A Campanha de Marco Antônio em Atropatena foi uma campanha, parte da chamada Campanha parta de Marco Antônio, realizada entre os anos de 36 e pelo triúnviro Marco Antônio na Média Atropatena como prelúdio de uma planejada invasão ao Império Parta depois das vitórias de seu general Públio Ventídio Basso entre 40 e . e da retomada de Jerusalém em Um tremendo feito de organização, logística e estratégia militar, a invasão terminou sem conseguir nenhum resultado prático. Depois de marchar quase dois mil quilômetros com o maior exército já visto na região, Marco Antônio foi obrigado a se retirar da Média, o que ele fez de forma brilhante, sem conquistar nada.

Preparativos e planos da campanha Marco Antônio havia encerrado rapidamente o cerco de Samósata principalmente por que acreditava que não podia perder mais tempo no oriente. Ele seguiu de lá para Atenas à caminho da Itália, onde a situação permanecia confusa por causa da guerra contra Sexto Pompeu. Seus melhores aliados assumiram o comando no oriente e conseguiram várias vitórias, explorando as vantagens obtidas por Ventídio Basso nos anos anteriores. Caio Sósio, o novo governador da Síria, marchou com dez legiões para a Judeia para enfrentar Antígono II e, em julho de , cercou e conquistou Jerusalém; Públio Canídio Crasso invadiu o Reino da Armênia com outras seis legiões e, no mesmo ano, derrotou os ibéricos e albaneses do Cáucaso, conquistando uma importante posição estratégica para os planos de Marco Antônio.

Em , Otaviano, empenhado em sua difícil guerra naval contra Sexto Pompeu, convidou Marco Antônio a retornar para a Itália para ajudá-lo. Depois de alguns contratempos, os dois se encontraram com seus principais aliados em Taranto na primavera de . Aparentemente por causa da intervenção de Otávia, irmão de Otaviano e esposa de Marco Antônio, os dois concordaram em estender o Segundo Triunvirato até . Além disto, Marco Antônio prometeu enviar 120 navios para ajudar na guerra contra Pompeu e Otaviano, em troca, prometeu enviar legionários para reforçar o exército da Ásia. Otaviano não enviou os legionários prometidos.</ref>. Marco Antônio retornou rapidamente para o oriente, mas estava desiludido e irritado com Otaviano e com Otávia, que foi enviada de volta a Roma. Ele chegou à Síria e seguiu para Antioquia, para onde ele ordenou que Caio Fonteio Capitão levasse Cleópatra, com quem passou o inverno de 37-. Foi ali que Marco Antônio finalmente decidiu empreender uma grande campanha contra os partas em . Ele passou alguns meses com sua amante egípcia e aproveitou o tempo para consolidar o domínio romano no oriente, devastado pelas invasões partas em 40 e .

Seus atos neste período foram bastante eficientes. Os monarcas de Comagena e da Capadócia, que haviam se bandeado para o lado dos partas, foram destituídos, e Deiotaro, tetrarca do Reino da Galácia, havia morrido em . Marco Antônio decidiu em primeiro lugar acabar com a província da Cilícia e subdividir o território entre as províncias da Ásia, Síria e Bitínia.<ref name=Sy290/ > Depois, Marco Antônio organizou quatro reinos entregues a monarcas fieis e hábeis com o objetivo de controlar as fronteiras orientais da República. Amintas foi nomeado rei da Galácia, cujo reino foi ampliado pela anexação da Pisídia, Licaônia e outros territórios, chegando até a costa da Panfília. O filho de Glafira, Arquelau, recebeu o Reino da Capadócia e Polemão foi colocado no comando do Reino do Ponto e da Armênia Menor, chegando até o Cáucaso. Finalmente, Herodes, o Idumeu, recebeu Jerusalém, conquistada pelo general antonino Caio Sósio, e tornou-se o rei da Judeia.

