thumb|upright|Ânfora panatenaica encontrada no local onde se situava Euespérides, a antecessora gregos da atual Bengasi
Bengasi ou Bengazi ( ou ), chamada Berenice e Hespérides ou Euespérides, é segunda maior cidade da Líbia e a mais importante da região da Cirenaica. Situa-se na margem do mar Mediterrâneo e foi fundada no por colonos gregos.
Foi um cidade romana entre a primeira metade do , quando passou a fazer parte do Reino Vândalo. No início do foi conquistada pelo Império Bizantino, que perdeu o seu controlo para o Califado Ortodoxo em 643, quando já mais não era do que uma aldeia irrelevante.
Recomeçou a ganhar alguma importância comercial no , devido ao comércio com a República de Génova e quando foi tomada pelo Império Otomano, em 1578, era um importante porto estratégico. Entre 1711 e 1835 a administração da cidade foi exercida pelos Karamanlis, os governadores hereditários nominalmente vassalos dos otomanos. A partir de 1835, o governo central otomano passou a administrar diretamente a cidade. Em 1911, o controlo passou para a Itália, que nesse ano invadiu a Cirenaica. Tendo sido palco de combates durante a Segunda Guerra Mundial, ficou sob o controlo do Reino Unido a partir dos últimos dias de 1942.
Entre 1949 e 1951 foi a capital do Emirado de Cirenaica, que em 1951 passaria a integrar o então criado Reino da Líbia, que tinha duas capitais — Trípoli e Bengasi.
Bengasi foi o local onde estalaram os primeiros protestos contra o regime de Muamar Gadafi, que rapidamente escalaram para a guerra civil que culminaria na deposição e morte do ditador líbio. Ao longo da Guerra Civil Líbia (2014–2020) foi palco de combates intensos entre forças leais ao governo e militantes islâmicos.
Colónia grega A Cirenaica, região onde se encontra Bengasi, foi muito colonizada pelos gregos na Antiguidade. A antiga cidade grega que existiu na área que a cidade moderna foi fundada cerca de com o nome de Euespérides (ou Hespérides), provavelmente por habitantes das vizinhas Cirene ou Barca. A cidade grega situava-se à beira duma lagoa com ligação ao mar, que naquele tempo poderia ser suficientemente profunda para ser navegável por navios à vela. O nome teria sido atribuído devido à fertilidade do local, o que deu origem a associações com com o jardim mitológico das Hespérides. Essa antiga cidade situava-se numa porção de terra elevado no que é atualmente o subúrbio de Sbikhat al-Salmani (sapal de al-Salmani), na parte norte de Bengasi, em frente ao cemitério de Sidi-Abaíde.
thumb|esquerda|Templo de Zeus de Cirene, outra cidade grega da Cirenaica situada cerca de 200 km a nordeste-leste de Bengasi
Foi em Euespérides que os messénios se refugiaram quando foram expulsos pelos espartanos de Lepanto em , onde se tinham refugiado após terem sido derrotados na em Juntamente com Cirene, Barca, , e Tauquira, Euespérides formava a chamada Pentápole ("cinco cidades") da Cirenaica, o nome dado às cidades mais importantes daquela região.
Segundo a lenda, a cidade foi fundada em por um irmão do rei de Cirene. Euespérides é mencionada pela primeira vez em fontes históricas no relato feito por Heródoto duma revolta em Barca e duma expedição persa à Cirenaica em , no qual escreve que uma força punitiva enviada pelo sátrapa do Egito conquistou a Cirenaica, avançando para oeste até Euespérides. As moedas mais antigas cunhadas na cidade datam de . Uma faces dessas moedas tem uma gravura de Delfos. Outra face tem uma imagem de sílfio, a planta que foi o símbolo do comércio da Cirenaica devido ao seu uso como tempero de luxo e fármaco. A cunhagem de moeda sugere que a cidade deve ter sido autónoma em relação a Cirene no início do
A cidade situava-se em território hostil, rodeada por tribos pouco hospitaleiras. O historiador grego Tucídides fala de um cerco à cidade levado a cabo por líbios, possivelmente nasamões, em . Euespérides foi salva devido à chegada imprevista do general espartano e da sua esquadra, que foram empurrados para a Líbia por ventos adversos quando se dirigiam para a Sicília. Um dos rei da Cirenaica cujo destino está ligado à cidade é . Este rei usou a sua vitória em carros de guerra nos Jogos Píticos de para atrair novos colonos a Euespérides, onde Arcesilau esperava criar um refúgio seguro para ele próprio contra o ressentimento do povo de Cirene. O plano não funcionou, pois quando o rei fugiu para Euespérides durante a revolta ocorrida cerca de , ele foi assassinado, pondo fim a quase 200 anos de governo da .
