alt=The_Girl_With_The_Pearl_Earring_modern_alteration_Selfiegirl|miniaturadaimagem|Releitura de Moça com o Brinco de Pérola (1665), de Johannes Vermeer, com o elemento anacrônico da câmera fotográfica.

Anacronismo (do grego ἀνά "contra" e χρόνος "tempo") é qualquer parecer, leitura ou julgamento sobre um acontecimento ou elemento histórico de maneira a situá-lo numa temporalidade distinta da sua época original.

Apesar de ser uma palavra de estrutura morfológica derivada do grego, só passou a ter um sentido cronológico a partir do século XVI. O surgimento da noção moderna de anacronismo é situado por Herman Ebeling em De Emendatione Temporum (1583) de Joseph Justus Scaliger, publicado um ano após o estabelecimento do calendário gregoriano e que apontava inúmeros erros de cronologia existentes em fontes antigas. O anacronismo depende da percepção de um tempo único, que serve de referência para avaliações adequadas tendo em vista o processo de sincronização de diferentes temporalidades. Esse processo de sincronização, permitiu que Joseph Justus Scaliger dividisse o anacronismo em dois: o procronismo, ou anacronismo "de ontem para hoje"; e o metacronismo, ou anacronismo "de hoje para ontem". Comumente é tido como um erro cronológico, expressado na falta de alinhamento, consonância ou correspondência com uma época. Ocorre quando pessoas, eventos, palavras, objetos, costumes, sentimentos, pensamentos ou outras coisas que pertencem a uma determinada época são retratados noutra época. O anacronismo também pode ser usado intencionalmente para fins de retórica, propaganda, comédia ou choque. Anacronismos não intencionais podem ocorrer quando um escritor, artista ou performer desconhece as diferenças de tecnologia, terminologia e linguagem, costumes e atitudes, ou mesmo modas entre diferentes períodos e épocas históricas. De forma geral, o termo anacronismo pode estar associado a características negativas ou positivas. Em sua negatividade, ele é um indicador de ausência de consciência histórica e remete ao erro cronológico característico da forma de pensar pré-moderna. Em sua positividade, está ligado à presença da consciência histórica, surgida na Modernidade, que reconhece as múltiplas temporalidades existentes ao longo da história e as diferenças entre elas.

Ao menos desde o século XII europeu, há indícios escritos e imagéticos da percepção humana sobre a diferença qualitativa entre passado e presente, que os tornaram tempos únicos e singulares. No século XIV, o sentimento de distância temporal entre passado e presente se difunde na Europa. Tal noção se aprofunda e dissemina ainda mais ao longo do Renascimento europeu, em especial com a Reforma Protestante, quando se enxerga o presente como um momento de declínio, gerando um novo sentido de passado. É por volta de 1650 que eruditos religiosos como Dionísio Petávio, Piero Sforza Pallavicino, Jacques Bossuet e Pierre-Daniel Huet difundem a palavra anacronismo, tanto em latim - anachronicus - quanto em italiano, francês e inglês. O surgimento do senso de anacronismo, por sua vez, está ligado a figuras de artistas, especialmente italianos, sendo um importante marco na história cultural europeia. O século XVIII é um momento importante para o desenvolvimento do sentimento de anacronismo pois é quando surge a ideia de História enquanto a unificação de histórias particulares, o abandono da percepção do passado como repositório de lições morais e a solidificação da percepção que a pesquisa histórica é realizada e orientada por um sujeito - o historiador - que tem uma subjetividade. Já nos séculos XX e XXI, são os historiadores da arte que lideram essa discussão.

Embora fortemente criticada no meio histórico, a visão do anacronismo como um pecado da historiografia não foi superada. Estudiosos feministas, pós-coloniais e marxistas são os mais acusados de anacronismo por utilizarem um conjunto de conceitos alheios ao período que estudam. Em contra partida, abordagens procurando se distanciar de rótulos pejorativos têm lançado mão de perspectivas que fomentam o uso da meticulosidade e uma perspectiva criteriosa nas análises de passado e presente. No combate às acusações profissionais e o tabu do anacronismo, é trazida a perspectiva de Marc Bloch, que pensava o anacronismo como inevitável, intrínseco e mesmo necessário a prática historiográfica, uma vez que historiadores trariam consigo, ao fazer história, sua própria época.

História do anacronismo

Idade Média Ao menos desde o século XII europeu, há indícios escritos e imagéticos da percepção humana sobre a diferença qualitativa entre passado e presente, que os tornaram tempos únicos e singulares. Esse distanciamento histórico entre as dimensões temporais é observado, por exemplo, no debate entre antigos e modernos ou mesmo nos conceitos de translatio imperii e translatio studii. Essa percepção da diferença temporal continuou no século XIII europeu. O artista italiano Nicola Pisano, por exemplo, realizou as roupas de suas esculturas, que representavam pessoas da Roma Antiga, de forma a parecerem com o padrão utilizado pelos romanos ao invés de parecerem com vestimentas comuns à época em que ele vivia. Isso marca uma consciência da diferença temporal e uma intenção de distingui-las em sua singularidade histórica.

No século XIV, o sentimento de distância temporal entre passado e presente se difunde na Europa. Como exemplo mais significativo dessa percepção, tem-se os escritos de Petrarca que, ao afirmar a alteridade entre a Antiguidade Clássica e o tempo em que vivia, estabelece a divisão entre Idade Antiga, Idade Média e Idade Moderna, enquanto momentos históricos essencialmente diferentes.

