O construtivismo é uma tese epistemológica que ressalta o papel ativo do indivíduo na elaboração e transformação de suas representações sobre o objeto do conhecimento. Essa abordagem refuta o objetivismo de base empirista, que concebe o conhecimento como um reflexo passivo da realidade no sujeito, e adota a ideia kantiana de construção, segundo a qual o sujeito organiza ativamente suas percepções e formulações sobre o mundo.
Está relacionado a diferentes tradições, como o construtivismo de Jean Piaget, que destaca a interação entre sujeito e objeto no desenvolvimento cognitivo, e o socioconstrutivismo de Lev Vygotsky, que enfatiza a influência da mediação social no processo de aprendizado. Outras vertentes, como o construtivismo lógico e o radical, apresentam enfoques particulares na lógica e na epistemologia.
Histórico
A ideia ontremos referências ao suposto caráter precurde que o sujeito é ativo na construção de suas hipóteses, acerca do objeto do conhecimento, tem uma longa tradição filosófica. Não é raro que encsor da filosofia de Sócrates em relação ao construtivismo, particularmente à maiêutica.MAHONEY, M. (2004). What is constructivism and why is it growing? Contemporary Psychology, 49, 360-363.
Mesmo a teoria platônica da hipótese superior (podemos procurar o que não conhecemos se procurarmos por uma hipótese do que isso é), apresentada pela primeira vez no Menon, as vezes é defendidaCASTAÑON, G. (2007). Construtivismo, Inatismo e Realismo: compatíveis e complementares. Ciências & Cognição, v. 10, p. 115-131. como uma precursora da abordagem. No campo da psicoterapia construtivista se cita Epicteto e sua peculiar versão do Estoicismo ("Não são as coisas mesmas que nos afetam, mas a interpretação que fazemos delas") como um outro precursor.
A primeira versão de construtivismo talvez pudesse ser atribuída a Giambattista Vico,VON GLASERSFELD, E. (1984). An Introduction to Radical Constructivism. In P. Watzlawick (Ed.), The invented reality: contributions to constructivism (pp. 18-40). New York: Norton. filósofo italiano que viveu entre o século XVII e XVIII. Ele a expôs em sua obra magna Principj di Scienza Nuova, onde defende que as únicas ciências que poderiam alcançar a verdade diretamente eram as ciências humanas, porque versavam sobre objetos que foram construídos pelo ser humano. Nós só seríamos capazes de conhecer o objeto que foi por nós construído, porque sabemos tudo o que colocamos nele: é o que quer dizer seu aforisma Verum esse ipsum factum ("A verdade é precisamente o que é feito").
No entanto, o sentido atual do termo construtivismo centrado na criação ativa pelo sujeito das representações do objeto do conhecimento é fruto da obra de Immanuel Kant e sua "revolução copernicana". O termo 'construtivismo' só surge em 1967 na obra de Jean Piaget.PIAGET, J. (1967). Logique et connaissance scientifique. Encyclopédie de la pléiade ; n 23. Paris: Gallimard.
Kant A inversão kantiana do sentido da relação entre sujeito e objeto é usualmenteBOGHOSSIAN, P. (2006). Fear of Knowledge: against relativism and constructivism. Oxford: Oxford University Press.BROUWER, (1983). Intuitionism and formalism. In: Benacerraf, P. & Putnam, H. (eds.) Philosophy of mathematics: selected readings. (pp. 52-76). Cambridge: Cambridge University Press.HACKING, I. (1999). The Social Construction of What? Cambridge: Harvard University Press.PHILLIPS, D. (1995). The good, the bad and the ugly: the many faces of constructivism. Educacional Researcher: Vol. 4, No. 7, pp 5-13.RYCHLAK, J. (1999). Social Construcionism, postmodernism, and the computer model: Searching for humam agency in the right places. Journal of Mind and Behavior. Fal, vol 20(4): 379-389. ROCKMORE, T. (2005). On Constructivist Epistemology. New York: Rowman & Littlefield Publishers. considerada a raiz do construtivismo contemporâneo. Tradicionalmente, a filosofia ocidental pensava o conhecimento como uma determinação do sujeito cognoscente pelo objeto conhecido. Kant apresenta o processo de conhecimento como a organização ativa por parte do sujeito do material disperso e fragmentário que nos é fornecido pelos sentidos, impondo a este as formas da sensibilidade e as categorias do entendimento. Nossa mente tem uma estrutura dada, que enquadra os dados da experiência em suas formas e categorias a priori. Ou seja, para Kant, o sujeito é proativo, constrói suas representações dos objetos, e não recebe passivamente impressões causadas por esses.
