A cultura afro-americana ou afro-estadunidense refere-se às contribuições culturais de afro-americanos para a cultura dos Estados Unidos, seja como parte distinta ou dominante da cultura estadunidense. A identidade distinta da cultura afro-americana está baseada em preceitos históricos do povo afro-americano, incluindo o tráfico de escravos para o Atlântico. A cultura, apesar de suas divisões, tem enorme influencia na população estadunidense.

A cultura afro-americana foi, de modo essencial, enraizada na África Ocidental e na África Central, fazendo com que a maioria dos afro-americanos tivessem ascendência iorubá. Compreender a identidade afro-americana é, em termos antropológicos, conscientizar-se das origens como uma grande mistura das Áfricas. Embora a escravidão tenha restringido a capacidade dos afro-americanos de praticarem suas tradições culturais, muitas práticas, valores e crenças, no entanto, sobreviveram ao longo tempo. Algumas se alteraram ou se misturaram com a tradição europeia. A identidade afro-americana foi estabelecida durante todo o período escravista, produzindo uma cultura dinâmica que continua a impactar profundamente a América e todo o mundo.

Os rituais e cerimônias elaboradas constituíram uma parte significativa da cultura ancestral afro-americana. Sociedades da África Ocidental tradicionalmente acreditavam na existência de espíritos que habitavam a natureza em que viviam. A partir deste pensamento, envolviam-se de modo cuidadoso com o ambiente. Acreditavam, também, que existia uma fonte da vida espiritual após a morte, e que os ancestrais operavam entre o criador supremo e os vivos.Clayborn Carson, Emma J. Lapsansky-Werner, and Gary B. Nash, The Struggle for Freedom: A History of African Americans, Vol 1 to 1877 ( Prentice Hall, 2012) p.18

No início do século XVIII, o cristianismo começou a se espalhar pelo norte da África. A transfiguração religiosa começou a influenciar as práticas espirituais tradicionais do continente africano. Os africanos escravizados trouxeram essa dinâmica religiosa para a América. A fusão de crenças tradicionais com o cristianismo deu espaço a um lugar comum para a prática de religiões afro-americanas.

Após a emancipação negra, tradições afro-americanas continuaram a florescer nos campos da música, arte, literatura, religião, gastronomia e outros campos. Sociólogos do século XX, como Gunnar Myrdal, acreditavam que os afro-americanos perderam grande parte de seus laços culturais com a África. No entanto, pesquisas de nível antropológico, como as de Melville Jean Herskovits, demonstrou que o laço cultural permaneceu mesmo após a ocorrência da diáspora africana.

Durante muitos anos, a cultura afro-americana desenvolveu-se separadamente da cultura europeia-americana, por questões ligadas à escravidão e à persistência discriminatória da América. Nos dias atuais, a cultura afro-americana é parte substancial da cultura americana e, no entanto, continua a ser distinta à cultura local.

História da cultura afro-americana Desde os início da escravidão nos Estados Unidos no século XVII, os proprietários de escravos procuraram exercer controle sobre seus escravos e tentaram tirá-los de suas raízes culturais africanas. O isolamento e a marginalização social dos escravos facilitaram a retenção de elementos significativos para a formação da cultura tradicional entre os africanos no Novo Mundo e nos Estados Unidos. Os donos de escravos tentaram reprimir organizações políticas ou culturais, com a intenção de lidar com as rebeliões ou atos de resistência que ocorriam nos Estados Unidos, Brasil, Haiti e Guiana Holandesa.Price, Richard (1996). Maroon Societies: Rebel Slave Communities in the Americas. Anchor Books. pp. 1-33.

As culturas africanas, a escravidão, as rebeliões de escravos e o movimento pela existência de direitos civis moldaram a religião, a família, a política e a economia dos afro-americanos. Além disso, a impressão africana é evidente em todo o mundo, por meio da política, economia, linguagem, música, estilos de cabelo, moda, dança, religião e culinária. Por sua vez, a cultura afro-americana teve um impacto exorbitante em termos de transformação na cultura americana. Ao longo do tempo, a cultura dos escravos africanos e seus descendentes têm sido onipresente na cultura americana e mundial.Geneviève Fabre, Robert G. O'Meally (1994). History and Memory in African-American Culture. Oxford University Press. pp. 12-208.

Tradição oral Os proprietários de escravos limitaram a educação de escravos afro-americanos, pois temiam que o ensino pudesse trazer questionamentos à escravatura presente e, de modo ostensivo, criar o desejo de emancipação. Nos Estados Unidos, a legislação que negou a educação formal de escravos contribuiu para a conservação da forte tradição oral característica de comunidades indígenas africanas. Baseadas na África, as tradições orais tornaram-se o principal meio de preservação histórica e cultural. Com as práticas de griots, indivíduos que se encarregavam do mantimento de informações e dados históricos, fez com que multas culturas africanas que não utilizavam a linguagem escrita fossem beneficiadas. Os elementos culturais foram repassados em nível hereditário. O folclore proporcionou aos afro-americanos a capacidade de inspirar, educar e reproduzir sua cultura aos demais.

Compadre Coelho e os contos heroicos do herói folclórico John Henry são exemplos de contos populares afro-americanos. As histórias do Tio Remus de Joel Chandler tornaram os contos afro-americanos mais populares em sociedade. Outras narrativas como Signifying Monkey, The Ballad of Shien e a lenda de Stagger Lee compõem o aparato de contos afro-americanos.

