Gabriel Fernandes da Trindade (Vila Rica, 9 de dezembro de 1798 – Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1854) foi um violinista, cantor, professor e compositor brasileiro, atuante no Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX. Autor de canções e de duetos para dois violinos, compôs as mais antigas obras camerísticas brasileiras conhecidas e pertenceu à primeira geração de compositores brasileiros que teve obras impressas em vida. Filho de José Fernandes da Trindade (1777–?) e de Quitéria Coelho de Almeida (1782–1846), integrou uma família de músicos de Vila Rica que se transferiu para o Rio de Janeiro por volta de 1805, onde desenvolveu suas atividades profissionais.OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles; PIMENTA, João Paulo (orgs.). Dicionário da Independência no Brasil: História, Memória e Historiografia. São Paulo: EDUSP, 2022. p. 1040

Trajetória Conforme documentou o musicólogo Marcelo Campos Hazan, Gabriel Fernandes da Trindade nasceu na freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Vila Rica (atual Ouro Preto). Filho do músico José Fernandes da Trindade e de Quitéria Coelho de Almeida, com cerca de seis anos transferiu-se para o Rio de Janeiro, junto com a família, que procurava novas oportunidades profissionais, em função do declínio da mineração e, consequentemente, do mercado musical em Vila Rica. A trajetória é semelhante à que havia sido percorrida por inúmeros outros músicos desse período, entre eles José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita. Dos filhos músicos de José Fernandes da Trindade são conhecidos somente Gabriel Fernandes da Trindade e o irmão José Jacinto Fernandes da Trindade (1804–1865), porém as partes musicais dos Duetos Concertantes receberam uma inscrição de propriedade de Camilo Fernandes da Trindade, cujo parentesco com os anteriores Marcelo Campos Hazan não conseguiu estabelecer em sua pesquisa.

Em 8 de março de 1808 a rotina da família Fernandes da Trindade e de todos os residentes do Rio de Janeiro foi interrompida com o desembarque da corte real. A família de músicos beneficiou-se da rápida transformação da cidade e, mais diretamente, dos pendores musicais do monarca. Na década de 1810, Dom João selecionou dois estudantes de violino — Heliodoro Norberto Florival da Silva e Gabriel Fernandes da Trindade — para aperfeiçoamento com o mestre italiano Francisco Inácio [Francesco Ignazio] Ansaldi. Ansaldi — credenciado pelo Allgemeine musikalische Zeitung como o "o melhor violinista de Lisboa" — havia chegado ao Rio de Janeiro em 1810 e ocupava a posição de spalla da prestigiosa orquestra da Real Câmara.

Em momentos distintos, os três músicos da família mineira Fernandes da Trindade atuaram na Capela Real e Imperial do Rio de Janeiro: Gabriel Fernandes da Trindade ingressou como violinista na Capela Imperial em 1827, porém sua carreira como instrumentista nessa instituição foi interrompida em 1831, quando a orquestra da Capela Imperial foi dissolvida. Ao longo da década de 1830, Gabriel atuou como violinista e tenor em recitais beneficentes (com programação consistindo de excertos operísticos), assim como compositor e intérprete de música incidental para peças teatrais. De acordo com Marcelo Campos Hazan, nenhuma dessas composições chegou aos nossos dias.

Em 1826 Gabriel Fernandes da Trindade foi escalado como tenor para a estreia da Missa de Santa Cecília de José Maurício Nunes Garcia, ao lado de Augusto César de Assis (soprano), Luís Gabriel Ferreira de Lemos (contralto), Cândido Inácio da Silva (tenor), Apolinário Antônio Joaquim (baixo) e João dos Reis Pereira (baixo). Em 1840, Gabriel Fernandes da Trindade requereu ingresso, como tenor, no coro da Capela Imperial, sendo contratado em 1842. Quatro anos mais tarde, Gabriel era apontado como paralítico, não mais figurando no quadro da Capela Imperial, falecendo em 23 de agosto de 1854. O atestado de óbito localizado por Marcelo Campos Hazan indica "inanição por longa supuração". Foi sepultado em um dos dois cemitérios públicos do Rio de Janeiro destinados aos não-privilegiados (não se sabe ainda se no Cemitério de São Francisco Xavier, na Ponta do Caju, ou no de São João Batista, na Freguesia da Lagoa), às custas da Sociedade Beneficência Musical.

