Domingos Ferreira (Braga, Portugal, 1709 - Vila Rica, Brasil, 19 de setembro de 1771) foi um mestre violeiro (luthier) português, radicado em Vila Rica (atual Ouro Preto - MG), cidade na qual estabeleceu, na freguesia do Padre Faria, uma oficina de construção de violas de mão portuguesas, antecessoras das violas brasileiras. É o mais antigo construtor de violas do qual existe notícia no Brasil e o processo de inventário de seus bens revela importantes detalhes sobre os tipos de violas que produzia e sobre as ferramentas, acessórios, madeiras e cordas que usava. A documentação também possui informações sobre a relação do violeiro com os comerciantes de Vila Rica e sobre a atuação de seu escravo Antônio “Angola” na produção e venda dos instrumentos produzidos em sua oficina, antes e depois de sua morte.
Trajetória
Citação: “Declaro que sou filho de Domingos da Costa e de Maria Ferreira, de legítimo matrimônio, da freguesia de Santa Maria de Aveleda, Arcebispado de Braga, sou casado com Tereza Pereira e entre nós houve dois filhos, um por nome José e outro Ana, ambos já falecidos. Declaro que sou católico romano, em cuja fé protesto viver e morrer e desejo salvar-me. Declaro que, falecendo da vida presente, serei sepultado na Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos do Padre Faria, amortalhado no meu hábito de terceiro de São Francisco de quem sou indigno filho de sua terceira ordem nesta vila, a qual me deve acompanhar, e mando me fazer os sufrágios que manda o estatuto, o qual tenho pago os sufrágios e, devendo-lhe alguma coisa, se lhe satisfará, bastando somente a conta que assinar o secretário da memorável ordem. Declaro que serei acompanhado com quatro reverendos sacerdotes e com meu reverendo pároco, os quais todos me dirão Missa de corpo presente e se lhe satisfará por me acompanhar, e Missas duas oitavas e meia, e ao reverendo pároco o que for costume. Declaro que o meu limitado funeral se tirará de todo o monte de meus bens."
Testamento de Domingos Ferreira (redigido em 1761, submetido em 1771)
Domingos Ferreira nasceu na freguesia de Santa Maria de Aveleda, Arcebispado de Braga (Portugal) em 1709, transferindo-se para o Brasil em período incerto. Pertenceu à Ordem Terceira de São Francisco de Vila Rica e declarou, em seu testamento, “não saber bem ler e escrever”. Teve vida modesta e residiu, ao lado de ex-escravos forros, em um bairro pobre de Vila Rica: a freguesia do Padre Faria. Era casado com Tereza Pereira, que havia permanecido em Portugal, tendo com ela dois filhos, falecidos antes de 1761. Domingos Ferreira é referido em seu inventário como mestre violeiro ou simplesmente como violeiro que, para Raphael Bluteau (1721), é o “oficial que faz violas e outros instrumentos músicos de cordas”, embora a documentação disponível comprove apenas sua produção de violas de mão.
O mestre violeiro teve dois escravos: Domingos “Angola” e o "moleque" Antônio “Angola”, este último seu assistente na oficina de violaria e "quartado" desde 17 de abril de 1769, ou seja, com liberdade pré-outorgada e a ser conferida após oito anos de trabalho ao seu testamenteiro a contar dessa data, em agradecimento aos seus bons serviços. Isso faz supor que Antônio “Angola” já trabalhasse com Domingos Ferreira na produção de violas desde meados da década de 1760, porém a expressão "moleque" indica que este ainda era jovem e deve ter nascido em meados ou fins da década de 1750.
Domingos Ferreira provavelmente já estava acamado no início de 1769 e sem trabalhar em sua oficina. O mestre violeiro submeteu à aprovação, em 16 de setembro de 1771, seu testamento redigido 10 anos antes. Faleceu em 19 de setembro de 1771, em decorrência das complicações resultantes de um “braço quebrado e outras feridas”, assistidas pelo cirurgião Bento da Cunha e por vários “professores” que lhe fizeram os curativos. Não deixou herdeiros, nem concubina e nem filhos ilegítimos. Faleceu sem contenda judicial de cobrança e todas as suas dívidas foram satisfeitas com base na confiança e juramento dos credores, tendo sido sepultado na Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos do Padre Faria, a poucos metros de sua casa.
