A Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, cujo nome eclesiástico é Santuário Arquidiocesano da Santíssima Eucaristia – Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, é uma igreja paroquial católica e um santuário eucarístico arquidiocesano em Belo Horizonte, Minas Gerais. Durante décadas foi conhecida como Catedral Nossa Senhora da Boa Viagem. O edifício foi inaugurado como catedral da Diocese de Belo Horizonte em 1923 e consagrado como catedral metropolitana em 1932. Permaneceu como sede da Arquidiocese de Belo Horizonte até 2021, quando o título de catedral foi transferido para a Catedral Cristo Rei.
O culto católico no local começou no início do século XVIII, quando foi erguida uma capela para abrigar uma imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem trazida de Portugal. A atual igreja neogótica foi construída entre 1911 e 1931 ao lado da antiga matriz colonial do Curral del Rei, demolida em 1932. A torre central e a decoração em estuque da nave e do presbitério foram projetadas pelo arquiteto suíço João Morandi. A igreja também conserva a imagem mariana do século XVIII e peças transferidas da antiga matriz.
A adoração eucarística perpétua começou no templo em 1937. Sacerdotes da Congregação do Santíssimo Sacramento administram a devoção e a paróquia desde 1938. A igreja, a praça ao seu redor e um conjunto de objetos litúrgicos foram tombados pelo estado em 1977. Em 2024, Belo Horizonte reconheceu o local como seu Marco Zero oficial.
História
Capela e paróquia no Curral del Rei
No início do século XVIII, o português Francisco Homem Del Rei recebeu uma sesmariaA sesmaria era uma concessão de terras feita pela administração colonial portuguesa para incentivar a ocupação e o cultivo. na região onde depois seria construída Belo Horizonte. Ele trouxe uma pequena imagem de madeira pintada e dourada de Nossa Senhora da Boa Viagem e a colocou em uma capela de pau a pique. A invocação mariana era usada por navegantes portugueses. No interior de Minas Gerais, a capela do Curral del Rei passou a receber viajantes e tropeiros que transportavam animais e mercadorias pela região.
A Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral del Rei foi formada na primeira metade do século XVIII, provavelmente por volta de 1711, depois de ser desmembrada da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Raposos. Um decreto régio de 16 de janeiro de 1752 transformou-a em paróquia colativa, dando ao vigário residente um benefício permanente sob o padroado régio. Por volta de 1755, uma matriz maior substituiu a primeira capela, acompanhando o crescimento do arraial.
Belo Horizonte e a igreja atual
Quando o governo republicano de Minas Gerais escolheu o Curral del Rei para receber a nova capital, a Comissão Construtora da Nova CapitalA Comissão Construtora da Nova Capital foi o órgão estadual responsável pelo planejamento e pela construção de Belo Horizonte na década de 1890. abriu uma nova malha de ruas e avenidas sobre o antigo arraial. A comissão propôs substituir a matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem e a Capela de Nossa Senhora do Rosário. O bispo de Mariana concordou com a mudança somente se as novas igrejas fossem concluídas antes da retirada dos edifícios antigos.
Um projeto para uma igreja no Alto do Cruzeiro, perto do fim da Avenida Afonso Pena, não foi executado. Em 1902, o terreno ocupado pela matriz da Boa Viagem retornou à diocese, com a condição de que o edifício antigo fosse preservado e restaurado.
A construção da igreja atual começou em 1911. As torres da matriz colonial foram retiradas e sua fachada foi modificada no início daquele ano. Em 3 de setembro, foi benzida a pedra fundamental de uma nova igreja neogótica no terreno vizinho. A antiga matriz permaneceu ao lado do canteiro de obras e continuou em uso até ser demolida em 1932.
Não se conhece o autor do projeto geral. João Morandi desenhou a torre e a decoração em estuque da nave e do presbitério. A igreja foi construída com paredes maciças de tijolos, cobertura de telhas francesas e ornamentos de argamassa moldada para imitar pedra lavrada.