Segundo uma inscrição encontrada in situ, datada de meados do , a cidade tinha uma constituição similar à de Cirene, como um conselho de magistrados chefes (éforos) e um conselho de anciãos (gerontes). A Cirenaica foi apoiante de Alexandre e após a morte deste, passou a fazer parte do Reino Ptolemaico com sede no Egito. Durante o período de instabilidade que se seguiu à morte de Alexandre, a cidade apoiou o lado vencido numa revolta liderada pelo aventureiro espartano Thibron, que foi derrotado pelos cireneus e seus aliados quando tentava criar o seu império.
Depois do casamento de Ptolemeu III do Egito com Berenice, filha do rei de Cirene Magas, em meados do , muitas cidades foram rebatizadas para marcar o acontecimento. Euespérides passou então a chamar-se Berenice (Berenike) e mudou de localização. O abandono da cidade original deveu-se provavelmente ao assoreamento das lagoas. O local da nova Berenice situa-se no centro da moderna Bengasi. A colónia grega durou até meados do e os seus restos foram decobertos no início da década de 1950 por Frank Jowett.
Período romano, vândalo e bizantino thumb|Secção da Tabula Peutingeriana (mapa rodoviário romano) mostrando a Pentápole da Cirenaica, o conjunto das principais cidades daquela região
A Cirenaica tornou-se uma província romana quando foi deixada em testamento a Romana por , que morreu em No princípio, os romanos deram liberdade a Berenice e às outras cidades da Pentápole. No entanto, em a região foi organizada como uma província, juntamente com Creta. Em tornou-se uma província senatorial, à semelhança da sua vizinha ocidental muito mais proeminente, a África Proconsular. As reformas da Tetrarquia de de Diocleciano em 296 mudaram estrutura administrativa do império e a Cirenaica foi dividida em duas províncias: Líbia Inferior e Líbia Superior, esta última incluindo a Pentápole e com capital em Cirene.
Berenice prosperou durante a maior parte dos cinco séculos em que foi uma cidade romana. Chegou mesmo a ultrapassar Cirene e Barca como o principal centro da Cirenaica, depois do Foram construídas muitas estruturas na Berenice romana, tendo sido encontrados mosaicos nas ruínas e edifícios importantes. Num época posterior, a cidade foi dotada de termas e igrejas.
Os habitantes da cidade foram seguidores de várias religiões ao longo dos séculos. Antes do advento do cristianismo, o culto de Apolo foi muito importante. Existiu uma comunidade judia praticamente desde que a cidade foi trasladada do local original. Era provavelmente maioritariamente constituída por membros de poucas posses, mas três inscrições comprovam que havia um estrato mais abastado. Berenice teve uma sinagoga. Não obstante a relativa paz, havia alguns conflitos religiosos. Em , uma revolta judaica destruiu grande parte da Cirenaica.
Mais tarde, o cristianismo chegou à cidade, vindo do Egito. Muitos dos primeiros cristãos de Berenice era não trinitários sabelianistas e seguidores de Carpócrates. A cidade tornou-se sede de uma diocese. O primeiro bispo cujo nome se conhece é Ammon, a quem Dionísio de Alexandria escreveu em 260. O bispo Dathes participou no Primeiro Concílio de Niceia, em 325, e Probatius num sínodo realizado em Constantinopla em 394. Depois do Concílio de Niceia de 325, a Cirenaica foi reconhecida como uma província eclesiástica do Patriarcado de Alexandria. Embora a diocese já não exista, Berenice é atualmente uma sé titular.
