Uma lenda é uma narrativa que começou por ser transmitida oralmente, de geração em geração, com a intenção de explicar fenômenos misteriosos ou sobrenaturais, relacionados com factos verídicos e/ou históricos. Embora uma grande parte dos casos seja produto resultante da imaginação humana, há lendas que, de facto, podem ser verdadeiras. Cada povo tem as suas lendas que, com o decorrer do tempo, começaram a ser registadas. No entanto, uma vez que eram transmitidas através da “fala”, era possível obter diversas versões sobre a mesma lenda, sem que houvesse uma errada. Um modo diferente de conhecer a história de um determinado povo, é através das lendas, visto que é uma forma narrativa antiga que se encontra enraizada em cada cultura. Sendo a Espanha um país com uma cultura historicamente diversa devido às suas regiões, apresenta as mais variadas histórias e lendas, que atualmente continuam a ser divulgadas, mesmo que tenham surgido há séculos. Assim sendo, aqui serão divulgadas algumas lendas espanholas de diferentes regiões.
Andaluzia O Barco de Arroz (Barco del Arroz) Existe uma lenda que originou a expressão espanhola «mas perdió que el barco del arroz», bastante usada na zona sul de Andaluzia. O Barco del Arroz é o nome dado a um conjunto de lendas urbanas abordadas principalmente em Andaluzia e Estremadura. Os protagonistas desta narrativa são uns barcos carregados de arroz que desapareceram misteriosamente, sem chegar ao seu destino, durante várias décadas. O último barco, Weisshorn, desapareceu a 27 de fevereiro de 1994, não tendo chegado ao porto de Sevilhahttp://www.lavozdigital.es/cadiz/20091122/cadiz/toda-verdad-sobre-barco-20091122.html.
Na década de 1940, um barco argentino carregado de arroz foi enviado até Espanha com o objetivo de atenuar a fome que se fazia sentir, devido à recente Guerra Civil. O barco, Alcatraz, deveria desembarcar em Tarifa, contudo nunca chegou a aparecer e como tal, começaram a criar-se histórias misteriosas e míticas. Não obstante outras versões, a mais divulgada é a de que um barco se perdeu ou afundou, pelo que surgiu o mitificado provérbio. Nos anos 50, um barco a vapor também carregado de arroz desprendeu-se quando estava ancorado no cais de Cádis. Consequentemente, foi arrastado pela corrente e acabou por deixar escapar toda a sua carga. Trinta anos mais tarde a saga continua. Desta vez, é preparada uma recolha de arroz em Sevilha com o propósito de ser enviada para Etiópia. O barco partiu, mas nunca mais se soube nada dele, uma vez que nunca chegou ao destino. Weisshorn, o último barco que faz parte destas lendas urbanas, ao chegar a águas espanholas quebrou e dividiu-se em dois. Foi devido à maré baixa que o barco encalhou na plataforma continental e teve um fim fatídico. Contudo, a tripulação conseguiu salvar-se. As duas metades ainda podem ser vistas nas praias de Chipiona atualmente.http://leyendasyfabulas.com/estar-mas-perdido-que-el-barco-del-arroz/ Todas estas histórias são agora relembradas e contadas em forma de lenda, pois são poucas as explicações existentes para justificar os acontecimentos.http://entretenimiento.facilisimo.com/blogs/musica-y-lectura/mitos-y-leyendas-el-barco-de-arroz_956990.html
O Filho de Guzmán – O Bom (Guzmán, el Bueno) Alonso Pérez de Guzmán, conhecido como Guzmán el bueno, foi um nobre e Leal nascido no século XIII, ao qual o rei Sancho IVSancho IV confiou a defesa de Tarifa, depois de este ter sido ameaçado pelas tropas do infante Don Juan. Como Guzmán não entregou o Castelo, o exército inimigo sequestrou o filho dele e ameaçou-o que iria cortalhe a garganta de seu filho nos portões da fortaleza. De acordo com a lenda, Guzman el bueno lançou uma faca do seu castelo para matar o seu próprio filho, antes que o mesmo demonstrasse as suas fraquezas perante as ameaças dos inimigos. Um antigo romance acrescenta esta frase à lenda de Guzmán: "Mate-o com este punhal, se vocês o determinaram, que o que eu mais quero é a honra sem um filho, do que esse filho com a minha honra manchado". Esta demonstração de lealdade fez com que o rei concedesse a Guzmán - o senhorio de Sanlúcar e o apelido de "o bom".
