Zbyněk Zbyslav Stránský (1926-2016), museólogo tcheco, considerado o “pai da museologia científica”. Entre os anos 1960 e 1970, foi responsável por uma das primeiras tentativas de estruturação de uma base teórica para a museologia, quando dirigia o Departamento de Museologia do Museu da Morávia, em Brno. Com apoio do diretor do museu, Jan Jelínek, fundou uma Escola de pensamento museológico em Brno, almejando aliar a prática em museus a um sistema teórico específico. Zbyněk Z. Stránský, como costumava assinar seus textos, foi o precursor na construção de uma Museologia que se pensa como ciência social, criando um sistema próprio de pensamento com base em conceitos específicos.

O que é Museologia? Certamente, Stránský não foi o primeiro a tentar responder tal questão. Ele também não foi o primeiro pensador do nosso campo a afirmar que a Museologia é ciência. No entanto, ele foi o primeiro a tentar prova-lo. Sua teoria, que partia da pergunta sobre o “caráter” da Museologia científica, ou seja, sobre o seu objeto de estudo, o levou a negar o museu como objeto central da disciplina. Tal negação, em vez de responder à primeira questão colocada, fez com que o próprio Stránský e os tantos outros autores que ele influenciou encarassem o desafio de construir hipóteses e teorias que sustentassem esse campo do saber.

Biografia Nascido em Kutná Hora, na antiga Tchecoslováquia, em 26 de outubro de 1926, Zbyněk Z. Stránský estudou história e filosofia na Universidade de Charles, em Praga, entre 1946 e 1950. Durante os anos 1950, trabalhou em diversos museus tchecos e, em 1962, foi indicado como coordenador do inovador Departamento de Museologia do Museu da Morávia e da Universidade J. E. Purkyně, em Brno, onde estabeleceu, sob a influência de Jan JelínekJan Jelínek é um museólogo e antropólogo tcheco, presidente do ICOM de 1971 a 1977 e primeiro presidente do ICOFOM em 1977. Ele foi diretor do Museu da Morávia, em Brno.  (1926-2004), diretor do museu, a primeira escola de Museologia dedicada à teoria museológica no mundo. Ainda nos anos 1960 e 1970, Stránský foi considerado o pensador mais reconhecido na escola museológica da Europa central.

Papel na comunidade internacional Entre os anos 1980 e 1990 atuou ativamente no Comitê Internacional de Museologia – ICOFOM do Conselho Internacional de Museus – ICOM, tendo coordenando, a partir de 1985, o projeto terminológico que visava a criação de um Tratado de Museologia e de um Dictionarium MuseologicumPublicação de um dicionário com a tradução para vinte línguas diferentes dos termos essenciais da Museologia. Cf. Dictionarium Museologicum. Budapest National Center of Museums, 1983.  por esse comitê. Até o início dos anos 1990, o ICOFOM explicitava a sua missão de “estabelecer a museologia como disciplina científica”Ver ICOFOM – International Committee for Museology. Museological News, Semi-Annual Bulletin of the International Committee of ICOM for Museology, n. 15, June, 1992. Disponível em: http://network.icom.museum/icofom/icofom-news/museological-news/. , e Stránský continuou a influenciar o comitê, participando de suas reuniões anuais e tornando-se membro eleito da diretoria em 1986.

O ensino de museologia e a “Escola de Brno” Ao longo de toda a sua carreira, Zbyněk Z. Stránský buscou estabelecer uma formação completa e coerente em MuseologiaStránský não foi o único a desenvolver uma formação em Museologia na segunda metade do século XX. Podemos citar os exemplos de cursos criados por Raymond Singleton e depois de Geoffrey Lewis, em Leicester, ou o curso de Georges Henri Rivière, na França, em 1970, ou ainda os programas de Toron na Polônia, do Zagreb, na Iugoslávia (atualmente na Croácia) ou ainda o da American Association of Museums nos Estados Unidos., visando assegurar um lugar para os museólogos como pensadores e pesquisadores. Em 1962, uma parte do corpo de profissionais do Museu da Morávia cria o Departamento de Museologia, institucionalmente ligado tanto ao museu quanto à Universidade J. E. Purkyně, estabelecendo uma linha de formação em Museologia caracterizada como a “Escola de Brno”CERÁVOLO, Suely Moraes. Da palavra ao termo: um caminho para compreender a museologia. 2004. 218 f. Tese (Doutorado em Biblioteconomia e Documentação) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, 2004.. A transformação almejada visava “fazer do trabalho em museu uma verdadeira profissão”Cf. Jan Jelínek, em Zbyněk Z. Stránský (1974, p.10)..