Até Kant se tentava explicar o conhecimento supondo que era o objeto que determinava, num sujeito passivo, uma representação de si. Kant inverteu estes papéis, afirmando que é o sujeito que constrói uma representação do objeto com base nos sinais derivados dos órgãos dos sentidos, e faz isso adaptando essa representação às formas a priori de sua sensibilidade.
Podemos indicar ainda dois sentidos nos quais o termo ‘construção’ é usado em relação à filosofia kantiana. O primeiro, mais básico e original, é o que ocorre em nossas intuições empíricas e, por exemplo, nos é lembrado por Longuenesse,LONGUENESSE, B. (1998). Kant and the Capacity to Judge: Sensibility and Discursivity in the Transcendental Analytic of the "Critique of Pure Reason". Princeton: Princeton University Press. que indica que nossas representações dos objetos empíricos são construídos de forma automática, pelas estruturas inatas de nossa mente. Boghossian chama este modelo construtivista de cookie-cutter, pois a mente recortaria o material caótico dos sentidos impondo-o limites de acordo com suas formas inatas.
O segundo, mais geral e superficial, indica o processo voluntário de construção de hipóteses sobre a natureza para posterior teste experimental de sua validade. Novamente Longuenesse afirma que para Kant os conceitos empíricos são dados a posteriori, pois construídos a partir de representações singulares.
Piaget Jean Piaget foi aquele que introduziu o termo ‘construtivismo’ no século XX, em sua obra Logique et connaissance scientifique, de 1967. Sua Epistemologia GenéticaPIAGET, J. (1975). Epistemologia Genética. São Paulo: Abril Cultural. é essencialmente uma tentativa de resposta à questão da origem do conhecimento através da investigação, em parte empírica, do da gênese e desenvolvimento das estruturas cognitivas do sujeito.
Ao desenvolver sua teoria da epistemologia genética, buscou encontrar as relações entre o biológico, o psicológico e o epistemológico. Piaget trata detalhadamente em suas obras, do que ele acredita ser a continuidade entre o biológico e o intelectual, a partir de dois tipos distintos de fatores hereditários para o ser humano. No entanto, Piaget não fala de uma continuidade linear (Piaget (1967/ 1973a, 1936/1975c).
Através do método clinico, Piaget buscou conhecer o desenvolvimento das formas de interação do sujeito com a realidade (Delval, 2000), e a construção delas decorrente. Piaget, reconhecendo sua obra como tributária de Kant,PIAGET, J. (1973). Psicologia e Epistemologia: por uma teoria do conhecimento. Rio de Janeiro: Forense. apresenta o construtivismo como alternativa ao empirismo e ao racionalismo, respostas tradicionais ao problema da origem. Como um amplo princípio, o construtivismo pressupõe que o conhecimento é construído ativamente pelo aluno via interação com os objetos de acordo com algumas interpretações do trabalho de Piaget através de interação social (Vygostsky, 1988).
