A sociologia digital é um subcampo da sociologia que se concentra em estudar como as novas tecnologias de informação e comunicação impactam os diversos aspectos da vida em sociedade, bem como o próprio ofício da sociologia, tanto em termos teóricos como metodológicos.
As atividades cotidianas têm sido cada vez mais permeadas pelo uso intensivo da internet e das tecnologias digitais. Essas estão presentes nas ações cotidianas mais básicas, no relacionamento com outras pessoas, na locomoção, alimentação, entretenimento, compras, estudo, e tantas outras.
A cada ação realizada, são gerados inúmeros dados, cuja concentração é chamada de “Big Data”. Tais dados são analisados amplamente pelo mercado, mas ainda de maneira incipiente pela pesquisa sociológica. A sociologia digital propõe que os métodos tradicionais de pesquisa sociológica devem ser repensados, a fim de acompanhar a dinâmica e fluidez das novas tecnologias. Técnicas como questionários, entrevistas e levantamento de dados precisam considerar, hoje, a multiplicidade de informações e inovações advindas das tecnologias digitais.
A necessidade de uma pesquisa crítica se deve a uma série de questões, tais como: a privacidade de informações pessoais; a aparente neutralidade dos dados, embora sejam marcados por vieses e heranças culturais;Lupton, D. (2015) “Digital Sociology”. New York: Routledge. a confiabilidade das informações, dado os interesses comerciais e políticos que podem estar ocultos;Lupton, D. (2015) “Digital Sociology”. New York: Routledge. a relação humano-máquina na época dos algoritmos, da inteligência artificial, do aprendizado de máquina, dentre outras questões.
Nesse contexto, a sociologia digital é o campo emergente da sociologia que se propõe entender os impactos das novas tecnologias sobre as concepções de indivíduo, personificação e relações sociais na sociedade digital, assim como o novo papel da sociologia diante de tal realidade.
Histórico miniaturadaimagem|Protesto contra a censura à Internet em Frankfurt, Alemanha. O termo sociologia digital foi usado pela primeira vez em 2009, em artigo publicado por Jonathan R. Wynn, então professor do Smith College.Lupton, D. (2015) “Digital Sociology”. New York: RoutledgeNascimento, L. F. (2016). A Sociologia Digital: um desafio para o século XXI. Sociologias, 18(41), 216-241. https://dx.doi.org/10.1590/15174522-018004111 Nesse trabalho, Wynn se dedica a pensar as diversas formas pelas quais a sociologia poderia incorporar novas tecnologias digitais, tanto na execução das pesquisas (como o uso de máquinas digitais e gravadores, por exemplo), quanto no ensino (como o uso de apresentações audiovisuais).Wynn , J. ( 2009 ) Digital sociology: emergent technologies in the field and the classroom. Sociological Forum, 24 ( 2 ), 448 – 456 A sociologia digital surge, inicialmente, como uma preocupação com a adequação da reflexão metodológica da sociologia ao mundo cada vez mais digitalizado em que ocorrem as pesquisas. Vale notar que a preocupação com o futuro da sociologia face ao surgimento de novas tecnologias e à produção massiva de dados já havia sido levantada por Andrew Abbott nos anos 2000. Abbott, A. (2000) Reflections on the Future of Sociology. Contemporary Sociology, 29( 2), pp. 296
Interface com sociologia da tecnologia e da ciência A Sociologia digital, então, derivou de uma preocupação já recorrente na sociologia dos impactos da tecnologia no pensar e fazer sociológico. A sociologia da tecnologia e a sociologia do conhecimento podem ser consideradas suas precursoras. Por meio delas, colocou-se em questão o estudo da tecnologia enquanto um produto da ação humana, bem como uma forma pela qual a sociedade é moldada. A novidade da sociologia digital, que lhe rendeu um nome específico, reside justamente no fato de que as tecnologias digitais transformaram as maneiras de se relacionar, pensar e produzir conhecimento.
