A Revolta dos Turbantes Amarelos foi uma revolta camponesa na China contra a dinastia Han Oriental. Ela eclodiu no ano 184, no reinado do imperador Lingdi. A revolta só foi totalmente controlada 21 anos depois, no ano 205. A rebelião, que adquiriu seu nome da cor dos tecidos usados pelos rebeldes em suas cabeças, marcou um importante ponto na história do taoismo devido à associação dos rebeldes com sociedades secretas taoistas.Bowker, John (1997). The Concise Oxford Dictionary of World Religions. No século XIV, a revolta viria a ser usada como evento inicial do romance histórico Romance dos Três Reinos. Causas

Uma causa importante da rebelião foi a crise agrária que forçou agricultores e colonizadores militares no norte a procurar emprego no sul, onde grandes proprietários de terra exploravam a grande oferta de mão de obra para construir grandes fortunas. A situação agravou-se com cheias menores do que o normal no baixo Rio Amarelo. Os agricultores também eram oprimidos por altos impostos destinados a financiar a construção de fortalezas ao longo da Rota da Seda e a manutenção de guarnições militares destinadas a impedir infiltrações e invasões estrangeiras. Com esta situação, donos de terras, agricultores sem terra e ex-soldados desempregados formaram grupos armados (por volta de 170) e, eventualmente, exércitos privados, preparando o terreno para o conflito.

Ao mesmo tempo, o governo Han estava se enfraquecendo internamente. O grande poder dos donos de terra se convertera num problema crônico. Os eunucos da corte haviam adquirido grande influência sobre o imperador, e utilizavam essa influência para se enriquecer. Dez dos mais poderosos eunucos formaram o grupo conhecido como os Dez Eunucos, e o imperador Lingdi se referia a um deles (Zhang Rang) como sendo o seu "pai adotivo". O governo era largamente visto como corrupto e incapaz e a fome e as inundações eram vistas como uma indicação de que o imperador havia perdido o mandato do céu.

Por causa de seus planos de reformas, a seita taoista de Zhang Jiao se tornaria o mais perigoso inimigo da dinastia Han. Como preparação para a revolta, Zhang Jiao enviou discípulos por todo o norte da China para conquistar apoiadores. Descontentamento político, bem como secas e pestes, estimularam o ressentimento público contra o governo Han. Os rebeldes tinham aliados até mesmo dentro da corte imperial, e podiam agir livremente na corte seja por ignorância dos funcionários do governo, seja por medo destes em relação ao poderio dos rebeldes.

Zhang Jiao planejou uma revolta em todo o império Han. Porém, antes da eclosão da revolta, houve uma traição e o plano foi descoberto. Os simpatizantes da rebelião em Luoyang foram presos e executados, e a rebelião nas províncias começou antes do tempo planejado, no segundo mês de 184. Apesar do início prematuro e da inevitável falta de coordenação, dezenas de milhares de homens se juntaram à revolução, repartições do governo foram saqueadas e destruídas e os exércitos imperiais ficaram imediatamente na defensiva.

Os rebeldes Fundadores A revolta foi liderada por Zhang Jiao (que era conhecido pelos seus seguidores como "General do Céu") e por seus dois irmãos mais novos, Zhang Bao e Zhang Liang. Todos haviam nascido no jun Julu (atualmente, Pingxiang, em Hebei). Eles haviam fundado uma seita taoista no que é atualmente a província de Shandong. Eram curandeiros, geralmente aceitando pro bono pacientes que não tinham condições financeiras de pagar. Os irmãos percebiam as duras condições de vida dos agricultores que tratavam, os quais sofriam com os altos impostos que os governos locais lhes impunham.