Em 20 de junho de 1968, os estudantes da primeira turma de Museologia receberam seus diplomas universitários em BrnoSTRÁNSKÝ, Zbyněk Z. The first museology graduates in Brno. ICOM – International Council of Museums, ICOM News / Nouvelles de l’ICOM, vol. 22, n. 2, June 1969, pp.61-62.. Como relata Stránský, a maior parte deles eram diretores e funcionários de museus que já possuíam uma educação universitária em outra área de conhecimento. O curso de Museologia tinha duração de dois anos, com quatro módulos, de cem aulas cada, incluindo cursos teóricos e aulas práticas. Os temas das aulas estavam divididos entre museologia geral e museologia especializada.

No ano de 1986, seu projeto de ensino de Museologia iniciado em Brno, passaria a ganhar um número crescente de seguidores em todas as partes do mundo, com a criação da sua International Summer School of MuseologyEscola Internacional de Verão em Museologia.  – ISSOM, dentro da estrutura da então chamada Universidade de MasarykA Universidade de Masaryk foi fundada, em Brno, em 1919 e é atualmente a segunda maior universidade da República Tcheca. Em 1960, a universidade foi renomeada como Universidade Jan Evangelista Purkyně, segundo o nome do biólogo tcheco. Em 1990, seguindo a Revolução de Veludo, ela retomou o seu nome original.  e em parceria com a UNESCO, que perdurou até o ano de 1999, disseminando os conhecimentos teóricos da Museologia. Em 1998, Stránský abandonava a cidade de Brno para viver em Banská Bystrica, cidade da Eslováquia, onde criou um Departamento de Ecomuseologia, que ele passava a coordenar.

Stránský continuou a lecionar Museologia na Universidade de Matej Bel, em Banská Bystrica, até o ano de 2002. Nos anos seguintes, ele retornou a Brno como conferencista convidado. Stránský continuou a publicar textos em Teoria da Museologia, buscando reafirmar e ajustar o seu sistema estruturado para essa ciência até a primeira década deste século. Ele faleceu em Banská Bystrica, no dia 21 de janeiro de 2016.     

Pontos de vista sobre a museologia A museologia, termo que ganhou conotações diversas ao longo do século XX e mesmo antes, graças a uma busca por legitimação acadêmica por parte de alguns profissionais de um museu tcheco, ganhava uma nova dimensão, a partir dos anos 1960, fosse como ciência ou, ao menos, como um campo disciplinar autônomo, fornecendo as bases teóricas necessárias para o trabalho prático em museus.  

Assim, em sua teoria estruturante, Stránský se voltava para a investigação dos pontos fundamentais que julgava imprescindíveis para a constituição de uma disciplina científica:  primeiro, uma ciência implica ter-se definido um objeto de estudo específico;  além disso, uma ciência deve fazer uso de alguns métodos próprios;  uma ciência deve possuir uma terminologia específica, ou uma linguagem;  e, finalmente, ela deve estar sustentada por um sistema teóricoSTRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Museology as a Science (a Thesis), Museologia, n.15, XI, 1980a, pp. 33-39.. 

A busca por legitimação científica, assim, devia ser acompanhada pela construção concomitante de um sistema teórico estruturante da Museologia dentro do quadro das ciências contemporâneas.

Metamuseologia Ainda no contexto dos anos 1960, Stránský apontava que havia razões objetivas para o “nascimento da museologia como ciência”STRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Brno: Education in Museology. Museological Papers V, Supplementum 2. Brno: J. E. Purkyně University and Moravian Museum, 1974. p.26., no entanto, o seu pré-requisito interno, isto é, a sua estrutura lógica, ainda era inexistente. 

