São João da Cruz, O.C.D. (; Fontiveros, 24 de junho de 1542 — Úbeda, 14 de dezembro de 1591), foi um místico, sacerdote e frade carmelita espanhol, venerado como santo e Doutor da Igreja pela Igreja Católica, sendo uma das figuras mais célebres da espiritualidade cristã e da literatura religiosa do Ocidente. Nascido em Fontiveros, na região de Castela a Velha, viveu em pleno século XVI, período marcado por grandes transformações religiosas e culturais, no contexto da Contrarreforma, à qual contribuiu de modo decisivo por meio de sua vida ascética, de sua ação reformadora e de seus escritos de profunda densidade teológica.
Como religioso carmelita, São João da Cruz esteve intimamente ligado à obra de Santa Teresa de Ávila, com quem colaborou na reforma da Ordem do Carmo. Juntos, são reconhecidos como os fundadores dos Carmelitas Descalços, ramo que buscava restaurar a observância primitiva da vida carmelitana, caracterizada pela pobreza, pelo recolhimento, pela oração contínua e pela total entrega a Deus. Essa reforma encontrou fortes resistências, levando João a sofrer incompreensões, perseguições e até prisão, experiências que marcaram profundamente sua espiritualidade e se refletiram em sua doutrina sobre a purificação da alma.
João é especialmente conhecido por sua produção literária e mística, na qual se destacam obras como Noite Escura, Subida do Monte Carmelo, Cântico Espiritual e Chama Viva de Amor. Sua poesia e seus tratados espirituais descrevem com precisão o caminho da alma rumo à união com Deus, passando pela purificação dos sentidos e do espírito. Por essa razão, sua obra é considerada o ápice da literatura mística cristã e ocupa lugar de destaque entre os grandes monumentos da literatura espanhola.
Canonizado em 1726 pelo Papa Bento XIII e declarado Doutor da Igreja em 1926 por Pio XI, São João da Cruz é celebrado em 14 de dezembro. É reconhecido pela Igreja como mestre da vida interior, cuja doutrina ilumina o itinerário espiritual de cristãos, religiosos e estudiosos.
Biografia Primeiros anos João da Cruz nasceu Juan de Yepes y Álvarez numa família de conversos (descendentes de muçulmanos ou judeus convertidos ao cristianismo) em Fontiveros, perto de Ávila, uma cidade de aproximadamente habitantes na época.C. P. Thompson, St. John of the Cross: Songs in the Night, London: SPCK, 2002, p. 27.Norman Roth, Conversos, Inquisition, and the Expulsion of the Jews from Spain, Madison, WI: The University of Wisconsin Press, 1995, pp. 157, 369 Seu pai, Gonzalo, trabalhava como contador para parentes mais ricos que trabalhavam no comércio da seda. Porém, em 1529, depois de se casar com Catalina, uma órfã de classe inferior, Gonzalo foi rejeitado pela família e acabou sendo forçado a trabalhar com a esposa como tecelão.Desmond Tillyer, Union with God: The Teaching of St John of the Cross, London & Oxford: Mowbray, 1984, p. 4 Ele morreu em 1545, quando João tinha por volta de sete anos.Gerald Brenan, St John of the Cross: His Life and Poetry (Cambridge: Cambridge University Press, 1973), p. 4 Dois anos depois, o irmão mais velho de João, Luís, morreu, provavelmente por má nutrição resultado da penúria em que vivia a família depois da morte do principal provedor. Depois disso, Catalina mudou-se com João e Francisco, seu outro filho ainda vivo, para Arévalo em 1548 e, três anos depois, para Medina del Campo, onde finalmente conseguiu um emprego como tecelã.