O inventário de Domingos Ferreira foi aberto em 7 de outubro de 1771, duas semanas e meia após o seu falecimento. O músico Luís José de Araújo foi o inventariante, administrando a produção de violas após a morte do mestre. Uma vez realizada a partilha dos bens do falecido e cumprido o prazo do quartação de Antônio “Angola” em 1777, Araújo parece ter liquidado a oficina. Nenhum instrumento produzido por Domingos Ferreira ou por Antônio “Angola” foi preservado e não existe nenhuma imagem e nenhum outro documento diretamente associado ao trabalho desses violeiros, além do referido processo de inventário. As imagens desta página são ilustrações históricas, sem conexão direta com os violeiros aqui referidos, mas possuem a função de auxiliar a compreensão do tipo de trabalho realizado por esses personagens.
O inventário de Domingos Ferreira O inventário de Domingos Ferreira, iniciado duas semanas e meia após o falecimento do mestre violeiro, pertence ao Arquivo do Museu da Inconfidência de Ouro Preto (Casa do Pilar, cód. 35, auto 427, 1º Ofício, de 99 folhas, aberto em 7 de outubro de 1771 e encerrado em 22 de novembro de 1777) e foi localizado, fotografado e transcrito em 2005 por Maria José Ferro de Sousa. Em 2007, Paulo Castagna, Maria Teresa Gonçalves Pereira e Maria José Ferro de Sousa realizaram pesquisas sobre o documento, inscrevendo o trabalho no Colóquio Internacional As músicas luso-brasileiras no final do antigo regime: repertórios, práticas e representações, realizado na Fundação Calouste-Gulbenkian de Lisboa, entre 7-9 de junho de 2008, texto impresso em 2012. Devido ao grande interesse dos dados obtidos, para a história da violaria luso-brasileira, as principais informações desse trabalho foram aqui resumidas e reorganizadas, com atualização da ortografia e pontuação, para sua maior difusão e compreensão.
O inventário menciona grande quantidade de ferramentas, violas e acessórios entre os "bens móveis" encontrados na casa e oficina do falecido Domingos Ferreira, itens que podem ser observados no Quadro 1.
+ Quadro 1. Avaliação dos "bens móveis" de Domingos Ferreira, em 22 de outubro de 1771 (ortografia e pontuação atualizadas)QuantidadeBens móveisValor1banco com suas prensas, pertencente ao ofício de violeiro, em que trabalhava o testador pelo dito ofício1$8001caixa de madeira com sua guarnição de pau preto e bem de cumprido seis palmos4$8001caixão de madeira tosca, que mostrava ter sido de encosto1$2001mesa quadrada de madeira branca tosca, com sua gaveta$6001banco tosco velho, que mostrava ter sido caixão$3001outro banco pequeno, tosco e velho$1502tamboretes toscos e muito velhos$1501serra braçal pertencente ao ofício de violeiro1$5001serra de mão$3001outra serra pequena$3001caixãozinho de ferramenta pertencente ao dito ofício de violleiro1$8001machado de cortar Lenha$4501enxada com seu cabo $4501leito antigo de jacarandá torneado4$8001balança de pesar ouro com marco de meia libra$9001clavina com avarias nos feixos3$0001par de fivelas de prata de vinte e seis oitavas2$6001outro par de fivelas de calção de prata com seus botões da mesma e um par de chapinhas de pescoço1$0501aro de prata que serviu de óculos e tem peso uma oitava e meia$1501uma colher e dois garfos de prata2$1501espadim de prata com punho liso e bem mostrava ter de peso pouco mais ou menos sessenta oitavas6$00011libras de cobre velho3$3001casaca de pano azul ferrete e com vestia encarnada e calção de risco escarlate, tudo em bom uso12$0002chapéus de Braga marca grande, novos4$8001timão de baeta azul de dois forros, usado2$4001capote velho a que se não deu valor algum por sua inutilidade, do qual se estava já servindo um dos escravos do testador em cobertura-3lençóis de estopa, muito velhos$9002camisas de Bretanha, usadas1$2001camisa de pano de linho, velha$3002pares de meia de algodão e linha, velhas$3001enxergão velho$3002fronhas