Psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana ou psicologia complexa, é um ramo de conhecimento e prática da Psicologia, iniciado por Carl Gustav Jung. Ela enfatiza a importância da psique, do inconsciente, dos arquétipos e do processo de individuação.Anthony Stevens, Jung: A Brief Insight, p.190, Oxford 1994 Ela se distingue da psicanálise, iniciada por Freud, e da psicologia de Adler e seus contemporâneos, por uma noção diferenciada e abrangente da libido, a conceituação do inconsciente coletivo e o surgimento da função transcendente.
Conceitos importantes no sistema de Jung são individuação, símbolos, o inconsciente pessoal, o inconsciente coletivo, arquétipos, sincronicidade, complexos, a persona, a sombra, a anima e o animus, e o Self.
A psicologia analítica foi desenvolvida com base na experiência psiquiátrica de Jung, nos estudos de Freud e no amplo conhecimento que Jung tinha das tradições da alquimia, da mitologia e do estudo comparado da história das religiões, as quais ele veio a compreender como autorrepresentações de processos psíquicos inconscientes.
Costuma-se dizer que diferentemente de Freud, Jung via o inconsciente não apenas como um repositório das memórias e das pulsões reprimidas, mas também como um sistema passado de geração em geração, vivo, em constante atividade, contendo todo o esquecido e também neoformações criativas organizadas segundo funções coletivas e herdadas. O inconsciente coletivo que propõe não é, apesar das incessantes interpretações de seus críticos, composto por memórias herdadas, mas sim por predisposições funcionais de organização do psiquismo (comparáveis às condições a priori da experiência, de Kant).
As teorias de Jung foram investigadas e elaboradas por Toni Wolff, Marie-Louise von Franz, Jolande Jacobi, Aniela Jaffé, Erich Neumann, James Hillman, Anthony Stevens e Nise da Silveira.
História Jung iniciou sua carreira como psiquiatra em Zurique, Suíça. Lá, ele realizou uma pesquisa para o Experimento de Associação de Palavras na Clínica Burghölzli. A pesquisa de Jung lhe rendeu uma reputação mundial e inúmeras honras, incluindo um diploma honorário da Universidade Clark, Massachusetts, em 1904; outro diploma honorário da Universidade de Harvard em 1936; reconhecimento da Universidade de Oxford e da Universidade de Calcutá; e nomeação como membro da Royal Society of Medicine, Inglaterra.
Quando Jung conheceu a obra de Freud, identificou-se com grande parte de suas ideias e logo quis conhecê-lo. Em 1907, Jung conheceu Freud em Viena, Áustria, e a admiração foi mútua, pois Freud rapidamente recebeu o jovem como seu colaborador e um dos defensores de suas ideias. Por seis anos, os dois estudiosos trabalharam juntos e, em 1911, fundaram a Associação Psicanalítica Internacional, da qual Jung foi o primeiro presidente. Devemos lembrar que Freud enfrentava grande resistência do mundo científico às suas ideias e, em contrapartida, Jung já tinha reconhecimento no mundo acadêmico pelos seus estudos com associações de palavras que deram origem ao polígrafo e foram a base teórica experimental para a comprovação dos complexos. Freud, em sua obra, atribui este termo a Jung. No entanto, no início da colaboração, Jung observou que Freud não toleraria ideias diferentes das suas. A parceria durou pouco, pois Jung mostrava-se insatisfeito com algumas das posições de Freud, especialmente a teoria da libido e sua relação com os traumas. Em 1912, a Psicologia do Inconsciente de Jung (Wandlungen und Symbole der Libido) foi publicada (reeditada como Símbolos da Transformação em 1952) (C.W. Vol. 5). As ideias inovadoras da obra contribuíram para uma nova base em psicologia, bem como para o fim da amizade entre Jung e Freud em 1913. Os dois estudiosos continuaram seu trabalho sobre desenvolvimento da personalidade de forma independente: a abordagem de Jung é chamada de Psicologia Analítica (em alemão: analytische Psychologie) e a abordagem de Freud é chamada de Escola Psicanalítica (psychoanalytische Schule), que ele fundou.