Em relação ao Egito, Marco Antônio tomou importantes decisões que provocaram controvérsia e deram origem a uma violenta campanha hostil por parte de Otaviano, que fez questão de destacar o caráter obscuro e perigoso das relações de Antônio com Cleópatra às custas de Roma. Apesar disto, Marco Antônio achou necessário reforçar o Egito para estabilizar seus domínios e, com este objetivo, acrescentou aos domínios de Cleopátra partes da Síria, a Fenícia, a tetrarquia de Cálquida, a ilha de Chipre e a região da Cilícia Áspera; mas ele não atendeu a todos os pedidos da rainha e se recusou a entregar o reino da Judeia de Herodes, parcial ou totalmente. Para reforçar seus laços com Cleópatra, Marco Antônio reconheceu seus filhos com ela, Alexandre Hélio e Cleópatra Selene; e um terceiro filho ainda em gestação.

A tradição historiográfica antiga, influenciada pela propaganda de Augusto (Otaviano), criticou profundamente a suposta influência perniciosa da rainha egípcia sobre Marco Antônio. O escritor antigo definiu o amor de Antônio e Cleópatra como "um mal terrível".; alguns autores, com base em fontes obscuras, teriam se casado no inverno de 37- e teriam arquitetado planos grandiosos de expansão para um novo oriente helenizado. De fato, Marco Antônio assumiu enfaticamente muitas atitudes consideradas "orientais", aparecendo em roupas orientais, proclamando sua suposta descendência do deus Dioniso e revelando sua disposição de assumir os povos orientais em seus novos domínios, mas, como enfatiza o historiador Ronald Syme, ele continuou e ampliou uma política oriental concebida e parcialmente implementada por Pompeu e, especialmente, por Júlio César. Syme também minimiza a suposta sujeição de Antônio a Cleópatra e defende que o triúnviro estava mais interessado nas riquezas do Egito do que em sua rainha, indispensáveis para sua campanha.

Marco Antônio pretendia, sobretudo, vingar, com uma grande campanha no oriente, a catástrofe da Batalha de Carras, consolidando o poderio romano e estendendo o círculo de influência da República por meio de uma nova rede de reinos clientes dependentes de Roma para proteção; provavelmente ele não pretendia organizar novas províncias romanas. O plano de Marco Antônio revivia todo o plano estratégico de Júlio César]], ao qual provavelmente ele teve acesso imediatamente depois do assassinato do ditador. Um avanço direto através do deserto em direção ao oriente a partir do Eufrates parecia arriscado dada a habilidade e mobilidade da cavalaria parta e havia o risco de se repetir o desastre de Crasso. Mesmo se as legiões conseguissem chegar até Ctesifonte, elas ali estariam isoladas em pleno deserto sem uma linha sólida de reabastecimento. Por isto, Marco Antônio decidiu realizar antes uma longa marcha com suas legiões através da Armênia do rei Artavasdes II, que era um amigo e aliado, para juntar-se ao exército de Públio Canídio, que vinha do Cáucaso, para só depois invadir o Império Parta a partir do noroeste atravessando a Média Atropatena.

Marcha até a Armênia thumb|400px|"Marco Antônio e Cleópatra"1754. Por Charles-Joseph Natoire, no Musée des Beaux-Arts de Nîmes, França.</small> A invasão parecia fadada ao sucesso pelos sinais de desintegração e conflito dentro do próprio Império Parta. A morte de Orodes II e a ascensão ao trono de seu filho (e assassino) Fraates IV ocorreu em meio a disputas e conflitos entre os vários dignitários do Império. Em particular, o nobre Monese havia partido para exílio e se refugiou com Marco Antônio, a quem prometeu ajudar no caso de uma invasão ao Império Parta, que ele descreveu como fraco e desorganizado. Segundo ele, a conquista do reino de Fraates IV era uma possibilidade real. Marco Antônio, satisfeito, nomeou-o governante de três cidades e prometeu-lhe a coroa parta no caso de uma vitória romana.

Fraates IV pareceu intimidade e tentou convencer Monese a voltar para o lado dos partas com propostas cada vez mais tentadoras; ele de fato parecia estar pronto a aceitá-las quando Marco Antônio decidiu explorar a situação para enganar Fraates com uma aparente condescendência. Ele fingiu libertar Monese e o encarregou de apresentar ao rei uma proposta de paz pela qual ele aceitaria apenas a restituição dos estandartes capturados em Carras e a libertação de todos os prisioneiros romanos. Marco Antônio pretendia enganar e tranquilizar Fraates enquanto ele, decidido pela invasão, completava seus preparativos para a guerra.