O legado da tradição oral afro-americana manifestou-se de diversas formas. Os pregadores afro-americanos tendem a fazer uma apresentação ao invés de simplesmente falar. A emoção é realizada através do tom, volume e cadência do falante, refletindo no clímax do sermão. Na maioria das vezes, o sermão é acompanhado de dança, canções, pausas estruturadas. Chamada e resposta é outro elemento penetrante da tradição oral afro-americana. Em contraste com muitas culturas americanas e ocidentais, a reação da plateia é considerável. Este padrão de interação está presente na música, particularmente no jazz e no blues. A retórica hiperbólica e provocativa é característica de religiões afro-americanas, geralmente caracterizadas como discurso profético.Fabre and O'Meally, pp. 219-244.

A modernidade e a migração de comunidades negras para o Norte dos Estados Unidos pressionaram a retenção de práticas e tradições culturais negras. Os espaços urbanos suscitaram questões entre antropólogos e sociólogos no que se tange o risco de perder a cultura do Sul. O estudo sobre o medo de perder as raízes culturais é focado nas obras da escritora Zora Neale Hurston. Por meio de seus extensos estudos folclóricos, culturais, Hurston afirmou que as culturas sulistas não estavam morrendo. Em vez disso, afirmou a evolução, desenvolvimento e recriação da cultura afro-americana em diferentes regiões. As dezenas, palavras utilizadas em jogos, o signifying, prática verbal da cultura para a denotação de palavras, o trash-talk, comunicação de cunho intimidatório ou humorístico utilizada em eventos de esporte, a inversão semântica e o jogos de palavras, são características da tradição oral de afro-americanos. A arte oral é o exemplo mais direto de como a tradição oral afro-americana sofreu expansão na modernidade. Muitos artistas empregam as mesmas técnicas orais de pregadores afro-americanos, incluindo o movimento, o ritmo e a participação do público. O rap, a partir de 1980, foi visto como uma extensão da cultura oral.Michael L. Hecht, Ronald L. Jackson, Sidney A. Ribeau (2003). African American Communication: Exploring Identity and Culture? Routledge. pp. 3-245.

Renascimento do Harlem

thumb|upright|Zora Neale Hurston foi uma proeminente escritora literária durante o Renascimento do Harlem O primeiro grande reconhecimento publico da cultura afro-americana ocorreu durante o Renascimento do Harlem, com o filósofo Alain LeRoy Locke. Nos anos de 1920 e 1930, a música, a literatura e a arte afro-americanas ganharam notoriedade. Autores como Zora Neale Hurston, Nella Larsen, Langston Hughes, Claude McKay e Countee Cullen, escreveram obras descrevendo a experiência afro-americana. O jazz, o swing e o blues entraram na música popular americana. William H. Johnson e Palmer Hayden criaram obras de arte que retratavam a vida afro-americana.

O Renascimento de Harlem foi o maior envolvimento dos afro-americanos na política. Entre os notáveis movimentos políticos afro-americanos do século XX, estão o United Black Improvement Association e a Associação National de Apoio às Pessoas de Cor. Em 1930, o movimento The Nation of Islam, um notável movimento religioso de raízes islâmicas, foi iniciado.

Movimento cultural afro-americano O movimento negro Black Power, ocorrido entre 1960 e 1970, foi parte da sequência do movimento dos direitos civis. O movimento promovia orgulho racial e coesão étnica, em contraste com os demais movimentos, adotando uma postura militante em relação ao racismo. O Movimento das Artes Negras foi um expressivo movimento de renascimento literário e artístico de povos afro-americanos, ocorrido entre 1960 e 1970..

A consciência racial e política foi influenciada por artistas como Nina Simone, The Impressions, bem como a poesia, as artes plásticas e a literatura da época. Nikki Giovanni, Don L. Lee, Amiri Baraka e Sonia Sanchez foram escritores, editores e poetas proeminentes do Movimento das Artes Afro-americanas. Além deles, destacavam-se Ed Bullins, Dudley Randall, Mari Evans, June Jordan, Larry Neal e Ahmos Zu-Bolton.

Outro aspecto importante do Movimento das Artes Afro-americano foi a infusão da estética africana, o retorno do orgulho étnico e a evidência de sensibilidade cultural coletiva durante o Renascimento do Harlem, da corrente Negritude e do preceito black is beautiful. Durante esse período, ressurgiu-se o interesse por elementos africanos e afro-americanos que tinham sido suprimidos durante o eurocentrismo americano. Os penteados naturais, as roupas africanas, com o dashiki, abrangeram popularidade.

Música

thumb|Thelonious Monk no ano de 1947 thumb|Duke Ellington, no recebimento da Medalha Presidencial da Liberdade, ao lado de Richard Nixon A música afro-americana é enraizada pela polirritmia de grupos étnicos da África, especificamente do Sahel e da regiões subsaarianas. As tradições culturais desenvolvidas ao longo da história africana, influenciaram o processo de criação da música ao transmitirem mensagens importantes, histórias, educação e alívio do sofrimento pessoal. A musicalidade africana é caracterizada pela chamada e resposta, síncope, percussão, improvisação, balanceamento de notas, falsetto, melisma harmonia complexa. Durante a escravidão, africanos residentes da América combinaram hinos europeus tradicionais com elementos africanos para criar rituais espirituais.

Muitos afro-americanos cantam "Lift Every Voice and Sing", como um complemente ao hino nacional americano. Escrita por James Weldon Johnson para o aniversário de Abraham Lincoln, a música era, e continua a ser, uma maneira de expressão popular que reflete a luta dos negros, a fé e a esperança para o futuro. A canção foi adotara como Hino Nacional Negro pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor em 1919. Muitas crianças afro-americanas aprende a música e sua importância na escola, igreja ou por suas famílias. Geralmente, canta-se "Lift Every Voice and Sing" após ou ao invés de The Star-Spangled Banner, em eventos organizados por igrejas, escolas ou organizações afro-americanas.

Ministrel Show