Mercedes Blasco, pseudónimo de Conceição Vitória Marques, (Mina de S. Domingos, 4 de setembro de 1867 – Lisboa, 12 de abril de 1961) foi uma popular actriz de opereta e revista, escritora, poetisa, professora, tradutora, jornalista assim como enfermeira voluntária na Primeira Guerra Mundial.
Durante o seu percurso usou também os nomes artísticos Judith Mercedes Blasco e Judith Mercedes, assim como os pseudónimos Dinorah Noemia e Mam’selle Caprice.
No seu livro "Vagabunda" encontram-se reflexões sobre o feminismo, «Eu, que nas horas em que o teatro me deixa livre, me comprazo em estudar vários aspectos sociais, que inquietam meu espírito reto e justiceiro, entendo que a mulher pode e deve ser eleitora em todos os países e qualquer que seja a sua condição, sem que esse facto influa nas suas faculdades afectivas.»
Biografia Filha de José Maria Marques, maquinista de 1ª Classe da Companhia Real de Caminhos de Ferro, Mercedes Blasco nasceu na aldeia da Mina de S. Domingos situada no Baixo Alentejo, de onde era originária a família materna. Afamada pela sua figura, Mercedes possuía lábios carnudos e cabelos encaracolados, a sua imagem foi indicativo de beleza em Portugal. Possuía uma voz afinada e extensa, no dizer de Eça Leal.
Proveniente de um meio burguês conservador Mercedes Blasco optou por usar pseudónimos no início da sua carreia de moda a contornar o estigma social. Contudo os figurinos ousados e as representações provocantes deram azo a uma série de escândalos durante a sua carreira. Por exemplo na sua estadia no Teatro da Trindade, onde integrou os espectáculos “Miss Helyett”, “O Brasileiro Pancrácio”, “O Solar das Barrigas” ou a célebre revista “Sal e Pimenta”, apesar dos êxitos acumularam «os mais diversos escândalos». No início do século XX Mercedes Blasco engravida, ainda solteira voltando o escândalo a «ensombrar a sua carreira profissional, afastando-a temporariamente de cena».
Na sua digressão pela Europa (França, Itália, Reino Unido e Bélgica) conheceu o seu marido Remi Ghekiere com quem viveu em Bruxelas aquando do começo da Primeira Guerra Mundial. Na sua obra "Vagabunda", Mercedes narra as dificuldades que passou em Bruxelas durante a guerra, uma vez que se recusou a trabalhar para as forças alemãs, apesar de ter dado aulas de línguas, e de mais tarde se ter voluntariado como enfermeira para a Cruz Vermelha.
Com o final da guerra, regressou a Lisboa contudo não encontrou qualquer tipo de reconhecimento pelas suas acções durante a guerra, bem como pelo seu trabalho nos palcos. Como forma de sustento começou a escrever produzindo e desenvolvendo uma obra com mais de trinta volumes dispersos entre memórias, romances, novelas, peças de teatro, crónicas e traduções, bem como uma intensa actividade jornalística.
Viveu com dificuldades económicas nos últimos anos da sua vida com uma fraca reforma que lhe foi atribuída chegou mesmo a viver da caridade de alguns amigos. Faleceu em Lisboa no dia 12 de abril de 1961, com 94 anos, em casa de Alberto Bartisol, onde a tinham recolhido havia mais de um ano.
Carreira 1867: Infância Conceição Marques saiu com poucos meses da sua terra natal, Mina de São Domingos rumo a Huelva, Espanha, onde viveu até aos sete anos, idade com que veio com os pais, para a cidade do Porto. Nesta cidade, frequentou a Escola Normal, onde tirou o curso do Magistério Primário e estudou língua francesa com a professora Blanche Aussenac.
A sua arrebatadora paixão pelo teatro levou-a a fugir de casa, ainda menor de idade, para concretizar os seus sonhos, optando pela utilização de pseudónimos de maneira a ocultar da família a sua actividade profissional. Conceição Vitória Marques fora desde muito cedo preparada para uma carreira na medicina, tendo acesso a uma educação acima da média. Este facto explica não apenas a cultura que revela na sua vasta obra literária, mas também o seu domínio de várias línguas, para além do português (inglês, francês, espanhol, italiano e alemão), que viria a utilizar frequentemente na sua vida profissional, tanto em Portugal como no estrangeiro.