Ao contrário da maioria dos psicólogos modernos, Jung não acreditava que experimentos usando ciências naturais fossem o único meio de obter uma compreensão da psique humana. Ele viu como evidência empírica o mundo dos sonhos, mitos e folclore como o caminho promissor para uma compreensão e um significado mais profundos. A escolha desse método está relacionada à escolha do objeto de sua ciência. Como Jung disse: "A beleza do inconsciente é que ele é realmente inconsciente."Jung em entrevista gravada em vídeo. Portanto, o inconsciente seria 'intocável' por pesquisas experimentais, ou mesmo qualquer tipo possível de alcance científico ou filosófico, precisamente porque é inconsciente.
Embora o inconsciente não possa ser estudado usando abordagens diretas, é, de acordo com Jung, pelo menos, uma hipótese útil. Seu inconsciente postulado era bem diferente do modelo proposto por Freud, apesar da grande influência que o fundador da psicanálise exercia sobre Jung. A diferença mais conhecida é a suposição do inconsciente coletivo (ver também arquétipos junguianos), embora a proposta de Jung de inconsciente coletivo e arquétipos tenha sido baseada na suposição da existência de padrões psíquicos (mentais). Esses padrões incluem conteúdos conscientes - pensamentos, memórias etc. - da experiência de vida. Eles são comuns para todos os seres humanos. Sua prova do vasto inconsciente coletivo era seu conceito de sincronicidade, uma conexão inexplicável e misteriosa que todos compartilharíamos.
O objetivo primordial da psicologia junguiana é a conquista do eu (Self) através da individuação. Jung define "Self" como o "arquétipo da totalidade e o centro regulador da psique". Central para esse processo é o encontro do indivíduo com sua psique e a introdução de seus elementos na consciência. Os seres humanos experienciam o inconsciente através de símbolos encontrados em todos os aspectos da vida: nos sonhos, na arte, na religião e nos dramas simbólicos que representamos em nossos relacionamentos e atividades de vida. Essencial para esse encontro numinoso é a fusão da consciência do indivíduo com a consciência coletiva por meio dessa linguagem simbólica. Ao trazer consciência atenta para o que não é consciente, os elementos inconscientes podem ser integrados à consciência quando "emergem".
A "neurose" resulta de uma desarmonia entre a (in)consciência do indivíduo e seu Self superior. A psique é um sistema adaptativo autorregulador. Os seres humanos são sistemas energéticos e, se a energia é bloqueada, a psique fica presa ou doente. Se a adaptação é impedida, a energia psíquica para de fluir e regride. Esse processo se manifesta em neurose e psicose. O conteúdo psíquico humano é complexo e profundo. Eles podem cismar, dividir e formar complexos que assumem a personalidade de um indivíduo. Jung propôs que isso ocorre através de uma adaptação inadequada às realidades externas ou internas. Os princípios de adaptação, projeção e compensação são processos centrais na visão de Jung da capacidade de adaptação da psique.
O objetivo da psicoterapia é ajudar o indivíduo a restabelecer um relacionamento saudável com o inconsciente: nem inundado por ele (característica da psicose, como a esquizofrenia), nem desequilibrado em relação a ele (como na neurose, um estado que resulta em depressão, ansiedade e distúrbios de personalidade).
Para passar pelo processo de individuação, os indivíduos devem estar abertos para as partes de si mesmos além do próprio ego. O indivíduo moderno cresce continuamente na consciência psíquica por meio da atenção aos sonhos, da exploração da religião e da espiritualidade e questionando as suposições do mundo social operante, ao invés de apenas cegamente viver a vida de acordo com as normas e suposições dominantes.
