Passagem  de Humaitá, de Victor Meirelles de Lima, é uma tela de grandes dimensões, que hoje está localizada no Museu Histórico Nacional, no centro do Rio de Janeiro. A obra, assim como outras do autor, possivelmente foi pintada dentro de um dos navios da marinha, nos quais Victor instalou seu estúdio durante a Guerra do Paraguai.  Ela foi pintada entre meados de 1868 a 1872, cuja data ainda não foi exatamente confirmada, e é um óleo sobre tela com dimensões 268 x 405 centímetros. A obra foi uma encomenda especial do ministro da Marinha do Brasil, o que fez com que, em 1868, Victor Meirelles tirasse licença do seu cargo de professor na Academia Imperial de Belas Artes justamente para poder atender esse pedido do Ministério da Marinha. Em 15 de junho de 1878, Victor viajou ao campo de batalha para viver na pele a adrenalina da guerra, e recolher material para pintar,Os Panoramas perdidos de Victor Meirelles: aventuras de um pintor acadêmico nos caminhos da modernidade, por Mario Cesar Coelho. Páginas 2, 10, 65, 79, 80, 82 e 84. Disponível em https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/89850/247607.pdf?sequence=1&isAllowed=y além da Passagem de Humaitá, O combate naval de Riachuelo, em 1872. Ambas as pinturas fazem parte do enorme acervo que retrata a Guerra do Paraguai.Arte e Estado: um olhar sobre o mecenato artístico no Segundo Reinado (1840-1889), por Mariana Guimarães Chaves. Páginas 89, 90 e 135. Disponível em https://repositorio.ufjf.br/jspui/bitstream/ufjf/5537/1/marianaguimaraeschaves.pdf A prática de viajar para pintar era muito comum na época, e os autores faziam isso justamente para poder colher o máximo de informações de gestos, tons de pele, ações, personagens, armas e o próprio cenário de guerra. Até por isso, muito se discutia se de fato as pinturas estavam retratando totalmente o que havia se visto ao vivo pelo pintor.

"Consta o expediente de 7 avisos da Secretaria do Estado dos Negócios do Império; a saber: [...] de 30 de Maio, comunicando ter sido concedida a licença que solicitou o Ministério da Marinha, a fim de que o professor desta Academia Victor Meirelles de Lima possa cumprir o contrato que fez com o mesmo Ministério, relativamente à pintura, em dois painéis, dos feitos da nossa Esquadra = Batalha de Riachuelo e Passagem de Humaitá =, declarando também que o dito Professor fica sem direito ao vencimento de sua cadeira, enquanto, por motivo daquela Comissão, estiver impedido de exercer suas funções nesta Academia." Ata de 06/06/1868. Arquivo do Museu D. João VI / EBA / UFRJ, Ata das Sessões Presidência-Diretor (1856-1874). Pasta 6152. Disponível em http://docvirt.com/MuseuDJoaoVI/. Página 182.

A Passagem de Humaitá foi uma obra bastante criticada por alguns, por não ter figuras bem definidas, por deixar de lado o didatismo das pinturas históricas e retratar uma grande massa de fumaça. Porém, muitos também elogiaram Victor Meirelles, colocando que a forma como ele retratou a batalha deixou claro que a viveu, junto com os soldados, e que a perspectiva do quadro é de fato a de quem esteve em campo na guerraARAÚJO, Aline Praxedes de. Há tantas formas de se ver o mesmo quadro: uma leitura de O Combate Naval do Riachuelo de Victor Meirelles (1872/1883). 2015. 153 f. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015. Páginas 19, 42, 43, 68, 70, 75, 77, 79, 80, 83, 111 e 129. Disponível em https://web.archive.org/web/20171201034737/http://tede.biblioteca.ufpb.br:8080/bitstream/tede/8075/2/arquivototal.pdf..

