Warao é uma etnia indígena que habita desde o nordeste da Venezuela, passando pelo norte das guianas ocidentais até o centro-norte do estado do Pará, no Brasil. Suas alternativas de escritas gráficas comuns são Warao, Waroa, Guarauno, Guarao e ou Warrau. O termo Warao traduz como "povo do barco", após a conexão íntima ao longo da vida dos Waraos com à água. A maioria da população é de aproximadamente 20.000 habitantes, localiza-se na região do delta do Orinoco na Venezuela, com números menores nas vizinhas Guiana, Suriname e Brasil. Sua língua falada é aglutinante, chamada também de Warao.
Os Warao: características, costumes e tradições De acordo com Rodríguez (2010), os Warao têm suas origens ligadas há tempos remotos, provas arqueológicas sugerem que essa etnia povoa o continente americano desde aproximadamente sete ou oito mil anos. Muito antes da chegada dos europeus, esses indígenas habitavam a parte sul das Américas; a tradição oral desse povo registra a chegada ao Delta do Orinoco antes do último período glacial, quando esses territórios estavam unidos.
Ao analisar por outro prisma, Etayo (2013) afirma que, nos primórdios, os Warao foram considerados nômades, característica associada aos grupos de economia de coleta; porém tal fato foi rapidamente modificado para um estilo mais sedentário. O ecossistema estável em torno da savana do Delta do Orinoco facilitou a adaptação e o acesso total a suas fontes de subsistência.
Historicamente, conforme Tiapa (2007), os Warao são a etnia mais antiga do Delta do Orinoco, com uma presença de aproximadamente 7000 anos. Durante a época colonial, os estudos apontam uma presença diversificada de populações Caribe e Arawak, originadas de migrações provenientes da Amazônia. Contudo, nos últimos séculos, essa diversidade étnica foi reduzida a presença quase exclusiva dos Warao; os quais mantiveram contatos esporádicos com a sociedade nacional até a década de 30 do século XX.
Primeiro contato com os europeus
Os Waraos do Orinoco da Venezuela oriental tiveram seus primeiros contatos com os europeus quando, logo depois de Cristóvão Colombo ter alcançado o delta do rio Orinoco, Alonso de Ojeda decidiu navegar contra a corrente do rio adentro. Lá, no delta, Ojeda viu as cabanas dos Waraos distintamente empoladas, equilibradas sobre as águas, tendo comparado a arquitetura semelhante em Sinamaica, de longe para o oeste e tido comparações com a cidade de Veneza, e os seus famosos canais abaixo dos edifícios; este novo encontro propagou o nome de Venezuela ("pequena Veneza") para a região inteira, sendo mais tarde o nome oficial do país sul-americano.
Habitaçõesminiaturadaimagem|Uma comunidade waraoTendo o delta sobre o rio Orinoco fértil composto de ilhas e pântanos, as habitações do povo Warao caracterizam como residências com teto de palha e cabanas construídas sobre palafitas para proteção contra inundações. Estas casas são construídas geralmente no chão mais alto para evitar as inundações anuais. Às vezes, um grupo de casas é construído sobre uma única plataforma de grandes árvores. Cada cabana possui uma cozinha e um forno localizado no centro, com redes cercadas para o descanso e um poço de argila. Dos outros móveis presentes às vezes geralmente são vistos certos banquinhos de madeira, às vezes esculpidos no formato de animais.
A sociedade Warao constitui-se por grandes famílias que mantém laços de parentesco, aglomerando-se em subgrupos em que a autoridade da mulher se reflete no matriarcado. As mulheres se casam aos quinze anos, constituendo famílias compostas pelo marido e por filhos, que, quantitativamente, oscilam entre cinco e oito pessoas. Em geral, esses indígenas são monogâmicos, porém alguns anciões e líderes podem ter mais de uma mulher; na maioria dos casos, irmã da primeira (RODRÍGUEZ, 2010).