1888-1891: Início de uma Estrela Foi no Teatro do Chalet do Porto, que Mercedes Blasco se iniciou no papel de “Jockey” na peça "Grande Avenida", adaptação da zarzuela La Gran Via, por Jacobetty. Passou para o Teatro do Príncipe Real, naquela cidade. Já conhecida, veio para o Teatro do Rato, em Lisboa, onde se estreou como nome de Mercedes Blasco, em "O Às de Copas" (1888), revista de Ludgero Viana. Voltou ao Chalet, no Porto, onde entrou nas revistas "Sem Papas na Língua" (1888), de Alfredo Fragoso e António José Alves, no papel de “Primavera”, e "Nitouche, Vaudeville" em 3 atos, de Millaud e Hannequin, "Espelho da Verdade", peça fantástica em 4 atos, arranjo de Augusto Garraio; "Os Bandidos", de Augusto Mesquita, "Coroa de Fogo", peça fantástica de Borges de Avelar, com música de Manuel Benjamim; "O Homem Rico de Celorico" (1888), imitação de Gervásio Lobato e Acácio Antunes de uma peça de Feydeau.
Voltou a Lisboa, em 1890, para integrar o elenco da companhia do Teatro da Trindade, a convite de António Duarte da Cruz Pinto, crítico musical de O Século, quando Matoso da Câmara era gerente do teatro. O vencimento acordado foi de 54$000 réis por mês e um benefício. Ali se estreou, a 21 de outubro de 1890, na primeira representação de "Mademoiselle Nitouche, Vaudeville", tradução de Gervásio Lobato e Urbano de Castro, música de Rio de Carvalho; e entrou nas operetas "A Moira de Silves", original de Lorjó Tavares e música do maestro Guerreiro da Costa; "Colégio de Meninas", tradução de Gervásio Lobato e Acácio Antunes.
A peça "Noiva dos Girassóis" (1891), tradução de Guiomar Torrezão, "Piparote" (1891), de Eduardo Garrido e música de Freitas Gazul; e "Miss Helyett", tradução de Gervásio Lobato e Eça Leal, considerada, por muitos críticos, como a sua melhor criação. Foi no Teatro da Trindade que cantou, pela primeira vez, canções francesas no género da artista Ivette Guilbert.
1892-1892: Os fados Na época de 1892/93, esteve no Teatro da Avenida, onde criou “Diabo Elétrico”, de "O Cavaleiro da Rocha Vermelha", mágica de Baptista Machado, música de Dias Costa. Voltou ao Teatro da Trindade, para interpretar papéis de responsabilidade na opereta "Leitora da Infanta" (1893), tradução de Eça Leal da peça Petite Muette, música do maestro Augusto Machado; interpretou ainda a parte musical da zarzuela "Segredo Duma Dama", e "Fado do Amor"; criou "Brasileiro Pancrácio" (1893), opereta de costumes populares de Sá de Albergaria com música de Freitas Gazul, onde cantou fados compostos por ela e que, a pedido do público, chegaram a ser repetidos dez vezes numa sessão.
1894: A grande vedeta do Trindade Em 1894, Mercedes Blasco era a grande vedeta do Trindade e, nesse ano, entrou em "Sal e Pimenta", revista em 3 atos e 12 quadros de Sousa Bastos, música de Freitas Gazul. Apesar do sucesso, quando a Sociedade Artística daquele teatro entregou, em 1894, a direção a António de Sousa Bastos, Mercedes Blasco viu em Palmira Bastos uma rival e abandonou o teatro.
1894-1895: No Teatro D. Afonso Na temporada de 1894/95, integrou a Companhia Del Negro, no Teatro D. Afonso, no Porto, onde representou "Amazonas de Tormes", zarzuela em 2 atos, traduzida por Passos Valente, "Uma Aventura Régia", ópera cómica, no papel de Olivier, em "travesti", e "Capitão Lobisomem", de Lopes Teixeira.