Conforme inventariou Marcelo Campos Hazan, Gabriel Fernandes da Trindade deixou uma razoável quantidade de canções impressas com acompanhamento de piano ou violão (21 foram localizadas e editadas), além de uma coletânea manuscrita de três duetos para dois violinos, dedicados ao seu mestre Francisco Inácio Ansaldi, já editados e gravados. Sua obra completa foi editada no volume 6 da série Patrimônio Arquivístico-Musical Mineiro (PAMM), em um dos raros casos de publicação de obras completas de um autor brasileiro. As partituras de todas as suas obras conhecidas estão gratuitamente disponíveis no International Music Score Library Project / Petrucci Music Library (IMSLP), incluindo os fac-símiles, partes e partituras dos três Duetos concertantes para dois violinos.

Composições

Canções Das canções compostas por Gabriel Fernandes da Trindade, 30 modinhas e um lundu são referidos em fontes históricas, porém somente 20 modinhas e um lundu chegaram aos nossos dias em fontes impressas (coletâneas ou publicações avulsas) e em nenhuma fonte musical manuscrita. Essas obras foram publicadas na primeira fase da impressão musical brasileira, iniciada pelo editor Pierre Laforge em 1834, que deu destaque às canções deste autor, imprimindo 13 canções de Gabriel Fernandes da Trindade. Filippone e Tornaghi imprimiram oito e Narciso e Arthur Napoleão reimprimiram 9 peças deste autor, sendo estes os principais editores das canções de Gabriel no século XIX, ao lado de João Bartolomeu Klier. Várias canções desse autor foram relançadas no século XX, algumas recolhidas da tradição oral.

As canções de Gabriel Fernandes da Trindade versam principalmente sobre a decepção amorosa (com exceção de PAMM-22 e PAMM-25) e geralmente utilizam quadras de versos heptassílabos (redondilha maior), com ou sem mote ou estribilho. A autoria de quase todas as letras é desconhecida, exceto a poesia de PAMM-23, do conselheiro português Joaquim Antônio de Magalhães (1795–1848), e a poesia de O canário mensageiro (perdida), de Francisco de Paula Brito (1809–1861).

Em seu estudo sobre a produção musical de Gabriel Fernandes da Trindade, publicado na série Patrimônio Arquivístico-Musical Mineiro, Marcelo Campos Hazan indexou, para cada uma de suas canções, as referências em jornais de época, as edições de época dessas peças e os acervos nas quais estão presentemente localizadas, bem como as edições do século XX. A tabela abaixo é um resumo das informações apresentadas por este estudioso em PAMM (títulos com atualização ortográfica e sem pontuação):

+Canções de Gabriel Fernandes da TrindadeTítuloSituaçãoAdorei uma alma impuraEditada em PAMM-19Batendo a linda plumagemEditada em PAMM-20Corações que amor uniuEditada em PAMM-21Do regaço da amizadeEditada em PAMM-22Erva mimosa do campoEditada em PAMM-23Espessas matas que ao longe estaisPerdidaEu não quero outra venturaPerdidaFoi bastante ver teus olhosEditada em PAMM-24Graças aos céusEditada em PAMM-25Já não existe a minha amanteEditada em PAMM-26Meu coração vivia isentoEditada em PAMM-27Meu destino é imudávelEditada em PAMM-28Não há nada mais mimosoPerdidaNão receies, bela MárciaPerdidaNo momento em que nasciEditada em PAMM-29Nutrem dentro de meu peitoPerdidaOcália dize por que quebrasteEditada em PAMM-30O canário mensageiroPerdidaOndas batei vagarosasEditada em PAMM-31Pintar eu quero minha paixãoPerdidaPor mais que busco encobrirEditada em PAMM-32Por que ó morte cruelEditada em PAMM-33Por que pretendes cruel saudadePerdidaQuando não posso avistar-teEditada em PAMM-34Remorsos penas tormentosEditada em PAMM-35Se o pranto apreciaresEditada em PAMM-36Tive amor fui destitosoEditada em PAMM-37Um ai gerado pela paixãoEditada em PAMM-38Um filho chorando a morte de sua mãePerdidaVai suspiro, chega aos laresPerdidaVai terno suspiro meuEditada em PAMM-39 miniaturadaimagem|600px|center|Edição de Pierre Laforge de Adorei uma alma impura (PAMM-19), de Gabriel Fernandes da Trindade.