Catedral e santuário eucarístico
O papa Bento XV criou a Diocese de Belo Horizonte em 11 de fevereiro de 1921. Uma missa solene foi celebrada na igreja ainda inacabada em 7 de setembro de 1922, durante o centenário da Independência do Brasil. A cerimônia também acompanhou a instalação do primeiro bispo da diocese, Antônio dos Santos Cabral, e a posse do presidente estadual Raul Soares de Moura.
A igreja foi inaugurada como catedral diocesana em 8 de dezembro de 1923. O papa Pio XI elevou Belo Horizonte à condição de arquidiocese em 1924. As obras prosseguiram até 1931, quando o escritório de Luís Signorelli projetou as últimas ampliações da campanha inicial de construção. A igreja foi consagrada como catedral metropolitana em 15 de agosto de 1932.
A matriz colonial foi demolida em 1932, depois de anos de discussão sobre sua permanência na nova capital. A demolição provocou protestos de moradores. O arcebispo Antônio dos Santos Cabral considerava a Boa Viagem uma catedral provisória, pois o interior não comportava as maiores cerimônias da arquidiocese. Ele procurou viabilizar uma nova catedral dedicada a Cristo Rei, embora a construção da atual Catedral Cristo Rei tenha começado muito mais tarde.
Belo Horizonte recebeu o Segundo Congresso Eucarístico Nacional em 1936. A adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento começou na catedral na festa de Cristo Rei de 1937. A Congregação do Santíssimo Sacramento assumiu a adoração e o trabalho paroquial em 1938.
Em 2017, o arcebispo Walmor Oliveira de Azevedo concedeu à paróquia o título de Santuário de Adoração Perpétua Nossa Senhora da Boa Viagem. Seu nome eclesiástico completo é Santuário Arquidiocesano da Santíssima Eucaristia – Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem. Em 11 de fevereiro de 2021, no centenário da arquidiocese, o título de catedral metropolitana foi transferido para a Catedral Cristo Rei. A Boa Viagem permaneceu como igreja paroquial e santuário arquidiocesano.
Arquitetura
Exterior e edifícios anexos
miniatura|upright=0.8|Entrada principal e torre central
A igreja tem planta em cruz latina, paredes maciças de tijolos e cobertura de telhas francesas. A fachada principal se organiza em torno de uma torre central elevada. Portas e janelas em arco apontado, pináculos e ornamentos moldados em estuque formam sua composição neogótica. Os detalhes de argamassa imitam pedra lavrada.
O trabalho de João Morandi abrangeu a torre e a decoração em estuque da nave e do presbitério. O autor do restante da estrutura é desconhecido. O escritório de Luís Signorelli preparou as ampliações de 1931 e projetou a casa paroquial e as dependências do consistório. Esses espaços ocupam um bloco de dois pavimentos em forma de U ao redor de um jardim, com corredores abobadados voltados para o pátio interno.
A Capela do Santíssimo Sacramento, dedicada a São Pedro Julião Eymard, foi construída no lado esquerdo da igreja em 1944. O pórtico original da entrada foi retirado em 1949, e um relógio foi instalado na torre em 1951.
Interior e alfaias
miniatura|upright=0.8|Presbitério e altar-mor
Um vestíbulo e um para-vento de madeira separam a porta principal da nave. À direita fica o túmulo de Antônio dos Santos Cabral, primeiro arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, coberto por uma laje de mármore preto. O batistério fica à esquerda. Seu conjunto do Calvário apresenta Cristo crucificado com a Virgem Maria, João Evangelista e Maria Madalena.
Arcos apontados largos dividem o interior, enquanto abóbadas de nervuras cobrem a nave e o presbitério. As paredes amarelas se elevam sobre uma base marmorizada. Nervuras em tom ocre cruzam as abóbadas azul-claras sobre a nave.
miniatura|upright=0.8|Altar lateral sob um vitral
A imagem setecentista de Nossa Senhora da Boa Viagem fica no lado da Epístola, à direita de quem observa o altar a partir da nave. É a imagem tradicionalmente atribuída a Francisco Homem Del Rei, que a teria trazido de Portugal.