Abordagens construtivistas
Construtivismo piagetiano Para o empirismo a origem do conhecimento estaria nos sentidos, e em última análise, no mundo; o objeto real “imporia” suas formas a uma mente encarada como um receptáculo passivo (posição que é portanto objetivista). Para o racionalismo, o conhecimento é inato e sua evolução seria apenas atualização de estruturas pré-formadas. Já o construtivismo exige uma interação necessária entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. É o sujeito ativo que, na ação, constrói suas representações de mundo interagindo com o objeto. A diferença principal do construtivismo piagetiano para o kantiano é que, para Piaget, além das representações dos objetos, nós construímos também as próprias estruturas cognitivas através das quais posteriormente construiremos as representações dos objetos.
Para Piaget o sujeito humano é um projeto a ser construído; o objeto é, também, um projeto a ser construído. Sujeito e objeto não têm existência prévia, a priori: eles se constituem mutuamente, na interação. Eles se constroem. O sujeito age sobre o objeto, assimilando-o: essa ação assimiladora transforma o objeto. O objeto, ao ser assimilado, resiste aos instrumentos de assimilação de que o sujeito dispõe no momento. Por isso, o sujeito reage refazendo esses instrumentos ou construindo novos instrumentos, mais poderosos, com os quais se torna capaz de assimilar, isto é, de transformar objetos cada vez mais complexos. Essas transformações dos instrumentos de assimilação constituem a ação acomodadora. Conhecer é transformar o objeto e transformar a si mesmo. (O processo educacional que nada transforma está negando a si mesmo.) O conhecimento não nasce com o indivíduo, nem é dado pelo meio social. O sujeito constrói seu conhecimento na interação com o meio tanto físico como social. Essa construção depende, portanto, das condições do sujeito - indivíduo sadio, bem-alimentado, sem deficiências neurológicas etc. - e das condições do meio - na favela é extremamente mais difícil construir conhecimentos, e progredir nessas construções, do que nas classes média e alta.
Dois dos conceitos piagetianos mais importantes para compreender seu modelo de desenvolvimento são os de assimilação e acomodação. Quando uma criança ou qualquer pessoa tem uma experiência, ela primeiramente tenta a assimilar em seus esquemas existentes. No entanto, se essa experiência resiste ao enquadramento e desmente suas expectativas, modifica-se o esquema anterior para que ele se acomode a experiência. Aqui vemos que Piaget é claramente um realista, como em declarações explícitas “o universo constitui-se num todo de objetos permanentes, ligados por relações causais independentes do sujeito e situados num espaço e tempo objetivos”,PIAGET, J. (1979). A Construção do Real na Criança. Rio de Janeiro: Zahar Editores. (página 327) ou “se encontrará nestas páginas a exposição de uma epistemologia que [...] se apoia também no objeto sem deixar de considerá-lo como um limite (existente, portanto, independente de nós)”PIAGET, J. (1975). Epistemologia Genética. São Paulo: Abril Cultural. (página 131) (PIAGET, 1975, p. 131).
Quatro estágios nos quais os sujeitos evoluírem, de um estado de total desconhecimento do mundo que o cerca até o desenvolvimento da capacidade de conhecer o que ultrapassa os limitesdo que está a sua volta.
Estágio 1 se refere ao nascimento até aproxidamente os dois anos de idade, no caso, a criança se encontra no estágio de sensóriomotor.
Estágio 2; estágio pré-operatório, calcado na constituição ainda incipiente de uma estrutura operatória, e permanece nele até completarmais ou menos 7 - 8 anos.
Estágio 3; operatório concreto com início no final do segundo estágio e calcado nacapacidade de coordenar ações bem ordenadasem “sistemas de conjunto ou ‘estruturas’,
suscetíveis de se fecharem” enquanto tais, ele tem duração, em média, até os 11 - 12 anos.
Estágio 4; operatório formal, que se inicia ao final do terceiro e no qual o ser humanopermanece por toda a vida adulta, atingindo um estado de equilíbrio próprio.
(Rev Bras Crescimento Desenvolvimento Hum. 2010, pag 363).
Construtivismo radical