Demiurgo (grego, δημιουργός, demiourgos) significa "o que trabalha para o público, artífice, operário manual", demios significando "do povo" (de demos, povo) e -ourgos, "trabalhador" (de ergon, trabalho.Merriam-Webster - Demiurge )
No sentido de "trabalhador para o povo", a palavra foi usada em todo o Peloponeso,"Mas "demiurgo" era também o "criador do mundo", "o primeiro magistrado dos estados do Peloponeso"." com exceção de Esparta, e em muitas partes da Grécia, como sinônimo de um alto magistrado.1911 Encyclopædia Britannica/Demiurge No pensamento cosmogônico de Platão, o termo designa o artesão divino — causa da alma do mundo — que, sem criar de fato o universo, dá forma a uma matéria desorganizada imitando as essências eternas, tendo os deuses inferiores, criados por ele, como tarefa a produção dos seres mortais. No pensamento gnóstico, o demiurgo, criador do mundo é distinto do Deus supremo e em geral considerado mau, enquanto que para Platão o demiurgo é bom: "Ele era bom e, naquilo que é bom, nunca surge inveja de nada; e sendo desprovido de inveja, desejou que todos fossem, tanto quanto possível, semelhantes a Ele".
Platonismo e Neoplatonismo
O uso filosófico e o substantivo próprio derivam do diálogo Timeu escrito por Platão em 360 a.C.,"O conceito de demiurgo orgina-se na obra Timeu de Platão, onde é apenas um deus criador(...)" a causa do universo,Platão, Timeu, 29 [wikisource] de acordo com a exigência de que tudo que sofre transformação ou geração (genesis) sofre-a em virtude de uma causa.Platão, Timeu, 29 Diferente do deus cristão, o demiurgo não cria ex nihilo"O demiurgo não cria o mundo a partir do nada." "Todos os elementos da Criação, nomeadamente as criaturas, estão contidas no próprio demiurgo e ele não pode, de fato, gerar qualquer coisa sem ser a partir de si mesmo, desde que a criação ex nihilo é impossível." mas a partir de um estado preexistente de caos, tentando fazer seu produto assemelhar-se ao modelo eterno das Formas,Platão, Timeu, 29, 30 assim a atividade do demiurgo compreende observar as Formas,Platão, Timeu, 29, 39 desejar que tudo seja o melhor ou mais similar possível ao modelo eterno e perfeito.Platão, Timeu, 30, 31
A meta perseguida pelo demiurgo platônico é o bem do universo que ele tenta construir.Platão, Timeu, 46,68 Este bem é recorrentemente descrito em termos de ordem,"Tudo que é bom é belo, e o que é belo não é isento de medida", Platão, Timeu, 30, 31 Platão descreve o demiurgo como uma figura neutra (não-dualista), indiferente ao bem ou ao mal,"A filosofia patrística (e depois escolástica) carregou a figura do Demiurgo de valências que não existem no texto platônico(...)" mas apesar de bom, sofre limitações na coordenação criativa do cosmos (não onipotenteTIMEU: a Cosmologia de Platão, acesso em 29/04/2021.), por isso, só é bom até um ponto, enquanto manter correspondência absoluta ao modelo ideal, assim Platão apela para o princípio de "causa errante", que por natureza produz movimento e tempo."Platão, atribui a origem do tempo à ação do demiurgo, assimila-o ao movimento e nele vê uma espécie de ritmo do eterno(...)" Platão entende a "carência total de finalismo" (a mera disteleologia), isto é, algo indeterminado, anômalo, casual, a desordem em sentido global. Eis o que significa justamente "causa errante", ou seja, "causa que age ao acaso e de modo anômalo".
Médio platonismo De acordo com Proclo,Proclo, Comentário em Timeu, 93 Numênio considerou que havia uma espécie de trindade, ou três princípios supremos: o "Primeiro Deus", chamado Pai, O Primeiro, Nous, O Um e O Bem, é o ser absoluto, perfeitamente transcendente e autônomo. Ele é pai do "Segundo Deus", o Demiurgo que também se chama Nous, ele é igualmente bom, porque compartilha do bem do Primeiro Deus, mas possui uma inclinação a matéria. Numênio também alegou que as três divindades eram na verdade uma só.God the Creator, God the Creation: Numenius' Interpretation of Genesis 1:2 (frg. 30) por Robbert M. Van Den Berg
Enquanto os deuses menores do Timeu de Platão são responsáveis por acrescentar uma alma mortal à alma racional imortal entregues pelo demiurgo, o demiurgo de Numênio é responsável apenas pela encarnação e reencarnação das almas mortais, que são, elas próprias, de origem superior. Numênio considerou ainda um demiurgo dualista, sua parte contemplativa é a alma do mundo benévola e a parte da criação, porque se preocupa unicamente com a matéria, é a alma do mundo má.
Neoplatonismo
Plotino não interpreta a criação do mundo através do demiurgo platônico de modo literal, mas ainda assim, uma interpretação figurativa do demiurgo é usada, ele introduz uma separação entre realidade inteligível e realidade sensível."Ele nunca usa o imaginário do Demiurgo para descrever a mediação enter a hipóstase e o mundo sensível."
Segundo Proclo, Plotino considerava que o primeiro demiurgo é o que contempla o paradigma, o segundo é o que dispõe o resultado da contemplação em ação, primeiro criando o universo e então o governando. A parte elevada deve ser chamada Cronos e parte inferior, a ação, traz o nome de Zeus. O reino de Cronos e o intelecto de Zeus, juntamente constituem o nível intermediário entre O Um e o universo.Proclo, Comentários sobre Timeu de Platão, 1.306.24
Jâmblico equaliza todo o cosmos a Demiurgo, concordando com Plotino, ele afirma ainda que apenas o demiurgo contém o ser e o inteligível.
Gnosticismo
Os gnósticos acreditavam que o Criador ou demiurgo era uma entidade do mal,"Os gnósticos, por regra geral, representam o demiurgo, isto é, o arquiteto do mundo, a que identificam com Yahveh, como o pai de todo o mal. Eles o descrevem como irascível, ciumento e vingativo, contrastante com o deus superior que nada tem a ver com a criação." o que contrasta com o conceito platônico Segundo o gnosticismo existe incompatibilidade entre a esfera divina, que é luz, e o universo de nossa experiência, que é terreno e desprovido de sentido, esse dualismo, inspirado por uma visão pessimista do mundo e de sua história, não é eterno como para os maniqueus, pois o mal só apareceu com a criação, atribuída à hìbrys de um demiurgo, e há de desaparecer um dia.
Em textos gnósticos como no Apócrifo de João e Da origem do Mundo, demiurgo, o filho de Sophia recebe nomes que definem a sua natureza: Yaldabaoth ("filho dos caos""A derivação mais provável do nome “Yaldabaoth” foi dada por Johann Karl Ludwig Gieseler, “Filho do caos” do hebraico yalda bahut, ילדא בהות" ), Sakla (do aramaico, "tolo"),"No Evangelho de Judas, Saklas é o líder dos anjos que assessoram o demiurgo." Samael ("deus cego")"Samael ("Deus da cegueira") é identificado com Sakla, no apócrifo Hipóstase dos Arcontes,ele toma o lugar do deus hebraico na história do Jardim do Éden" ou ainda Nebruel (ou Nebro). É ainda no Apócrifo de João que descrevem o demiurgo Yaldabaoth com um ser que tem o rosto que se assemelha a um leão.
No apócrifo Hipóstase dos Arcontes, Yaldabaoth e Sabaoth são entidades diferentes, esta última seria o filho do primeiro mas mesmo nessa versão Sabaoth tem função semelhantes, seu trono é uma imensa carruagem de querubins rodeada por anjos ministeriais. O nome Yaldabaoth exercitou a ingenuidade dos estudiosos por um bom tempo, este arconte foi igualado a Yahweh (Javé) do Antigo Testamento,"Segundo certos relatos, o demiurgo autor da criação é o deus dos hebreus, do qual a Bíblia diz que é "um deus ciumento" ()." mas não há indícios no hebraico para tal significado.
No Sistema de Ptolomeu de Valentim, o demiurgo é descrito como um anjo, semelhante a deus, que elevou-se até o sétimo céu que circunda a terra, acima deste está o oitavo céu e acima dele o Deus Supremo, que fica completamente distante do mundo. Anjo guardião da esfera inferior, o demiurgo foi designado como o criador do mundo, o chefe dos arcontes pelos quais Achamoth, a mãe, deu à luz (Ogdôada). Por trás do demiurgo, há uma reunião de forças subordinadas, os arcontes, que são seus colaboradores. A teoria Valentiniana elabora que da Achamoth (he káta sophía ou sabedoria menor), originaram-se três tipos de substâncias, o espiritual (pneumatikoi), o animal (psychikoi) e o material (hylikoi). O Demiurgo pertence ao segundo tipo, por ele ser fruto da união da Achamothcom a matéria.Irineu, Contra Heresias, i. 5.
A descrição do demiurgo, pelos setianistas é ainda mais negativa do que no sistema valentiano e seu status é inferior ao do Deus Supremo, como citado no Evangelho de Filipe, mas ele alcançou o status de criador dos arcontes e do mundo natural, tornando-se arrogante disse "Eu sou o Pai, e acima de mim não há nenhum outro",Evangelho de Filipe (como em e ), de acordo com o Apócrifo de João, uma voz divina, ultrajada com a reivindicação arrogante de Yaldabaoth, dá a resposta e o refuta, a voz ressoa: "A humanidade existe, assim como o filho da humanidade".Apócrifo de João, II, 14
Marcião contrapunha o deus do Antigo Testamento ao deus de Jesus Cristo, para ele a criação era obra de um deus maligno, o Demiurgo, apresentado na Bíblia judaica. Segundo Marcião, o Pai de Jesus não tinha nada em comum com o Deus judaico do juízo e da guerra, o deus do Antigo Testamento, juiz potente, justo, colérico, cruel, mesquinho, capaz de afirmar: , esse deus não poderia ser o mesmo pai de Jesus Cristo. Coerente ao seu pensamento, Marcião não só rejeitou a Bíblia judaica como Escritura Sagrada, na luta pela mensagem pura, mas também os escritos neotestamentários em que predomina a tradição judaica.
Ligações externas
Catholic Encyclopedia: Demiurge
Categoria:Concepções de Deus Categoria:Filosofia Categoria:Personagens gnósticos Categoria:Teísmo finito