A imigração espanhola no Brasil foi um movimento migratório, ocorrido nos séculos XIX e XX, de espanhóis para o Brasil. A maioria dos espanhóis foram trabalhar em plantações de café no estado de São Paulo, mas a sua presença também foi importante nos centros urbanos brasileiros. Segundo o censo brasileiro de 1940, brasileiros disseram ser filhos de mãe espanhola e filhos de pai espanhol. Os espanhóis natos eram e os naturalizados brasileiros, . Portanto, espanhóis e filhos de espanhola eram cerca de 1,5% da população do Brasil em 1940.IBGE.Censo brasileiro de 1940 Segundo outra pesquisa, de 1999, do sociólogo, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Simon Schwartzman, 4,4% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter ancestralidade espanhola, percentual que, numa população de cerca de 200 milhões de brasileiros, representaria quase 9 milhões de descendentes. Em 2014, o El País afirmou haver 10 ou 15 milhões de descendentes de espanhóis no Brasil, mas salientou a falta de estudos sobre o tema.
No período colonial, particularmente durante a União Ibérica, espanhóis estabeleceram-se no Brasil, principalmente em São Paulo.São Paulo nos Primeiros Anos - São Paulo no Século XVI, Taunay, Editora Paz e Terra Também foi significativa a presença de indivíduos de origem espanhola na zona fronteiriça do Sul do Brasil no período colonial. Porém, só se pode falar de uma efetiva imigração organizada de espanhóis para o Brasil a partir do final do século XIX. Essa imigração estava inserida no contexto da substituição da mão de obra escrava nas lavouras cafeeiras, fato que motivou a atração de grande número de espanhóis, sobretudo da Andaluzia, para o estado de São Paulo, por meio de uma imigração subsidiada.
A imigração espanhola no Brasil é quase sempre ignorada ou tratada com obscuridade pela historiografia brasileira. De maneira geral, quando se fala em imigração no Brasil, destaca-se a imigração italiana, enquanto outros grupos de imigrantes, como os espanhóis, são tratados de forma pouco aprofundada. Porém, os espanhóis foram o terceiro maior contingente de imigrantes recebidos pelo Brasil. Entre 1880 e 1969, 711 000 espanhóis entraram no Brasil, bem a frente dos japoneses (247 312) e dos alemães (208.142), ficando atrás somente dos portugueses (1 604 080) e dos italianos (1 576 220). Jeffrey Lesser. Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities, and the Struggle for Ethnicity in Brazil.
Os imigrantes espanhóis que vieram para o Brasil eram predominantemente camponeses e com origens bastante humildes. A comunidade espanhola ficou concentrada no estado de São Paulo (cerca de 80%), sobretudo nas zonas cafeeiras do oeste do estado. No Rio de Janeiro, a imigração espanhola também foi significativa, mas diferenciou-se por ter sido predominantemente urbana. Os espanhóis assimilaram-se rapidamente no Brasil, ao ponto de uma identidade espanhola ter praticamente desaparecido. A primeira geração ainda mantinha laços culturais com a Espanha, mas depois de 1930, a identidade espanhola foi sendo relegada a um segundo plano, muito embora haja uma tendência de resgate, a partir de 1990. JOÃO PAULO DA SILVAESPANHÓIS NO INTERIOR DE SÃO PAULO: múltiplas possibilidades de incorporação
Imigração Presença durante a colonização
Segundo o IBGE, "o balanço da presença espanhola no Brasil Colonial sugere uma importância bem maior do que o que se lhe tem atribuído". IBGE O historiador Capistrano de Abreu, em seu clássico A História do Brasil, de 1883, chegou mesmo a afirmar que os espanhóis não tiveram nenhuma importância na formação histórica brasileira ou, se a tiveram, ela foi menor do que a dos franceses. Para o IBGE, "neste ponto, sem dúvida, o autor exagerou". Durante o século XVI, os espanhóis acompanharam os portugueses durante suas expedições de reconhecimento e exploração do Brasil. Alguns dos marujos e soldados dessas expedições eram espanhóis e alguns deles ficaram no Brasil, tanto que Martim Afonso de Sousa encontrou espanhóis durante sua expedição de 1531-1532 à colônia.
