Calântica (também grafada como Calância ou Calântria) é a designação atribuída a um antigo povoamento e complexo arqueológico de origem celta e romana localizado na região de Arraiolos, no Alentejo, em Portugal, cuja existência histórica e relevância territorial são amplamente documentadas através de importantes achados arqueológicos e epigráficos. Identificado formalmente na historiografia pelo arqueólogo Jorge de Alarcão como um vicus — um povoamento secundário romano de cariz rural e agrícola —, o sítio terá funcionado como um núcleo populacional dinâmico estruturado ao longo dos antigos eixos rodoviários secundários que interligavam os grandes centros urbanos da Lusitânia, nomeadamente as cidades de Évora (Liberalitas Iulia) e Santarém (Scallabis). A comunidade que aí habitava, referida como os Calanticensis ou Calanticani, ficou imortalizada em inscrições sobre pedras gravadas e artefactos materiais, destacando-se o célebre grafito CALANTANI descoberto num prato de barro na necrópole da Herdade do Cortiçal, um achado analisado no início do século XX pelo filólogo Leite de Vasconcelos que serviu de elo material para a fixação do étimo e da toponímia local. O coração religioso e cívico deste povoamento centrava-se no atual sítio de Santana do Campo, onde os vestígios monumentais de um templo romano do século I d.C. foram mais tarde reaproveitados e incorporados na estrutura da Igreja Matriz de Santana do Campo; este templo clássico, edificado com robustos blocos de granito sobre um pódio monumental, constitui um dos raros exemplos em território nacional de um santuário romano que poderá ter sido originalmente consagrado a uma divindade indígena, o deus Carneus Calanticensis, uma divindade tutelar de cariz pastoril e protetora das comunidades locais, cujas aras votivas foram exaustivamente catalogadas no século XIX pelo epigrafista Emílio Hübner no prestigiado Corpus Inscriptionum Latinarum (CIL II, 126). Este processo de transição religiosa, evidenciado pelas aras dedicadas a Deo Calanticenci, ilustra de forma exemplar o fenómeno do sincretismo cultural e da romanização no Alentejo central, em que os cultos e as identidades nativas de raiz pré-romana subsistiram e adaptaram-se sob a administração imperial, transformando Calântica num dos mais fascinantes microcosmos da Antiguidade Tardia e da arqueologia clássica em Portugal.
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