miniaturadaimagem|"Mede-se a cultura de um povo pelo seu teatro", frase de Federico García Lorca e lema do grupo. O Centro de Estudos Teatrais - Grupo Divulgação, chamado de "Grupo Divulgação" ou apenas "GD" é um núcleo de ensino, pesquisa e extensão em artes cênicas, que se iniciou como um grupo de teatro universitário, nascido na antiga Faculdade de Filosofia e Letras (FAFILE), em Juiz de Fora, Minas Gerais, no ano de 1966. Está em atividade ininterrupta desde a sua fundação e, a partir de 1971, passou a exercer as suas atividades no Forum da Cultura. Ao longo de sua trajetória, o Grupo Divulgação produziu mais de 200 peças teatrais, dentre clássicos da dramaturgia universal, de autores como Federico Garcia Lorca, Górki, Anton Tchekhov, Shakespeare, Molière e Pirandello até textos da dramaturgia nacional, como obras de Nelson Rodrigues e Oswald de Andrade. O grupo também produziu um número considerável de peças originais, escritas por seu fundador e diretor José Luiz Ribeiro, dentre as quais destacam-se as premiadas Girança, de 1985/86, e A Escada de Jacó, encenada em 1995/96.

O GD é contemporâneo de outros importantes grupos teatrais brasileiros, tais como o Teatro Oficina e o Teatro de Arena, ambos de São Paulo, e o o grupo O Tablado, do Rio de Janeiro, além de outros destacados grupos internacionais, como o Teatro Experimental de Cali, da Colômbia, o Théâtre du Soleil, da França e o dinamarquês Odin Teatret. Pascoal Carlos Magno, um dos mais importantes teatrólogos brasileiros, considerava o Grupo Divulgação como o melhor grupo de teatro universitário do Brasil, conforme declarou na década de 1970: "Creio que nem no Rio de Janeiro, a não ser talvez em "O Tablado", se encontre um grupo com esse pedigree e um trabalho tão frutuoso".

O grupo mantém o seu caráter amador, sem fins lucrativos, vinculado aos projetos de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Juiz de Fora. O Divulgação produz todos os anos três peças por semestre com o núcleo universitário, além de dois espetáculos com o núcleo adolescente, terceira idade e de iniciação ao teatro, totalizando cerca de 9 peças encenadas por ano. Os espetáculos adultos ficam em cartaz de quarta a domingo, durante dois meses, em uma frequência semanal incomum e um longo período de exibição até mesmo para grupos de teatro profissionais.

Em 2012, o Grupo Divulgação foi reconhecido pela prefeitura como bem imaterial do município de Juiz de Fora, tornando-o de utilidade pública para fins de tombamento. No ano de 2019, o Grupo foi registrado como o 9º patrimônio imaterial da cidade de Juiz de Fora, em cerimônia realizada no Teatro Paschoal Carlos Magno. A obra "Teatro Brasileiro: um panorama do Século XX", de Clovis Levi, que realiza um apanhado da atividade teatral brasileira desde o início do século XX, faz referência ao Grupo Divulgação de Juiz de Fora, ao lado dos mais importantes grupos teatrais da história do país. Dentre os seus ex-membros com maior destaque nacional, estão a cantora e compositora Sueli Costa, a jornalista Leda Nagle, que apresentou o programa "Sem Censura" durante 20 anos no canal "TV Brasil", a atriz e jornalista Arlete Heringer e os atores Breno Fonseca e Kenia Bárbara, que fizeram diversos trabalhos na Rede Globo.

História miniaturadaimagem|"Calígula", de Albert Camus, encenada em 1976. Os direitos da peça foram adquiridos com a própria família do autor francês.O Grupo Divulgação surge em 1966, como Centro de Estudos Teatrais, a partir do esforço de jovens estudantes da extinta Faculdade de Filosofia e Letras (FAFILE), que se reuniam no Diretório Acadêmico Tristao de Athayde (DATA), sob a liderança de José Luiz Ribeiro, fundador do grupo e diretor da companhia desde a sua criação. Segundo José Luiz, o nome "Centro de Estudos" era mais apropriado em um período de censura, quando grupos de teatro estavam sendo vigiados pelos órgãos de controle da ditadura militar.

