miniaturadaimagem|upright=1.2|Mapa dialetológico do asturo-leonês O asturo-leonês () é um diassistema linguístico que abrange o noroeste da Península Ibérica, conhecido nos diferentes territórios como asturiano, leonês ou mirandês (tradicionalmente cada zona ou região utilizava localismos para fazer referência à língua, originando-se outras denominações como cabreirés, senabrés, pixueto ou paḷḷuezu).

Filogeneticamente, o asturo-leonês faz parte do grupo ibero-romance ocidental e surge da peculiar evolução que sofreu o latim no Reino das Astúrias (posteriormente Reino de Leão). O grupo asturo-leonês divide-se em três blocos (ocidental, central e oriental) que traçam de forma vertical uma divisão norte-sul, desde as Astúrias até à Terra de Miranda, e compondo assim o domínio linguístico asturo-leonês. O montanhês e o estremenho são variedades de transição com o castelhano. Simultaneamente, o galego falado a poente do rio Návia faz a transição com o domínio galego-português.

A situação da língua é diferente segundo o território. Em Portugal, a língua possui reconhecimento, é regulada e ensinada de forma facultativa no sistema educativo apenas em Miranda do Douro, mas é falada também em Rio de Onor, Guadramil e Quintanilha; em Leão carece de proteção, e é apenas mencionada no Estatuto de Autonomia de Castela e Leão, apesar deste recomendar a sua promoção e uso; e nas Astúrias a língua não é oficial, mas é também incluída no currículo escolar e regulada pela Academia da Língua Asturiana.

Número de falantes LocalizaçãoFalantes nativosOutros % do total de falantes de asturo-leonêsAstúrias100 000450 00076,3Leão e Samora50 00025 000 / 100 00020,8Distrito de Bragança8000 a 10 0002

História

Origem O idioma asturo-leonês tem a sua origem no latim vulgar, transmitido principalmente pelas legiões norteafricanas assentadas em Asturica Augusta e em Legio VI. A suplantação da língua dos ástures por esta outra foi lenta mas imparável, já que o uso do idioma imperial era a chave que abria as portas para a obtenção de muitos direitos e liberdades, entre eles o mais importante: a cidadania romana. Não obstante, como no resto da península, não foi até o estabelecimento dos reinos germánicos (visigodos) quando o latim, mais ou menos modificado, se estabelece definitivamente como língua única e comum.

No conjunto asturo-leonês coincidem paralelamente rasgos marcadamente conservadores (como a manutenção dos grupos AI, AU e MB) junto a outros disruptores do sistema latino (como é a transformação do vocalismo original para um sistema de ditongos). Isto explica-se pelo carácter de encontro, no território dos ástures, de dois processos de romanização muito diferenciados: o procedente da Bética e o procedente da Tarraconense. Kurt Baldinger, Krüger, Menéndez Pidal e outros autores destacaram a importância do rio Sela como limite linguístico destes dois mundos. Assim, Menéndez Pidal assinala

A Bética, com a sua florescente cultura cidadã e a sua ativa vida cultural opor-se-ia ao carácter militar e vulgar da Tarraconense. A esta diferenciação cultural e social responderia seguramente o carácter conservador do norte, que explicaria, segundo Baldinger, o carácter conservador do asturo-leonês e do português: manutenção do -U final e a manutenção dos grupos AI, AU, MB. Este caráter conservador reflete-se em determinadas palavras presentes apenas no noroeste peninsular, que já em tempos de Cícero estavam em desuso. Assim, populariza-se 'fabulari' (falar, falar) em vez de 'parlare' (parlare, parlar); 'quaerere' (querer) em vez de 'volere' (voler, vouloir); 'percuntari' (perguntar) em vez de 'questionare'; campsare (cansar), etc. Por outro lado, a situação periférica do noroeste peninsular determinaria também que, uma vez adotado o latim, se mantivesse conservadoramente muitas palavras latinas que só aí perduram como palavras populares; assim, p. e., o lat. culmus, é em port. «cúmulo», ast. «cuelmu» (vejam-se as formas reunidas por Corominas e FEW; por causa do ditongo ue, que só pode se dever a um ŏ, supõe Corominas um celta 'kŏlmos', ZCPhil 25, 1956, pág. 42); Silva Neto reúne nada menos que 51 exemplos (pág. 269 e seg.; a propósito de ATRIUM veja-se especialmente pág. 353, nota 8). Malkiel demonstrou que o lat. ALIQUIS "como pronombre se guareció en un distrito alejado y conservador: el NO. y O. de la Península Ibérica”.

