thumb|300px|Ilhéu de vila Franca do Campo, vista geral. thumb|300px|Ilhéu de vila Franca do Campo, lagoa interior. thumb|300px|Ilhéu de vila Franca do Campo, lagoa. thumb|300px|Ilhéu de Vila Franca do Campo, aspetos diversos. thumb|300px|Ilhéu de vila Franca do Campo, praia.

O Ilhéu de Vila Franca é uma atração turistica local da ilha de São Miguel, concelho de Vila Franca do Campo, na costa sul da ilha de São Miguel, nos Açores.

Constitui-se numa pequena ilhota vulcânica, distante cerca de 500 metros da costa de Vila Franca do Campo, e 1200 metros do cais do Tagarete, no centro da vila. Deste porto existem ligações regulares com o ilhéu durante a época balnear.

Durante séculos foi apontado como sendo o local ideal para a construção de um porto de abrigo, tendo-se, em vários momentos, procedido a estudos e projetos para esse fim, o último dos quais por volta do ano de 1840. A ideia apenas foi definitivamente abandonada com a construção do porto de Ponta Delgada.

Calendário Sazonal do Ilhéu

De 15 de Junho a 14 de Abril, o interior do Ilhéu está aberto a visitas exclusivamente através de empresas locais de Vila Franca do Campo certificadas pelo Governo Regional dos Açores, para passeios de interpretação da natureza e da vida selvagem (nadar no ilhéu é proibido desde 2025). De 15 de Abril a 14 de Junho, o interior do Ilhéu está encerrado a visitas, devido à política de conservação local que protege a reprodução e o cuidado das espécies autóctones.

Durante todo o ano é possível visitar o Ilhéu de barco com empresas locais vendendo bilhetes para passeios de barco ao redor da linda maravilha vulcânica submersa - o Anel da Princesa de Vila Franca.

Morfologia O ilhéu é um cone vulcânico de origem hidromagmática, muito desmantelado pela erosão marinha, pelos movimentos tectónicos e por assentamentos diferenciais. Na sua constituição predominam os tufos palagoníticos muito litificados, em formações caracterizadas por forte fracturação vertical, de que resultam grandes estruturas colunares e algumas cavidades subaquáticas. Apresenta forma semicircular, com uma área total de 95 hectares, dos quais estão emersos 61,6 hectares, com uma abertura por onde o mar penetra livremente na cratera. A cratera, com uma profundidade máxima de 20 metros, forma um círculo quase perfeito com 150 metros de diâmetro. A abertura, designada por Boquete, está voltada a Norte, isto é na direção da costa da ilha, o que impede a entrada da agitação marítima para o interior.

Apesar do solo esquelético, o ilhéu foi objeto de cultivo, subsistindo ainda restos das antigas curraletas de vinha que ocupavam a sua parte alta.

História Da descoberta e ocupação O povoamento da ilha de São Miguel iniciou-se pela parte sudeste, na chamada "Povoação Velha", e apenas após mais de um ano é que Gonçalo Vaz Botelho, o Grande, e a sua gente, nas palavras do cronista, "correndo a costa para o poente, foram dar ao ilhéu de Vila Franca". Gaspar Frutuoso. Saudades da Terra. Livro IV, Vol. I, p. 17. E complementa: "ali defronte saíram em terra e habitaram, a qual semeando e cultivando lhe respondeu com muitas e abundantes novidades".Op. cit. Frutuoso afirma ser ainda ser este "o mais formoso ilhéu que há nas ilhas".Op. cit., Vol. II, p. 52.

Com relação às lendas que envolviam o ilhéu o cronista regista ainda que, mandando o Infante D. Henrique reconhecer pela segunda vez a ilha de São Miguel, frei Gonçalo Velho "achou primeiro o ilhéu de Vila Franca, onde saiu sem ver a ilha; e fazendo dizer nele missa, sem consagrar nela, por lhe parecer que estava no mar, como em navio, porque era o ilhéu pequeno." E prossegue: "Acabada a missa, começaram por ouvir uns gritos grandes que eles entendiam ser dos demónios, que gritavam e diziam - nossa é esta ilha, nossa é! (...) contudo, desembarcaram e tomaram posse dela, desapossando os demónios."

O primeiro documento histórico relacionado à ilha é a sua carta de dada a João da Grã, cavaleiro da Ordem de Avis, passada a 13 de junho de 1537 pelo 5º capitão do donatário da ilha de São Miguel, D. Manuel da Câmara, "para creação de cabras ou outra qualquer creação e proveito que no dito ilhéu possa melhor fazer'".Arquivo dos Açores, Vol. VI, p. 387. João da Grã requereu em 1540 ao monarca a confirmação da dada e o privilégio de que ninguém pudesse ir caçar coelhos ao ilhéu, contra a sua vontade e sem a sua prévia autorização.

Logo após o terramoto de 22 de outubro de 1522 - a que o ilhéu sobreviveu sem maiores danos, constituindo-se em refúgio para algumas embarcações -, João III de Portugal, a requerimento do capitão do donatário, mandou examinar o ilhéu para determinar da viabilidade de se construir no seu interior um porto de abrigo, "(...) e lhe apresentaram o plano de que a sua caldeira podia recolher 30 navios, devendo-se rebaixar e alargar o boquete e tapar as fendas que o circundam".ABRANCHES, 1834:9 Contudo, este projeto não teve execução.

Quando da crise sísmica que assolou Vila Franca de 25 a 28 de junho de 1563, novamente o ilhéu se converteu em refúgio de embarcações e gentes. É ainda o cronista quem refere:

"Muitas pessoas se botavam a nado ao mar, não temendo esse perigo, por evitar o que na terra tinham, acolhendo-se aos barcos e navios ancorados e ao ilhéu, onde já estava muita gente acolhida, e para a cidade."Gaspar Frutuoso. Saudades da Terra. Livro IV, Vol. II, p. 213.

A Dinastia Filipina À época da Dinastia Filipina (1580-1640), após a derrota portuguesa na batalha Naval de Vila Franca (26 de julho de 1582) o alto do ilhéu também foi palco de execuções exemplares, por ordem do marquês de Santa Cruz de Mudela:

"O dia seguinte [2 de agosto de 1582] se viram outras duas forcas no ilhéu, mas por andar o mar alterado não foi possível fazer-se então justiça, e assim ficou até o terceiro dia do mês, que se acabou de fazer a execução dela, enforcando dezoito ou dezenove franceses mancebos bem dispostos. Dizem ser o intento do Marquês em os mandar enforcar no alto do ilhéu, para todos os que passassem ao longo dele e da terra, vendo aquela justiça não usassem semelhantes obras, e temessem outro tal castigo."Gaspar Frutuoso. Saudades da Terra. Livro IV, Vol. III, p. 79.

Nesse período foram-lhe promovidos trabalhos de beneficiação, visando o antigo projeto de utilizá-lo como ancoradouro. Para esse fim, a entrada para a caldeira interior foi cavada a picão, facilitando o acesso a embarcações de menos de sessenta toneladas, "para passarem ali seguros o tempo das tormentas e do inverno". E complementa: "Agora está ornado com um forte muro que lhe defende por ali a entrada do mar e tem a boca preparada para nele poderem entrar galés.Gaspar Frutuoso. Saudades da Terra. Livro IV, Vol. I, p. 278.

Cogitou-se ainda a fortificação do mesmo, conforme correspondência de 5 de julho de 1593, do então Governador e Capitão da ilha de São Miguel, Gonçalo Vaz Coutinho, a Filipe II de Espanha, que pleiteava:

"De outra coisa há nesta ilha grandíssima necessidade assim para os navios dela, como e muito mais para os que vem de mar em fora; que é o conserto do ilhéu de Vila Franca, sobre que já os anos passados escrevi a V. M., e será pouco de custo porque eu me atrevo, com três mil cruzados fortificá-lo, e este sem serem da Fazenda de V. M. se não dos dois por cento, porque o sítio do ilhéu é tal que com pouca fábrica é mister: artilharia temos cá; soldados pode ir uma esquadra cada mês revezar-se, e assim os bombardeiros. Só será necessário ordenado para o capitão, escrivão, e dispenseiro e capelão, que dos dois por cento se pode dar. V. M. veja a importância disto que é mui grande, porque será fazer um porto nestas ilhas de natureza é maravilhoso, dentro abrigado a todos os ventos, e fora aos mais, e capaz dentro de navios de até 80 toneladas, e fora de todo o porte."Arquivo dos Açores. Vol. I, p. 75. Observe-se que os 2% eram o imposto da Coroa sobre o pastel e o açúcar.