Descrição Passagem de Humaitá é um cenário catastrófico e, ao mesmo tempo, sutil. O quadro lembra um pouco a pintura de William Turner (1775-1851) com as névoas, neblinas, massas cinzentas e pretas de fumaça se misturando, e compondo o próprio tema do quadro. O cenário é dominado por nuvens escuras e pela fumaça que sai dos pontos de incêndio. Há muito fogo, espalhado pelos cantos direito, esquerdo e também pelo centro. À esquerda, está uma lua minguante, em destaque em meio a fumaça preta da queimada. É possível discernir três barcos com chaminés de onde emanam massas pretas e condensadas. Do lado direito do quadro é possível ver algumas plantas e destroços repousando sobre a água, além de mais fumaça. No centro, mais destroços. Por fim, uma pequena explosão ocorre no canto direito inferior do quadro, e é destacada por uma iluminação.

Vêem-se de um e outro lado clarões vermelhos, trevas, massas de uma e outra cor. No horizonte, bojos de navios indistintos na densa fumarada noturna, avançando, avançando. Uma fornalha enorme ardendo distante. E sobre o cenário que os clarões infernais iluminam, uma crescente angústia empalidecendo no céu calmoRUBENS, Carlos. Op.cit., p 55..

Logo ao bater o olho no quadro, é possível notar que Victor Meirelles segue influências da escola purista: o traço é sutíl, há ênfase no desenho, pouca gradação de cores, com foco no cinza, preto e marrom, e uma integração do céu com a vegetação e o mineral. Por ser uma paisagem natural, é possível travar algumas relações com a pintura realista do artista Jean-Baptiste-Camille Corot, grande influenciador do Realismo na época. O quadro traz, portanto, uma imagem melancólica, desolada da batalha e da destruição que essa carrega, e a captação da atmosfera de guerra é extremamente sutil. Percebe-se, ainda, a preocupação de Victor com a fixação, na tela, do exato instante que ele assistiu.  

Passagem de Humaitá não se preocupa em retratar a quantidade de soldados ou tropas que estavam na batalha, mas sim o cenário catastrófico de destruição, de uma forma fina e leve. O autor passou dois meses no cenário da guerra, se familiarizou com panorama, e com isso, sua preocupação final não foi tanto de passar um cenário didático da batalha, mas sim fazer com que o espectador se tornasse uma verdadeira testemunha da Guerra do Paraguai.

História Antes de se instalar no Museu Nacional do Rio de Janeiro, o quadro Passagem de Humaitá viajou. A pintura foi para a Exposição da Filadélfia, nos Estados Unidos. Além dela, Primeira Missa no Brasil e Combate Naval de Riachuelo também foram expostas em 1876. Victor não foi junto, quem acompanhou suas obras foi Saldanha da Gama, que não teve muita atenção na volta da viagem, quando as três pinturas sofreram deteriorações em suas embalagens, tiveram molduras extraviadas, entre outros problemas que fizessem com que as mesmas ficassem bastante danificadas.

Antecedentes Contexto histórico Passagem para Humaitá se trata de um cenário real, ocorrido durante a Guerra do Paraguai, importante momento histórico do Brasil. Também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, por envolver Brasil, Uruguai e Argentina contra o Paraguai, os conflitos duraram entre 1864 e 1870, ocasionando na morte de 150 a 300 mil soldados.A PINTURA DE HISTÓRIA NO BRASIL DO SÉCULO XIX: PANORAMA INTRODUTÓRIO, por Maraliz de Castro Vieira Christo. Páginas 1156, 1157 e 1164. Disponível em http://arbor.revistas.csic.es/index.php/arbor/article/view/386/387 A guerra ficou conhecida por ter sido o mais longo e sangrento conflito da América do Sul. Nela, a Marinha exerceu um papel importante e se consolidou como ferramenta de combate, principalmente por conta dos rios Paraguai e Paraná estarem em meio aos conflitos.O Poder Naval e a Formação do Brasil - Breves reflexões sobre a historiografia naval brasileira e a modernização do Museu Naval. Por EDINA LAURA NOGUEIRA DA GAMA. Páginas 6, 7 e 8. Disponível em http://snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364626719_ARQUIVO_PoderNavaleFormacaodoBrasil.pdf