Seita taoista Os irmãos foram os primeiros mas não os últimos seguidores do "Caminho da Suprema Paz" (太平道; Tàipíng Dào), e veneravam a deidade Huang–Lao. Zhang Jiao dizia que esta divindade lhe havia dado um livro sagrado chamado "Chaves Cruciais para o Caminho da Paz" (太平要術; Tàipíng Yàoshù). Zhang Jiao, que era visto como um feiticeiro, chamava, a si mesmo, "Grande Professor". A seita defendia direitos iguais para todos e distribuição igualitária de terra. Quando a revolta foi proclamada, Zhang Jiao criou este sloganː

Práticas religiosas Zhang Jiao usava uma forma de taoismo para curar os doentes através da confissão dos pecados e da cura pela fé. A religião e a política dos irmãos Zhang eram baseadas na crença numa mudança apocalíptica na ordem do mundo. Eles diziam, a seus seguidores, que, no ano jiazi, início do novo ciclo sexagenário, o céu se tornaria amarelo e que, abaixo deste novo céu, o governo da dinastia Han terminaria e um novo governo surgiria. O termo jiazi se tornou um símbolo do movimento. Posteriormente, quando os seus seguidores entraram em confronto com os exércitos imperiais, eles passaram a usar fitas amarelas na cabeça como um emblema, o que motivou a denominação do movimento como "Revolta dos Turbantes Amarelos".

Quase todas as práticas religiosas da seita eram de caráter comunitário (por exemplo, transes coletivos e jejuns). Um típico ritual de adoração incluiria muita música e dança, queima de incenso e sermões ou anedotas contados até mesmo por mulheres ou bárbaros. Vários líderes xiongnus, como Yufuluo por exemplo, apoiaram a seita, e vários acadêmicos teorizaram que Zhang Jiao derivou sua crença do xamanismo, pois ele era visto como um curandeiro místico com ligação direta com o céu.The Scripture on Great Peace: The Taiping Jing and the Beginnings of Daoism. University of California Press. 2007.

Embora muitas das crenças iniciais do Caminho da Suprema Paz tenham se perdido, é provável que elas tivessem alguma relação com o Caminho dos Mestres Celestiais, visto que Zhang Jiao proclamava ser um descendente de Zhang Daoling. É interessante observar que muitos dos escritos encontrados nos 52 capítulos remanescentes do Taiping Jing que são encontrados no Daozang têm uma relação direta com o Caminho dos Mestres Celestiais.

Os planos de Zhang Jiao para a rebelião Antes que a rebelião começasse, Zhang Jiao enviou Ma Yuanyi para recrutar seguidores nas províncias de Jing e Yang e reuni-los na cidade de Ye. Como Ma Yuanyi viajava frequentemente para Luoyang, a capital imperial han, ele teceu relações com Feng Xu e Xu Feng, dois membros da influente facção eunuca dentro da corte imperial han, e os convenceu a colaborar secretamente com Zhang Jiao. Eles estabeleceram o dia 3 de abril de 184 como a data para a rebelião. No entanto, antes que os planos se concretizassem, Tang Zhou traiu Ma Yuanyi e o denunciou às autoridades. Ma Yuanyi foi preso e executado através de desmembramento em Luoyang. Houhanshu vol. 71.

Depois que o imperador Lingdi soube que Zhang Jiao estava planejando uma rebelião, ele ordenou que Zhou Bin, prefeito dos parques do palácio, conduzisse uma investigação e capturasse todos os conspiradores. Centenas de pessoas foram presas e executadas então.

A rebelião Quando Zhang Jiao soube que o governo Han já havia descoberto a revolta, ele rapidamente enviou mensageiros para contactar seus aliados por toda a China e começar a agir imediatamente. Em algum momento entre 29 de fevereiro e 29 de março de 184, Zhang Jiao iniciou a rebelião com 360 000 seguidores sob seu comando, todos usando panos amarelos enrolados na cabeça. Zhang chamou-se, a si próprio, "senhor general do céu", enquanto seus irmãos Zhang Bao e Zhang Liang foram chamados, respectivamente, de "senhor general da terra" e "senhor general do povo". Os rebeldes atacaram escritórios do governo, pilharam condados e assumiram o comando de prefeituras. Em dez dias, a revolta tinha se espalhado por toda a China e alarmou a corte imperial em Luoyang.