Junto a estes rasgos conservadores incidem outros que apresentam um carácter marcadamente inovador e que só se explicam pela resistência dos povos do norte em serem incorporados à romanidade, situação de conflito que hoje conhecemos através do relato das guerras cantábricas. Estes duas tendências, juntamente com a expansão e retrocesso posterior das línguas vernáculas como o basco, depois do período de instabilidade que segue às invasões germânicas, vão determinar a peculiar evolução linguística do noroeste peninsular. No vocabulário encontram-se assim elementos prerromanos procedentes dos mais diversos estratos, que sobreviveram à tardia romanização desta zona, e inclusive elementos preindoeuropeus que só se haviam conservado na toponímia.

A formação da língua nos reinos das Astúrias e Leão No século VIII, a língua da Igreja e da administração diferiam de tal modo daquela usada no quotidiano que já era possível pensar em dois sistemas diferentes: o latim e o romance. Esta evolução acaba por desembocar no surgimento, no século X, dos primeiros documentos com expressões escritas em romance nos diversos mosteiros das Astúrias e de Leão. O mais importante destes é a Nodicia de Kesos, onde o romance dessa época (em processo de transformação e ainda sem se poder considerar como asturo-leonês) substitui o latim num acto rotineiro de compra e venda. Deste latim, escrito nos séculos X e XI e muito alterado pelo romance local, é possível encontrar registos procedentes dos mosteiros leoneses de Sahagún, Otero de Dueñas e da Catedral de Leão.

Segundo os critérios de Hanssen, descartados atualmente pela comunidade linguística, o leonês seria apenas castelhano falado por indivíduos cujo dialeto primitivo era o galego e que foram castelhanizados.«Los estudios que se han hecho sobre los dialectos de otros países han probado que, por regla general, no hay límite geográficos precisos y claros entre las hablas populares... es verosímil que desde tiempos tempranos hubo un tránsito insensible entre el castellano y el gallego, mezclándose las particularidades de las dos lenguas en Asturias y León. Sin embargo, los dialectos asturianos y leonés no son verdaderos términos medios entre las lenguas vecinas, sino que deben ser clasificados de dialectos castellanos, por participar de las principales particularidades de la lengua de Castilla... creo que el castellano ha avanzado hacia el Oeste, quitando las tierras de Oviedo, León, Zamora, Salamanca, etc. a un dialecto semejante al gallego y he sostenido en otra parte Estudios sobre la conjugación aragonesa, que el leonés es castellano transformado en boca de los habitantes de León cuyo idioma primitivo fue el gallego». Hanssen, Friedrich (1896), Estudios sobre la conjugación Leonesa Impr. Cervantes., p. 754 Tal explicaria, segundo o autor, que se produzisse a manutenção do -o- e a falsa aplicação do ditongo a palavras que, em castelhano, não o requerem. É com Menéndez Pidal que se prova a existência de ditongos nesta língua que antecedem o predomínio castelhano, definindo assim a existência de critérios próprios e diferenciados ao desta língua, que exemplifica com as vogais breves latinas -e- e -o-. Assim, chega à conclusão que o asturo-leonês seria fruto do isolamento das variedades dialetais mais ocidentais do primitivo romance peninsular central, consequência da irrupção do castelhano e da latinização tardia de grupos bascófonos, grupos esses responsáveis pela quebra da homogeneidade linguística da Península Ibérica:A tese seguida por Menéndez Pidal é a de que o asturo-leonês é resultado de um processo inacabado de integração linguística das línguas peninsulares (juntando-se o castelhano, moçárabe e navarro-aragonês) na língua espanhola.El castellano, por servir de instrumento a una literatura más importante que la de otras regiones de España, y sobre todo por haber absorbido en sí los otros dos romances principales hablados en la Península (el leonés y el navarro-aragonés) recibe más propiamente el nombre de lengua española... Las otras hablas de España más afines al castellano y que se fundieron con él para formar la lengua literaria, dieron también a ésta muchísimas palabras; pero son difíciles de reconocer, pues como estos dialectos afines tienen la mayoría de sus leyes fonéticas comunes con el castellano, tales palabras no llevan sello de evolución especial Menéndez Pidal, Ramón, Manual de gramática histórica española, Madrid, Espasa-Calpe, 1940, p. 27.

