Histórias da vida de S. Bento é um conjunto de treze afrescos pintados cerca de 1430-40 dos quais onze presumivelmente pelo pintor português do período gótico final João Gonçalves que se destinaram a decorar o Claustro das Laranjeiras (Chiostro degli Aranci) da Badia Fiorentina, mosteiro localizado no centro de Florença, onde ainda permanecem., in AA.VV., Estudos em homenagem ao Professor Doutor José Amadeu Coelho Dias, U.Porto Editorial, 2006, ISBN 9728932170, 9789728932176

O ciclo de afrescos do claustro da Badia incluiu treze cenas correspondentes a outros tantos episódios da vida de S. Bento que foi narrada por S. Gregório Magno, tendo um dos afrescos sido repintado. A área pintada corresponde apenas a metade do perímetro do claustro e os afrescos ilustram apenas parte da referida narrativa pelo que julga que o ciclo ficou incompleto. Nos outros lados do claustro há seis sinopias de outras tantas lunetas, havendo outras seis que estão nos depósitos da superintendência italiana para as artes. Os treze afrescos do ciclo são os seguintes:

O jovem Bento parte para RomaBento conserta milagrosamente o crivo da ama com orações Bento recebe o hábito monástico de Romano, que o auxilia em Subiaco; um anjo aparece a um padre que come a refeição de Páscoa e repreende-o Bento enrolou-se nu num arbusto para vencer a tentação Bento parte um copo envenenado Bento liberta um monge do diabo batendo-lhe com uma varaBento recupera milagrosamente uma foice caída um lago Bento envia Mauro a salvar Plácido que caíra no lago enquanto recolhia águaO padre Florêncio oferece um pão envenenado a São Bento, mas um corvo apanha-o e leva-o para longe Bento repele um demónio que impedia os monges de levantar uma pedra na construção da abadia de Monte CassinoBento ressuscita um jovem monge soterrado por uma parede que desabou durante a construção da Abadia Bento reconhece o escudeiro de Tótila disfarçado de rei que lhe foi enviado para o testarBento recebe o rei Tótila

O ciclo de afrescos com as "Storie di san Benedetto" estão nas paredes do andar superior do Claustro, nos lados norte e sul, tendo sido atribuidos tradicionalmente ao designado Mestre do Claustro das Laranjeiras, pintor situado entre Fra Angelico e Filippo Lippi, que se inspirou noutro ciclo anterior pintado na Sacristia da Basílica de San Miniato al Monte, também em Florença, da autoria de Spinello Aretino. Mas pesquisas posteriores encontraram documentado no livro de credores do mosteiro de 1436 a 1439 o nome do português João Gonçalves, um compatriota do então abade Gomez (Gomezio, em italiano).

Admite-se que a ida para Florença de João Gonçalves, que poderia ocupar o cargo de pintor da Corte, a expensas do rei D. Duarte teria sido uma forma deste retribuir os préstimos do abade Frei Gomes, que então estava à frente da Badia Fiorentina e fez uma viagem a Lisboa no final de 1435, o qual tinha conseguido obter várias mercês junto do Papa, esperando o rei a continuação desses préstimos. Como a gratidão do Rei se dirigia ao Abade e não à Badia, quando este, em finais de 1439, deixou o governo do mosteiro, D. Duarte terá mandado João Gonçalves regressar a Lisboa.Eduardo Nunes, Dom Frey Gomez, vol. I, Braga, 1963, p. 25., citado por António Matos Reis, op. cit.

Descrição O jovem Bento parte para Roma

História: Segundo os Dialogi de Gregório Magno, Bento era filho de uma família nobre de Nórcia que o enviou estudar em Roma acompanhado da sua ama. Mas ao chegar a Roma, vendo como muitos se submetiam ao vício, abandonou os estudos, renunciou à casa paterna e à sua herança e decidiu fazer-se monge.