Marco Antônio, acompanhado de Cleópatra, marchou com dez legiões até a margem do Eufrates perto de Zeugma com o objetivo de atravessar o rio e marchar pelo deserto em direção a Ctesifonte; na realidade, ele deixou apenas uma fraca guarnição ali e, assim que Cleópatra partiu, partiu para sua grande marcha de contorno que o levaria ao coração do território parta depois de percorrer mais de quilômetros. Antônio acreditava que, uma vez capturada a Média, ele conseguiria, já no ano seguinte, marchar pelo do Tigre até Ctesifonte, a capital parta. Partindo de Zeugma em março de , Marco Antônio atravessou, com as dez legiões, os montes Tauro e chegou em Melitene. Em primeiro de junho, estava em Satala.

No final de junho de , Marco Antônio chegou com seu exército na Armênia e concentrou sua tropa na moderna planície de Erzurum onde encontrou-se com Públio Canídio Crasso, que, com outras seis legiões, vinha de uma vitoriosa campanha pelo Cáucaso. Ali Marco Antônio reagrupou suas forças e terminou os preparativos para sua invasão. Plutarco criticou seu comportamento e suas decisões, pois, segundo ele, prisioneiro da influência de Cleópatra e ansioso para retornar rapidamente para o Egito, Marco Antônio não consolidou sua posição na Armênia e não esperou pela primavera seguinte para iniciar a invasão da Média Atropatena. Ao invés disto, continua Plutarco, preferiu começar uma campanha militar muito difícil quando já estava avançada a estação das campanhas (que ia da primavera até meados do outono).

Marco Antônio passou em revista sua frota e os contingentes aliados acampados em Erzurum e decidiu avançar de imediato até a fronteira da Média com o exército dividido em duas colunas: ele assumiu pessoalmente o comando do grosso das legiões veteranas e seguiu por uma rota mais curta, mas mais difícil; os destacamentos aliados, as armas de cerco carregadas em 300 carroças e duas legiões lideradas por Ópio Estaciano seguiram por uma rota mais longa e mais fácil pelo vale do rio Arasse. Marco Antônio, deixando a Armênia para invadir a Média, não se preocupou em organizar um sistema de guarnições para preservar e defender sua retaguarda e controlar os armênios; ele provavelmente não tinha forças à disposição para estas tarefas defensivas, o que, do ponto de vista estratégico, foi um grave erro; o rei se viu em condições de recuperar sua autonomia abandonando a aliança romana.

Forças O exército reunido por Marco Antônio para sua campanha foi um dos maiores da Antiguidade, com mais de homens incluindo os contingentes aliados, o maior exército romano jamais reunido na Ásia. Plutarco apresentou uma descrição detalhada:

Com base nos dados de Plutarco e de outras fontes, os autores modernos concluíram que Marco Antônio dispunha de dezesseis legiões com cerca de legionários e cavaleiros predominantemente celtas e iberos; entre os aliados, especialmente os armênios, estavam ótimos cavaleiros treinados para o combate segundo as táticas partas; no total, os aliados contribuíram com homens. Nessa fase da campanha, a corte de Marco Antônio contava com diversos soberanos locais submetidos por ele; em Erzurum estavam Artavasdes II, rei da Armênia, Farnabazo da Ibéria e Zobere da Albânia, os monarcas do Cáucaso derrotados por Canídio Crasso, Polemão do Ponto e Amintas da Galácia. Notas do texto de Rita Scuderi.. Com base nas fontes antigas, Polemão e Artavasdes participaram pessoalmente da primeira fase da invasão.

Apesar de Plutarco ter citado, nos capítulos dedicados à campanha, apenas a Legio III, o historiador britânico Lawrence Keppie identificou algumas das legiões que participaram da campanha: Legio I, Legio XXIII, VI Ferrata, X Equestris, V Alaudae, Legio XII Antiqua, Legio XVII, Legio XVIII, III Cyrenaica e Legio IIII.