O Ciclo da Erva-Mate refere-se ao desenvolvimento econômico baseado na exploração da Ilex paraguariensis, planta nativa do sul da América do Sul. Na História do Brasil, o ciclo teve papéis decisivos desde o período colonial até o início do século XX, moldando estruturas sociais, culturais e econômicas especialmente no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e regiões fronteiriças da Bacia do rio da Prata.
O mate já era consumido há séculos pelos povos indígenas, como os Guaranis e Caingangues, como bebida estimulante e planta medicinal. Sua exploração econômica, entretanto, consolidou-se com a colonização ibérica e ganhou impulso decisivo após a Guerra do Paraguai.
Consumo indígena e primeiras explorações Antes da chegada dos europeus, o mate era consumido de forma difundida entre populações originárias, sem fins comerciais estruturados. Cronistas coloniais registraram o uso social e ritualizado da bebida, que viria a ser apropriado economicamente pelos colonizadores espanhóis e portugueses.
Os guaranis da região nordeste da Argentina parecem ter sido os descobridores do uso da erva-mate. No Século XVI, os guaranis passaram este conhecimento aos colonizadores espanhóis, que o disseminaram por todo o Vice-Reino do Rio da Prata. A erva chegou a ser proibida no sul do Brasil durante o século XVI, sendo considerada "erva do diabo" pelos padres jesuítas das reduções do Guayrá. A partir do século XVII, no entanto, os jesuítas passaram a incentivar o seu uso pelos índios com o objetivo de afastá-los das bebidas alcoólicas.Schmidt, Maria Auxiliadora in: Histórias do Cotidiano Paranaense 2º Ed. - Letraviva Editora, pag 48
Por volta de 1690, Anton Sepp, jesuíta austríaco, ao encontrar índios na Banda dos Charruas, conta: "(...) um deles pediu apenas um pouquinho de uma erva paraguaia que não é outra coisa senão as folhas secas de determinada árvore, moídas em pó. Esse pó os índios deitam na água e dele bebem (...)", deixando assim o registro de uso para além da utilização da erva-mate em folha, mas também de sua utilização em pó a partir da moagem da folha.
Em viagem ao sul do Brasil, o viajante e médico alemão Roberto Avé-Lallemant relatou, em meados de 1858: "É o mate a saudação da chegada, o símbolo da hospitalidade, o sinal da reconciliação. Tudo o que em nossa civilização se compreende como amor, amizade, estima e sacrifício, tudo o que é elevado e bom impulso da alma humana, do coração, tudo está entretecido e entrelaçado com o ato de preparar o mate, servi-lo e tomá-lo em comum."
Missões jesuíticas e economia colonial Durante os séculos XVII e XVIII, os jesuítas transformaram a erva-mate em importante recurso econômico nas Missões Jesuíticas do Rio da Prata. O trabalho indígena foi amplamente utilizado no cultivo e no transporte da erva, frequentemente em condições de exploração e mortalidade elevada. A erva-mate tornou-se um dos sustentáculos das reduções e, mesmo após a expulsão dos jesuítas em 1767, permaneceu relevante: cerca de cinco mil toneladas eram exportadas anualmente a partir dos antigos territórios missioneiros.
Consolidação após a Guerra do Paraguai No século XIX, o isolamento político do Paraguai e, posteriormente, a derrota paraguaia na Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870) reorganizaram o mercado do mate. Com a restrição das exportações paraguaias, Argentina, Uruguai e Brasil intensificaram o cultivo próprio, com destaque para Paraná, Santa CatarinaA planta que fez um estado prosperar Gazeta do Povo e Mato Grosso do Sul.Erva-mate Santo Antônio. Disponível em http://www.ervamatesantoantonio.com.br/museu/. Acesso em 11 de agosto de 2015.
A partir de 1870, vastas áreas foram privatizadas, e companhias mercantis assumiram o controle dos ervais. A mais importante no Brasil foi a Companhia Matte Larangeira (fundada em 1882), que controlou cerca de cinco milhões de hectares após se associar ao Banco Rio Mato-Grosso em 1894.
Economia, sociedade e trabalho A economia ervateira teve papel central no desenvolvimento do capitalismo agrário no sul do Brasil. No Paraná, a erva-mate representou cerca de 85% da economia provincial em meados do século XIX, contribuindo para a emancipação do estado em relação a São Paulo.
O sistema produtivo combinou trabalho indígena, colonos regionais e trabalhadores submetidos ao sistema de barracão, marcado por endividamento e dependência.
Legados O ciclo da erva-mate contribuiu para:
formação de uma burguesia regional ligada ao extrativismo e à indústria; desenvolvimento urbano em Curitiba e outras cidades; fundação da Universidade Federal do Paraná, associada ao fortalecimento da elite ervateira e à busca por formação técnica e científica.
A cultura da erva-mate permanece elemento simbólico na região sul, associada ao consumo do chimarrão e do tereré.
Ver também Companhia Matte Larangeira Missões Jesuíticas História econômica do Brasil
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