O Tempo e o Vento é uma trilogia de romances históricos do escritor gaúcho Érico Veríssimo, publicada entre 1949 e 1962, e considerada por muitos a maior obra da literatura brasileira do século XX.CHAVES, Flávio Loureiro. In: GONÇALVES, Robson Pereira (org.). O Tempo e o Vento: 50 anos. Santa Maria: UFSM; Bauru: EDUSC, 2000, p. 70-73. Composta por O Continente (1949),O livro do mês, por Sergius Gonzaga O Retrato (1951) e O Arquipélago (1961–1962), a trilogia narra dois séculos de história do Rio Grande do Sul, da fundação das Missões Jesuíticas e da chegada dos primeiros colonos ao "Continente de São Pedro" em 1745Maria da Glória e Zilberman, Regina — "O Tempo e o Vento: História, Invenção e Metamorfose", páginas 16-17. EDIPUCRS até o fim do Estado Novo em 1945, por meio da saga de múltiplas gerações das famílias Terra, Cambará e Amaral na cidade fictícia de Santa Fé.

Ao longo de sete volumes e mais de três mil páginas, Érico constrói um painel épico que abrange guerras, revoluções, miscigenação, transformações políticas e a formação de uma identidade cultural. Para Flávio Loureiro Chaves, a obra deu ao romance histórico brasileiro "a chave da sua resolução formal" e assinala "um dos pontos fortes do nosso diálogo com a literatura ocidental". Bordini e Zilberman a definem como um "romance fundacional" que realizou o que a literatura brasileira tentava há muito: mostrar a composição da nação nos âmbitos social, étnico e econômico.

A trilogia exerceu influência reconhecida sobre escritores de toda a América Latina. Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1982, declarou que O Tempo e o Vento foi um dos três romances que estudou para escrever Cem Anos de Solidão, e que a cidade fictícia de Macondo foi inspirada em Santa Fé.LUME — Repositório Digital da UFRGS. Vento em tempo de solidão: análise comparada de O Tempo e o Vento e Cem Anos de Solidão. p. 1.REVISTA CULT. A saga que se move. UOL, 2010.

Contexto e origens

A ideia de O Tempo e o Vento nasceu muito antes de sua escrita. Em 1939, Érico Veríssimo já registrava em suas notas o desejo de criar um "massudo romance cíclico" sobre a história do Rio Grande do Sul, então com o título provisório de Caravana.SCRIBD. A origem do projeto de O Tempo e o Vento, p. 3. O projeto foi interrompido quando a iminência da Segunda Guerra Mundial o levou a escrever primeiro Saga (1940), romance sobre um pacifista gaúcho diante dos totalitarismos europeus. Só em 1947 Érico retomaria o projeto original, e a escrita de O Continente, primeiro volume da trilogia, duraria dois anos. No total, o processo de escrita se estenderia de 1947 até 1962, quando o último volume de O Arquipélago foi publicado, quinze anos depois do início.UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA. O Tempo e o Vento e a cultura popular gaúcha. p. 1.

O projeto exigiu uma pesquisa histórica de fôlego. Érico mergulhou nos registros das Missões Jesuíticas, nas crônicas das guerras do século XIX (Farroupilha, Paraguai, Federalista) e na documentação sobre a urbanização gaúcha no início do século XX. O resultado foi o que Bordini e Zilberman descrevem como o cumprimento de um projeto que os escritores brasileiros tentavam realizar há muito tempo: um romance histórico que mostrasse a composição da nação nos âmbitos social, étnico e econômico, e o papel de cada membro dentro dessa organização heterogênea do país. A cidade fictícia de Santa Fé, palco de toda a saga, foi modelada com base em Cruz Alta, cidade natal de Érico, e em outras pequenas cidades da Campanha gaúcha.GUIA DO ESTUDANTE. O Tempo e o Vento — análise da obra de Érico Veríssimo. Abril, 2012.

