é uma categoria editorial de quadrinhos japoneses que voltada para um público de meninas adolescentes e mulheres jovens adultas. É, juntamente com o mangá shōnen (voltado para meninos adolescentes), o mangá seinen (voltado para homens jovens e adultos) e o mangá josei (voltado para mulheres adultas), uma das principais categorias editoriais do mangá. Os mangás shōjo são tradicionalmente publicados em revistas de mangá dedicadas, que geralmente se especializam em uma determinada faixa etária de leitores ou gênero narrativo.

O mangá shōjo originou-se da cultura das meninas japonesas na virada do século XX, principalmente dos romances shōjo shōsetsu (romances em prosa para meninas) e jojōga (pinturas líricas). Os primeiros mangás shōjo foram publicados em revistas gerais destinadas a adolescentes no início do século XX, iniciando um período de desenvolvimento criativo na década de 1950, quando começaram a se formalizar como uma categoria distinta de mangá. Embora a categoria tenha sido inicialmente dominada por artistas de mangá homens, o surgimento e o eventual domínio de artistas mulheres no início das décadas de 1960 e 1970 levaram a uma inovação criativa significativa e ao desenvolvimento de histórias mais complexas em termos gráficos e temáticos. Desde a década de 1980, a categoria se desenvolveu estilisticamente, ao mesmo tempo em que se ramificou em subgêneros diferentes e sobrepostos.

Estritamente falando, shōjo não se refere a um estilo ou gênero específico, mas indica um público-alvo. Embora certas convenções estéticas, visuais e narrativas estejam associadas ao mangá shōjo, essas convenções mudaram e evoluíram ao longo do tempo e nenhuma é estritamente exclusiva do mangá shōjo. No entanto, vários conceitos e temas passaram a ser tipicamente associados ao mangá shōjo, tanto visuais (layouts de quadros não rígidos, olhos altamente detalhados) quanto narrativos (foco nas relações e emoções humanas, personagens que desafiam os papéis tradicionais e estereótipos de gênero e da sexualidade, representações de assuntos sobrenaturais e paranormais).

Terminologia

Shōjo miniaturadaimagem|A atriz Hideko Takamine, interpretando um arquetípico shōjo, vestindo um uniforme de marinheiro no filme Hana Tsumi Nikki de 1939 A palavra japonesa é traduzido para literalmente "menina", mas no uso japonês comum as meninas são geralmente referidas como e raramente como shōjo. Em vez disso, o termo shōjo é usado para designar uma categoria social que surgiu durante na era Meiji (1868–1912) de meninas e mulheres jovens na idade entre a infância e o casamento. Geralmente isso se referia a adolescentes em idade escolar, com os quais tinham imagem de "inocência, pureza e fofura" o que isso contrastava com o termo moga ("modern girl", mulheres jovens trabalhadoras solteiras), no qual transparecia uma imagem mais autodeterminada e sexualizada da mulher. Shōjo continuou a ser associado a uma imagem de juventude e inocência após o fim da era Meiji, mas assumiu uma forte conotação consumista a partir da década de 1980, à medida que se desenvolveu em uma categoria de marketing distinta para meninas; gyaru também substituiu o termo moga como a mulher independente arquetípica durante este período.

Mangá shōjo Rigorosamente falando, mangá shōjo não se refere a um estilo ou gênero específico, mas indica um público-alvo. O mercado japonês de mangás é segmentado por público-alvo, com as principais categorias divididas por gênero (shōjo para meninas, shōnen para meninos) e por idade (josei para mulheres, seinen para homens). Assim, o mangá shōjo é normalmente definido como mangá comercializado para um público de meninas adolescentes e mulheres jovens adultas, embora mangás shōjo também sejam lidos por homens e mulheres mais velhas.

Mangás shōjo são tradicionalmente publicados em revistas de mangá que são direcionadas a um público de leitores de shōjo, um público que surgiu no início do século XX e que cresceu e se diversificou ao longo do tempo. Embora o estilo e o tom das histórias publicadas nessas revistas variem entre as publicações e as décadas, uma característica invariante do mangá shōjo tem sido o foco nas relações humanas e nas emoções que as acompanham. Alguns críticos, como a curadora do Museu Internacional de Manga de Quioto, Kayoko Kuramochi, e a acadêmica Masuko Honda, enfatizam certos elementos gráficos ao tentar definir o mangá shōjo: o uso imaginativo de flores, fitas, vestidos esvoaçantes, garotas com olhos grandes e brilhantes e palavras que se estendem pela página, que Honda descreve usando a onomatopeia hirahira. Essa definição considera obras que existem fora dos limites da publicação tradicional de revistas shōjo, mas que, no entanto, são percebidos como shōjo, como obras publicadas na Internet.

Estilo

Contexto e elementos gerais esquerda|miniaturadaimagem| Capa da edição de setembro de 1926 da Shōjo Gahō, com arte do pintor lírico Kashō Takabatake O estilo visual do mangá shōjo era muito semelhante ao do mangá shōnen até o final da década de 1950, visto que tanto o mangá shōjo quanto o shōnen foram criados pelos mesmos artistas, em sua maioria homens. Durante o período pré-guerra, esses artistas foram especialmente influenciados pelo estilo modernista de George McManus, enquanto no período pós-guerra o estilo dinâmico de Osamu Tezuka se tornou o principal ponto de referência para o mangá. Embora o mangá shōjo tenha herdado algumas dessas influências, o estilo único que surgiu no final da década de 1950, que distinguiu o mangá shōjo do mangá shōnen, foi derivado principalmente do shōjo shōsetsu do pré-guerra.