Internet e transição virtual-cyber-digital As pesquisas sociológicas que envolvem tecnologias computacionais receberam variados nomes ao longo do tempo: “cyber sociologia”, “sociologia da internet”, “e-sociologia”, “sociologia das comunidades online”, “sociologia das mídias digitais”, “sociologia da cyber cultura”. O termo “sociologia digital”, atualmente, é o mais aceito e utilizado popular e academicamente. Essa mudança terminológica acompanhou o deslocamento de perspectiva dos estudos sobre tecnologia.
Logo nos primeiros anos de popularização das tecnologias computacionais, pesquisadores das áreas de comunicação, mídia e estudos culturais dedicaram especial atenção aos estudos sobre o tema, enquanto sociólogos, em geral, permaneceram relutantes em relação a ele. Os estudos culturais dedicados às novas tecnologias enfatizavam, principalmente, seus aspectos futurísticos, e entendiam o terreno das tecnologias computacionais como uma dimensão totalmente separada da realidade material, uma “realidade virtual”. Essa foi a era do “cyber”, termo que expressava a experiência desincorporada que se passava no ciberespaço, um outro mundo acessado por intermédio de um avatar digital. Do início dos anos 1980 aos primeiros anos do século XXI, foram feitas diversas referências ao cyberespaço, cyberfeminismo, cyberculturas, cybercrimes, cyberracismo, cyberpunk, cyberbullying, etc. No entanto, pesquisadores consideram que o termo cyber falha em reconhecer a corrente incorporação das novas tecnologias digitais nas atividades do cotidiano. Atualmente, não é mais possível pensar o universo digital como um espaço separado de nossa realidade material, duas dimensões bastante imbricadas. Dessa forma, "cyber" foi substituído por termos mais contemporâneos, como “digital”, que foca mais em características técnicas ou potencialidades dessas tecnologias, em vez de localizá-las em um mundo virtual separado.
São três os avanços que possibilitaram esse novo cenário: a) das redes e tecnologias de telecomunicações; b) dos dispositivos computacionais construídos através de avanços no campo da eletrônica e c) dos protocolos e aplicações da internet. A relação entre esses avanços é central para entender a dinâmica de alterações na sociedade trazidas pelo movimento digital.
Os primeiros avanços nessa linha surgem com as primeiras explorações em telecomunicações com o telégrafo elétrico no século XIX. Já nesse momento alguns pensadores viam uma possibilidade de mudança radical na sociedade.STANDAGE, Tom. The Victorian Internet. New York: Berkley Books, 1998MARVIN, Carolyn. When old technologies were new. New York: Oxford University Press, 1988 A infraestrutura de telecomunicações ganhou corpo com os projetos de telefonia e se tornou uma peça chave para que a internet pudesse existir (sem redes de telecomunicações e cabos submarinos, não haveria possibilidade de a internet existir). Entidades como a ITU e a IEEE foram importantes para garantir interoperabilidade das redes de telecomunicações e o desenvolvimento de novos padrões, como o Wi-Fi.http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/325373/1/Sarti_GustavoMescoki_M.pdf
Os desenvolvimentos na eletrônica e na área da computação possibilitam que academia, empresas e, posteriormente, indivíduos possam dispor de dispositivos computacionais cada vez mais poderosos, menores e mais acessíveis, fenômeno que abre caminho para o desenvolvimento da Internet das Coisas.
Essa combinação de desenvolvimentos nas áreas de conectividade e computação possibilitou o desenvolvimento e crescimento dos protocolos de comunicação da internet, em especial o TCP/IP e a World Wide Web. http://www.columbia.edu/~rh120/other/tcpdigest_paper.txthttps://www.w3.org/History.html e https://www.w3.org/People/Berners-Lee/1996/ppf.html Esse conjunto de tecnologias é a base para constituição da sociedade da informação e comunicação digital, analisado pela sociologia digital.