Os rebeldes se concentraram nas províncias de Ji, Jing, You e Yu. O grupo liderado por Zhang Jiao e seus irmãos se baseava no apoio da província de Ji, localizada ao norte do rio Amarelo, perto da terra natal de Zhang Jiao, nas prefeituras de Julu (ao redor do atual condado de Pingxiang, em Hebei) e Wen (ao redor da atual cidade de Handan, em Hebei). Uma segunda grande revolta aconteceu nas prefeituras de Guangyang (ao redor da atual Pequim) e Zhuo (ao redor da atual cidade de Zhuozhou), na província de You. O terceiro centro da rebelião era nas prefeituras de Yingchuan (ao redor da atual cidade de Xuchang, em Henan) e Runan (ao redor da atual cidade de Xinyang, em Henan), na província de Yu, e na prefeitura de Nanyang (ao redor da atual cidade de Nanyang, em Henan), na província de Jing.

Em 1 de abril de 184, o imperador Lingdi nomeou seu cunhado He Jin, intendente de Henan, como general em chefe, e ordenou-o que supervisionasse os exércitos imperiais para suprimir a rebelião. Houhanshu vol. 8. Ao mesmo tempo, o imperador apontou três generais (Lu Zhi, Huangfu Song e Zhu Jun) que liderariam três exércitos separados para lidar com os rebeldes. Lu Zhi foi combater a base de Zhang Jiao na província de Ji, enquanto Huangfu Song e Zhu Jun se dirigiram à prefeitura de Yingchuan. Eles possuíam um total de 40 000 soldados.

Província de You: prefeituras de Guangyang e Zhuo Na província de You, os rebeldes mataram Guo Xun, o inspetor provincial, e Liu Wei, o administrador da prefeitura de Guangyang (ao redor da atual Pequim).

Zou Jing, um coronel, liderou as forças imperiais para eliminar os rebeldes na província de You. Liu Bei liderou um grupo de voluntários para ajudá-lo. As biografias de Guan Yu e Zhang Fei no Sanguozhi não mencionam o envolvimento destes na Revolta dos Turbantes Amarelos, porém é razoável crer que eles tenham participado, pois eles haviam se juntado a Liu Bei muito antes.Sanguozhi vol. 32.

Província de Yu: prefeituras de Runan e Yingchuan Quando a rebelião se iniciou na província de Yu, a corte imperial han selecionou Wang Yun como inspetor de província para supervisionar as operações militares.Houhanshu vol. 66.

Zhao Qian, o administrador da prefeitura de Runan (ao redor da atual Xinyang, em Henan), liderou suas tropas para atacar os rebeldes antes da chegada de Zhu Jun, mas foi derrotado em Shaoling (no atual sudeste de Henan).Houhanshu vol. 8. Quando o condado de Chen (atual condado de Huaiyang, em Henan) estava sendo atacado pelos rebeldes, sete dos subordinados de Zhao Qian, que não eram militares, se armaram com espadas e tentaram combater os rebeldes mas foram mortos. Após a supressão da rebelião, o imperador Lingdi publicou um edito que os nomeou como "os sete virtuosos".Houhanshu vol. 45.

O estado de Chen (ao redor da atual cidade de Zhoukou, em Henan), um dos juns da província de Yu e principado de Liu Chong, se manteve neutro durante a rebelião, pois os rebeldes temiam Liu Chong, que era exímio arqueiro e possuía uma unidade de elite de arqueiros.Houhanshu vol. 76.

Os rebeldes na prefeitura de Runan, liderados por Bo Cai, inicialmente derrotaram Zhu Jun em batalha e o fizeram recuar. A corte imperial, então, enviou Cao Cao, um comandante de cavalaria, para liderar os reforços que ajudariam Zhu Jun.Houhanshu vol. 71. Em algum ponto entre 28 de maio e 25 de junho, Zhu Jun, Huangfu Song e Cao Cao juntaram forças e derrotaram Bo Cai em Changshe (a leste da atual cidade de Changge, em Henan).Houhanshu vol. 8, 71. Enquanto Bo Cai tentava fugir, Huangfu Song e Zhu Jun o perseguiram até o condado de Yangzhai (atual cidade de Yuzhou, em Henan) e o venceram novamente, causando a dispersão dos rebeldes.