Em Medina, João entrou numa escola para cerca de 160C. P. Thompson, St. John of the Cross: Songs in the Night, London: SPCK, 2002, p. 31 crianças pobres — geralmente órfãos — e recebeu uma educação básica, principalmente a doutrina cristã, além de alguma comida, roupas e um lugar para viver. Lá, foi escolhido para servir como acólito num mosteiro vizinho de freiras agostinianas. Nos anos seguintes, João trabalhou no hospital e estudou humanidades na escola jesuíta entre 1559 e 1563; a Companhia de Jesus era uma organização recém-criada na época, fundada apenas alguns anos antes por Santo Inácio de Loyola. Em 1563,Kavanaugh (1991) indica a data de 24 de fevereiro. Porém, E. Allison Peers (1943), p. 13, nota que embora esta data, dia da festa de São Matias, seja assumida como correta, o padre Silvério postula uma outra, em agosto ou setembro. João entrou para a Ordem Carmelita e adotou o nome de "João de São Matias".
No ano seguinte (1564),Em algum momento entre 21 de maio e outubro. Veja E. Allison Peers, Spirit of Flame: A Study of St John of the Cross (London: SCM Press, 1943), p. 13 professou seus votos como carmelita e viajou para Salamanca, onde estudou teologia e filosofia na prestigiosa universidade da cidade (na época, uma das quatro grandes da Europa, juntamente com Paris, Oxford e Bolonha) e no Colegio de San Andrés. A estadia teria poderosa influência sobre suas obras posteriores, pois lecionava ali Frei Luis de León (estudos bíblicos: exegese, hebraico e aramaico), um dos mais destacados estudiosos em seu campo e o autor de uma controversa tradução do Cântico dos Cânticos para o espanhol (na época, traduções da Bíblia para outras línguas eram proibidas na Espanha). thumb|272x272px|esquerda|Desenho de Cristo crucificado visto "de cima" de João da Cruz que inspirou Salvador Dalí a pintar seu "Cristo de São João da Cruz" (que pode ser visto aqui). Reforma de Teresa de Ávila João foi ordenado sacerdote em 1567 e deixou clara sua intenção de juntar-se à estrita ordem dos cartuxos, que o atraía por encorajar a contemplação solitária e silenciosa. Uma viagem de Salamanca até Medina del Campo, provavelmente em setembro do mesmo ano, mudou seus planos.E. Allison Peers (1943, p. 16) sugere que a viagem seria para visitar um mosteiro cartuxo nas redondezas;Richard P. Hardy, The Life of St John of the Cross: Search for Nothing (London: DLT, 1982), p. 24, argumenta que a razão era a realização da primeira missa de João Em Medina, João encontrou-se com uma carismática freira carmelita chamada Teresa de Jesus, que estava na cidade para fundar seu segundo convento.E. Allison Peers, Spirit of Flame: A Study of St John of the Cross (London: SCM Press, 1943), p. 16 Ela contou-lhe sobre seus projetos para reformar a Ordem Carmelita, que visavam purificá-la ao reintroduzir a observância da regra original, de 1209, que havia sido relaxada pelo papa Eugênio IV em 1432.
De acordo com ela, a maior parte do dia e da noite deveria ser dedicada à recitação da liturgia das horas, aos estudos e leituras devocionais, à celebração da missa e a períodos de contemplação solitária. Para os frades, haveria ainda um tempo dispendido na evangelização da população vizinha ao mosteiro.Desmond Tillyer, Union with God: The Teaching of St John of the Cross (London & Oxford: Mowbray, 1984), p. 8 A abstinência completa de carne e longos períodos de jejum deveriam ser observados a partir da Festa da Exaltação da Cruz (14 de setembro) até à Páscoa. Haveria ainda longos períodos de silêncio, especialmente entre as completas e a prima. As roupas deveriam ser mais rústicas e mais simples do que as que passaram a ser utilizadas depois de 1432.Richard P. Hardy, The Life of St John of the Cross: Search for Nothing (London: DLT, 1982), p. 27 Além disso, todos deveriam obedecer à injunção contra o uso de calçados (que também havia sido relaxada em 1432) e foi desta última observância que os seguidores de Teresa entre os carmelitas passaram a ser chamados de "descalços", distinguindo-os dos frades e freiras não reformados.
