O brasão de armas de Portugal constitui o principal emblema heráldico e um dos mais tradicionais símbolos de Portugal. É frequentemente apelidado de Cinco Quinas ou simplesmente Quinas, como referência à designação popular de cada um dos cinco escudetes que constituem o elemento principal do seu escudo de armas.
Resultando de uma evolução histórica de mais de 700 anos, o atual modelo de armas foi adotado de facto a 1 de dezembro de 1910, juntamente com o modelo atual da bandeira nacional, mas apenas foi oficializado a 19 de junho de 1911, sendo os seus detalhes específicos definidos a 30 de junho do mesmo ano.Decreto de 19 de junho de 1911 da Assembleia Nacional Constituinte (Estabelece as cores e o desenho da Bandeira Nacional)"Publicação do parecer da Comissão da Bandeira Nacional, para a execução do decreto da Assembleia Nacional Constituinte de 19 de junho de 1911", Diário do Governo n.º 150 de 30 de junho de 1911
A Constituição da República Portuguesa, em vigor desde 1976, é a primeira da história a referir-se aos símbolos nacionais do país. Contudo, apenas menciona como tais o hino e a bandeira, ignorando o brasão de armas, apesar do uso constante deste, como principal símbolo de Portugal, desde há muitos séculos. As armas também não estão sequer expressamente definidas como símbolo nacional através de mera legislação ordinária ou qualquer outra disposição legal, em contraste com o que acontece por exemplo com o sobreiro, instituído como árvore nacional de Portugal por resolução parlamentar. Apesar disso, o Código Penal protege especificamente as "as armas ou emblemas da soberania portuguesa", punindo com pena de prisão ou multa quem publicamente os ultrajar ou faltar ao respeito que lhes é devido."Artigo 11.º - (Símbolos nacionais e língua oficial)", Constituição da República Portuguesa"Resolução da Assembleia da República n.º 15/2012, de 10 de fevereiro Institui o sobreiro como árvore nacional de Portugal", Diário da República, 2012"Artigo 332.º - Ultraje de símbolos nacionais e regionais", Código Penal, 1995
Origem do atual modelo de armas de Portugal Após a implantação do regime republicano em Portugal a 5 de outubro de 1910, o Governo Provisório da República nomeou, a 15 de outubro do mesmo ano, uma comissão para apresentar o projeto para uma nova bandeira nacional, da qual fazia parte o pintor Columbano Bordalo Pinheiro, que se encarregou do seu desenho. A comissão apresentou não só um modelo de bandeira nacional, mas também os modelos de outros símbolos visuais tais como as bandeiras regimentais para as unidades militares, o jaque para os navios de guerra e o emblema oficial (ou seja o brasão de armas) a usar pelos diferentes departamentos governamentais. Os modelos propostos foram aprovados pelo Governo Provisório a 29 de novembro, sendo a nova bandeira nacional — contendo as novas armas nacionais — apresentada ao público no 1º de dezembro, dia que havia sido estabelecido como o da Festa da Bandeira. Depois de muita polémica e acesos debates sobre os modelos escolhidos, os mesmos vieram a ser aprovados formalmente pelo Decreto da Assembleia Nacional Constituinte de 19 de junho de 1911, sendo os seus detalhes especificados pelo parecer da comissão da nova bandeira nacional publicado no Diário do Governo n.º 150 de 30 de junho daquele ano.
Foram estabelecidas três versões de armas, cada qual para um uso específico. Todas as três incluíam, como elemento central, o escudo tradicional de Portugal assente sobre uma esfera armilar de ouro. Recentemente, estas três versões têm aparecido ocasionalmente referidas como sendo, respetivamente, as "armas menores", as "armas militares" e as "armas maiores" de Portugal. No entanto, além de não ser oficial, esta classificação não é normalmente aceite no seio da ciência heráldica portuguesa.
A versão básica das armas consiste apenas no escudo assente sobre a esfera armilar, destinando-se originalmente a ser usada como emblema central da bandeira e jaque nacionais. A partir de 23 de setembro de 1911, passou a constar também nos novos modelos de bandeiras para uso da Marinha como distintivos pessoais do Presidente da República, dos ministros e de outras entidades do Estado. Acabou também por ter um uso generalizado em diversos outros contextos, empregue como alternativa à versão das armas com os ramos de louro.Decreto de 23 de setembro de 1911 (Substituindo o título V da Ordenança Geral da Armada)
A segunda versão consiste no escudo assente sobre a esfera armilar, sendo esta rodeada por dois ramos de louro, atados na sua base por um laço branco onde estava inscrito o verso camoniano retirado d'Os Lusíadas: "Esta é a ditosa Pátria minha amada". Esta versão destinava-se a ser usada nas bandeiras regimentais (atualmente designadas "estandartes nacionais") das unidades militares.
Finalmente, a terceira versão era muito semelhante à segunda, mas o laço não incluía qualquer inscrição. Apesar de não ter sido assim expressamente definido, nesta versão, o laço passou a ser usualmente representado nas cores verde e vermelha. Também em algumas variantes, os ramos aparecem representados a verde e não a ouro como definido oficialmente. Esta versão destinava-se a ser usada em selos, moedas e outros emblemas oficiais.
