Giuseppe di Stefano Paternó (Palma di Montechiaro, 7 de outubro de 1862 — Itália, depois de 1924) foi um político e advogado italiano ativo no início do século XX no estado brasileiro do Rio Grande do Sul como o principal proponente e organizador do movimento cooperativista.

Biografia Filho de Diego Paternó e Maria Meli, pouco se sabe de sua vida antes de chegar ao Brasil, contratado pelo governo para divulgar e estruturar o modelo cooperativista entre os produtores rurais. Um jornal italiano no fim do século XIX falava dele como um subversivo, responsável por uma fracassada tentativa de reformar o sistema produtivo da região de Modica, sendo chamado de "advogado socialista radical, que trabalhou com o também siciliano Francesco Mormino Pena, advogado e estudioso do pensamento de Mazzini. [...] As classes dominantes viram na experiência, impulsionada por Stefano Paternó, uma organização perigosa, que contrastava com o bloco dominante".Santos, Sandro Rogério dos. A Construção do Cooperativismo em Caxias do Sul: cooperativa vitivinícola Aliança (1931-2011). Tese de Doutorado. PUCRS, 2011, pp. 41-97 Promoveu o cooperativismo no seu país natal e no Paraguai, onde também fundou uma colônia italiana, constituindo a Sociedade Colonizadora Italo-Americana e obtendo do governo paraguaio cinquenta léguas para povoar. A iniciativa encontrou muitas dificuldades em vista das más condições de acesso e falta de infra-estrutura.Zalazar, Raquel. "Regeneración de la sociedad paraguaya: aporte de los inmigrantes (1870-1904)". In: Diálogos, 2005; 9 (2):67-78 Em 1911, através dos esforços do governo do estado do Rio Grande do Sul, da Sociedade Nacional de Agricultura, do Centro de Desenvolvimento Econômico e da Sociedade Pastoril do Rio Grande do Sul, iniciou suas atividades no estado, onde deixaria sua marca principal.

O Movimento Cooperativista As autoridades estaduais estavam interessadas em dinamizar e qualificar o setor do vinho, que se tornara a base da economia da região de colonização italiana. No início do século XX o produto sulino já era exportado para São Paulo e Rio de Janeiro, mas enfrentava dois grandes problemas. O primeiro era a baixa qualificação do produto. A principal fonte do vinho gaúcho era a uva Isabel, uma casta rústica, pouco exigente e muito adaptável, que vingou bem na região, mas produzia um vinho ácido. A acidez dos solos locais piorava a situação, e nesta época em que os produtores buscavam consolidar sua presença nos grandes mercados do centro do país, intermediários adulteravam o produto recebido para venda com a adição de substâncias químicas e muita água, fazendo o vinho gaúcho cair em descrédito. O segundo problema era a baixa qualificação do próprio produtor rural. As técnicas vinícolas trazidas da Itália pelos imigrantes eram artesanais e caseiras, havia dificuldades para manter um padrão homogêneo entre os muitos produtores, a higiene era precária e mesmo as técnicas de cultivo da videira ainda eram mais baseadas na tradição do que na ciência.

Para que o vinho colonial se tornasse competitivo, precisava melhorar sua qualidade usando castas mais finas, e não apenas modernizar, mas também profissionalizar os sistemas de produção, armazenamento e distribuição. Para isso o governo iniciou um projeto de esclarecimento dos produtores através de folhetos e manuais informativos, feiras regionais para troca de experiências e palestras com técnicos especializados, muitos deles estrangeiros. A economia regional estava iniciando uma fase de transição, a rápida urbanização das colônias, especialmente a de Caxias do Sul, ameaçava alterar a ênfase dos setores produtivos, e o governo desejava preservar a lucratividade do vinho gaúcho, e com ela manter o produtor no campo em melhores condições de vida. Os produtores rurais também se viam ameaçados pela classe dos comerciantes, que intermediava as principais relações econômicas, tinha objetivos próprios e era na época a maior força social depois do governo. Para os agricultores, a maioria deles de pouca cultura e sem tino empresarial, a união em associações seria uma estratégia de ação, uma forma de resistência contra concorrentes, e daria mais controle sobre os intermediários, além de eliminar grande parte da sua necessidade.Giron, Loraine Slomp. "O cooperativismo vinícola gaúcho: a organização inicial". In: De Boni, Luis A. (org.). A presença italiana no Brasil. EST / Fondazione Giovanni Agnelli, 1987, pp. 282-283 Considerava-se ainda que o cooperativismo tinha méritos morais intrínsecos, expressos em um sistema de divisão equitativa de trabalho, despesas e lucros, e requeria dos participantes uma postura ética e desprendida de interesses pessoais.

A participação de Paternó

Paternó foi, então, o agente escolhido pelo governo do estado para organizar o movimento cooperativista entre os viticultores italianos. Relatos da época o mostram como homem de grande cultura e brilhante orador, com uma reputação de "especialista em montar cooperativas". Chegando a Porto Alegre em 1º de setembro de 1911, já veio com um programa de palestras agendado, enfocando os objetivos da Sociedade Nacional de Agricultura, a imigração nos estados do sul, o panorama econômico do Brasil e a organização cooperativista como meio de promoção do progresso agroindustrial. No dia 15 fundou uma cooperativa agrícola em Vila Nova,Liberalesso, Franciele & Jacomelli, Jussara. "Cooperativismo de Crédito: um estudo de caso no município de Frederico Westphalen". In: Revista de Administração, 2014; 12 (21): 55-72 e estava em Caxias do Sul em 22 de setembro, onde em 2 de outubro presidiu o lançamento da Cooperativa Agrícola, cuja cantina era capaz de processar em sua inauguração 150 mil toneladas anuais de uva.