O coro sobre a entrada abriga o retábulo do Sagrado Coração de Jesus, transferido da antiga matriz. A estrutura de madeira pintada e dourada provavelmente data do fim do século XVIII. Sua talha pertence ao rococó mineiro e usa folhas de acanto, rosas e outros elementos vegetais sobre fundo branco.
Paróquia e devoções
A Congregação do Santíssimo Sacramento administra a paróquia e a capela de adoração perpétua. O Santíssimo Sacramento permanece exposto para oração durante o dia e a noite, e leigos assumem períodos regulares de adoração.
A festa de Nossa Senhora da Boa Viagem ocorre de 6 a 15 de agosto. O último dia é a festa da padroeira de Belo Horizonte. A programação reúne missas, novena, terço e uma procissão luminosa noturna pelo centro da cidade, encerrada na igreja.
A Caminhada com Maria também faz parte da festa. Uma imagem peregrina deixa o santuário e visita paróquias da arquidiocese dedicadas a diferentes invocações marianas.
Tombamento e restauração
Tombamento estadual
miniatura|upright=0.8|Lavabo da sacristia proveniente da antiga matriz
O Decreto nº 18.531 tombou a igreja e seu entorno em 2 de junho de 1977. A área protegida abrange o edifício e a praça delimitada pelas ruas Sergipe, dos Timbiras, Alagoas e dos Aimorés. O tombamento também alcança os caminhos, os jardins e as árvores da praça.
O decreto protege objetos litúrgicos e artísticos da antiga matriz. O conjunto compreende a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, o lavabo da sacristia, a pia batismal, três retábulos e dois sinos. Também inclui o ostensório usado no Congresso Eucarístico Nacional de 1936.
A igreja e a praça foram inscritas no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico do estado. A imagem, o lavabo, a fonte batismal, o ostensório e os retábulos foram inscritos no Livro do Tombo de Belas Artes. Os sinos foram inscritos no Livro do Tombo Histórico.
Restauração
Os jardins foram restaurados em 1994. A intervenção renovou os gramados e o calçamento, acrescentou áreas de descanso e instalou iluminação e um sistema de irrigação.
Uma campanha de restauração iniciada em 2015 reparou o telhado e substituiu telhas danificadas. Os trabalhos internos alcançaram as capelas laterais, os altares, o piso de madeira, o sistema elétrico, a pintura das paredes, a nave, o coro, as tribunas, a sala do Calvário e a cripta. Os restauradores encontraram as cores internas originais, azul-claro e ocre, sob camadas de pintura posteriores. A imagem setecentista de Nossa Senhora da Boa Viagem também foi restaurada. A primeira etapa terminou em 2019.
O retábulo do Sagrado Coração de Jesus permaneceu no Museu Histórico Abílio Barreto até 1999, quando foi restaurado e instalado no coro da igreja. O IEPHA encomendou uma nova intervenção em 2020. O projeto previa controle de cupins, reparos na estrutura de madeira, reposição de partes ausentes, limpeza e reintegração da pintura e do douramento.
Marco Zero
A Lei Municipal nº 11.724, sancionada em 23 de julho de 2024 e publicada no dia seguinte, declarou o ponto geográfico ocupado pela igreja como o Marco Zero oficial de Belo Horizonte. A designação remete ao local como ponto de origem do Curral del Rei, arraial substituído pela capital planejada na década de 1890.
Ver também
Arquidiocese de Belo Horizonte Catedral Metropolitana de Belo Horizonte Basílica de Nossa Senhora de Lourdes Igreja São José (Belo Horizonte) Lista de catedrais do Brasil
Bibliografia complementar
Ligações externas
Página oficial Página do Santuário Nossa Senhora da Boa Viagem na Arquidiocese de Belo Horizonte Ficha de tombamento estadual no IEPHA/MG
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