Definição A teoria da energia psíquica de Jung se pretende ao mesmo tempo diacrônica e sincrônica, causal e final, introvertida e extrovertida, redutiva e construtiva, etc. Mas na fenomenologia dos complexos apresenta o contexto de forças entre as exigências do individual e do coletivo a qual somos submetidos e que apontam para um lado de cada uma das oposições elencadas há pouco. São específicos à psicologia analítica ainda a introdução de conceitos como arquétipo, complexo, símbolo, tipos psicológicos, inconsciente pessoal, inconsciente coletivo, sincronicidade e individuação. Sua prática clínica não vê os sonhos como via régia do inconsciente (como já postulou Freud um dia em relação à psicanálise) e sim nos complexos um caminho privilegiado aos conteúdos do Inconsciente e, segundo Carl Jung, seria a única psicologia que levou adiante dois legados de Freud, a saber: a pesquisa sobre os resíduos arcaicos e a sexualidade.
De um ponto de vista epistemológico, segundo Paolo Francesco Pieri, a Psicologia Analítica é uma "denominação que Jung atribui em 1911 à psicologia das relações entre consciência e inconsciente, e em particular à reflexão sobre o método e sobre a verdade da psicanálise. Para Jung existe psicologia analítica quando no exercício da psicanálise existirem contemporaneamente as seguintes condições teórico-práticas, que se remetem entre si:
todo processo cognoscitivo deve evidenciar as funções autocognoscitivas peculiares, isto é, todo conhecimento psicológico do outro deve mostrar ligação circular com o conhecimento de si próprio; todo conhecimento (tanto de si como do outro e do mundo) deve ser positivamente crítico não apenas do sujeito que o pronúncia, mas também da cultura em que pode ser pronunciado; todo processo de verificação da verdade deve estar consciente não apenas do enunciador e da cultura na qual, e pela qual, as coisas foram tornadas pronunciáveis, mas deve empenhar em primeiro lugar e eticamente, o sujeito particular que o veicula".Dicionário Junguiano (2012), p. 403
Fundamentos
A suposição básica é que o inconsciente pessoal é uma parte potente - provavelmente a parte mais ativa - da psique humana normal. A comunicação confiável entre as partes consciente e inconsciente da psique é necessária para a totalidade.
Também crucial é a crença de que os sonhos mostram ideias, crenças e sentimentos que os indivíduos não estão prontamente conscientes, mas precisam estar, e que esse material é expresso em um vocabulário personalizado de metáforas visuais. Coisas 'conhecidas mas desconhecidas' estão contidas no inconsciente, e os sonhos são um dos principais veículos para o inconsciente expressá-las.
A psicologia analítica distingue entre um inconsciente pessoal e um inconsciente coletivo. O inconsciente coletivo contém arquétipos comuns a todos os seres humanos. Ou seja, a individuação pode trazer à tona símbolos que não se relacionam às experiências de vida de uma única pessoa. Esse conteúdo é mais facilmente visto como respostas às questões mais fundamentais da humanidade: vida, morte, significado, felicidade, medo. Entre esses conceitos mais espirituais podem surgir e ser integrados à personalidade.
Inconsciente coletivo
O conceito de inconsciente coletivo de Jung muitas vezes tem sido mal compreendido, e é relacionado aos arquétipos junguianos. O termo apareceu pela primeira vez em 1916 no ensaio de Jung "A Estrutura do Inconsciente".Young-Eisendrath & Dawson, Cambridge Companion to Jung (2008), "Chronology" (pp. xxiii–xxxvii). De acordo com os editores das Collected Works de 1953, o ensaio de 1916 foi traduzido por M. Marsen do alemão para o francês e publicado como "La Structure de l'inconscient" em Archives de Psychologie XVI (1916); eles afirmam que o manuscrito alemão original não existe mais. O ensaio distingue entre o inconsciente "pessoal", freudiano, repleto de fantasias e imagens reprimidas, e o inconsciente "coletivo", abrangendo a alma da humanidade em geral.Jung, Collected Works vol. 7 (1953), "The Structure of the Unconscious" (1916), ¶437–507 (pp. 263–292).