"A presença espanhola no Brasil foi histórica e demograficamente densa no extremo sul", como salienta o IBGE. O pampa, região de fronteira que hoje corresponde a parte do Rio Grande do Sul, Uruguai e da Argentina, foi historicamente uma região de forte presença espanhola. Sendo o pampa uma paisagem física una, onde não havia barreiras naturais que impedissem a movimentação de pessoas (exceto o Rio Uruguai a oeste), havia naquela região uma convivência constante, pacífica ou não, de hispânicos e lusos. Portanto, no período colonial, o perfil da região sulina era mais propriamente português-castelhano-indígena, do que português ou português-indígena apenas.
Durante a União Ibérica (1580-1640), quando Portugal se uniu à Coroa Espanhola, se deslocaram para o Brasil um expressivo número de súditos da Espanha. Em São Paulo, a sua presença chegou a ser notável. Porém, eles acabaram se assimilando no contexto daquela sociedade, muitas vezes casando-se com mulheres indígenas, prática comum na época. A língua espanhola também não era transmitida aos descendentes. Alguns sobrenomes espanhóis ainda podem ser identificados, mas muitos foram aportuguesados ou são indistintos dos lusitanos.
Imigração a partir do século XIX A situação na Espanha
No final do século XIX e no início do XX, a Espanha era um país pobre, que entrou de forma tardia no processo de industrialização. A imigração espanhola foi impulsionada por fatores demográficos e por questões decorrentes da manutenção de uma estrutura fundiária arcaica. Até 1900, cerca de 2/3 da população espanhola se ocupava direta ou indiretamente com as atividades agrárias. O PIB per capita espanhol era cerca de metade da média da Europa Ocidental, refletindo um atraso estrutural: em 1900, a renda média anual de um trabalhador rural mal chegava a 300-400 pesetas (equivalente a menos de 1 dólar por dia, em valores da época), insuficiente para sustentar uma família numerosa. A estrutura fundiária arcaica agravava a situação: latifúndios improdutivos dominavam o Sul da Espanha, onde a produtividade agrícola era baixíssima (média de 5-7 quintais de trigo por hectare, contra 15-20 na França), enquanto minifúndios fragmentados no Norte resultavam em parcelas médias inferiores a 5 hectares, insuficientes para autossubsistência.FAUSTO, Boris. Fazer a América: a imigração em massa para a América Latina. São Paulo: Edusp, 1999.À medida que a população rural aumentava, os investimentos com a agricultura diminuíam. Na zona rural, ainda existiam práticas senhoriais como censos, foros, subforos, em minifúndios miseráveis, onde uma família não conseguia o seu sustento pelo cultivo da terra.
Secas frequentes, pragas (como a filoxera na vinicultura entre 1880-1890, que destruiu até 80% das vinhas em algumas regiões) e superpopulação rural levaram ao desemprego sazonal e à miséria crônica. Além da pobreza no campo, outros fatores incentivavam os espanhóis a abandonarem a Espanha. As pretensões coloniais espanholas e o recrutamento militar obrigatório também eram fatores que estimulavam os homens jovens a saírem do país, uma vez que era necessário pagar uma alta taxa para se desobrigar do serviço militar, a qual os camponeses pobres não conseguiam pagar. Sendo a maioria dos camponeses analfabetos e sem qualificação para o trabalho fabril nos centros urbanos espanhóis, restava a esses indivíduos procurar uma nova vida nas Américas. CÁNOVAS, Marília Dalva Klaumann. Imigrantes espanhóis na Paulicéia. São Paulo: Edusp, 2010.