Descrição heráldica e significado Heraldicamente, as armas de Portugal podem ser descritas do seguinte modo: «escudo de prata, com cinco quinas (escudetes de azul, cada qual com cinco besantes de prata postos em sautor) postas em cruz, bordadura de vermelho carregada de sete castelos de ouro; o escudo sobreposto a uma esfera armilar de ouro, rodeada por dois ramos de loureiro do mesmo, atados por um laço»
right|250px|thumb|Conde D. Henrique e sua mulher D. Teresa, ostentando as primeiras armas de Portugal. Iluminura da Genealogia dos Reis de Portugal, século XVI. A tradição indica que as primeiras armas usadas por D. Afonso Henriques seriam as herdadas de seu pai, o conde D. Henrique, descritas como «um escudo de prata, com uma cruz de azul». Os cinco escudetes e besantes teriam supostamente surgido numa fase posterior do reinado de D. Afonso Henriques, ainda que só existam evidências históricas da sua existência a partir do reinado de seu filho, o rei D. Sancho I.
A origem e o significado original das cinco quinas como armas de Portugal têm vindo a ser explicados por várias teorias, mas nenhuma das quais definitivamente comprovada. Não foi ainda descoberto qualquer esclarecimento contemporâneo da própria época em que as armas terão surgido, sendo que só cerca de 200 anos depois é que surge a teoria mais antiga hoje conhecida, apresentada por D. Pedro Afonso, conde de Barcelos e filho natural do rei D. Dinis.
A mais antiga e tradicional explicação é portanto da autoria de D. Pedro Afonso, o qual, na sua Crónica Geral de Espanha de 1344 - e referindo-se à grande vitória de D. Afonso Henriques contra as tropas de cinco reis mouros, na batalha de Ourique em 1139 — escreve: «E, depois que os reis foram vencidos, como dissemos, o rei Dom Afonso de Portugal, por memória daquele bom acontecimento que Deus lhe dera, pôs no seu pendão cinco escudos por aqueles cinco reis, e pô-los em cruz em lembrança da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E pôs em cada escudo trinta dinheiros por memória daqueles trinta dinheiros por que Judas vendeu Jesus Cristo».CINTRA, Luís Filipe Lindley, Crónica Geral de Espanha, 2ª Edição crítica, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1993
Ao longo dos séculos, foram surgindo diversas adições e variantes à explicação dada por D. Pedro Afonso. Assim, alguns autores acrescentam que a indicação do sinal que D. Afonso Henriques deveria usar para alcançar a vitória teria sido dada pelo próprio Jesus Cristo, que lhe teria aparecido antes da batalha de Ourique. Em outras versões da história, quem teria aparecido antes da batalha e indicado os cinco escudetes azuis com besantes de prata, seria o Anjo de Portugal, o arcanjo São Miguel ou o apóstolo Santiago. Os cinco escudetes aparecem também alternativamente explicados - incluindo por Luís de Camões em Os Lusíadas - como representando as cinco chagas de Cristo e não os cinco reis mouros.CAMÕES, Luís Vaz de, "Canto III, estrofes 53 e 54", Os Lusíadas
thumb|left|250px|Aparecimento de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques, apresentando-lhe os cinco escudetes. Pintura de António José Pereira, final do século XIX
Sobre a origem dos besantes, alguns autores - ainda que mantendo a explicação, dada por D. Pedro Afonso, dos mesmos representarem as trinta moedas de prata da traição de Judas - indicaram contudo que os besantes teriam sido sempre cinco em cada escudete, justificando que a totalidade das moedas se obteria contando-se duas vezes os besantes do escudete central por forma a totalizar 30 e não 25.CAMÕES, Luís Vaz de, "Canto III, estrofes 53 e 54", Os Lusíadas Ocasionalmente, os cinco besantes em cada escudete aparecem também associados às chagas de Cristo, com a sua disposição em sautor representando uma chaga em cada mão, uma em cada pé e outra no coração. Estas explicações, bem como outras teorias formuladas por autores mais modernos, focam-se na análise do número de besantes nas diversas representações do escudo, partindo do princípio que aquele número foi sempre fixo e sugerindo várias explicações para o mesmo. Contudo, sabe-se - pela numismática e sigilografia régia - que o número de besantes mudou bastante ao longo das primeiras dinastias, só se fixando em cinco por escudete no final do século XIV. Logo, havendo um significado heráldico original para os besantes, o mesmo não poderia ter em conta o seu número. Como tal, surgiram também teorias explicativas dos besantes para as quais o seu número era irrelevante. Uma, bastante divulgada, indica que os besantes seriam a constatação heráldica do direito que assistia ao monarca de cunhar moeda própria, representando assim a prova da soberania obtida por Portugal face ao Reino de Leão.RIBEIRO, Clóvis, "I - As bandeiras dos nossos antepassados", Brazões e Bandeiras do Brasil, São Paulo: São Paulo Editora, Lda., 1933
No final do século XIX, viria a surgir uma teoria que defendia uma origem muito prosaica, tanto para os escudetes como para os seus besantes, a qual explicava ainda como se teriam originado estes a partir da suposta cruz azul inicial. Com bastante aceitação entre os heraldistas, esta teoria indica que o escudo físico de D. Afonso Henriques reproduziria a heráldica do seu alegado brasão original (de prata, com uma cruz de azul), contendo assim uma cruz formada com duas tiras de couro cruzadas, pintadas de azul e fixas, ao fundo branco ou prateado do escudo, por cinco grupos de pregos. Devido aos golpes sofridos em combate, a maior parte das tiras de couro que formavam a cruz teria sido arrancada, delas restando apenas os pedaços mais firmemente presos junto aos cinco grupos de pregos. Os escudetes teriam assim origem nos cinco pedaços restantes da cruz azul e os besantes nas cabeças dos pregos que os fixavam ao fundo do escudo.