Outro posicionamento de Trindade et al. (2018), constata-se que o padrão de residência Warao é idealmente caracterizado como matriarcal, de modo que os homens, logo após o casamento, passam a residir na comunidade da família da esposa. Assim, as mulheres assumem um papel preponderante na composição do grupo, ao responder pela distribuição de recursos e alimentos, já os homens atuam nos espaços públicos de mediação.
Desse modo, há uma significativa heterogeneidade nas “formas de ser Warao”, ao traduzir-se em práticas culturais e modos de vida relativamente distintos entre os grupos localizados em diversas regiões do Delta do Orinoco. Contudo, quase a totalidade dos grupos indígenas denominam suas habitações de janoko.
Caracteristicas, Educação, Política e Organização Social
Quanto ao aspecto físico, os Warao não diferem muito dos outros povos indígenas da América do Sul; que cientificamente são denominados mongoloides americanos. Esses são sujeitos de média estatura, não superam os 160 cm, de rostos largos e maçãs do rosto proeminentes, olhos puxados e amplo espaço interorbital (ETAYO, 2013).
No campo da educação, observa-se que essa se procede de maneira natural e sutil, sem muitas regras. De acordo com o sexo, os jovens aprendem com os adultos as tarefas diárias e assimilam as regras morais e socias através da escuta dos relatos míticos proferidos pelos anciões. Dessa maneira, a educação que recebem em casa os informam sobre os valores que vão reger suas vidas, quais serão as regras, as atividades cotidianas que realizarão e seus costumes e crenças mágico-religiosas. Já a educação formal basicamente deve sua origem aos missionários, especialmente os capuchinhos.
Portanto, o povo Warao preservou suas peculiaridades e especificidades culturais por um determinado espaço de tempo, fato esse possibilitado pela dificuldade de acesso dos europeus as terras tradicionalmente ocupadas por esses indígenas. No entanto, a integração à vida econômica nacional e o contato com os não indígenas, criollos, transformaram de forma significativa o modo de vida Warao.
Tendo em vista o supracitado, essa denominação dada aos não indígenas de criollo carrega em si uma ampla variedade de significado. Etimologicamente, a palavra criollo está ligada a uma divisão na sociedade colonial em oposição aos pardos, os indígenas e os negros. No início do século XVI, este termo era utilizado para todos aqueles nascidos na América, tanto brancos espanhóis como negros escravos. Contudo, a partir do século XVII, esse termo passa a ser utilizado na Venezuela para denominar, preferencialmente, os nascidos na província, mas de ascendência espanhola. Ademais, transcorrido um certo espaço de tempo, o uso dessa denominação estendeu-se a todos os venezuelanos, exceto aos indígenas (GARCÍA-CASTRO, 2005).
No que se refere à palavra “índio”, essa é utilizada comumente tanto pelos criollos como pelos próprios indígenas para se referir a si mesmo. Segundo García-Castro (2005), para se evitar a conotação depreciativa que tal palavra adquiriu desde a época colonial na Venezuela, tem-se empregado modernamente o termo “indígena”, especialmente por parte dos antropólogos que consideram as sociedades autóctones sujeitos de estudo.
Para além, com relação a político, os Warao encontram-se sob a influência de um homem maior e experiente que em seu idioma é denominado de: aidamo, araobo ou idamo; cujo significado remete a chefe, ou ao mais ancião.
De acordo com Rodríguez (2010), os líderes Warao são reconhecidos pela comunidade, um chefe é um homem que tem demonstrado possuir uma série de habilidades e conhecimentos, especialmente aos relativos à espiritualidade, à natureza e ao cultivo das boas relações entre os membros da comunidade. Legitima-se quando demonstra ter o apoio familiar que requer para provar que é generoso justo e capaz de manter a ordem e a harmonia.
