thumb|250px|Luiz Inácio Lula da Silva discursando em uma greve de metalúrgicos do ABC Paulista, em maio de 1979.
As greves de 1978-1980 no ABC Paulista foram uma série de manifestações operárias ocorridas na Região do Grande ABC, no contexto de abertura política da ditadura militar, e que marcaram o ressurgimento do movimento trabalhista brasileiro, após a repressão promovida pelo regime entre 1968 e 1972.
O movimento grevista teve início em 1978, com uma série de paralisações espontâneas nas cidades da região do ABC, em especial, no setor dos metalúrgicos, protestando contra as políticas de arrocho salarial e reivindicando liberdade e autonomia sindical. Após essa greve, houve novas mobilizações trabalhistas, em um processo que se consolidou e ampliou-se com as greves dos metalúrgicos em 1979 e 1980, às quais se incorporaram, ao redor do Brasil, outras categorias, como a dos bancários, petroleiros e professores, evidenciando uma ascensão do movimento trabalhista no período.
As greves de 1978-1980 marcaram também o surgimento de um novo sindicalismo, caracterizado pelo tipo de organização que se desenvolveu entre os trabalhadores de base, justapondo os laços do sindicato à rede de organizações da comunidade operária – em especial, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e associações comunitárias –, e pela ascensão de novas lideranças sindicais, como Luiz Inácio Lula da Silva.
A emergência desse novo sindicalismo introduziu entre a oposição política ao regime militar reivindicações da classe trabalhadora a serem alcançadas através da liberalização das instituições e culminou, na década de 1980, na formação do Partido dos Trabalhadores (PT) e de organismos intersindicais de cúpula, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT).
Contexto Conjuntura econômica
Os primeiros anos da década de 1960 marcaram o fim de um período de crescimento acelerado da economia brasileira, que crescia, em média, 6,3% ao ano. O modelo de desenvolvimento baseado na substituição das importações, predominante desde o fim da Segunda Guerra Mundial, havia perdido o dinamismo, e entre 1963 e 1967, o crescimento econômico do Brasil caiu pela metade. Após o golpe de 1964, Castelo Branco nomeou notáveis liberais para direção da política econômica, entre eles, Octavio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos. A nova equipe econômica deu prioridade ao combate à inflação e a diminuição do défice público, através do Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), que definia como principal objetivo, para o biênio 1965-1966, acelerar o ritmo de desenvolvimento econômico do país e conter progressivamente o processo inflacionário para alcançar um equilíbrio de preços. Entre diversas medidas, como a liberação de preços reprimidos das tarifas públicas, câmbio e produtos subsidiados pelo governo; a reformulação das políticas de crédito; uma reforma fiscal que substituía os impostos em cascata por impostos sobre o valor adicionado, além de estabelecer uma correção monetária e a criação das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTNs); a criação de mecanismos de incentivo à exportações, como isenções fiscais sobre os lucros obtidos com tais exportações; somou-se, também, uma reforma trabalhista a fim de que os reajustes salariais não gerassem mais pressões inflacionárias. A fórmula adotada na política de reajuste salarial seria baseada na recomposição de perdas com a inflação e na incorporação aos salários do aumento da produtividade na economia. Além disso, a contratação e demissão da mão de obra foram flexibilizadas, substituindo-se as indenizações pagas pelo empregador pelo mecanismo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Essa contenção salarial foi um importante elemento na posterior conjuntura de crescimento econômico, que teve como uma de suas características o aumento da concentração de renda, beneficiando principalmente as classes médias e altas urbanas. Já o padrão de vida dos operários da indústria havia se deteriorado; se comparados os reajustes de salário com o aumento do custo de vida entre 1965 e 1967, percebeu-se um corte de pelo menos 25% nos salários reais, além da intensificação das jornadas de trabalho.
Estas reformas das políticas fiscal, creditícia e trabalhista eram consideradas necessárias para superar o problema inflacionário e criar condições adequadas para que o setor privado promovesse a retomada do desenvolvimento econômico sob sua liderança. Sob estas bases, aliadas ao contexto externo de crescimento da economia mundial e investimento de capitais estrangeiros, o Brasil passaria novamente por um período de crescimento econômico, baseado na demanda interna por bens duráveis de consumo em expansão, graças à concentração de renda e a mecanismos financeiros que permitiram a ampliação do crédito ao consumo; na demanda externa em expansão graças à liberalização do comércio internacional e ao subsidiamento das exportações; e na forte injeção de recursos do exterior, que complementaram a poupança interna e permitiram eliminar focos inflacionários graças a uma capacidade de importar tornada superelástica. Entre 1968 e 1973, o Brasil chegou a crescer cerca de 10% ao ano.
O cenário conturbado gerado pela crise do petróleo em 1973, no entanto, trouxe consigo um longo período em que a economia mundial se manteve muito mais hostil ao crescimento de países em desenvolvimento, como o Brasil. Em 1974, o défice da balança comercial atingia cerca de 4,5 bilhões de dólares, por conta do alto número de importações e das baixas exportações, prejudicadas pelo cenário internacional, o que gerou também um aumento da dívida externa. Nesse contexto, o regime militar maquiara os índices de inflação em 1973, mascarando o verdadeiro patamar do custo de vida e lesando boa parte da população assalariada, sendo este um dos principais motivadores do movimento grevista iniciado em 1978.