A sua indagação sobre o caráter da Museologia, assim, o leva a questionar sobre a base teórica da própria teoriaSTRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Predmet muzeologie. In: _____. (ed.). Sborník materiálu prvého muzeologického sympozia. Brno: Museu da Morávia, 1965. p.31.. Em outras palavras, Stránský construiu uma problemática metateórica como ponto de partida para a estruturação científica da disciplina, introduzindo a noção de uma metamuseologiaSTRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Introduction à l’étude de la muséologie. Destinée aux étudiants de l’École Internationale d’Été de Muséologie – EIEM. Brno : Université Masaryk, 1995. p.15.. O termo proposto por ele designa “a teoria cujo objeto é a museologia ela mesma”, de um certo modo estando estritamente ligada à Museologia, mas também relacionando-se com a Filosofia, com a História e com a teoria da ciência e da cultura. 

Em sua abordagem metamuseológica, o primeiro problema levantado tratava do objeto de estudo da Museologia. Stránský propôs questões desconcertantes para o campo em construção. Com a declaração, em 1965, em que nega o museu como objeto de estudo dessa suposta ciência , o autor abre o caminho para um longo processo de Ver STRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Predmet muzeologie. In: _____. (ed.). Sborník materiálu prvého muzeologického sympozia. Brno: Museu da Morávia, 1965. pp. 33-, autorreflexão que iria marcar a Museologia em suas bases no leste europeu.

Ao afirmar, em 1965, que o “o objeto da museologia não é e não pode ser o museu”STRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Predmet muzeologie. In: _____. (ed.). Sborník materiálu prvého muzeologického sympozia. Brno: Museu da Morávia, 1965. p.30-33., aquilo a que Stránský se propunha realizar era a separação entre o “instrumento” – ou o meio, isto é, o museu – e a “finalidade” a que ele serve. Ele afirma, com efeito, o que poderia ser considerado óbvio a partir do contexto dos museus do pós-guerra e, sobretudo, a partir dos anos 1950, ou seja, que o museu, como uma instituição que serve à uma finalidade não pode ser o objeto de uma ciência. Entretanto, – e de forma tautológica, segundo alguns de seus críticos Ver DESVALLÉES, André & MAIRESSE, François. Dictionnaire encyclopédique de muséologie. Paris : Armand Colin, 2011. 722p. – ele propõe que o objeto da Museologia deve ser buscado no próprio trabalho em museu, na tarefa “sistemática e crítica” de se produzir o objeto de museu ou musealia, na terminologia stranskiana.

Musealidade Stránský seria responsável por deslocar o objeto da Museologia do museu, como instituição historicamente fundada, para a musealidade – entendida como um “valor documental específico”STRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Brno: Education in Museology. Museological Papers V, Supplementum 2. Brno: J. E. Purkyně University and Moravian Museum, 1974. p.28.. Esse último conceito, central em sua teoria, o levaria a pensar a intenção cognitiva da Museologia como a de interpretar cientificamente “uma relação específica do homem com a realidade”STRÁNSKÝ, loc. cit., sendo o museu apenas um meio para essa relação ocorrer. Em sua opinião, a busca pelo caráter museal das coisas, que ele chamou de “musealidade”, devia estar “no centro da intenção gnosiológica da museologia”STRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Museology and Museums. ICOFOM Study Series – ISS, n. 12, ICOM International Committee for Museology, 1987. p.289. Disponível em: http://network.icom.museum/icofom/publications/our-publications/ . , como a tarefa científica dessa disciplina delimitando o seu lugar no sistema das ciências.  

Assim, o conceito de musealidade (“muzealita”), como a “qualidade” ou o “valor” dos musealia, aparece na obra de Stránský pela primeira vez em 1970STRÁNSKÝ, Zbyněk Z. Múzejnictvo v relácii teórie a praxe. Múzeum, 1970, roč. XV., č. 3, pp. 173-183., sendo, então, defendido como o verdadeiro objeto de interesse da Museologia. As primeiras tentativas de definir o termo, contudo, apresentavam problemas lógicos.