Nessas condições de penúria generalizada — agravadas por crises cíclicas como a de 1893-1896 e a estagnação pós-1898 —, famílias camponesas, sobretudo da Andaluzia, Galiza e Castela-Leão, viam na emigração subsidiada para o Brasil (com passagem gratuita oferecida pelo governo brasileiro) a única alternativa viável para escapar da fome e da estagnação econômica. Em fins do século XIX, com o desenvolvimento da tecnologia naval, milhares de pessoas saíram da Europa em busca de melhores condições de vida nas Américas. No caso da Espanha, a imensa maioria rumava para suas colônias ou ex-colônias, pelos laços históricos e culturais que mantinham e, por esse fato, os destinos preferidos dos imigrantes espanhóis eram a Argentina e Cuba. Entre 1882 e 1930, espanhóis emigraram, dos quais para a Argentina e para Cuba. Para o Brasil imigraram espanhóis no mesmo período. Observa-se, portanto, que, no Continente Americano, apenas a Argentina e Cuba receberam mais imigrantes espanhóis que o Brasil, no período em questão. Em meados do século XX, Cuba deixou de atrair imigrantes espanhóis e foi substituída pela Venezuela que, ao lado do Brasil e da Argentina, eram os únicos países americanos para os quais ainda havia uma migração de espanhóis. A partir da década de 1960, os espanhóis passaram a emigrar cada vez mais para outros países da Europa.
O Brasil como destino imigratório
O que realmente contribuiu para haver uma migração em massa de espanhóis para o Brasil foi o fato de o governo brasileiro subvencionar a passagem de navio. Viajar com a passagem gratuita era muito vantajoso, pois não era fácil bancar uma viagem imigratória. Assim, pode-se concluir que os espanhóis que emigraram para o Brasil estavam entre os mais pobres, aqueles que não tinham condições de comprar uma passagem para ir para a Argentina, Cuba ou para o Uruguai. Isso se evidencia comparando-se as taxas de analfabetismo entre os espanhóis na Argentina e no Brasil. Na Argentina, a porcentagem de imigrantes espanhóis alfabetizados era mais elevada do que no Brasil. Embora o fato de falarem a mesma língua tenha contribuído para uma alfabetização após chegarem à Argentina, também pode-se concluir que o imigrante espanhol na Argentina tinha mais capital do que aquele no Brasil.
Os espanhóis não eram os imigrantes preferidos da elite brasileira. Para a elite, a vinda de imigrantes europeus representava um fator de progresso para o país, mas esse ideário era voltado para os anglo-saxões, identificados com o conhecimento, a técnica e a civilização. Os italianos também poderiam ser bem-vindos, desde que na condição de trabalhador braçal capaz de substituir a mão de obra escrava na lavoura. Os espanhóis, por sua vez, estavam distantes da idealização. Em Minas Gerais, o camponês espanhol foi rechaçado para o trabalho com o café, pois era considerado "demasiadamente agressivo e exigente". Jornais da época relatavam a situação de pobreza vivida pelos espanhóis no Rio de Janeiro. Para os estratos inferiores da sociedade brasileira, os espanhóis representavam uma ameaça, uma vez que se submetiam a todo tipo de trabalho, antes destinados aos escravos. Os imigrantes viam a pobreza como "transitória", contanto que não tivessem que voltar para a sua vida de penúria na Espanha. O imigrante espanhol competia, portanto, com a população pobre brasileira, seja por um espaço nas superlotadas habitações coletivas, seja no próprio mercado de trabalho.
Imigração para o Brasil, por nacionalidade e períodosIBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e EstatísticaNacionalidade Período Total 1884-1893 1894-1903 1904-1913 1914-1923 1924-1933 1934-1944 1945-1949 1950-1954 1955-1959Alemães 22 778 6 698 33 859 29 339 61 723 N/D 5 188 12 204 4.633 176 422Espanhóis 113 116 102 142 224 672 94 779 52 405 N/D 4 092 53 357 38.819 683 382Italianos 510 533 537 784 196 521 86 320 70 177 N/D 15 312 59 785 31 263 1 507 695Japoneses - - 11 868 20 398 110 191 N/D 12 000 5 447 28 819 188 723Portugueses 170 621 155 542 384 672 201 252 233 650 N/D 26 268 123 082 96 811 1 391 898Sírios e Libaneses 96 000 7 124 45 803 20 400 20 400 N/D N/A N/A N/A 189 727Outros 66 524 42 820 109 222 51 493 164 586 N/D 29 552 84 851 47 599 596 647Total 979 572 852 110 1 006 617 503 981 713 132 N/D 80 424 338 726 247 944 4 734 494
Os primeiros anos no Brasil