A obra foi também profundamente marcada pela história pessoal do autor. Érico narra em suas memórias (Solo de Clarineta) a separação traumática dos pais ainda em sua adolescência, num tempo em que a separação de casais era socialmente inaceitável, e como o pai abandonara a administração de sua farmácia para viver nos bares e bordéis de Cruz Alta. A mãe, que trabalhava como costureira para sustentar Érico e seu irmão Ênio, tornou-se a matriz das grandes personagens femininas da trilogia: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria, mulheres que sustentam famílias inteiras enquanto os homens se perdem em guerras, vícios e ambições.UFRGS — LUME. A liberdade de escrever em Erico Verissimo, p. 3. Para a crítica Regina Zilberman, essa repetição matriarcal não é acidental: é o argumento central da obra, a demonstração de que, enquanto os homens se destroem, são as mulheres que garantem a continuidade da vida e da memória.ZILBERMAN, Regina. "O Tempo e o Vento: história, mito, literatura." Letras de Hoje (PUCRS), set. 1986, p. 84.

A trilogia

O Continente (2 volumes)Concepção geral de O Tempo e o Vento, por Adauto Locatelli Taufer

A primeira parte foi publicada em Porto Alegre em 1949 e narra a formação do Estado do Rio Grande do Sul através das famílias Terra, Cambará, Caré e Amaral, desde 1745 até a Revolução Federalista de 1893–1895. O ponto de partida é a chegada de uma mulher grávida nas Missões Jesuíticas. Esta mulher dará à luz Pedro Missioneiro, que, depois de presenciar as lutas de Sepé Tiaraju e ver os portugueses e espanhóis dizimarem as Missões, conhecerá Ana Terra, filha dos paulistas de Sorocaba, Henriqueta e Maneco Terra — este filho de um tropeiro (Juca Terra) que ficou encantado com o Rio Grande de São Pedro ao atravessá-lo para comerciar mulas na Colônia do Sacramento e que obteve uma sesmaria na região do Rio Pardo.

Ana Terra terá um filho com Pedro Missioneiro, chamado Pedro Terra. Logo que seu pai descobre a gravidez, manda os irmãos de Ana matarem o índio. Quando castelhanos invadem a fazenda, matam pai e irmão da moça e a violentam, mas ela consegue esconder o filho, a cunhada e a sobrinha. Partem para Santa Fé, onde se passará o resto da ação de O Tempo e o Vento. Lá Pedro Terra cresce e tem uma filha, Bibiana Terra, que se apaixonará pelo forasteiro capitão Rodrigo Cambará. Ana Terra e o capitão Rodrigo são considerados dois arquétipos da literatura brasileira.

A estrutura de O Continente é formalmente inovadora: sete grandes capítulos narrativos — cada um quase um romance autônomo — são intercalados pelos fragmentos de O Sobrado, narrativa ambientada no presente da história que funciona como moldura e clímax. Esse zigue-zague entre passado e presente, cuja amplitude vai diminuindo conforme o passado se aproxima do presente, confere ao volume um dinamismo formal notável para a literatura brasileira da época. Os dois volumes de O Continente são os mais lidos e conhecidos da trilogia; o sucesso do personagem Capitão Rodrigo levou a Editora Globo a publicar em separado o capítulo da obra a ele dedicado, Um Certo Capitão Rodrigo.

A Fonte

A história começa em 1745. Pe. Alonso, espanhol nascido em Pamplona e jesuíta nas missões de Sete Povos, procura entender um sonho perturbador que tem recorrentemente. Ao falar com seu confessor, traz à tona memórias dolorosas: o padre tivera uma juventude dissoluta, fora amante de uma mulher casada e planejara matar o marido dela. Contudo, quando se aproxima da casa com um punhal, descobre que o homem já havia morrido. Mesmo não tendo cometido o crime, fica com a consciência pesada, como se fosse culpado por intenção, e decide tornar-se padre missionário para se redimir. Guarda o punhal para nunca se esquecer do que havia passado.

Tranquilizado após conversar com o confessor, Pe. Alonso continua a viver sua vida quase idílica nas missões. Certo dia, chega uma índia grávida em trabalho de parto. Os jesuítas falham em salvar sua vida, mas seu filho nasce em perfeito estado. O menino, mestiço de índio e branco, é batizado como Pedro, e o padre se torna seu padrinho e educador. Pedro cresce excepcionalmente talentoso, mas tem frequentemente visões da Virgem Maria, que julga ser sua mãe morta.