Duetos concertantes miniaturadaimagem|Parte manuscrita de violino I dos Duetos concertantes de Gabriel Fernandes da Trindade, pertencente ao arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense. Os "Três grandes duetos concertantes para dois violinos" de Gabriel Fernandes da Trindade, dedicados ao seu mestre, o violinista italiano Francisco Inácio Ansaldi, são conhecidos unicamente por suas duas partes manuscritas (para violino I e violino II) sem indicação de data e copista, pertencentes ao arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense (São João del-Rei - MG). O fato de o manuscrito ter sido copiado em um papel inglês da marca C. Brenchley fabricado em 1814, e o autor ter ingressado na Capela Imperial em 1827 (abandonando definitivamente sua condição de discípulo) tornam essas as datas-limite entre as quais devem ter sido compostos os duetos concertantes, porém a fabricação do papel é mais determinante para a datação da obra, que deve ter sido composta na década de 1810, quando Gabriel Fernandes da Trindade tinha aulas com Ansaldi. Apesar da data de fabricação do papel, não há certeza de que o manuscrito seja autógrafo, porém a cópia pode ter sido realizada por solicitação do autor. esquerda|miniaturadaimagem|Caetano de Souza Teles Guimarães (Caeté, 1813 - São João del-Rei, 1886), responsável por levar o manuscrito dos Duetos concertantes para Minas Gerais. Em data e circunstâncias desconhecidas, o manuscrito dos Duetos concertantes, pertencente a um Camilo Fernandes da Trindade, parente ainda desconhecido de Gabriel Fernandes da Trindade, foi adquirido pelo médico Caetano de Souza Telles Guimarães (1813–1886), natural de Caeté (MG) e possível integrante do círculo familiar dos Fernandes da Trindade, originários da mesma cidade. Em data incerta, Caetano José de Souza Telles Guimarães levou o manuscrito para a cidade de Mariana (MG), onde residiu com seus filhos por muito tempo, até seu falecimento em São João del-Rei (MG). Caetano José de Souza Telles Guimarães já exercia atividade musical amadora desde pelo menos 1827, copiando obras de vários autores, entre as quais uma coletânea dos Duetos para violino e violoncelo de Ignaz Pleyel (1757–1831). Em 1882, José de Souza Telles Guimarães, filho de Caetano, doou à Catedral de Mariana o arquivo musical de seu pai, constituído de 164 peças, discriminadas em uma Lista geral de todas as músicas, documento hoje recolhido ao Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, do qual infelizmente perdeu-se a última folha. Os Duetos concertantes de Gabriel Fernandes da Trindade não estão mencionados nas folhas preservadas da Lista geral de todas as músicas do AEAM (embora pudessem ter figurado na folha perdida) e não se sabe se chegaram ser entregues à Catedral de Mariana em 1882. É mais provável, no entanto, que esse manuscrito tenha sido levado pelo próprio Caetano a São João del-Rei, onde faleceu em 1886. A grande maioria das fontes musicais do arquivo de Caetano de Souza Telles Guimarães, juntamente com o arquivo musical da Catedral de Mariana foram recolhidos em 1965 ao Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana e, em 1973, ao Museu da Música de Mariana. miniaturadaimagem|Duetos para violino e violoncelo de Ignaz Pleyel (1757-1831), em cópia de Caetano de Souza Telles Guimarães (1813–1886) pertencente ao Museu da Música de Mariana.