Aragão Fonte de Cela (Fuente de Cella) A presente lendahttp://xiloca.org/xilocapedia/index.php?title=Leyenda_de_la_fuente_de_Cella nasce em Cella, na província de Teruel na região de Aragão. Reza a lenda que a dada altura a fonte que fornecia água para a localidade, secou. Apesar de haver a hipótese de tal ter ocorrido devido à destruição do aqueduto romano, não se sabe qual o motivo concreto.https://identidadaragonesa.wordpress.com/2015/12/14/la-fuente-de-cella-y-su-legendario-origen/ Os templários, já desesperados à procura de água, descobriram um documento no qual era descrito que naquele local, assim como no mesmo caminho, existia uma fonte com a forma de jarra. Para ver esta fonte era apenas necessário retirar a pedra que a tapava e, desta forma, conseguiriam encontrar água a sete côvados de profundidade. Tendo como base o documento, seguiram as instruções e descobriram a famosa fonte que corresponde, na era contemporânea, ao maior poço artesão da Europa. Uma outra versão da mesma lenda remonta a época de D. Afonsohttp://www.cibercuentos.org/historias-y-leyendas-de-aragon/leyenda-de-la-fuente-de-cella/. Na altura em que tentavam conquistar Teruel, uma jovem noiva viu o seu amado partir, a fim de lutar nas batalhas. Um ancião, ganancioso e invejoso, não perdeu tempo e aproveitou a oportunidade para namorisca-la.http://www.pasapues.es/aragonesasi/casal/leyendas/pensar.htm A bela donzela tentava não se cruzar com ele, no entanto, numa manhã, o destino fez com que se encontrassem. O ancião não suportava o desprezo oferecido pela jovem e, como tal, ele atirou o seu corpo contra as rochas. O sangue inocente da pequena jovem, agora morta, escorria pelas pedras quando uma sombra desvendou o seu amado. Afetado pelo desassossego abandonou o seu papel de guerreiro e cavalgou até se deparar com o triste desfecho da sua amada. Ao sentir ainda o calor proveniente do corpo da sua noiva, de espada na mão e vista na muralha, o cavaleiro quis fazer justiça, pagar sangue com sangue. Em apuros, o ancião tratou de acalmar aquela sede de vingança através da sua riqueza, mas não obteve sucesso. Essa ação apenas enfureceu mais o cavaleiro que, devastado, trespassou a espada no coração do seu inimigo. O cadáver repousou e o sudário era o respetivo ouro oferecido. Alguns quiseram aproveitar-se da situação, mas as moedas amaldiçoadas ardiam nas mãos de quem tentava guardá-las. Para santificar este ouro, o povo decidiu construir um templo ao santo do local, mas algumas dificuldades impediram tal desejo. As pedras que eram colocadas durante o dia eram derrubadas durante a noite, devido à fúria do velho ancião. Um peregrino que passava por essa terra, ao ouvir o sucedido, sentenciou: «Somente a água sagrada pode servir de argamassa para estas pedras banhadas pelo líquido da vingança e da condenação. Façam o que vos digo, e o Todo-poderoso oferecerá cem gotas de água por cada um. Mas não se esqueçam de quem é o Supremo Arquiteto. Afastem-se dele, e a água trará doenças; esqueçam-no, e a primavera tornar-se-á uma fonte de terríveis pragas. E principalmente, ninguém deve tocar no ouro, pois este é a origem de todo o mal.» Ditas estas palavras, o peregrino afastou-se. Apareceu de imediato um Mosen1 para benzer a água e a construção deu-se por concluída ainda antes do pôr-do-sol. Todos regressaram a casa e mantiveram tudo fechado, uma vez que temiam a fúria do espírito do ancião. Fez-se noite e a lua não apareceu. Ouviu-se o som de um trovão que serviu de anúncio à fúria do fantasma que, por muito que tenha tentado, não conseguiu chegar ao átrio. Extremamente desesperado, o espírito procurou reunir as suas moedas no momento em que um raio desceu dos céus e cedeu à alma o abismo que merecia. Conta-se no local que a profundidade do raio levou ao surgimento da água, e desde então aquele lugar passou a chamar-se Fuente de Cella. A partir dessa altura, a água serviu para regar os campos e pomares, e ninguém se esquece que caso se afastem do Supremo, as águas tornar-se-ão a causa das doenças que levaram, consequentemente, à tristeza e à miséria.http://www.canaldelmisterio.com/la-fuente-de-cella/