Tendo Caxias como base de suas atividades, Paternó faria palestras e atividades educativas em toda a região colonial. Segundo J. Monserrat, "Caxias do Sul foi o seu quartel-general. Quando não estava propagando o evangelho em ação, visitava as indústrias locais e perdia tardes inteiras, entre os vinhedos que circundavam as cidades, auscultando a vida colonial e sua intimidade. À noite, reunia-se com os dirigentes municipais e interessados e, até altas horas, discutia e traçava planos". O interesse despertado pela sua atividade chegou às colônias alemãs do Vale dos Sinos, onde também deu palestras,Monserrat, J. "O cooperativismo na zona de colonização italiana". In: Álbum comemorativo do 75° aniversário da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Globo, 1950, pp. 294-309 e contratos de parceria lançavam a ideia no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. A fundação das cooperativas envolvia também como aspecto relevante a criação de caixas de crédito e poupança para os agricultores, favorecendo a produção com empréstimos de baixos juros e longos prazos e ajudando na administração das suas finanças. Na apresentação de Sandro Rogério dos Santos,

"Para Paternó, a criação das cantinas sociais tinha o propósito de minimizar as falsificações e as especulações mercantis com o objetivo de baratear os preços dos vinhos. Entre as funções das cooperativas e das cantinas sociais, havia a finalidade de promover o desenvolvimento moral e material dos associados; facilitar o acesso aos capitais a juros baixos; facilitar as vendas e a aquisição de insumos a preços menores; promover o desenvolvimento e o aperfeiçoamento dos produtos e das indústrias rurais. Observa-se nos discursos de Paternó que somente pela união de esforços dos trabalhos na forma de cooperativa poderiam os colonos escapar dos especuladores impiedosos e dos parasitas vampiros, pois, com crédito agrícola, com seguro agrícola e com expansão cultural ocorreria o desenvolvimento das indústrias com base nas lavouras".

Paternó tinha pleno apoio dos governos federal, estadual e municipal, por seu estímulo foi reativada a Associação dos Comerciantes de Caxias, que também passou a apoiá-lo, e os resultados foram rápidos e animadores. Seu lema era Um por todos e todos por um. A imprensa em 1912 já apregoava a grande adesão dos produtores rurais ao novo sistema, que se ramificava para outros setores, como o madeireiro, o de laticínios, o de carne e o ferroviário. Foram formadas cooperativas de banha em Guaporé, Veranópolis, Garibaldi, Bento Gonçalves, Antônio Prado e Caxias do Sul. Somente a de Antônio Prado reunia 920 associados. As cooperativas de laticínios ou “leiterias sociais” eram três em Garibaldi, três em Guaporé, seis em Veranópolis, uma em Nova Prata, uma em Antônio Prado, quatro em Bento Gonçalves e uma em Porto Alegre. Em Alfredo Chaves foi formada uma cooperativa de madeireiros, agregando 42 serrarias.Picolotto, Everton Lazzaretti. As Mãos que Alimentam a Nação: agricultura familiar, sindicalismo e política. Tese de Doutorado. UFRRJ, 2011, pp. 55-65 Na descrição do jornal Semanário, Paternó era incansável, correndo "de um município a outro, realizando reuniões memoráveis e conferências que convencem profundamente o ânimo dos agricultores; que congregam, que inflamam, e que os enchem de entusiasmo. Organiza cooperativas vinícolas, para a industrialização dos derivados dos suínos e até para banco de crédito. Consegue dinheiro por juros acessíveis; constrói grandes estabelecimentos, importa máquinas adequadas; contrata, na Itália, técnicos especializados e inicia um movimento centralizador".

Sandra Pesavento refere que a Paternó se credita a fundação direta de dezesseis cooperativas, "centralizadas na poupança dos colonos, com a finalidade de promoverem o beneficiamento dos produtos coloniais, fornecendo aos pequenos produtores crédito, tecnologia e implementos para a melhoria da produção", e muitas outras apareceram a partir do seu exemplo. A multiplicação das iniciativas justificava a organização de uma federação, a União das Cooperativas Riograndenses de Responsabilidade, fundada em Porto Alegre em setembro de 1912, tendo como presidente Álvaro Nunes Pereira, representante do Centro Econômico do Rio Grande do Sul, e Paternó como diretor-geral,Pesavento, Sandra J. RS: agropecuária colonial & industrialização. Mercado Aberto, 1983, p. 38"As dificuldades das conquistas". Semanário, 24/02/2014 considerada a primeira cooperativa central de crédito do Brasil.Motta, Francisco Meller da. Análise da Contribuição do Sistema de Crédito Cooperativo no Aumento da Eficiência Econômica do Sistema Financeiro Brasileiro. Dissertação de Mestrado. UFRGS, 2014, p. 55 É ilustrativa do sucesso do movimento uma notícia no jornal O Brazil de 3 de dezembro de 1912: