A arquitetura bizantina é a arquitetura do Império Bizantino, ou Império Romano do Oriente, habitualmente datada de 330 d.C., quando Constantino o Grande estabeleceu uma nova capital romana em Bizâncio (que se tornou Constantinopla, atual Istambul na Turquia), até à queda do Império Bizantino em 1453. Também chamada de arquitetura romana do Oriente, desenvolveu-se durante a Antiguidade Tardia — superando a visão tradicional de mera decadência romana — como um desenvolvimento da arquitetura romana. A historiografia moderna enfatiza que a arquitetura bizantina não rompeu com a engenharia romana, mas foi antes a culminação das suas capacidades técnicas aplicadas a um novo contexto litúrgico cristão-oriental.
Como áreas de investigação, destacam-se a arquitetura religiosa, a fortificação bizantina e a arquitetura residencial bizantina. A arquitetura bizantina influenciou dramaticamente a arquitetura medieval na Europa e Próximo Oriente. Exemplos incluem São Vital em Ravena (que serviu de modelo à Capela Palatina de Carlos Magno), a Igreja de Alexandre Névski em Sófia (Bulgária) e as catedrais da Rússia a Veneza, que adaptaram as soluções espaciais e estruturais inspiradas em Santa Sofia e na tipologia da planta de cruz inscrita. A formação e o desenvolvimento deste estilo ligam-se à localização de Bizâncio entre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo, unindo a Europa e a Ásia. A cidade seguiu os cânones do urbanismo romano, ostentando palácios, o Senado e o Fórum de Constantino. Por sua vez, a arte bizantina começou a consolidar-se a partir do como o resultado direto da confluência entre as tradições culturais da Ásia Menor e da Síria, enriquecidas por elementos artísticos e técnicos provenientes do Egito alexandrino. Para manter a unidade entre os diversos povos, Constantino oficializou o cristianismo, erigindo igrejas e imprimindo o caráter público definitivo em edifícios abertos ao culto. A religião ortodoxa atuava como fonte de inspiração e de censura; o clero estabelecia as verdades sagradas e os padrões para representação de Cristo, da Virgem ou para exaltação do imperador, que era o representante de Deus na Terra. Do ponto de vista decorativo, o interior dos edifícios caracteriza-se por monumentais mosaicos, compostos por tesselas de mármore colorido, terracota ou pasta de vidro com fundo dourado, brilhantes e coloridas, presas à parede com argamassa. Verifica-se uma clara predominância dos mosaicos de parede com fundo dourado para os edifícios de grandes dimensões, sendo os frescos uma alternativa mais barata.
O sistema basilical, dominante nos séculos IV-V em Constantinopla, Tessalónica (Grécia), Macedónia e Ásia Menor, começou a ser substituído pelo sistema cupulado no início do . As cúpulas simbolizavam o cosmos e criaram, com o edifício de planta centralizada — como a planta de cruz grega, o arquétipo espacial que se consolidou como a norma canónica e litúrgica da arquitetura eclesiástica oriental. Os pesos e forças que se distribuíam por igual na cúpula exigiam elementos de sustentação também distribuídos por igual, o que ocorria menos facilmente na planta retangular ou de cruz latina. Os edifícios adotaram técnicas da engenharia romana adaptadas às novas exigências litúrgicas. Os arcos estruturais delimitam uma base quadrada e sustentam, nos seus ângulos, os pendentes, uma inovação proeminente na era justiniana, de curvatura esférica permitem a transição entre uma base quadrada e a circular. Ao contrário das trompas que criam um octógono de transição, os pendentes distribuem o peso de forma contínua para os pilares nos cantos. Segundo Procópio de Cesareia, a transição suave eliminava a perceção de ângulos rígidos, criando a ilusão de que a cúpula estava suspensa por uma "corrente de ouro vinda do céu". A segunda fase caracterizou-se pela Iconoclastia (c. 725), movimento do imperador Leão III, o Isauro que proibia imagens, resultando na destruição de mosaicos e redução da escala das igrejas. A terceira fase (segunda idade de ouro, séculos X e XIII) trouxe um novo apogeu das pinturas e mosaicos. A partir do , durante a ascensão da dinastia Macedónia, a cúpula consolida-se no centro do templo através do sistema de cúpula central, com o predomínio da igreja em cruz inscrita. Neste período o tambor torna-se comum; os arquitetos passaram a elevar a cúpula sobre um tambor alto e esguio, decorado externamente com nichos e padrões em tijolo. Exemplos claros são as cúpulas do Mosteiro de Cora (Mesquita Carie) ou da Igreja de Pamacaristo, na Turquia. Surgiram também variantes como a atonita na Grécia, caracterizada pelas suas absides laterais destinadas aos cantores, denominadas choros.
A arquitetura civil deu continuidade às tendências greco-romanas com fortificações e pontes. A fortificação bizantina é representada por muralhas urbanas e grandes fortalezas (castros). As habitações privadas variavam: até ao usavam-se peristilos; em períodos tardios, habitaram-se povoamentos rupestres na Capadócia. As cidades eram edificadas sem um planeamento urbanístico, com casas construídas com espólios.