1896: Um novo visual Em 1896 partiu em digressão pelas províncias do norte do país. Finda a época, voltou a Lisboa, cortou e pintou os cabelos de louro, e hospedou-se no Hotel Aliança. Entrou para o Teatro D. Amélia e, depois, para o Teatro da Rua dos Condes, onde fez "Champignol à Força", peça original de Georges Feydeau, traduzida por Guiomar Torrezão. miniaturadaimagem|À porta da Rua dos Condes na Telha do Reino da Bolha (1897)
1897-1900: Atrevida, ciclista e instrumentista Escandalizou em "O Reino da Bolha" (1897), revista de Eduardo Schwalbach, música de Freitas Gazul e Del Negro, em que entrou no palco de bicicleta e traçou as pernas em cena, para segurar a viola que tocava para acompanhar as cançonetas francesas que faziam parte do repertório. Também ia de bicicleta de casa, do Chiado, onde vivia, para o Teatro da Rua dos Condes. Integrada na Companhia de Ópera Cómica Portuguesa, a atuar no Real Coliseu de Lisboa, sob direção de Pedro Cabral, com quem Mercedes então vivia maritalmente, entrou na estreia de "O Sr. Comendador Ventoinha", opereta de costumes populares, em 3 atos, em que apareceu também montada numa bicicleta; fez "O Harém d’El-Rei", opereta burlesca em 3 atos, de Tito Martins, música de Freitas Gazul; criou a personagem “Flor de abril”, na primeira representação de "A Mascote" (1897), ópera cómica em 3 atos, tradução de Eduardo Garrido, música de Oudran; protagonizou "A Cossaca", vaudeville em 3 atos de Meilhac e Millaud, adaptação de Gervásio Lobato e Eça Leal, música de Hervé; "28 Dias de Clarinha" (1897), opereta em 4 atos, de H. Raymond e A. Mars, tradução de Gervásio Lobato e Acácio Antunes, música de Victor Roger; e "Pif-Paf" (1897). Nesse ano, foi para o Pará, Brasil, na Companhia Sousa Bastos, onde ficou um mês e representou, além do seu repertório, "Simão, Simões & Ca"., zarzuela em1 ato, tradução de José Sebastião Machado Correia; as revistas "Carvoeiros", "Tim-Tim por Tim-Tim", de Sousa Bastos, música de Plácido Stichini e "Fim de Século", com música de Rio de Carvalho; representou "Cliquette", opereta traduzida por ela, em colaboração com Tito Martins.
Voltou ao Teatro da Trindade e, entre 1897 e 1903, fez parte de companhias residentes, em que figuravam os grandes nomes do teatro no feminino, tais como Ana Pereira, Palmira Bastos, Amélia Barros e Augusta Cordeiro. Passou pelo Teatro D. Amélia, onde protagonizou "Tirano da Bella Urraca" (1898), paródia de Marcelino Mesquita a Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand e, no Real Coliseu, fez as revistas "A Geringonça e Frades Mostenses". Entrou em "Lobos Marinhos", de Ramos Carrion, música de Chapin, tradução de João Soler, "O Cabo dos Forcados", comédia em 1 ato, de Esculápio, e escandalizou em "As Farroncas do Zé" (1898), revista do escritor e jornalista Tito Martins e Baptista Machado, música de Rio de Carvalho, representando com um maillot para melhor evidenciar as poses plásticas, o que foi considerado obsceno. Nesse mesmo ano, partiu para Madrid, na Empresa Salvador Marques e Pedro Cabral, onde se estreou no Teatro Moderno (Alhambra) e foi convidada pelo Teatro Lara, onde cantou "La Sérénade de Gillotin", "Laissezmoi Rire" e fados. No regresso, seguiu a companhia numa digressão pelo Minho, Trás-os-Montes e Beiras.
Em 1899, foi escriturada pela Empresa Vale, então no Teatro da Rua dos Condes, onde representou alguns dos seus êxitos, "O Poeta de Xabregas", de Eduardo Schwalbach, e "O Sacristão de Santo Eustáquio", vaudeville, adaptação de Rafael Ferreira. Passou pelo Teatro da Avenida. Em 1900, pelo Teatro D. Amélia, onde criou "Princesa Encantada", tradução de Acácio de Paiva e Esculápio.
1901: Além fronteiras Espanha Em 1901, integrou a Companhia Taveira, que acabava de chegar do Brasil, para representar, no Teatro do Príncipe Real do Porto, "O Burro do Sr. Alcaide", ópera cómica em 3 atos, de Gervásio Lobato e D. João da Câmara, música de Ciríaco Cardoso. Entretanto, ficou doente e foi substituída. A companhia regressou a Lisboa, mas os papéis que lhe estavam atribuídos noutras peças não lhe foram restituídos. Tinha esquecido Pedro Cabral, vivia então maritalmente, com o jornalista Augusto Peixoto e apareceu, em cena, grávida. Voltou a Madrid a convite do Teatro Romea, onde interpretou cançonetas francesas e napolitanas, repertório que repetiu no Teatro Marquez, de Cartagena. miniaturadaimagem|Mercedes Blasco em Rosa Granada no London Coliseum (1909)
1902: Teatro Condes