Em 431, a maior parte da Líbia foi tomada pelos vândalos, liderados por Genserico, que teria levado consigo cerca de colonos. Os vândalos saquearam a Cirenaica e Berenice passou a fazer parte do seu reino. Os romanos reconheceram a posse dos vândalos, na condição da administração civil se mantivesse nas mãos dos romanos. A cidade sofreu muitos danos durante a invasão vândala.
No , durante o reinado de Justiniano, os bizantinos tomaram o controlo da região e empreenderam várias obras de reparação. Segundo Procópio de Cesareia, Justiniano mandou reconstruir as muralhas de Berenice e construir umas termas públicas. Com a reorganização administrativa posterior levada a cabo por Maurício , a Cirenaica passou a fazer parte da província bizantina do Egito. Em geral, o controlo bizantino na região foi fraco, à exceção de Berenice e outras áreas urbanas mais importantes. As rebeliões de berberes eram frequentes no interior, que era muito inseguro, e acabaram por deixar a região num estado anárquico. A administração bizantina era muito impopular, para o que contribuíam os pesados impostos crescentes, cobrados para suportar as despesas militares, ao mesmo tempo que Berenice e outras cidades decaíam.
Invasão islâmica e domínio otomano thumb|Bandeira otomana hasteada durante as celebrações do Mulude em Bengasi em 1896
thumb|Palácio de paxá após ter sido bombardeado pelos italianos
O islão chegou ao Norte de África numa altura em que não existia qualquer força que se lhe conseguisse opor eficazmente, ao mesmo tempo que havia vários elementos nativos favoráveis ao seu avanço. A presença bizantina era quase inexistente exceto em Berenice e noutras poucas pequenas áreas que estavam de facto sob o controlo bizantino. As cidades estavam quase desertas e sofriam assaltos de bandos de berberes. A população rural berbere era explorada com impostos altíssimos e estavam aspiravam por uma nova administração. A igreja oficial tinha-se distanciado de grande parte da população devido às suas posições intransigentes em relação ao que eram consideradas heresias.
Em 642, foi assinado o Tratado de Alexandria, entre o general conquistador árabe Anre ibne Alas e o patriarca Ciro, o último governador bizantino do Egito, nos termos do qual era ratificada a conquista do Egito pelo Califado Ortodoxo árabe. Pouco depois, em 17 de setembro de 642, a última guarnição bizantina retirou de Alexandria. No início de 643, Anre ibne Alas marchou para a Cirenaica e Tripolitânia, que desde a reorganização feita por Maurício pertenciam à província do Egito. Praticamente não encontrou resistência; não se defrontou com bizantinos e os únicos que lhe fizeram alguma frente foram berberes das tribos leuatas e . Estas renderam-se e concordaram pagar um tributo anual de dinares, que passaram a constituir uma parte do tributo pago pelo Egito. Nesse tempo, Berenice mais não era do que uma aldeia insignificante rodeada de magníficas ruínas históricas e passou a ser conhecida pelo nome árabe Barnique.
No , o pequeno povoado ganhou um papel importante no comércio florescente entre os mercadores genoveses e as tribos do interior do país. Nos mapas do , aparece o nome de Marça ibne Gazi.
Bengasi era um porto estratégico, demasiado útil para ser ignorado pelos otomanos, que o invadiram em 1578. Entre 1711 e 1835, a cidade esteve dependente de Trípoli, onde estava sediado o governo dos Karamanlis, nominalmente governadores hereditários do Império Otomano, ao qual pagavam um tributo anual, mas que à parte disso eram de facto independentes. Em 1835 o controlo da cidade passou a ser administrada diretamente pelo governo central otomano, uma situação que se manteve até 1911. Nesse período, as águas costeiras de Bengasi eram exploradas por pescadores de esponjas italianos e gregos. Em 1878 e 1874 Bengasi foi devastada por epidemias de peste bubónica.
Ocupação italiana e Segunda Guerra Mundial thumb|esquerda|Edifício da sede do governo municipal, construído pelos italianos, numa fotografia de c. 1818–1920