Abertura política
Com a crise econômica a partir de 1973, o regime militar já começava a dar sinais de desgaste. Ernesto Geisel sucedeu Emílio Médici em um período de ajustamento e redefinição de prioridades, grave endividamento externo, flutuações de desempenho, dificuldades inflacionárias e recessão, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), único partido político de oposição, crescia e obteve uma significativa vitória eleitoral em 1974, agregando em torno de si diversos setores da sociedade civil organizada em prol da abertura do regime. Havia uma crescente oposição ao regime não só por parte dos trabalhadores, do movimento estudantil e dos segmentos progressistas da Igreja, mas também da classe média, e por volta de 1977 importantes segmentos do empresariado se declararam favoráveis à redemocratização das instituições políticas como requisito necessário a um maior desenvolvimento econômico. A chegada de Jimmy Carter à Casa Branca em 1977 também dificultou a sustentabilidade político-econômica do governo militar, visto que Carter foi o primeiro presidente desde o assassinato de John Kennedy em 1963 que não deu pleno apoio norte-americano a regimes anticomunistas autoritários na América Latina.
Uma das estratégias do governo para enfrentar o momento de crise foi constituir um meio de ir abrandando o regime, em um movimento de distensão "lenta, gradual e segura". Vagarosamente iniciava-se um processo de transição para a democracia, que deveria comportar garantias básicas para o regime, evitando o retorno de líderes políticos, instituições e partidos anteriores à 1964, procedendo-se em torno de dez anos, implicando a escolha do sucessor do próprio Geisel ainda pelo regime militar e culminando na elaboração de uma nova constituição. Algumas medidas importantes foram tomadas no governo Geisel, como a supressão do AI-5 e o fim da censura à imprensa. No entanto, o alcance e o ritmo da abertura ficavam muito aquém do que a oposição desejava. Diante das exigências de reformas e abalado pelas crescentes tensões dentro da aliança de apoio ao governo, em 1979, com a posse de João Figueiredo, o regime iria empreender um processo de anistia e restauração das instituições democráticas.
Dentro dos grupos oposicionistas, o movimento operário que eclodiu em 1978 no ABC Paulista assumiu uma posição mais militante, junto ao movimento estudantil, assumindo como sua bandeira a exigência de um retorno imediato à democracia. O confronto declarado entre os operários e o Estado forçou outros grupos de oposição, particularmente a Igreja e os políticos do MDB, a assumirem uma posição com relação à legitimidade das ações coletivas com que o Estado se confrontava. Embora o governo amiúde advertisse que a agitação dos trabalhadores poderia pôr em risco a abertura democrática, os sindicatos continuaram a atacar o regime através das lutas por melhores condições econômicas. Por volta de 1980, durante a longa greve dos metalúrgicos do ABC, tanto a Igreja quando o MDB se viram compelidos a apoiar de maneira declarada as greves consideradas ilegais.
Antecedentes Após o golpe militar, diversos sindicatos sofreram intervenção e perderam o potencial reivindicatório, uma vez que o Estado efetivou-se como responsável pela definição dos índices de aumento salariais, e a Lei n.º 4.330, que regulamentava o direito de greve, impôs severas restrições que praticamente impediram a deflagração de movimentos grevistas. Com o aumento da repressão após o decreto do AI-5 em 1968, o movimento operário entrava em um período de refluxo. Entretanto, as cassações das lideranças ligadas ao Partido Comunista Brasileiro e ao Partido Trabalhista Brasileiro, possibilitaram a ascensão de novas lideranças sindicais, como Luiz Inácio Lula da Silva, sem vínculos com os partidos e grupos de esquerda até então tradicionais.
Já no início da década de 1970, houve tentativas de ação grevista na região do ABC, uma delas desencadeada na Mercedes-Benz e outra na Ferramentaria da Ford, ambas desestimuladas pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na época liderado por Paulo Vidal. Na Villares Metals S.A, em 1973, ocorreu uma greve de características singulares, onde os operários realizaram um movimento pendular de paralisia e retomada do trabalho, deixando o patronato sem condições de impedir sua eclosão.
Uma ação sindical mais tímida iniciava lentamente um processo de aproximação das lideranças sindicais com as bases. Na campanha salarial de 1970, por exemplo, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema separou-se da Federação dos Metalúrgicos de São Paulo e procurou desenvolver sua campanha de forma autônoma, pois julgava que algumas reivindicações próprias da indústria automobilística eram diluídas quando somadas às dos demais sindicatos do interior do Estado. Na campanha salarial de 1973, reivindicou-se 38% de reajuste salarial, índice que se baseava em estudos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), novamente buscando a realização de um dissídio em separado da Federação, sem sucesso. No ano seguinte, fez-se presente, com maior ênfase, a reivindicação que levava em conta a produtividade da indústria automobilística. Também foi realizado, em 1974, o I Congresso dos Metalúrgicos de São Bernardo, onde a temática da produtividade e das altas taxas de lucro da indústria automobilística eram relacionadas com o aumento do ritmo de trabalho, a extensão da jornada diária e a alta rotatividade da mão de obra, além de pautarem a luta pela liberdade sindical.