Os Amantes de Teruel (Los Amantes de Teruel) No século XIII, na cidade de Teruel em Espanha, viviam dois jovens chamados Juan Diego de Marcilla e Isabel de Segura. Os jovens eram namorados e estavam juntos desde um baile de inverno. Isabel era descendente de uma família muito rica e abastada, mas, por sua vez, Diego era o segundo filho de uma família modesta. A família de Isabel não tinha intenções de autorizar o casamento entre ambos, contudo o pai de Isabel deu um prazo de 5 anos, com o propósito de Diego enriquecer e casar com ela.https://umbrasileironaespanha.wordpress.com/2013/10/28/os-amantes-de-teruel-e-a-igreja-de-san-pedro/
Desta forma, Diego decide ir para a guerra das Cruzadas com o objetivo de enriquecer. Durante a ausência de Diego, o pai de Isabel insistiu diversas vezes para que a sua filha casasse com o abastado Pedro Fernández de Azagra. Ela recusou esta proposta durante muito tempo, contudo com o prazo dado a Diego em vias de expirar, Isabel reconsidera a proposta e acaba por se casar com o pretendente proposto pelo seu pai. Poucas horas após o casamento de Isabel, Diego volta à cidade de Turiel. Uma vez que chega à cidade, foi informado do casamento da sua amada e decidiu ir ao encontro de Isabel para ouvir a sua versão. Quando Diego se encontra com Isabel, completamente desesperado e angustiado, pede-lhe um último beijo antes de partir. Contudo, Isabel recusou beijá-lo, uma vez que tinha um compromisso com outro homem. Diego não suportou a dor, a tristeza, o desespero e angústia e caiu morto aos pés da sua amada. Após o sucedido, Isabel decidi contar ao seu marido o que aconteceu. Enquanto o marido ficou com receio de ser acusado de assassinato, Isabel começou a sentir remorsos e a sentir-se culpada pela morte do seu amado. A jovem decidiu, então, beijar Diego antes que ele fosse enterrado, como prova do amor que ainda sentia por ele. Isabel foi à Igreja de San Pedro, onde se encontrava o cadáver, e o beijo foi tão ardente que também ela caiu morta, ao seu lado. Após saber do sucedido, o marido de Isabel contou a história de amor entre os dois jovens, que por decisão unânime foram enterrados juntos na Igreja de San Pedro. Esta história, que possui todos os ingredientes de uma lenda medieval, realmente ocorreu. Os restos dos amantes foram encontrados na igreja em 1555. A identidade dos corpos foi confirmada e todo o desenlace desta trágica e bela história de amor está documentado. Hoje em dia, podemos conhecer a história e visitar o Mausoléu dos Amantes, inaugurado em 2005 pelo arquiteto Alejandro Cañada.
Astúrias O Carro da Morte (El Carro de la Muerte) O Carro da Morte é conhecido por sobrevoar os céus espanhois, à procura de moribundos, a fim de recolher as suas almas. É conduzido pela última pessoa falecida na paróquia mais próxima. No entanto, existe também uma versão que alega que são os cavalos invisíveis que o guiam por vagos caminhos e que graças às rodas de cortiça não faz barulho durante o caminho. Apenas a expressão «Andai de día que la noche ye mía» evidencia a presença de güestia. Güestia é uma versão de Santa Campaña, uma lenda galega e asturiana, sobre uma procissão de almas encapuzadas que, com vestes brancas, vagueiam por entre bosques durante a noite. Porém, de volta à lenda do «carro da morte», esta termina quando o carro para em frente à casa de algum moribundo, acabando por proferir a frase «Sal fulano que aqui lo buscan». Caso a pessoa saia, é convidada a entrar no carro, seguindo com os restantes para o além.https://laexuberanciadehades.wordpress.com/2015/02/04/mitologia-asturiana/http://www.huffingtonpost.es/2017/10/31/10-leyendas-de-terror-espanolas-para-pasar-mucho-miedo_a_23258187/