A vida idílica das missões é então perturbada pelo Tratado de Madrid. As terras que antes pertenciam à Espanha passam para a Coroa Portuguesa, e o governo exige que todos os índios e jesuítas se transfiram para outras terras em poucos meses. Os índios convertidos se revoltam e criam milícias sob o comando de Sepé Tiaraju, mas acabam sucumbindo. Pedro prevê a morte de Tiaraju, que se concretiza. Quando as forças portuguesas estão prestes a invadir, os jesuítas e índios incendeiam as construções. Pedro toma para si o punhal do Pe. Alonso e desaparece com um cavalo. Reaparecerá mais tarde, adulto, em Ana Terra.

Ana Terra

Ana Terra é filha de Maneco Terra e Henriqueta, colonos paulistas estabelecidos na região do Rio Pardo. Após o desastre que destrói sua família — a invasão castelhana que mata seu pai e irmão — ela parte sozinha com o filho Pedro, fruto de seu amor proibido pelo índio Pedro Missioneiro, e a cunhada e sobrinha sobreviventes, em busca de um novo começo em Santa Fé. É o capítulo que apresenta a matriarca de toda a linhagem Terra-Cambará e o mais emocionalmente denso de O Continente, construindo o arquétipo feminino que atravessará toda a trilogia: a mulher que suporta, resiste e sustenta enquanto o mundo ao seu redor desmorona.

Um Certo Capitão Rodrigo

O capitão Rodrigo Cambará, aventureiro destemido, chega intempestivamente em Santa Fé, e faz, imediatamente, amigos e inimigos. Todos os habitantes do povoado antipatizam com o recém-chegado, especialmente Pedro Terra (filho de Ana Terra, pai de Juvenal e Bibiana) e o Cel. Ricardo Amaral Neto, rico descendente dos primeiros povoadores locais e mandachuva despótico. Este convoca Rodrigo e exige que ele se retire do povoado. Mas o capitão não aceita ordens e permanece, meio por gosto, meio por teimosia, hospedado na casa de Nicolau, pagando com os soldos que havia ganho em outras guerras.

Ao avistar, num dia de finados, Bibiana Terra visitando o túmulo da avó, o conquistador incorrigível fica apaixonado. Mas Bibiana herdara da avó uma desconfiança natural a todos os homens e estava sendo cortejada por Bento Amaral, filho do coronel, considerado por todos um bom partido. A situação culmina num duelo pela esgrima crioula entre Rodrigo e Bento. Rodrigo vence, mas Bento lança mão de um revólver escondido e o fere gravemente. Rodrigo é acolhido na casa de Pedro Terra e se recupera. Profundamente envergonhado com a atitude covarde do filho, o Cel. Amaral promete deixar Rodrigo em paz. Bibiana, impressionada pela coragem do capitão, aceita casar-se com ele.

Rodrigo abre uma venda própria junto com Juvenal Terra, mas seu gênio não se acomoda à pacata vida de vendeiro, e começa a beber, a jogar e a trair. Bibiana suporta estoicamente todas as dificuldades. Quando estoura a Revolução Farroupilha, o capitão parte para se juntar às tropas de Bento Gonçalves. Finalmente, volta a Santa Fé com um batalhão para tomar a cidade. É o primeiro a liderar o ataque ao casarão do Cel. Amaral e é mortalmente ferido, deixando Bibiana viúva.

A Guerra O título faz uma referência óbvia à Guerra do Paraguai, que causou uma profunda decadência em Santa Fé, de alto custo humano e material. Mas também é uma referência à terrível situação entre nora e sogra que se instaurou no sobrado após a morte de Bolívar. Bibiana e Luzia já se detestavam antes, mas a morte do homem deixou uma incógnita no ar. Luzia se encontra muito doente, com um tumor, e com tempo de vida limitado. Carl Winter, o médico da família, define a situação como uma carreira entre as duas mulheres, apostando em quem sobreviverá e conseguirá o domínio completo da casa e do menino Licurgo. A relação do título com essa "guerra feminina" fica esclarecida em várias passagens. Por exemplo, Bibiana diz: E mais à frente:

Ismália Caré