Inicialmente, o "CET - Divulgação" tinha por objetivo o estudo de textos clássicos do teatro, bem como a leitura de poesias de autores como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Participava dos encontros a estudante Maria Lúcia Campanha da Rocha Ribeiro, que mais tarde se casaria com José Luiz Ribeiro. Malu, como é chamada, foi atriz do GD e a mais importante figurinista da história do grupo.

No dia 7 de julho de 1966, o grupo apresentou o seu primeiro espetáculo, intitulado "Amor em Verso e Canção", encenado no auditório da Escola de Laticínios Cândido Tostes. Trata-se de um "espetáculo antológico", por conta da seleção de textos poéticos. A peça foi encenada apenas duas vezes, a segunda delas no Diretório Acadêmico, em uma configuração de palco semelhante aos teatros de arena, com uma estrutura em que o palco é central e envolvido pela plateia. Em ambas apresentações houve utilização da projeção de slides como recurso visual.

As apresentações de espetáculos antológicos logo tornaram-se frequentes para o grupo, uma vez que muitas semanas temáticas eram realizadas na Universidade Federal de Juiz de Fora naquele período. Por essa razão, os organizadores dos eventos encomendavam este tipo de peça, o que resultou na montagem do espetáculo antológico “Homem do Século XX”. Foi nessa época que o Professor Wilson de Lima Bastos convidou o grupo a apresentar a peça “A Incelença”, de Luiz Marinho, que já havia sido montada em Pernambuco no ano de 1962 sob a direção de José Wilker. José Luiz e o Grupo Divulgação aceitaram a proposta de Wilson Bastos, mas um evento do curso de Pedagogia da UFJF acabou por provocar a desistência de boa parte do elenco e o espetáculo foi cancelado.

No mesmo ano, o "CET - Divulgação" encena em apresentação única a peça "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, no teatro do Colégio Granbery, a primeira de uma série de "espetáculos didáticos", que se repetiriam nos anos posteriores.

1967 - Cancioneiro de Lampião miniaturadaimagem|"Cancioneiro de Lampião", 2º colocado geral no Festival de Teatro Amador da Guanabara de 1971. Em 1967, José Luiz foi apresentado por um amigo ao livro “Cancioneiro de Lampião”, de Nertan Macêdo. O diretor decidiu então transformá-lo em peça, uma iniciativa audaciosa pelo tema da obra, que falava sobre Lampião, em plena ditadura militar. Os próprios estudantes membros do Grupo Divulgação testemunhavam a perseguição aos inimigos do regime e a cassação de professores dentro da Universidade Federal de Juiz de Fora. Poucos anos mais tarde, o Grupo seria vítima da censura do regime.

O “Cancioneiro de Lampião” estreou no auditório da Faculdade de Enfermagem da UFJF, dentro da programação da “III Semana Juiz-forana do Folclore”. Apesar das poucas apresentações, o espetáculo ganhou prêmios e reconhecimento na cidade. José Luiz esclarece no programa do espetáculo que optou por uma montagem simples, em que o povo sobe ao tablado e inicia um relato do perfil do cangaceiro. miniaturadaimagem|José Luiz e Malu Campanha interpretando "O Urso", em 1967. Um dos grandes destaques do espetáculo era a trilha sonora composta por Sueli Costa, uma das mais destacadas compositoras da música popular brasileira, que teve suas canções interpretadas por artistas como Ney Matogrosso, Cauby Peixoto, Gal Costa, Elis Regina, dentre outros. A cantora vivia em Juiz de Fora naquela época, porque estudava na Faculdade de Direito da UFJF. Junto às suas duas irmãs, Sueli integrava o grupo “Trieto”, que se apresentava em festivais da cidade.