Renascimento miniaturadaimagem|A Escola de Atenas, de Rafael, demonstra caráter anacrônico no momento em que não apresenta um erro de datação, mas uma impossibilidade histórica, ao colocar Aristóteles e Platão em um cenário incoerente com o contexto da Grécia Antiga. A interpretação de que o Renascimento é um momento de tomada de consciência da singularidade das compreensões de mundo formuladas pelos sujeitos históricos em diferentes épocas se difundiu no livro A cultura do Renascimento na Itália (1860) de Jacob Burckhardt. Nos séculos XV e XVI, um pequeno grupo de humanistas e artistas expressou em suas obras a noção de distância entre o presente e o passado, pressuposto básico para a possibilidade de existência de um anacronismo. O exemplo mais famoso produzido no Renascimento da percepção de distância temporal foi a argumentação de Lorenzo Valla a favor do entendimento da Doação de Constantino como uma falsificação. Através de uma análise filológica, Valla contestou a autenticidade do documento já que a palavra sátrapa não existia na língua latina na época de Constantino, constituindo um anacronismo textual revelador de sua falsidade.

Contudo, essa percepção de distância temporal não era difundida entre os letrados da época e muito menos na população europeia de forma geral, que entendia o passar do tempo como produtor de continuidades. Essas duas atitudes renascentistas em relação à experiência do tempo - enquanto produtora de diferenças ou de continuidades - é visível em objetos artísticos que ora representam romanos com roupas clássicas típicas, ora representam os próprios renascentistas em vestes clássicas.

No século XVI, a noção de distância temporal se aprofunda ainda mais com a Reforma Protestante, que, ao salientar as transformações entre uma igreja primitiva e uma igreja moderna, enxerga o presente como um momento de declínio, gerando um novo sentido de passado. Ainda assim, permanecia forte a perspectiva de que o presente e a Antiguidade Clássica estavam situados num mesmo horizonte histórico e, consequentemente, desprezava-se a noção de distância temporal, que só será proeminente com a temporalização da história a partir do século XIX, que é simultânea à percepção de aceleração do tempo histórico.

Século XVII Há, no século XVII, o crescimento da noção de distância temporal, especialmente entre eruditos europeus. É por volta de 1650 que jesuítas, como Dionísio Petávio e Piero Sforza Pallavicino, e bispos, como Jacques Bossuet e Pierre-Daniel Huet, difundem a palavra anacronismo, tanto em latim - anachronicus - como em italiano, francês e inglês. Por sua vez, o surgimento do senso de anacronismo está ligado a figuras de artistas, especialmente italianos, sendo um importante marco na história cultural europeia.

Século XVIII e XIX esquerda|miniaturadaimagem|252x252px|A Batalha de Alexandre em Isso, pintura repleta de anacronismo e, por isso, criticada por autores oitocentistas. O século XVIII é um momento importante para o desenvolvimento do sentimento de anacronismo pois, segundo Reinhart Koselleck, surge a ideia de História enquanto a unificação de histórias particulares, o abandono da percepção do passado como repositório de lições morais e a solidificação da percepção que a pesquisa histórica é realizada e orientada por um sujeito - o historiador - que tem uma subjetividade. Nesse momento, destaca Koselleck, anacronismos cometidos no passado são destacados por autores europeus oitocentistas, como as críticas de Friedrich Schlegel ao quadro A batalha de Alexandre em Isso (1529) de Albrecht Altdorfer. Schlegel, ao contemplar essa pintura cerca de 300 anos depois de sua realização, apontou anacronismos derivados de uma noção de distância temporal alheia ao pintor, que enxergava a Antiguidade Clássica e a sua época como integrantes de um horizonte histórico comum. Assim, Altdorfer usufruiu de elementos de seu tempo para retratar aquele evento ocorrido em um passado distante. Nos seus elementos anacrônicos, o quadro retrata, por exemplo, os soldados de Alexandre, o Grande como soldados lansquenetes da Batalha de Pavia e os persas têm suas vestes muito semelhantes às dos soldados turcos contemporâneos a Altdorfer, que tinham sitiado Viena no mesmo ano. Com isso, o pintor acaba por retratar a batalha de Isso dentro de uma noção de atemporalidade onde o quadro, segundo Koselleck, acaba por representar a luta entre Cristo e Anticristo, mesmo que essas não tenham sido preocupações existentes nesta batalha.

Século XX e XXI Nos séculos XX e XXI, são os historiadores da arte que lideram a discussão acerca do anacronismo. O desenvolvimento desse conceito tem papel importante dentro da história da arte com discussões capitaneadas por Aby Warburg, Fritz Saxl e Erwin Panofsky. Enquanto Panofsky se destaca por sua diferenciação entre perspectiva histórica e perspectiva pictórica no Renascimento italiano, Saxl concentrou-se no interesse do pintor Andrea Mantegna pela história, assim como sua amizade com o antiquário Frei Feliciano de Verona. Warburg, por sua vez, chamou atenção à representação artística das formas de se vestir ao longo da história. Para o historiador inglês Peter Burke, o reconhecimento das mudanças nas vestimentas ao longo do tempo é o sinal mais claro da existência de uma compreensão de distância histórica.

Segundo Didi-Huberman, o campo de estudo da história da arte é naturalmente anacrônico, pois lida com diferentes tempos, pontos de vista e perspectivas em comparação direta. Didi-Huberman utiliza o conceito duplo-anacronismo para compreender as obras de artes já que, por vezes, são anacrônicas e representam o objeto retratado também de forma anacrônica.

Características De forma geral, o termo anacronismo pode estar associado a características negativas ou positivas. Em sua negatividade, ele é um indicador de ausência de consciência histórica e remete ao erro cronológico característico da forma de pensar pré-moderna. Em sua positividade, está ligado à presença da consciência histórica, surgida na Modernidade, que reconhece as múltiplas temporalidades existentes ao longo da história e as diferenças entre elas.

Indicador de ausência