Paulo Leminski Filho (Curitiba, — Curitiba, ) foi um escritor, poeta, músico, crítico literário, jornalista, publicitário, tradutor e professor brasileiro. Tinha uma poesia marcante, pois inventou um jeito próprio de escrever, com trocadilhos, brincadeiras com ditados populares e influência do haicai, além de usar gírias e palavrões. Foi influenciado pela cultura japonesa, principalmente pela poesia curta e objetiva dos haicais de Matsuo Bashō, autor sobre o qual Leminski escreveu uma biografia. Além da influência japonesa em sua poesia, Leminski também era faixa preta de judô.

Biografia Primeiros anos Paulo Leminski Filho nasceu em 24 de agosto de 1944, em Curitiba. Filho de Paulo Leminski e de Áurea Pereira Mendes, seu pai era de origem polonesa e sua mãe, filha de pai português e mãe brasileira de origem negra e indígena.

Leminski estudou no Colégio Estadual Dr. Caetano Munhoz da Rocha e no Colégio Paranaense (Marista). Em 1958, aos treze anos, foi para o Mosteiro de São Bento em São Paulo e lá ficou um pouco mais de um ano. Lá adquiriu conhecimentos de latim, teologia, filosofia e literatura clássica. Leminski queria ser monge, contrariando o desejo de seu pai, que queria que ele seguisse sua carreira militar. Leminski abandonou suas vocações religiosas posteriormente. Em Curitiba, voltou ao Colégio Paranaense e depois estudou no Colégio Estadual do Paraná. Continuou consumindo literatura, principalmente as literaturas grega, latina, francesa e até hebraica, pelas Sagradas Escrituras.

Leminski casou-se em 9 de fevereiro de 1963 com a desenhista e artista plástica Nevair "Neiva" Maria de Sousa, de quem veio a se separar em 1968, embora só tenham se divorciado oficialmente em 1976. Ingressou também nas faculdades de Direito e de Letras, mas não as concluiu. Ainda em 1963, viajou para Belo Horizonte, participando da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, onde conheceu Haroldo de Campos, amigo e parceiro em várias obras, Augusto de Campos e Décio Pignatari, criadores do movimento poesia concreta.

Início de carreira Estreou em 1964 com quatro poemas na revista Invenção, dirigida por Décio Pignatari, em São Paulo, porta-voz da poesia concreta paulista. Em 1965, tornou-se professor de literatura, história e de redação em cursos pré-vestibulares, após ter abandonado a faculdade. Foi em uma dessas aulas que teve a ideia de escrever seu primeiro romance, Catatau. Em 1966, ficou em primeiro lugar no II Concurso Popular de Poesia Moderna promovido pelo jornal O Estado do Paraná, desembolsando a quantia de 80 mil cruzeiros. Durante essa época começou a praticar judô, conseguindo a faixa preta 4 anos depois. Além de praticante, Leminski também foi professor de judô. Em 1967, fundou o Grupo Áporo, que em seu manifesto propunha-se a combater o "provincianismo cultural de Curitiba". No mesmo ano, começa a escrever o que se tornaria Catatau. Em 1968, participou do I Concurso Nacional de Contos do Paraná, com um conto intitulado Descartes com Lentes. Finalista do concurso, não venceu, o motivando a expandir o texto, que acabaria se tornando Catatau.

Uniu-se em 1968 à também poeta Alice Ruiz. Leminski e Alice foram morar em uma espécie de comunidade hippie. Ficaram lá por mais de um ano e só saíram com a chegada do primeiro de seus três filhos, Miguel Angelo. De 1969 a 1970, decidiu morar no Rio de Janeiro, trabalhando como copidesque, tradutor e escritor para jornais, como O Globo e O Pasquim, na agência de notícias Reuters e em revistas, retornando a Curitiba para se tornar redator publicitário.

Na década de 1970, teve poemas e textos publicados em diversas revistas, como Qorpo Estranho, Muda e Raposa. Em 1975, publicou o seu ousado Catatau, que chamou de "romance-ideia" e que demorou 8 anos para ser concluído. Em 1976, publicou Quarenta Clics em Curitiba em conjunto com Jack Pires. Sendo uma espécie de fotolivro, possui 40 poemas escritos por Leminski e 40 fotos em preto e branco tiradas por Pires. No final da década de 1970, na editora Grafipar de Curitiba, o casal Paulo Leminski e Alice Ruiz roteirizou histórias em quadrinhos eróticas, desenhadas por artistas como Cláudio Seto, Julio Shimamoto, Flavio Colin e Itamar Gonçalves.

Anos 1980 Em 1980, com a iniciativa de amigos, publicou Não Fosse Isso e Era Menos, Não Fosse Tanto e Era Quase. No mesmo ano, publicou Polonaises. Todos os livros publicados por Leminski até esse ponto haviam sido publicados de forma independente. Foram esses dois livros, em conjunto com outras poesias escritas mais tarde, que formaram a obra Caprichos e Relaxos, publicada em 1983 pela editora Brasiliense por iniciativa do editor Luiz Schwarcz.

Paulo Leminski foi um estudioso da língua e cultura japonesas (como o zen-budismo), e, em 1983, publicou uma biografia de Matsuo Bashō (Matsuó Bashô: A Lágrima do Peixe), autor que o influenciou em seus haicais e do qual traduziu vários textos. Além da biografia de Bashō, escreveu também durante a década de 1980 biografias de Cruz e Sousa (Cruz e Sousa: O Negro Branco), Leon Trótski (Leon Trotski: A Paixão Segundo a Revolução) e Jesus Cristo (Jesus: a.C.), todos personagens que influenciaram Leminski de certa maneira. Das quatro biografias, duas são baseadas em traduções feitas por Leminski: Jesus possui várias traduções dos evangelhos e Matsuó Bashô possui mais de 30 traduções de seus haicais, além de trechos de seus diários e outros breves poemas de autores orientais e ocidentais. Publicadas individualmente, as biografias posteriormente foram publicadas em volume único, intitulado Vida.

Em 1984, publicou seu segundo romance, Agora É que São Elas. Entre 1983 e 1986, foi tradutor de Walt Whitman, John Fante, Lawrence Ferlinghetti, James Joyce, Alfred Jarry, Petrônio, Yukio Mishima, John Lennon e Samuel Beckett. Leminski falava 6 línguas estrangeiras: inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol. Quase metade das obras publicadas de Leminski são trabalhos de tradução.

Em 1985, publicou Hai Tropikai, em parceria com Alice Ruiz. Em 1987, publicou sua última biografia, Leon Trotski, seu último trabalho de tradução, Fogo e Água na Terra dos Deuses, e a coleção de ensaios Anseios Crípticos. Logo depois, publicou seu último trabalho poético em vida, Distraídos Venceremos. Ainda publicou o livro infantojuvenil Guerra Dentro da Gente. Entre 1988 e 1989, em São Paulo, foi colunista do Jornal de Vanguarda, que era apresentado por Doris Giesse, na Rede Bandeirantes. Em abril de 1989, de volta a Curitiba, estreou como colunista na Folha de Londrina.

Morte e publicações póstumas Morreu em 7 de junho de 1989, em consequência do agravamento de uma cirrose hepática que o acompanhou por vários anos.

No ano de sua morte, foram publicadas a segunda edição de Catatau e o livro de poemas de literatura juvenil A Lua no Cinema. Em 1991, foi publicada postumamente a obra La Vie en Close, com poemas inéditos. Outros livros de poesia publicados postumamente com conteúdo inédito incluem Winterverno em conjunto com João Suplicy, publicado em 1994, Metaformose: Uma Viagem pelo Imaginário Grego, publicado em 1994 e que foi agraciado com o Prêmio Jabuti de Poesia de 1995 (3° lugar), e O Ex-Estranho, publicado em 1996 e organizado por Alice Ruiz e Aurea Leminski. Em 2004, foi publicado Gozo Fabuloso, livro de contos e crônicas.

Em 2013, a compilação da poesia completa Toda Poesia, organizada por Alice Ruiz, que acompanhou toda a produção de sua obra, foi um fenômeno de vendas da editora Companhia das Letras e fixou a importância do poeta na literatura brasileira. Em 2022, o livro chegou ao mercado norte-americano com a tradução do professor emérito do Departamento de Estudos em Espanhol e Português da Universidade da Flórida, Charles A. Perrone, em parceria com o Doutor em Estudos Literários da Universidade Federal do Paraná, Ivan Justen Santana.

