-lhe um veneno para beber, visto que Caritat estava desesperado. Entretanto, alguns historiadores acreditam que Caritat foi assassinado por ser muito amado e respeitado mesmo entre os rebeldes radicais para ser executado pelo governo revolucionário.

Porém, em uma ironia histórica, a Convenção que o tinha condenado decide comprar toda a tiragem de três mil exemplares da edição do Esboço, que a mulher de Condorcet havia mandado publicar, e ordena sua distribuição às escolas francesas, como um “livro clássico do filósofo desafortunado”.

Ensaio de um quadro histórico do espírito humano

Condorcet dividia sua história do progresso espiritual em dez épocas. Da primeira a nona ele narra, ou diz que irá narrar, uma vez que seu Esboço é escrito inteiro no futuro, a trajetória da humanidade desde o início hipotético até a Revolução Francesa. Na décima época o autor pretende mostrar os progressos que a humanidade fará no futuro.

Apesar de seu pensamento mostrar uma série de semelhanças à concepção histórica de outros pensadores anteriores como Diderot e d’Alambert, Condorcet é caracterizado como o último dos iluministas e o que melhor representou o seu jeito de pensar, em outras palavras: ele criou o que chamaram de “formulação canônica daquilo que se convencionou chamar de ideologia do progresso”.

A ideia de escrever sobre o progresso do espírito humano já era acalentada por Condorcet há muitos anos: em 1782 no discurso de seu ingresso na Academia de Ciências de Paris já defende um dos traços principais de sua teoria: a superioridade do presente com relação ao passado: “Pela primeira vez o sistema geral dos conhecimentos humanos foi desenvolvido. O método de descobrir a verdade tornou-se uma arte que se pode aprender, a razão enfim encontrou o seu caminho. O gênero humano não cairá mais na obscuridade. Não está mais em poder de homem algum apagar esta chama”.

Ora tal citação levanta a principal ideia que transita pela obra de Condorcet: A inevitabilidade do progresso e do racionalismo. O filósofo declara que é a regularidade do avanço dos conhecimentos humanos que formam a dinâmica da história e as épocas vão passando como estágios de superação onde o espírito humano acumula cada vez mais conhecimento. Dessa maneira o dever dos filósofos é apenas acelerar esta marcha inexorável do progresso.

Duas ideias fundamentam sua ideia de progresso: o homem é um ser indefinidamente perfectível e a história mostra esse aperfeiçoamento, o que permitiu pensar na sua continuidade. Entretanto logo se nota uma contradição: foi Rousseau quem criou a ideia de perfectibilidade em uma concepção totalmente aposta ao otimismo da fé no progresso, usada, na verdade para criticar esse mesmo progresso. Porém, mais de 20 anos após os escritos de Rousseau, Condorcet responde dizendo que a liberdade, as artes, as luzes contribuíram para a amenização dos costumes que os vícios dos gregos, tão frequentemente associados aos progressos da civilização, eram os erros de séculos mais grosseiros e que as luzes, a cultura das artes os temperaram, quando não puderam destruí-los. Nas palavras do próprio filósofo: “Provaremos que estas eloquentes declamações contra as ciências e as artes são fundadas sobre uma falsa aplicação da historia e que ao contrario, os progressos das virtudes sempre acompanham os progressos das luzes, assim como os progressos da corrupção sempre acompanham a decadência. Então ver-se-á que esta passagem tempestuosa e penosa de uma sociedade grosseira ao estado de civilização dos povos esclarecidos e livres não é uma degeneração da espécie humana, mas uma crise necessária na marcha gradual em direção ao aperfeiçoamento absoluto”.

Outro ponto importante é o tratamento dado por Condorcet à religião no decorrer de sua obra: são caracterizadas em todos os momentos como entraves ao progresso. Os sacerdotes e os teólogos (endereçados sucessivamente por uma séria de termos depreciativos) são sempre mostrados como inimigos hipócritas do conhecimento, que, de maneira consciente, desejam apenas concentrá-lo para si mesmo e impedir que o homem comum desenvolva sua racionalidade para questionar sua submissão.

Tal relação hostil para com a religião também não é uma especificidade de Condorcet, tendo uma gama de pensadores antes dele condenando a mesma por diversos erros ou crimes. Entretanto a potência que Condorcet lança mão ao criticar tal inimigo é, por vezes tanta, que Voltaire uma vez afirmou que “preferiria ser difamado a ser defendido dessa forma”. A criação do filósofo provavelmente teve um papel chave para o desenvolvimento de tal relação. Após a morte de seu pai, a mãe, atormentada e temerosa pelo futuro de seu filho, obrigou-o a usar somente roupas brancas até os oito anos como sinal de devoção.

Apesar de tal hostilidade Condorcet caracteriza o processo que acontece na aurora das sociedades na qual alguns agregam o conhecimento e separam este somente para si e outros se submetem, como um processo natural inevitável. Tal acontecimento seria uma crise necessária ajudando de certa forma o progresso, que por sua vez diminuirá essa divisão com a distribuição do conhecimento.

Trata-se de uma incoerência, uma contradição, do discurso progressista de Concorcet. Ele trata essa desigualdade criada pelo acúmulo do conhecimento como natural do homem, assim como diz que a igualdade também é natural. Concorcet tenta desatar os nós dessa contradição durante todo o Esboço, mas especialmente durante o décimo período. Onde trata de um futuro de progresso para o homem, fazendo-o de forma quase utópica, de maneira bem lógica, quase matemática, podemos notar isso já no primeiro parágrafo do décimo período, onde diz: “Se o homem pode predizer com uma segurança quase integral os fenômenos dos quais conhece as leis; se, mesmo quando estas lhe são desconhecidas, ele pode, a partir da experiência do passado, prever com uma grande probabilidade os acontecimentos do futuro”.

Na mesma citação já é notado a noção de história presente no pensamento de Condorcet. Essa noção é clássica do pensamento Iluminista que pensa a história como modo, não só de pensar o futuro, mas também de não repetir os erros do passado. Dessa forma pelo estudo da história não cometeríamos os mesmos erros do passado, assim conseguindo avançar de maneira cada vez mais rápida em direção a perfectibilidade humana. Esse tipo de ideia coloca-o realmente como último dos iluministas, os pensamentos dele sintetizam, de forma geral, as ideias do século XVIII, sendo utilizadas por muitos pensadores do século XIX, e ajudando a formar algumas correntes que beberam deles diretamente, e se apropriaram de conceitos e ideias quase integralmente, entre eles Auguste Comte.

Nessa linha progressista e “matemática” que Condorcet traça, analisando o passo para conseguir prever o futuro, ele pode parecer muitas vezes usando de ideias proféticas, como se estivesse mesmo profetizando algo melhor, que viria com o futuro, fruto de algo superior aos homens e para eles. Isso usando o tipo-ideal de Max Weber do profeta, segundo o qual este se utiliza de um mandato divino para impor uma nova doutrina religiosa, sendo iluminado pela providência, usurpador do poder determinando de maneira anti-sacerdotal, contra a magia, um novo sentido para uma vida melhor e mais homogênea.