Já no campo da religiosidade Warao, Rodríguez (2010) afirma que esses reconhecem três tipos diferentes de sacerdotes: o médico, o xamã e o sacerdote (xamã wisiratui). Ademais, as atividades religiosas carregam alguns tabus quanto ao exercício feminino; contudo, algumas comunidades permitem o exercício por parte das mulheres conforme sua idade. Portanto, as privações relacionadas ao sexo feminino estão ligadas às propriedades mágicas atribuídas pelos Warao a menstruação; para tais indígenas, o período possui capacidade de atração de forças antagônicas. Por isso, quanto mais velha for a mulher, maior será a probabilidade do exercício de qualquer atividade religiosa, já que o período da menopausa já terá se iniciado, ao cessar os ciclos menstruais.
Ainda com relação às interdições, destaca-se que os Warao possuem relações peculiares com alguns animais, há critérios rígidos de seleção dos animais que se comem e dos que não podem ser comidos. Algumas comunidades dessa etnia consomem carne e outras não, fatores esses condicionados com os tabus religiosos e suas relações com os animais.
Por isso, os Warao se caracterizam por serem pescadores, caçadores e coletores; os trabalhos agrícolas foram introduzidos no seio das comunidades por influência de missionários. A atividade da pesca é chamada yaba e os pescadores yabamos; utilizam-se de vários métodos de pescaria; nas águas pouco profundas é utilizado o arco, nas águas profundas utilizam-se redes e ganchos. Segundo Etayo (2013), o grupo usa flechas sem penas com pontas em forma de lança, assim como flechas-arpões com duas pontas fixadas com uma corda. Outro método de pesca é a utilização de narcóticos vegetais com os quais envenenam as águas forçando os peixes subirem a superfície.
Assim, Oliveira (2017) relata que o uso de vegetais venenosos como técnica de pesca é uma atividade bastante praticada por diversos povos indígenas da América do Sul, não somente os Warao. Há uma gama de vegetais venenosos conhecidos por diversos povos sul-americanos.
Quanto às vestimentas, essas têm sofrido transformação devido ao contato com grupos não indígenas; no entanto, existem comunidades indígenas que, por seu isolamento, têm conservado seus costumes ancestrais, em referência à vestimenta, a qual se representa por pequenos pedaços de tela que cobrem a parte pélvica.
Há outras peças que não deixaram de ser utilizadas por possuírem um caráter sacro mágico, como os colares, usados pelas mulheres como forma de proteção contra enfermidades e desgraças; os homens também utilizam colares nasi muhu e adornos com plumas para conduzir as grandes festas.
Povo da Canoa, suas Relações com as Águas e a Palmeira de Buriti
O Povo Warao possui uma ligação muito forte com o meio fluvial, ratificando a importância desses hábitos; o topônimo mais antigo dessa região, o rio Orinoco, provém dessa tribo. Etimologicamente, a palavra Wirinoko significa lugar onde se rema; Wiri, onde se rema e noko, lugar, casa.
O mecanismo das marés do Delta do Orinoco provoca um fenômeno conhecido como macareo, choque das águas de um rio com as ondas durante o início da maré cheia. Essas particularidades exigem cerca habilidades ao povo Warao. Milenarmente, esses tornaram-se expert na elaboração e manejo de canoas, tal fato proporcionou facilidade no acesso aos ecossistemas tanto fluvial quanto aos costeiros.
Desse modo, já previamente citado acima, às configurações habitacionais da arquitetura tradicional Warao contempla um conjunto de moradias nas quais os integrantes de uma mesma subdivisão agrupam suas casas, sempre sobre as margens dos canais e rios, intercomunicando-se entre si (RODRÍGUEZ, 2010).
Além disso, esses indígenas habitam em dois tipos de casas; as palafitas, habitações construídas sobre uma plataforma suportada por postes de madeira e estrutura dos canais; e as casas construídas nos buritizais que são internas na selva e utilizadas por certos grupos, na zona do Delta Central.