O sucesso de “Cancioneiro de Lampião” rendeu ao Grupo Divulgação o prêmio de melhor espetáculo do Mini Festival de Teatro de 1967 - Prêmio CAIT,  (Centro Autônomo de Incentivo Teatral). O Grupo conquistou os outros seguintes prêmios no festival: “Melhor Grupo”, “Melhor Figurino”, “Melhor Música” (Sueli Costa),  e “Atriz Revelação” (Beatriz Martins, como “Maria Bonita”) . Em 1971, o Grupo faz nova montagem da peça, desta vez com um elenco diferente, conquistando a segunda colocação geral no VII Festival de Teatro Amador da Guanabara, vencendo os outros seguintes prêmios: “Melhor direção” (José Luiz Ribeiro), “Destaque de atriz” (Delma Rocha), “Destaque de ator” (Jairo Schmidt), “Destaque de figurino” (José Luiz Ribeiro), “Destaque de cenário” (José Luiz Ribeiro) e “Destaque de coro e direção musical”. Em 2023, após o falecimento de Sueli Costa, o grupo remontou o espetáculo em homenagem à artista, como apresentação de conclusão de curso do Mergulhão Teatral.

No ano de 1967 o Grupo Divulgação ainda encenou a peça "O Urso", do dramaturgo russo Anton Tchekhov. O espetáculo tinha apenas três atores no elenco, dentre eles José Luiz e Malu Campanha nos papéis principais, com direção, cenário e figurino por José Luiz Ribeiro. A peça, por ser muito curta, era apresentada junto a um compilado de textos denominado "Antologia da Mulher", que narrava o papel feminino através da dramaturgia universal. O espetáculo foi apresentado entre os dias 25 a 29 de outubro de 1967, no Palácio da Saúde de Juiz de Fora.

1968 a 1971 - Clássicos universais e espetáculos itinerantes miniaturadaimagem|"Escorial", encenada no salão do Palácio Barbosa Lima: o grupo ainda não possuía um lugar próprio para as apresentações. Entre os anos de 1968 e 1971, o Grupo Divulgação produziu nove peças teatrais, dos seguintes autores consagrados: Federico García Lorca, Sófocles, Gogol, Máximo Gorki, Durrenmatt, Molière, Michel de Ghelderode, Cecília Meireles e Schiller.

Como o GD ainda não possuía um teatro próprio para suas apresentações, os espetáculos eram encenados nos mais diversos palcos da cidade, como por exemplo o teatro da Casa D’Italia, um centro cultural italiano fundado em Juiz de Fora no ano de 1939, projeto pela Companhia Pantaleone Arcuri. Entre os locais inusitados onde as peças foram encenadas estão o salão do Palácio Barbosa Lima, hoje Câmara de Vereadores de Juiz de Fora, e a Galeria Maria Amália, do Museu Mariano Procópio.

Estas foram as peças produzidas durante o período de 1968 a 1971: "Bodas de Sangue" (1968), "Electra" (1968), "Diário de um Louco" (1969), "Pequenos Burgueses" (1969), "A Visita da Velha Senhora" (1970), "Escola de Mulheres" (1970), "Escorial" (1971), "Romanceiro da Inconfidência" (1971) e "Maria Stuart" (1971). miniaturadaimagem|José Luiz veda a própria boca em resposta à censura sofrida em "Diário de um Louco", em 1969. O ano de 1968 guardou a peculiaridade de ter sido a primeira vez em que o Grupo sofre com a censura e repressão da ditadura militar. A peça "Diário de um Louco", dirigida por Malu Campanha, teve trechos de seu texto censurado, e José Luiz Ribeiro, interpretando Antonino Barnabé, na adaptação de Rubem Rocha Filho para a peça de Gogol, utilizou um pano branco cobrindo sua boca, em resposta à supressão do seu direito de expressão. A foto ficaria imortalizada na história do grupo e é bastante representativa da forma como a repressão imposta pelos atos institucionais do governo militar seria encarada pelo Divulgação.