Outros desenvolvimentos Em 2013 foi publicada uma coletânea de trabalhos denominada Digital Sociology: Critical Perspectives (Sociologia digital: perspectivas críticas) os artigos tratavam de temas como as mudanças dos relacionamentos provocadas pelas redes sociais digitais; as alterações na relação com o espaço; a disseminação da vigilância; a desigualdade digital e o capitalismo da informação; o cuidado com a saúde na era digital, dentre outros.
Em 2015, nós temos a publicação do livro Digital Sociology de Deborah Lupton professora da Universidade de Canberra, e no centro de pesquisa social em saúde da Universidade de Nova Gales do Sul. Trata-se de um livro que tem uma pretensão programática: defender a importância, delimitar o escopo e os objetivos da Sociologia Digital. O livro constata que as mudanças digitais afetam absolutamente todos os fenômenos clássicos estudados pela sociologia e defende a necessidade de uma prática sociológica digitalizada.
Em 2017, foi publicado o livro Digital Sociology de Noortje Marres, professora associada na Universidade de Warwick.
Aspectos Segundo Lupton, há quatro atividades principais nas quais os sociólogos digitais podem se empenhar:
Prática profissional digitalizada: o uso de ferramentas digitais para propósitos profissionais: construir redes, construir um perfil online, publicar e compartilhar pesquisas e instruir alunos; Análises sociológicas do uso de mídias digitais: pesquisar como o uso de mídias digitais pelas pessoas configura seus sensos de self, corporalidade e suas relações sociais; Análise de dados digitais: uso de dados digitais para pesquisa social, seja qualitativa ou quantitativa; Sociologia digital crítica: realizar análises críticas e reflexivas das mídias digitais com base nas teorias sociais
Diversidade de pesquisa dentro da área O desenvolvimento de novas tecnologias digitais, como a conexão sem fio e os aparelhos pequenos e facilmente transportáveis, como smartphones, deu à internet grande penetração no cotidiano de, atualmente, bilhões de pessoas. Segue-se, daí, a digitalização de boa parte das dimensões da vida cotidiana, dentre as quais as relações sociais, transformadas principalmente pelas plataformas digitais de redes. Entender como o contato constante com estes dispositivos altera a sociabilidade entre os indivíduos é um dos campos investigativos da sociologia digital. Alguns pesquisadores explicitam como o uso destes aparelhos digitais transforma as relações entre as pessoas, tornando-as mais isoladas e solitárias.TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Ed. First Trade Paper. 2012. Por outro lado, há sociólogos que argumentam que o leque de sociabilidade e de relações no mundo virtual dialoga constantemente com aquilo que se entende por mundo “offline”.JUNGERSON, Nathan. When Atoms Meet Bits: Social Media, the Mobile Web and Augmented Revolution. In. Future Internet ISSN 1999-5903. vol4, 83-91. 2012.ELLIOTT, Anthony. The Culture of AI in everyday life and the digital revolution. Ed. Routledge. Nova York. 2019.URRY, John e ELLIOTT, Anthony. Mobile Lives. Ed Routledge, Nova York. 2010. Eles alegam que as relações online intensificam a experiência da realidade offline, o que geraria uma realidade aumentada, na qual o mundo digital e o mundo offline se entrelaçam. JUNGERSON, Nathan. When Atoms Meet Bits: Social Media, the Mobile Web and Augmented Revolution. In. Future Internet ISSN 1999-5903. vol4, 83-91. 2012.
Um dos campos de análise dentro dessas novas relações diz respeito às mudanças ocorridas nas relações familiares e como as interações e hábitos entre os membros da família são alterados a partir da introdução de mais aparelhos digitais dentro do ambiente doméstico.LIVINGSTONE, Sonia. From family television to bedroom culture: young people's media at home. In E. Devereux (orgs), Media Studies: Key issues and Debates. Ed SAGE. Londres, 2007, pp. 302-321NEUSTAEDTER, Carman, et al. (eds.). Connecting Families: The Impact of New Communication Technologies on Domestic Life. Springer-Verlag London. 2013.