Neste primeiro afresco, Bento despede-se da família, no momento em que parte para Roma. O pintor parece ainda inseguro com a bagagem técnica que ainda o condiciona e se revela na arquitectura irrealista da cidade e na paisagem de inspiração portuguesa sob influência nórdica. Os cavalos parecem um pouco rudimentares, não respeitando o rigor anatómico, mas o tratamento das figuras denota a assimilação das lições com Fra Angélico, especialmente no domínio das cores, e a personalidade do próprio artista que começa a revelar-se, especialmente na figura do jovem Bento que se volta, a despedir-se da família, vergado sob o peso dos livros.

Bento conserta milagrosamente o crivo da Ama com orações

História: Ao procurar um ermo, Bento e a Ama pararam num lugar chamado Enfide. Para preparar a refeição, a Ama pediu emprestado um crivo para limpar trigo, que descuidadamente caiu ao chão e por ser de barro se partiu em dois. Ao dar pelo infortúnio, pesarosa, a Ama desatou a chorar, e Bento com pena dela pôs-se a rezar. Concluída a oração, Bento achou o crivo consertado tão perfeitamente que não se via sequer o vestígio da fractura e com palavras amigas entregou-o à Ama. A admiração deste prodígio foi tal entre os habitantes do lugar que penduraram o crivo sobre a porta da igreja.

Este fresco tem duas cenas: na esquerda, Bento está a orar perante o crivo partido a a Ama entristecida em primeiro plano; no lado direito, os habitantes do lugar admiram o crivo suspenso sobre o portal da igreja. O enquadramento arquitectónico e perspéctico foi nitidamente influenciado por Fra Angélico, sendo evidente o domínio da luz, sendo de realçar, no alto, e em fundo uma cidade em que alguns edifícios sugerem as construções florentinas da época.

Nos frescos seguintes, João Gonçalves revela um crescente domínio da arte da perspectiva arquitectónica, mas os edifícios partilham o espaço com amplas paisagens que constituem uma das suas marcas de originalidade.

Bento recebe o hábito monástico de Romão que o auxilia em Subiaco; um anjo aparece a um padre que come a refeição de Páscoa e repreende-o

História: Bento retirou-se para uma pequena gruta onde viveu durante três anos, incógnito excepto para o monge Romão de um mosteiro não muito longínquo dirigido pelo abade Adeodato. Com piedosa intenção e avisado por um anjo, e sem que o abade soubesse, Romão levava a Bento, em dias combinados, uma parte do seu alimento. Porque a gruta ficava num penhasco de difícil acesso, o monge utilizava uma corda para fazer descer os mantimentos, onde tinha presa uma campainha para avisar o santo eremita, que ao ouvi-la vinha buscar os alimentos. Porém, ao demónio não lhe agradava a caridade de um e a sobrevivência do outro, e um dia, quando o cesto descia, atirou uma pedra e quebrou a campainha, mas nem por isso Romão deixou de ajudar Bento.

Neste afresco, dominado por rochas escarpadas de uma natureza humanizada, Gonçalves aplica habilmente múltiplas cambiantes de luz como poucos artistas florentinos da época e conta a história do retiro de S. Bento no ermo de Subiaco. No centro, ao alto, Bento recolhido na gruta recebe por uma cesta com uma campainha suspensa de uma corda a dádiva de alimentos do velho monge Romão, que o demónio, numa figura diminuta sobre o rochedo, procura impedir. No lado direito, Romão entrega a Bento o hábito de monge, e, no esquerdo, está a cena em que um padre é advertido pelo anjo, que constitui pictoricamente um dos momentos mais altos deste conjunto de afrescos. A naturalidade dos gestos serenos, os olhares que traduzem o diálogo entre o anjo que paira imponderável e o padre atingido pela visão, juntam-se a uma "natureza morta" invulgar, com pães, ovos e uma faca sobre a toalha branca a que as variações de luz conferem estudados efeitos de tonalidade e de sombra.Mario Chiarini, "Il maestro del Chiostro degli Aranci: Giovanni di Gonsalvo portoghese", em Proporzioni, 1963, p. 15, citado por António Matos Reis, op. cit.