A batalha que ocorreu em Humaitá foi a derrota do último baluarte paraguaio. Havia 10.000 soldados do Paraguai presentes em Humaitá, o que preocupou muito o Império na época. Ao mesmo tempo em que o governo brasileiro avançou por terra, foi na Guerra do Paraguai que se percebeu que as unidades navais deveriam andar junto com as tropas terrestres. Em Humaitá, a Marinha coordenou a exploração de vias fluviais. As insistidas duraram seis meses, e o Humaitá foi transposto em 19 de fevereiro de 1868, quando a esquadra brasileira dominou o rio Paraguai até Assunção. Vale ressaltar que ocorreu, posteriormente, uma segunda passagem em Humaitá, em 21 de julho de 1868. O local só ocupado totalmente pelas forças aliadas em 5 de agosto de 1868.A LOGÍSTICA NAVAL NA MARINHA IMPERIAL DURANTE A GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA CONTRA O GOVERNO DO PARAGUAI, por MÔNICA HARTZ OLIVEIRA MOITREL. Páginas 16 e 18. Disponível em http://livros01.livrosgratis.com.br/cp155235.pdf

“Tenciono estabelecer nova base de operações em Humaitá, trazendo para ali os depósitos, hospitais, repartições e tribunais, que até agora temos mantido em Corrientes...”. - Duque de Caxias ao Ministro da Guerra.

A guerra rendeu dezenas de trabalhos para pintores, fotógrafos, entre outros artistas. Juntamente com Pedro Américo, Victor Meirelles revolucionou o gênero das batalhas, tornando-o épico em suas telas É claro que houve outras diversas representações da Guerra do Paraguai, mas é unânime entre pesquisadores e historiadores que nenhuma teve a qualidade e a repercussão das telas de Victor Meirelles. Ele permaneceu no tema - sendo subsidiado pelo Estado imperial brasileiro, é claro, e manteve uma qualidade, superando outros artistas brasileiros e latinos.

O quadro retrata um bombardeio do último núcleo de resistência do inimigo, e marca justamente uma conquista do Império, ao mesmo tempo em que contribui para impulsionar o surgimento da República. O quadro cumpre bem seu objetivo de construir uma identidade nacionalista brasileira. Ele também ajuda a difundir a corrente positivista, que as Forças Armadas introduzem, conectando o desejo de industrializar o país. Inclusive, a tomada do poder e a transformação do Brasil em República foi um dos pontos essenciais da decaída da carreira de Victor, que havia se estabelecido muito bem como pintor do Império.http://museuvictormeirelles.museus.gov.br/exposicoes/longa-duracao/arquivo/victor-meirelles-construcao/obra-em-perspectiva/estudo-para-passagem-de-humaita-de-victor-meirelles/

O Autor Victor Meirelles de Lima nasceu em 1832 em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, e morreu em 1903, no Rio de Janeiro. Sua vida pode ser dividida em cinco fases: a infância em Santa Catarina, de 1832 a 1846, a idade escolar, de 1847 a 1853, a época que viajou, de 1853 a 1861, seu auge como pintor profissional, de 1861 a 1890, e sua decaída e fim da vida, de 1890 até 1903. Quando ainda era jovem, antes de entrar para a Academia, já retratava algumas paisagens de sua cidade natal. Recebeu aulas de Marciano Moreno, um engenheiro argentino exilado no Brasil, por volta de 1838. Era possível perceber, com essa tutoria, que Victor já possuía noções de escala, proporção e perspectiva de paisagens. Ele já tinha uma visão horizontal, com minuciosidade geométrica.

Em 1847, Victor se mudou para o Rio de Janeiro e se matriculou na Academia Imperial de Artes. Por lá, teve como mentor Manoel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), que foi o primeiro diretor brasileiro da Academia Imperial (entre 1854 e 1857), na qual Victor foi professor mais tarde. Depois disso, Meirelles ganhou uma viagem e passou um tempo na Europa, onde, na Itália, frequentou aulas de Tommaso Minardi e Nicola Consoni, grandes artistas italianos da época. Ele também frequentou a Escola de Belas Artes de Paris. Nessa época, em que Victor foi para a Europa pela primeira vez, estavam em disputa duas tendências, o Romantismo e o Neoclassicismo. Havia também um pouco do Impressionismo, e a ideia de que as paisagens poderiam ser registradas ao ar livre, com captação de diversos aspectos, dentre eles a iluminação natural. Todos esses movimentos influenciaram bastante na arte de Victor.