Vida pessoal Família e amigos De 1968 a 1987 viveu com a poeta Alice Ruiz, que organizou sua obra após sua morte. Com ela teve três filhos: Miguel Angelo Leminski (1969–1979), que morreu com dez anos de idade, vítima de um linfoma, Aurea Alice Leminski (1971) e Estrela Ruiz Leminski (1981). A caçula lançou o álbum Leminskanções em 2014, gravando 25 composições de Paulo, um songbook em 2015, registrando cerca de 109 composições de seu pai, e o álbum Completamente Poeta em 2026, gravando mais 11 composições de Leminski. Gilberto Gil compôs a canção Estrela dedicada à filha do poeta.

Sua casa, no bairro Pilarzinho, em Curitiba, era uma espécie de reduto da intelectualidade na capital paranaense, onde diversos artistas que estavam de passagem pela cidade aproveitavam a ocasião para trocarem informações e realizar parcerias em composições musicais e poesias. Moraes Moreira, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ademir Assunção e Itamar Assumpção foram alguns dos artistas que o visitaram.

Questões envolvendo paternidade Segundo um dos biógrafos do poeta, Toninho Vaz, em 31 de janeiro de 1968 nascia o bebê de Neiva, primeira esposa de Leminski, o qual foi registrado em 15 de fevereiro de 1968 como Paulo Leminski Neto, filho de Paulo Leminski Filho e Nevair Maria de Souza Leminski. Todavia, em 1976, já separada de seu primeiro marido desde o ano de nascimento da criança, Neiva e Ivan da Costa registraram a criança com o nome de Luciano da Costa, tendo Ivan como pai, que efetivamente criou o rapaz, gerando a polêmica em torno da verdadeira identidade dele. Segundo relato da mãe, Neiva, Paulo Leminski Neto, também conhecido como Luciano da Costa, não é filho do escritor Paulo Leminski. De acordo com ela, a primeira certidão de nascimento foi emitida sob pressão da família de Leminski, com quem vivia em uma comunidade hippie e que não aceitaria o fato de ela ter engravidado de outro homem. Em agosto de 2021, Luciano conseguiu tirar sua carteira de identidade com o nome de Paulo Leminski Neto, com Paulo Leminski Filho como pai. Questões judiciais relativas à sucessão (direito à herança) de Paulo Leminski e ao uso do nome "Paulo Leminski Neto" tramitam na justiça.

Política Leminski era trotskista e muito próximo da Organização Socialista Internacionalista (OSI), grupo que estava em situação de clandestinidade devido à repressão do regime militar. Escreveu um poema para o movimento Liberdade e Luta (Libelu), tendência estudantil universitária fundada em 1976 na USP, cuja OSI era responsável e que atuava no combate ao regime militar, ficando famosa pela palavra de ordem "abaixo a ditadura". Chamado Para a Liberdade e Luta, o poema refere aos trotskistas como "aqueles que o poder não corrompeu".

Obra miniaturadaimagem|Um poema visual de Paulo Leminski

Leminski inventou um jeito próprio de escrever poesia, preferindo poemas breves, muitas vezes fazendo haicais, trocadilhos, brincadeiras com ditados populares e o uso de gírias e palavrões. Também estão presentes elementos da vanguarda, como a ausência de pontuação e de letras maiúsculas, a disposição geométrica das palavras na página e o uso de neologismos e de aglutinações. Outra característica presente em suas obras é a visualidade, com o uso de diferentes fontes e corpos de letras, além de recursos de diagramação. Apesar disso, Leminski também utilizava recursos da poesia tradicional, como as rimas, muitas vezes inusitadas.

Teve influência da poesia de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Em muitas ocasiões declarou sua admiração por Torquato Neto, que antecipou muito da estética da década de 1970, sendo poeta do tropicalismo, movimento que influenciou Leminski. Leminski fez parte da geração mimeógrafo, um movimento surgido logo após o tropicalismo em que os intelectuais tentavam escapar da repressão do regime militar com meios alternativos, principalmente através do mimeógrafo.