Shōjo shōsetsu é caracterizado por um estilo de prosa "florido e emocional" focado no monólogo interior da protagonista. A narração é frequentemente pontuada por elementos não verbais que expressam os sentimentos dos protagonistas; a escritora Nobuko Yoshiya, em particular, fez uso extensivo de múltiplas reticências ("..."), pontos de exclamação e traços no meio das frases, a maioria dos quais estava espalhada pelas páginas de uma maneira semelhante a versos de poesia. A prosa é acompanhada por ilustrações de pintores líricos, caracterizados por um estilo sentimental influenciado pela Art Nouveau e Nihonga. É dada especial atenção às representações de shōjo, retratados como bem vestidos e possuidores de olhos grandes e muito detalhados, com reflexos em forma de estrela.

Este estilo narrativo e visual começou a influenciar o mangá shōjo no final da década de 1950; Macoto Takahashi, um pintor lírico e artista de mangá, é considerado o primeiro artista a usar esse estilo no mangá. O estilo foi rapidamente adotado por seus contemporâneos e mais tarde por artistas shōjo que surgiram na década de 1960, enquanto na década de 1970 artistas associados ao Grupo do Ano 24 desenvolveram o estilo significativamente. Segundo a artista de mangá, acadêmica e membro do Grupo do Ano 24, Keiko Takemiya, o mangá shōjo conseguiu desenvolver esse estilo distinto porque a categoria era vista como marginal pelos editores, que consequentemente permitiam que os artistas desenhassem histórias da maneira que desejassem, desde que a resposta do leitor permanecesse positiva. Elementos estilísticos desenvolvidos pelo Grupo do Ano 24 se estabeleceram como marcas visuais do mangá shōjo; muitos desses elementos mais tarde se espalharam para o mangá shōnen, como o uso de layouts de quadros não rígidos e olhos altamente detalhados que expressam as emoções dos personagens.

Layout A partir da década de 1970, os layouts dos quadros em mangás shōjo desenvolveram um estilo novo e distinto. Em seu livro de 1997, Manga wa Naze Omoshiroi no ka: Sono Hyogen to Bunpo (Por que mangá é tão interessante? Sua gramática e expressão), o artista e crítico de mangá Fusanosuke Natsume identifica e nomeia os três principais aspectos da construção de quadros que distinguem o mangá shōjo do mangá shōnen. O primeiro, naiho ("encapsulamento de quadros"), refere-se ao uso de layouts que rompem com a abordagem cômica tradicional de uma série de caixas sequenciais. Neste estilo, os elementos se estendem além das bordas dos quadros, ou a borda do quadro é completamente removida. Os intervalos entre os quadros também foram modificados, com quadros sequenciais que retratavam o mesmo evento de diferentes ângulos ou perspectivas. O segundo é kaiho ("liberação"), que se refere ao uso da descompressão para criar sequências mais relaxadas. Muitas vezes, em composições sem bordas de quadros, o texto é removido dos balões de fala e espalhado pela página, especialmente nos casos em que o diálogo comunica os pensamentos, sentimentos e monólogo interno do locutor. O terceiro é mahaku ("pausa"), referindo-se ao uso simbólico do espaço em branco.

Olhos grandes Um elemento estilístico definidor do mangá shōjo é a representação de personagens com olhos muito grandes e detalhados, com destaques em forma de estrela, às vezes chamados de . Essa técnica não se originou no mangá shōjo; olhos grandes foram desenhados em mangás desde o início do século XX, principalmente por Osamu Tezuka, que se inspirou na maquiagem teatral de atrizes na Takarazuka Revue ao desenhar olhos. Uma grande estrela central que substitui o ponto da pupila começou a aparecer em momentos-chave no mangá shōjo de Tezuka e Shotaro Ishinomori em meados da década de 1950, embora esses detalhes tendessem geralmente a um estilo realista em vez do estilo emotivo do mangá shōjo posterior.

Contemporaneamente, a arte de Jun'ichi Nakahara influenciou significativamente os artistas de mangá kashi-hon, especialmente Macoto Takahashi. Takahashi incorporou o estilo de Nakahara de desenhar olhos em seu próprio mangá — olhos grandes, como os de uma boneca, com destaques e cílios longos — enquanto gradualmente introduzia seus próprios elementos estilísticos, como o uso de pontos, estrelas e várias cores para representar a íris. No final da década de 1950, o estilo de Takahashi foi adotado por Miyako Maki — uma das artistas de mangá mais populares da época — o que levou à sua ampla adoção pelas principais revistas de mangá shōjo.

A partir deste ponto, o design experimental dos olhos floresceu no mangá shōjo, com características como cílios alongados, o uso de círculos concêntricos de diferentes tons e a deformação da íris para criar um efeito brilhante. Esse foco em olhos hiperdetalhados levou os artistas de mangá a enquadrar quadros em close-ups de rostos, para chamar a atenção para as emoções expressas pelos olhos das personagens. Os olhos também passaram a servir como um marcador de gênero, com personagens femininas geralmente tendo olhos maiores do que os personagens masculinos.

Temas

Relações interpessoais Entre os conceitos mais comuns no mangá shōjo está o de , que se refere às relações interpessoais entre personagens e à interação de suas emoções. Os relacionamentos entre personagens são centrais para a maioria dos mangás shōjo, particularmente aqueles de amizade, afeição e amor. As narrativas concentram-se frequentemente na interioridade das suas protagonistas, onde as suas emoções, sentimentos, memórias e monólogo interior são expressos visualmente por meio de técnicas como a disposição dos painéis e a representação de detalhes oculares. Quando ocorre um conflito, o meio de troca mais comum é o diálogo e a conversa, ao contrário do combate físico típico do mangá shōnen.