Poucos anos após essa solicitação, a ilha de São Miguel foi atacada pela armada inglesa sob o comando de Robert Devereux, 2º conde de Essex, no Outono de 1597, na sequência dos ataques às ilhas do Faial e do Pico. Gonçalo Vaz Coutinho dispôs a defesa de terra de Ponta Delgada a São Roque, e da Lagoa a Vila Franca do Campo. Aproximaram-se do ilhéu de Vila Franca dezassete galeões ingleses, a pretexto de fazer aguada. Conforme aquele Governador referiu na sua "História do Sucesso", "foi a tempo que o inimigo vinha com as suas lanchas para terra e vendo-a [a defesa] tanto em ordem, desistiu do intento e se recolheu aos navios com a maior presteza." O mesmo documento relata que aquele governante "salvou quase de suas mãos quatro nossos [navios] que esperavam carga de trigo, mantidos no Ilhéu, porque logo em chegando mandou a ele Manoel de Escovar [(Manuel de Escobar)], capitão de Artilharia da Ilha [de São Miguel], e duas esquadras de soldados, com os quais, e com a gente dos navios guarneceu a boca da caldeira [do ilhéu], atravessando nela algumas âncoras e à mor cautela guarneceu também a faixa de Les-Sueste, com o que o inimigo de todo desesperou fazer presa, ainda que se deixou andar três dias sobre o Ilhéu volta ao mar, volta a terra com a demonstração de o tornar a acometer (...)"Arquivo dos Açores. Vol. X, p. 114.

Em 1612 uma postura municipal suspendeu a criação de gado no ilhéu "pelo inconveniente que há de derrubarem a terra que corre por ele abaixo", sob pena do que fosse apreendido e pagamento de vinte cruzados para o acusador.FERREIRA, 1989:48

O ilhéu mudou de mãos em 8 de março de 1616, vendido por Leonor de Abreu, Maria Andrade e João de Grã de Abreu, a Fernão Corrêa de Sousa, por seu bastante procurador, Jordão Jácome Raposo, morador na vila de Nordeste, conforme instrumento lavrado por Baltasar de Abreu, tabelião de Vila Franca.Arquivo dos Açores. Vol. VI, p. 388.

Ainda nesse período, em 1624 outra postura municipal determinou proceder a colocação de "meurões" (mourões) de cerne, no lado norte, para amarração dos navios, e proibia a baldeação de lastros sob pena do pagamento de dez cruzados para a indispensável limpeza.

Após a restauração da Independência Portuguesa, o Soberano solicitou ao então Governador de São Miguel, Luís Mendes de Vasconcelos, o estudo do antigo projeto de construção de um molhe na caldeira do ilhéu (1654). Para o efeito foi comissionado o padre Lázaro da Costa Lima, que o estimou capaz de abrigar quarenta navios e o custo do projeto em seis mil cruzados.FERREIRA, 1989:48-51. Mais tarde, a governação de Vila Franca do Campo, por carta de 18 de setembro de 1680 representou ao Soberano, insistindo no "conserto" do ilhéu, e, posteriormente ainda, Pedro II de Portugal, em 1691, voltou a determinar o estudo daquele mesmo antigo projeto.FERREIRA, 1989:51

O século XVIII Em 1703 o ilhéu passou para a posse do capitão-mor da Ribeira Grande, Pedro da Ponte Raposo, e, em 1708, para a do seu sucessor, Manuel Raposo Correia. Passaria, ainda por sucessão, para o filho deste, António Manuel Raposo e, por morte deste, para a de Francisco Raposo Manuel Correia.

Neste período o padre António Cordeiro, sobre a excelente posição do ilhéu, regista que "serviria também de melhor Fortaleza, como a do Bugio em a entrada do Tejo", acrescentando que, na sua caldeira, cabiam vinte navios.CORDEIRO, António. História Insulana das Ilhas a Portugal Sujeitas no Oceano Ocidental. Lisboa, 1717.

Com a criação da Capitania Geral dos Açores (1766, e por força do impulso reformador do marquês de Pombal, foram feitos novos estudos para o aproveitamento do Ilhéu, esbarrando uma vez mais a sua execução com a falta de fundos para financiar as obras.FERREIRA, 1989:52

No final do século, uma série de relatórios foram produzidos acerca do aproveitamento do ilhéu, de acordo com o levantamento de Ernesto do Canto.Arquivo dos Açores. Vol. VI, p. 392.

Do século XIX aos nossos dias