Teresa pediu a João que desistisse dos cartuxos para segui-la. Depois de um ano final estudando em Salamanca, em agosto de 1568 João viajou com Teresa de Medina para Valladolid, onde ela planejava fundar outro convento. Depois de passar algum tempo com Teresa ali, aprendendo mais sobre esta nova forma de vida carmelita, em outubro do mesmo ano, acompanhado pelo frade Antonio de Jesús de Heredia, João partiu para fundar um novo mosteiro para frades, o primeiro a seguir os princípios de Teresa. Eles receberam permissão para utilizar uma casa em ruínas em Duruelo (no meio do caminho entre Ávila e Salamanca), que havia sido doado a Teresa. Em 28 de novembro de 1568, o mosteiroÉ possível que ele tenha abrigado apenas três homens segundo E. Allison Peers (1943), p. 27, ou cinco segundo Richard P. Hardy, The Life of St John of the Cross: Search for Nothing (London: DLT, 1982), p. 35 foi finalmente inaugurado e, no mesmo dia, João mudou seu nome para "João da Cruz".
Logo depois, em junho de 1570, os frades se mudaram de sua sede em Duruelo, que estava pequena, para a cidade vizinha de Mancera de Abajo. Depois, João mudou-se novamente para fundar uma nova comunidade em Pastrana (outubro) e outra em Alcalá de Henares, que tornar-se-ia uma casa de estudos dedicada ao treinamento de seus frades. Em 1572,O mês geralmente é indicado nas fontes como sendo maio. E. Allison Peers, Complete Works Vol. I (1943, xxvi), concordando P. Silverio, acredita que foi depois, mas certamente antes de 27 de setembro João foi para Ávila a convite de Teresa, que era na época prioresa do Mosteiro da Visitação na cidade, em 1571, e tornou-se o diretor espiritual e confessor dela, das 130 freiras que viviam no mosteiro e da população da cidade. Em 1574, João acompanhou Teresa quando numa viagem para fundar um novo mosteiro em Segóvia, retornando a Ávila em seguida. É provável que ele tenha permanecido ali até 1577.Richard P. Hardy, The Life of St John of the Cross: Search for Nothing (London: DLT, 1982), p. 56.
Em algum momento entre 1574 e 1577, enquanto rezava numa cabana com vista para o santuário, João teve uma visão de Cristo crucificado que o levou a criar seu famoso desenho visto "de cima" (ou "do alto"). Em 1641, este desenho foi emoldurado em Ávila e, em 1951, inspirou o artista Salvador Dalí a pintar "Cristo de São João da Cruz".
Auge das tensões com a Ordem Carmelita O período entre 1575 e 1577 assistiu ao aumento das tensões entre descalços e carmelitas espanhóis por causa das reformas de Teresa e João. Desde 1566, elas vinham sendo supervisionadas por visitantes canônicos da Ordem dos Pregadores (dominicanos), um em Castela e outro na Andaluzia, com amplos poderes: podiam mudar os membros de uma casa para outra e até mesmo de uma província para outra, podiam ajudar superiores religiosos em suas funções e nomear outros, entre carmelitas ou dominicanos. Em Castela, o visitante era Pedro Fernández, que prudentemente balanceou os interesses de descalços e não reformados.Ele é, possivelmente, o mesmo Pedro Fernández que se tornou bispo de Ávila em 1581. Foi ele que nomeou Teresa em 1571 como prioresa em Ávila, mas que também mantinha boas relações com o prior provincial carmelita de Castela.
Na Andaluzia, mais para o sul, porém, onde o visitante era Francisco Vargas, as tensões aumentaram por causa de sua visível preferência pelos frades descalços. Francisco pediu-lhes que fundassem mosteiros e conventos em várias cidades, contradizendo explicitamente as ordens do prior-geral carmelita, que era contra a expansão dos descalços na região. Como resultado, o capítulo geral carmelita se reuniu em Placência, na Itália, em maio de 1576 para tratar destes eventos na Espanha, que ameaçavam sair do controle. A decisão foi suprimir totalmente as casas descalças. Kavanaugh (1991) afirma que o objeto seria apenas as casas da Andaluzia. E. Allison Peers, Complete Works, Vol. I, p. xxvii (1943) afirma que seriam todos os mosteiros descalços com exceção de dois.