Evolução da língua

Idade Média A língua empregue na escritura de todo o tipo de actos, no Reino de Leão, passa progressivamente a ser o leonês. É, portanto, uma língua usada a nível administrativo, público e privado — em testamentos, aforamentos, cartas de venda ou sentenças judiciais. São também traduzidos do latim textos legais como o Fuero juzgo (conhecido no Reino de Leão como Livro Iudgo), o tratado processal Flores del Derecho (escrito inicialmente em castelhano) e os foros concedidos a diversas cidades como Leão (1017), Alva de Tormes (1140), Oviedo (1145), Avilês (1155), Campomanes (1247), Benavente (1164 e 1167), Samora (1289), Ledesma (1290) ou Salamanca (1301).

Fora destes âmbitos administrativos e jurídicos, podem notar-se rasgos do leonês dessa era em manuscritos como o Livro de Alexandre ou a Disputa de Helena e Maria, provavelmente introduzidos por copistas leoneses.

Diglossia e declínio Entrados já no século XIV, os territórios leoneses encontravam-se sob a órbita castelhana, numa altura em que se poderiam dar as circunstâncias que permitissem um desenvolvimento como língua de prestígio e culta. No entanto, o castelhano começa a substituir o leonês nestes âmbitos, à semelhança do que acontece na vizinha Galiza, relegando a língua ao uso oral, como se passara anteriormente com o latim. Consequentemente, dá-se um distanciamento importante entre a língua falada e a língua escrita, o castelhano.

Entre os séculos XV e XVIII dão-se os séculos escuros do asturo-leonês, que à semelhança de outras culturas e línguas da Península e da Europa, foram marginalizadas devido aos processos de centralização dos vários estados. Isto resultou numa heterogeneização e fragmentação linguística e cultural que ameaçou a existência da língua.

Na Idade Moderna, a produção literária em leonês limita-se a autores como Juan del Enzina, Lucas Fernández ou Torres Naharro, que publicam obras centradas em éclogas.

A partir do século XVII, ressurgem manifestações literárias nesta língua, através de uma literatura arcaizante, em autores como Antón de Marirreguera ou Josefa Jovellanos (irmã de Gaspar Melchor de Jovellanos) que mediante o uso de recursos estilísticos próprios da chamada fala rústica, recupera elementos próprios do idioma asturo-leonês. Esta tradição literária prolongou-se pelo século XIX por autores como Xuan María Acebal, José Caveda y Nava, Teodoro Cuesta, Pín de Pría ou Fernán Coronas. A respeito desta literatura, o linguista sueco Åke Munthe assinala o seguinte:Na verdade, esta literatura é apenas uma modalidade da literatura de costumes dos princípios do século XVII de caráter marcadamente cómico ou burlesco. Nelas, através do emprego de determinadas expressões asturo-leonesas, mas também de barbarismos e arcaísmos próprios da língua vulgar castelhana usada nas Astúrias, é reforçada a paródia de determinados personagens ou situações.

Classificação

Variedades O dialeto ocidental é o mais abrangente em termos geográficos, no entanto a variedade central é a mais falada.