Abordagem ao estudo da arquitetura primitiva thumbnail|Direita|350px|Plantas e cortes do Santuário de Santa Sofia em Constantinopla, extraídos de A History of Architecture de Banister Fletcher (edição de 1946). A ilustração detalha o sistema de cúpula e semidomos característico da arquitetura justiniana. O bizantinista britânico Cyril Mango destaca quatro abordagens para a compreensão da arquitetura bizantina. Dentro da abordagem tipológica, os monumentos são classificados com base num conjunto de critérios formais, como planta, materiais utilizados e elementos decorativos. No âmbito desta abordagem, postula-se a existência de «escolas» geográficas (a constantinopolitana, a grega, a oriental e outras) como uma característica importante, e o desenvolvimento da arquitetura bizantina é entendido como uma «luta» entre tendências oriundas de diferentes regiões. Esta abordagem dominou até a década de 1940, e os principais trabalhos neste paradigma foram criados por Josef Strzygowski, Gabriel Millet («L'École grecque dans l’architecture byzanti», 1916) e Jean Ebersolt («Monuments d’architecture byzantine», 1934). Uma característica distintiva da escola constantinopolitana é a sua orientação para a glorificação do poder do imperador através da organização em massa de luxuosos serviços litúrgicos. Segundo Millet, os principais componentes do paradigma arquitetónico constantinopolitano, que incluía também os templos de Tessalónica, da maior parte dos Balcãs centrais e do nordeste da Ásia Menor, eram a predominância da variante complexa do tipo cruz-inscrita, a presença de três absides, cinco cúpulas e a decoração arquitetónica.
A abordagem tipológica foi aplicada tanto à análise de formas arquitetónicas como de tecnologias de construção específicas, como a conceção de abóbadas. O historiador de arquitetura soviético N. I. Brunov apontou a tendência para formas não diferenciadas como uma caraterística da escola «oriental», o que, no caso das basílicas, significava a degeneração de múltiplos naveamentos num único espaço interior. Na sua opinião, a relação entre as escolas «constantinopolitana» e «oriental» desenrolava-se numa luta e num choque constante de interesses entre, por um lado, os proprietários de terras e senhores feudais provinciais e, por outro, o aparato burocrático central. Na bizantinística moderna, desenvolveu-se o entendimento de que a abordagem tipológica pouco pode dizer sobre o contexto original de uma estrutura ou servir como um método fiável de datação. Segundo Mango, falta base teórica sólida para esta abordagem e, com maior sustentação, pode-se falar num caráter internacional da arquitetura paleocristã, em vez de regional. O paradigma simbólico, cujo principal defensor foi o historiador de arte americano Earl Baldwin Smith, concentra-se no aprofundamento da compreensão dos significados adicionais que os bizantinos atribuíam às estruturas: a compreensão da igreja como um cosmos, da cúpula como o céu, naquilo que se representa a abóbada celeste. O problema desta abordagem, como nota Mango, é que ela não oferece uma perspetiva adicional nem expande as possibilidades de pesquisa.
Uma posição intermédia é ocupada pela abordagem funcional, cujos exemplos incluem os trabalhos de André Grabar sobre martírios («Martyrium», 1946) e Jean Lassus, sobre templos sírios («Sanctuaires chrétiens de Syrie», 1947). Reconhecendo a validade da divisão tipológica, os investigadores que seguem o paradigma funcional prestam atenção à finalidade das estruturas, o que oferece possibilidades adicionais para a classificação e identificação da continuidade tipológica das formas arquitetónicas de diferentes épocas. É dada atenção especial ao estudo do desenvolvimento da liturgia e às suas especificidades regionais. Na teoria de Grabar, os martírios são o arquétipo arquitetónico formal dos templos bizantinos abobadados. Tendo-se expandido e modificado nos séculos V-VI para se adaptarem às novas condições, os martírios mantiveram uma posição central para o altar e as relíquias cristãs. Por outro lado, como observa o arqueólogo italiano Vincenzo Ruggieri, não é possível estabelecer uma correspondência inequívoca entre as mudanças na liturgia e na arquitetura. Por exemplo, durante a «Idade das Trevas», quando as cidades provinciais diminuíram significativamente de tamanho, os templos nelas também diminuíram e alguns elementos estruturais desapareceram, apesar de a liturgia ter permanecido a mesma que no período anterior. A abordagem funcional também não oferece orientações fiáveis para períodos posteriores. Por exemplo, uma das variantes do templo de cruz inscrita, o «triconco athonita», pode ser interpretada tanto sob uma ótica funcional, na sua relação com o serviço litúrgico monástico, quanto como um fenómeno característico da sua região. Finalmente, a abordagem socioeconómica, que surgiu a partir dos trabalhos de Georges Tchalenko sobre os antigos assentamentos no Norte da Síria, expande ainda mais o conjunto de fatores tidos em consideração. Além dos conceitos «amplos», a análise detalhada de monumentos individuais mantém a sua relevância.
Época Primitiva (527-843)
Originalmente, a arquitetura bizantina era apenas uma extensão da arquitetura romana antiga. A arquitetura religiosa atrai mais atenção devido à sua maior «artisticidade» e preservação, pois muitos templos foram convertidos em mesquitas. No período inicial, herdou formas da Antiguidade Tardia, mas durante o desenvolveu estruturas que diferem essencialmente das basílicas cristãs primitivas. Desta fase destacam-se a Igreja da Natividade em Belém (na atual Palestina, 330 d.C.), com a sua nave de colunas coríntias monolíticas, e a Basílica de Santa Maria Maior em Roma, na Itália (432 d.C.), cujas colunas jónicas e mosaicos sobre o Antigo Testamento a tornam uma fonte central da arquitetura cristã primitiva.