Bento enrolou-se nu num arbusto para vencer a tentação O original deste afresco foi inteiramente destruído, desconhecendo-se como e por que razão, talvez em consequência do radicalismo da época de Savonarola, tendo sido substituído, do início do século XVI, por outro de concepção medíocre da responsabilidade de Agnolo Bronzino.

Bento parte um copo envenenado

História: Bento tornara-se conhecido pela sua vida exemplar, e quando morreu o abade do mosteiro próximo, os monges pediram-lhe insistentemente para que tomasse a direcção da comunidade. Bento acabou por ceder e depois empenhou-se em fazer cumprir o regulamento da vida monástica, de tal modo que alguns deles, descontentes, quiseram envenená-lo. Quando na ocasião lhe apresentaram o vinho para ser benzido, o copo partiu-se em fragmentos e a bebida envenenada derramou-se no solo. Bento compreendeu o que tinha acontecido e disse-lhe: “Irmãos, o Senhor Todo Poderoso se compadeça de vós. Porque fizestes isto?”

O quinto afresco representa o milagre do copo de vinho. A cena acontece num interior e a qualidade da execução testemunha a evolução do artista, numa síntese das lições da arte florentina e da herança da arte ibérica influenciada pelos nórdicos. A marca florentina nota-se nos gestos e atitudes das figuras e na arquitectura envolvente que se afasta do gótico e se aproxima das inovações do Renascimento. De salientar o vigor expressivo do conjunto, em contraste com o isolamento da figura de S. Bento, que de cabeça aureolada abençoa com a mão esquerda enquanto a outra repousa no manto cujas pregas se desdobram suavemente.

Entre os monges está um careca que sorri para o espectador tratando-se de possível auto-retrato do pintor, estando quase na vertical acima dele, de lado da cobertura feita de pequenas palas de mármore, as iniciais I.M..

Bento liberta um monge do diabo batendo-lhe com uma vara

História: Havia um monge num mosteiro que no fim do canto dos Salmos do ofício divino, saía logo para o exterior, no período em que os outros monges se dedicavam à meditação. Bento foi advertido pelo abade desse mosteiro e considerou que era o demónio que arrastava o monge para o exterior do templo. Para libertar o monge do diabo aplicou-lhe umas vergastadas e o demónio não voltou a desinquietar o monge.

O fresco representa a tentação de um jovem frade, que era arrastado pelo demónio para fora da igreja durante a missa. As construções que servem de cenário a esta história, relacionam-se com as pesquisas arquitectónicas na Florença da época, ainda que sem as justas proporções. Para além da anedótica figura do demónio, de salientar o conjunto de Bento a aplicar o castigo ao monge caído em tentação. os expressivos gestos da comunidade e a figura do jovem frade, este num nítido perfil e com uma pureza de movimentos que constitui uma das expressões mais felizes do conjunto de afrescos e bem assim da rate florentina daquele tempo.

Bento recupera milagrosamente uma foice caída um lago

História: Um ostrogodo pediu guarida no mosteiro e pela formação rudimentar, foram-lhe atribuídas tarefas humildes e, num dia em que se estava a desbravar um silvado, a foice soltou-se do cabo e caiu no fundo do lago, deixando-o muito amargurado. S. Bento, a quem o godo se lamentou, pegou no cabo, meteu-o na água e quando o retirou a foice vinha de novo nele montada.

Neste afresco é contado o milagre da recuperação da foice que um servo deixara cair no lago. A grandiosidade das figuras, que antecipa as de Antonello da Messina, não impede uma elevada expressividade dos representados. Muito próxima de Masaccio, a figura do servo que implora o socorro de Bento, impõe-se pela dinâmica e pela capacidade de transmitir emoções. De realçar a paisagem fluvial, entre os rochedos, a lembrar a arte nórdica a que não será estranha a influência de Van Eyck na Península Ibérica.

Bento envia Mauro a salvar Plácido que caíra no lago enquanto recolhia água