riscadas$1502toalhas de algodão, velhas$30013maços de cordas de viola de tripa para encordoar as violas23$4005bordões cobertos de prata para as violas$37537pares de tampos de Veneza para violas16$5506pares de costilhas1$1251boceta de cabeleira, com duas perucas curtas1$5003violas grandes vistas e avaliadas cada uma a preço de duas oitavas e tres quartos de ouro9$9006violas grandes por encordoar e aparelhar, que foram vistas e avaliadas pelos mesmos louvados, cada uma a preço de oitava e quarto de ouro9$90010meias violas encordoadas que foram vistas e avaliadas pelos mesmos louvados, cada uma a preço de uma oitava e tres quartos de ouro21$0005cinco ditas meias violas por encordoar, que foram vistas e avaliadas pelos mesmos louvados, cada uma a preço de hua oitava e quarto de ouro7$50038descantes, alguns encordoados e outros com cordas quebradas, os quais foram vistos e avaliados pelos mesmos louvados a preço de tres quartos de ouro cada hum34$20017machinhos de quatro cordas e alguns encordoados, que foram vistos e avaliados pelos mesmos louvados a preço de meia oitava de ouro e cada um5$100 1prato de estanho$225 miniaturadaimagem|Tocador de viola, em pintura do século XVIII em teto residencial de Diamantina (MG), exposta no Museu Regional de São João del-Rei (MG). |392x392px O processo de inventário de Domingos Ferreira revela detalhes de sua relação com os comerciantes de Vila Rica: em seu testamento, o mestre violeiro declarou uma dívida de “um crédito procedido de madeira que tomei para o meu oficio de violeiro, dezessete oitavas e meia” com José Pereira Carneiro, o qual anexou ao processo um documento discriminando os itens da dívida, entre os quais constavam "caixões de pinho para violas" e "umas poucas cordas de violas". Com Manoel Teixera Souto, morador de Vila Rica, havia uma dívida de 16 oitavas e meia de ouro, de compra efetuada em 12 de fevereiro de 1771, “de umas cordas de violas que lhe comprei”, entre cujos itens discriminados por esse comerciante constavam "maços de cordas de viola". A Manoel Pinto da Silveira, Domingos Ferreira devia 12 oitavas e 1⁄4 de ouro da compra de “7 maços de cordas de viola de Lisboa”, realizada em 7 de março de 1770, e o comerciante, no comprovante da dívida, declarou ter recebido “à conta acima, uma viola, que me fez em 21 de junho [ou julho] de 1770 em preço de 4 oitavas”. O mestre violeiro também declarou, em seu testamento, que devia “a um fulano Vergaço, que vive de vender madeiras, o que constar lhe devo de umas tábuas”, constando no processo uma dívida de duas oitavas de ouro a Francisco Farias Vergaço, “de madeira de cedro vermelho”. Finalmente, a Bernardo José Pinto Brandão o violeiro devia uma oitava, três quartos e quatro vinténs de ouro “de resto de umas cordas de viola”. miniaturadaimagem|Anjo tocando viola, pintura do final do século XVII ou início do século XVIII no teto da sacristia do Convento de Santo Antônio de Igarassu (PE). O trabalho do escravo Antônio “Angola” foi detalhado no processo: até 17 de abril de 1777 - portanto cinco anos e meio após o falecimento de Domingos Ferreira - Antônio continuou produzindo instrumentos (pois estava obrigado a oito anos de trabalho desde 17 de abril de 1769) e “andou o dito negro em viagens interpoladas, dispondo as ditas obras e outras que de novo fez, o espaço de mais de sete meses, e mais de dois que esteve doente”, ou seja, vendendo, em localidades distantes de Vila Rica, os instrumentos do espólio do mestre português e outros mais que construiu, relacionados no Quadro 2. O inventariante Luís José de Araújo, que administrou a produção de violas entre a morte de Domingos Ferreira e a libertação de Antônio “Angola”, repassou a ele os valores correspondentes a uma série de itens, discriminados no Quadro 3, que revelam importantes detalhes sobre as madeiras utilizadas na construção das violas e sobre sua forma de obtenção.
+